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DESENHO 3 Desenho colorido por pesquisadora no ENMNMML

1 O SURGIMENTO DA CSP-CONLUTAS NO CONTEXTO DA

3.3 TERCEIRA CONVERSA

Com a terceira mãe eu conversei num momento de muita ebulição, enquanto eu assumia tarefas no espaço de cuidado e recreação num dos Encontros onde fui realizar a pesquisa. Uma das crianças que estava no encontro era muito mais agitada que as demais, agressiva. Essa mãe estava com ele no horário que almoçamos. Ela estava junto com a mãe dele, que rapidamente almoçou e foi para as atividades, deixando o menino conosco. Durante o almoço, eu expliquei o que estava estudando um pouco mais profundamente, já que, ao entregar cada termo de uso de imagens no início da manhã, eu já havia explicado sucintamente o assunto.

Começamos a conversar e a primeira foi sobre a sua amiga que nos deixou no refeitório. Ela reclama porque a outra estava deixando as crianças sob seus cuidados todo o tempo. No dia anterior, havia saído e deixado o menino com ela no quarto do hotel, sem ao menos a consultar se ela podia, se queria ficar com o filho dela também. Eu havia passado toda a manhã com essa criança. Ele batia nas outras, escolheu uma das monitoras para bater, para puxar as roupas. Eu conversei com ele e depois com o organizador. Chegamos à conclusão que tínhamos que tirar a moça de perto dele, pois ela não estava conseguindo reagir. Reunimos os meninos da equipe e todos ficaram tentando fazer algo com ele, para que ele não a atacasse.

Eu admito o meu preconceito: eu achei que era uma criança muito mimada, mal- educada apenas. Mas, apesar do meu preconceito, eu fui buscar informações sobre esse menino. Saber da sua história mudou completamente a minha relação com ele. Por que ele destruía seus crachás? Por que ele batia nas crianças? Por que ele puxava a roupa de uma das monitoras? Eu não posso afirmar, com certeza, se “por isso” ou “quanto” o fato de ter sido retirado de um abrigo para crianças tenha a ver com isso. Sim, uma criança mimada. Filho de pais mais velhos que lhe fazem todas as vontades. Que nunca antes tinha tido nada seu e que tem a necessidade de dizer o tempo todo “porque eu tenho isso”, “meu pai me dá”, “minha mãe deixa”. Um comportamento irritante. Um espaço de tempo curto até para se aproximar um pouco mais…. Foi o caso de acolher, de contornar.

A amiga da mãe dele é que me conta. E se propõe a conversar comigo, contar sua história. A primeira parte da nossa conversa se perde. Falamos sobre nossas cidades. Onde você mora? Faz o que? Tive a sagacidade de perguntar algumas informações novamente depois, quando sentamos num lugar menos barulhento, pois essa primeira gravação se perdeu

por completo: a Juventude chegou para almoçar e cada coletivo carregava inúmeros tambores e alguns megafones. Sentadas na saída do restaurante universitário, no local onde reuniríamos as crianças para voltar ao espaço destinado a elas, eu conheço um pouco dessa mulher incrível. Ela está preocupada com as fotos, ela quer o meu contato, ela quer que eu as envie pelo whatsapp. Ela me pergunta se ele “deu trabalho”. Identifiquei-me com essa mulher em sua preocupação. É assim na minha família, com a minha mãe, comigo. A preocupação da sua criança ser mal-educada. Eu avisei que ele estava muito bem, era amigo de todos, estava cuidando das outras crianças menores. Ele se interessa: “Quem?”. Digo a ele que estamos falando dele e ele volta sua atenção para outra coisa. Eu estava ali para conversar também com ele, junto a mãe dele, caso ele quisesse. Ela pergunta se eu a adicionei e enfim consigo. Ela pergunta se está online, porque deixou o celular em casa, com seus três outros filhos. Mas não está. Ela não tem certeza de onde eles estão, imagina que na casa de uma tia, onde não terão acesso à internet. Ela provavelmente desejava as fotos, mas também queria tentar ter algum contato com os filhos que ficaram: “queria achar alguém para eu poder falar com eles. E pensar que só vou ver eles amanhã. É difícil.”. Eu pergunto se ela mora numa Ocupação, lá no interior de Minas Gerais. Ela me diz que não, que mora no

“Projeto Minha casa, Minha vida”. Só que é a “minha casa, minha dor de cabeça”. A gente paga menos, tudo bem. A gente não paga um salário, mas a gente paga. Sabe quanto veio o nosso IPTU? R$274,59. Nós não temos rede de esgoto, nós não temos asfalto, nós não temos escola, nós não tem creche, nós não tem nada.

