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Terceira etapa: a proposta de Brian Adams

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (páginas 84-87)

A referência principal para a terceira etapa da codificação é o conjunto de categorias desenvolvido por Brian Adams (2014) em seu artigo Reason-giving in deliberative forums. O autor parte da ideia de que os argumentos são construídos pelos cidadãos de forma a oferecer uma conclusão embasada em evidências e justificativas para outros sujeitos que não necessariamente partilhem de suas opiniões e visões de mundo. O autor usa a expressão “dar razão”:

Em resumo, dar razão pode ser entendido como um processo através do qual quem fala oferece uma conclusão fundamentada em evidências e justificativas. Ao declarar uma conclusão, oferecendo uma evidência para embasar a conclusão, e depois explicando como a evidência fundamenta a conclusão são as principais atividades de dar razão. Essa conceituação nos permite distinguir o ato de dar razão de outras formas de discurso e providenciar uma estrutura para, empiricamente, examinar como

58 Tarifa Zero BH. “Participação para quem?”, 20 out. 2015. Disponível em: <https://www.facebook.com/ tarifazerobh/photos/a.586404228088158.1073741829.582305668498014/996076403787603/?type=3&theater>. Acesso em: 20 out. 2015.

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cidadãos engajam em dar razão durante discussões políticas. (ADAMS, 2014, p. 6, tradução nossa)59

Com base na literatura acerca de movimentos sociais e mobilização na contemporaneidade já apresentada em outros momentos deste trabalho, compreendemos o movimento Tarifa Zero como a reunião de cidadãos que encontraram um ideal comum compartilhado para lutar. Com, com isso, eles se organizaram e mantiveram uma agenda permanente de encontros e atos mobilizadores. Ainda que possamos falar em um caráter inicialmente leigo de seus integrantes, o grupo tem uma forte característica de buscar sempre o conhecimento especializado sobre os assuntos que se relacionam com a mobilidade urbana.

Por esse motivo, a análise tem como referência a construção da argumentação desses cidadãos comuns. Como bem elucida Adams (2014), para fundamentar uma conclusão, os sujeitos precisam explicar como chegaram até ela e como pode ser colocada no centro desse movimento de “dar razão” a partir da evidência apresentada. É preciso haver, então, uma conexão clara entre a conclusão e a evidência ou, do contrário, todo o argumento poderá ser invalidado. E essa ligação precisa ser feita para garantir que outro o compreenda em sua totalidade, sem colocar em risco a troca de argumentos e um possível consenso que se almeje em torno de uma questão específica. Ainda assim, é preciso salientar que, para diversos autores da Democracia Deliberativa, a deliberação não é necessariamente o alcance de consenso e Adams (2014) deixa isso bem claro neste artigo que serve de inspiração para a nossa análise. Mesmo que não haja consenso, a deliberação ajuda, segundo o autor, a aumentar a tolerância entre sujeitos com pontos de vista extremamente distintos ou mesmo a auxiliar na troca de saberes, algo fundamental para elevar o conhecimento sobre determinada questão.

Trabalharemos, então, com três componentes essenciais para avaliar a construção dos argumentos: quem fala precisa oferecer uma conclusão, também a evidência para embasar o que diz e uma explicação compreensível de como a evidência apresentada leva à conclusão final. De acordo com a referência de Adams (2014), essa conclusão pode adquirir duas formas básicas: problemas que precisam de uma solução e propostas que possam solucionar o assunto ou, ao menos, gerar um encaminhamento que possa lançar uma nova luz ao problema.

Acreditamos que a abordagem teórico-metodológica desenvolvida por Adams (2014) nos dá suporte suficiente para decompor os argumentos como forma de analisar como

59 In sum, reason-giving can be understood as the process through which a speaker offers a conclusion supported by evidence and warrants. Stating a conclusion, providing evidence to support conclusions, and then explaining how the evidence supports the conclusion are the core activities of reason-giving. This conceptualization allows us to distinguish reason-giving from other forms of discourse and provides a framework to empirically examine how citizens engage in reason-giving during policy discussions.

eles são construídos nas diferentes arenas. O autor lança mão de um método que combina análise qualitativa e quantitativa para entender como os cidadãos deliberam acerca dos mais variados temas. Acreditamos que essa combinação também possa ser interessante para a pesquisa acerca do movimento Tarifa Zero porque não se limita a analisar apenas a ocorrência de determinadas categorias, mas também busca compreender o processo de desenvolvimento da justificação e correlações entre evidências e conclusões, especialmente a qualitativa.

A partir do período escolhido de mobilização do movimento Tarifa Zero, identificaremos em cada um dos ambientes os argumentos acionados. Com o recorte em mãos, analisaremos como cada um foi desenvolvido, isto é, como cada garantia se conectou à evidência e à conclusão durante o debate. É necessário frisar que a nossa proposta em si é concentrada nas construções individuais de cada sujeito, ainda que inseridos dentro de um debate mais amplo. Adams (2014) argumenta que, na investigação feita por ele, isso se dá por estar mais interessado no processo de construção do argumento em si do que na interação da deliberação.

Feita essa observação, é preciso salientar a importância da garantia para esta pesquisa. Nas palavras de Adams (2014, p. 16, tradução nossa), “as garantias são necessárias para desenvolver a lógica do argumento e entender como a falta delas pode minar a possibilidade de os demais ouvintes entenderem qual determinado ponto o sujeito está tentando levantar”60. O autor propõe dois tipos de conclusões, três tipos de evidências e quatro tipos de justificativas, como descrevemos no Quadro 3 abaixo:

60 Warrants are needed to develop the logic of an argument and how their absence can undermine the ability of listeners to understand the point a speaker is trying to make.

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Quadro 3 – Estrutura do argumento

CATEGORIA TIPO

EVIDÊNCIA Declaração factual

Declaração pessoal História Sem evidência CONCLUSÕES Propostas Definição do problema Sem conclusão GARANTIA Condicional Declaração de valor Analogia Metaproposta Sem garantia

Fonte: Elaboração pela autora.

Com base nessa divisão, o nosso objetivo é entender como os indivíduos, façam eles ou não parte do movimento Tarifa Zero, se engajam na discussão sobre os temas relacionados à mobilidade urbana. Não está no rol das nossas metas, neste momento, avaliar a qualidade da deliberação nas diferentes arenas ligadas ao grupo, mas como esses sujeitos são capazes, ainda que leigos do ponto de vista técnico muitas vezes, conseguem acionar razões plausíveis e compreensíveis para defender seus pontos de vista. Assim como conclui Adams (2014), o foco da nossa investigação, neste momento de análise da construção do argumento, é em uma parte específica do processo deliberativo, que é o momento de “dar razões” dentro do debate incentivado pelo Tarifa Zero. Pretendemos, dessa forma, investigar os modos de construção dos argumentos nas três arenas distintas já mencionadas: a) na mídia, b) no Facebook e c) nos debates face a face do grupo.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (páginas 84-87)