Eu pergunto então como ela chegou até esse encontro, em que lugar ela milita, se milita em algum lugar. “Não, com o pessoal do sindicato, porque eu sou a mãe solidária à luta do sindicato, sobre os professores.” Talvez ela tenha compreendido que eu estivesse perguntando se ela era parte de algum partido ou sindicato. Pergunto se ela participa de assembleias:

Tudo em que eles estão, eu estou no meio. Tudo, tudo. Eu sou do apoio às escolas, igual aonde que meus meninos estudam, eu sou Amigo da escola. Ai, se os professores tiverem alguma coisa, igual eles tiveram greve no início do ano, eu estava com eles tentando reunir os pais dos alunos e nas greves para ver se o prefeito liberava mais depressa.

É fácil compreender que ela é uma mulher que milita quando ela diz que “aonde que se fala de luta, a gente está sempre ali tentando.” Professores grevistas e pais “amigos da Escola” juntos numa mesma organização era algo que eu realmente não estava conseguindo compreender! Digo que a maior parte dos sindicatos que conheço são contra o Programa Amigo da Escola e pergunto a ela então como se dá essa fusão:

O SINTRAM, ele é muito politicado, ele é muito do lado do prefeito. O SINTET, que é o sindicato que a gente está, é dos professores, é o sindicato dos professores. Que eles são contra aquelas burocracias, regras que eles arrumam. E eu fui, através

da vice-presidente da comunidade, eu sou presidente da minha comunidade. Aí tivemos um encontro no dia do Raça Negra, nós saímos na passeata na rua e o SINTET junto, tudo o que a gente ia fazer, o SINTET foi. No meu bairro, tomou o apoio por causa das dificuldades que a gente encontra no bairro, porque não temos rede de esgoto. Temos transporte para as crianças pequenas a prefeitura dá, mas os Estaduais a prefeitura não dá. Então a gente tem que correr atrás… E com isso a gente foi juntando, tentando suprir a dificuldade do outro, correndo atrás do que a gente queria e acabou ficando tudo junto.

A fusão com o sindicato mais à esquerda vai se dar na luta pela efetivação do direito à educação, inclusive a participação dos responsáveis nas reuniões escolares. Isso, por exemplo, tendo um ônibus que levava as crianças para a escola no qual não podiam ir junto ir às reuniões na escola, que são uma condicionalidade para receber o benefício do Bolsa Família, o que exigia uma caminhada de 2 horas.

Então, a gente tinha que ir a pé, qualquer reunião a gente tinha que ir a pé. Foi até a gente brigar, pedir o direito de usar o ônibus, porque a gente não tem nem o ônibus normal, o ônibus normal é 3,45 e diz que vai aumentar para R$ 4,00, isso é um absurdo! Sendo que eu pago R$ 140 de ônibus todo mês, para o meu menino estudar…. Aí, se for para R$ 4,00, como é que eu vou fazer para o meu menino ir para a escola? Sendo que a prefeitura não me ajuda nem com R$ 1!

Eu lhe pergunto pelos seus outros filhos. Ela fala deles com um brilho intenso nos olhos. E me narra uma relação de muito companheirismo, de diálogo permanente. “Eu os respeito e eles me respeitam”. Pergunto pelos pais dos seus filhos. Eles são filhos de um único pai, com quem ela se casou muito jovem. A história da sua relação é bem diferente das outras mulheres com quem conversei para realizar esse trabalho, mas uma história um tanto comum, que certamente ouvimos muitas vezes e talvez tenhamos visto em alguns filmes, sobretudo aqueles que mostram as questões das relações nas famílias do interior. Ela fala, sem revolta, talvez com alguma melancolia:

Me separei há treze anos. E tem dez anos que ele está na justiça. Ele falou assim: “eu vou melhorar a nossa vida”. E não voltou mais. Aí ele começou a vir assim: ele vinha duas vezes no mês, depois passou a vir uma vez no mês, depois de dois em dois meses. Aí eu virei e falei assim para ele: “daqui a pouco você vai vir uma vez por ano” e realmente ele começou a vir uma vez por ano. Depois sumiu.

O nosso ônibus chega e vou embora com os meninos, como ela diria. Não sentamos para conversar mais longamente. Eu almocei em outros lugares no refeitório, com outras mães. Eu resolvi pequenos problemas, enquanto ela almoçava. Eu paguei um sorvete para sua criança e um doce para ela. Tomamos um café. Passei-lhe todas as fotos e prometi ir a sua casa comer a sua famosa galinha com quiabo. Ainda não tive oportunidade, mas pretendo fazer isso em breve.