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Timidez Divina

No documento DECEPCIONADO COM DEUS (páginas 70-75)

Capítulo 14 Grandes Expectativas

Capítulo 15 Timidez Divina

O meu projeto é a primeira experiência científica em toda história a resolver de uma vez por todas a questão da existência de Deus. Do jeito como as coisas estão, podem existir sinais de sua existência, mas eles apontam para os dois lados e, assim sendo, são ambíguos e não provam coisa alguma. Por exemplo, as maravilhas do universo não convencem aqueles que estão mais familiarizados com tais maravilhas, os próprios cientistas. Quer isso testifique da ignorância dos cientistas, quer do sucesso de Deus em esconder-se, é algo sem tanta importância.

— Walker Percy, The Second Corning ("A Segunda Vinda")

SE CHEGOU a haver uma ocasião propícia para conduzir a experiência proposta no romance de Walker Percy, ela ocorreu enquanto Jesus andou pela

terra. Além de provar a existência de Deus, Jesus poderia ter solucionado de uma vez para sempre o problema da decepção com Deus. Ele teve uma magnífica oportunidade de calar os críticos para sempre.

Se, por exemplo, meu amigo Richard tivesse vivido nos dias de Jesus, poderia ter exigido diretamente dele provas a respeito do assunto. "Você diz que é o Filho de Deus? Tudo bem, então prove!" O que teria acontecido? Não precisamos especular, pois com freqüência Jesus foi desafiado de modo parecido. Quando os "experts" em religião imploraram a ele para que fizesse um sinal miraculoso, Jesus ficou irado com eles, chamando-os de "geração má e adúltera". Quando um rei muito curioso pediu para ver um milagre, Jesus recusou-se a cooperar, embora isso pudesse ter salvo a sua vida.

Por que Deus se refreia? Talvez possa-se encontrar uma pista na Tentação, o primeiro "acontecimento" do ministério de Jesus, uma espécie de exame final prestado logo antes de iniciar sua vida pública. Em certos aspectos me faz lembrar da crise de Richard naquela madrugada.

É difícil imaginar um confronto mais impressionante: Jesus contra o maior dos céticos, Satanás em pessoa, com a areia alva do deserto servindo de cenário. Satanás desejava alguma prova: "Se és Filho de Deus..." Ele desafiou Jesus a fazer pão com uma pedra, pediu para ver uma amostra dos poderes de autoproteção que Jesus possuía, e ofereceu-lhe a autoridade sobre todos os reinos do mundo.

Creio que o desafio de Satanás foi uma tentação de verdade para Jesus, não uma disputa ensaiada, pré-decidida. Um pão teria tentado qualquer um que tivesse jejuado durante quarenta dias. Uma garantia de segurança física certamente exer- cia atração sobre alguém que iria enfrentar a tortura e a execução. E o esplendor de todos os reinos da Terra — os profetas não haviam predito tudo isso para o Messias? Todas as três "tentações" estavam ao alcance de Jesus; todas as três eram, na verdade, prerrogativas suas. Na verdade, Satanás estava oferecendo a Jesus um atalho para alcançar seus objetivos messiânicos.

O romancista russo Fyodor Dostoyevsky fez da cena da Tentação um ponto central em sua obra-prima Os Irmãos Karamázov. Ivan Karamázov chama a Tentação de o mais estupendo milagre da terra: o milagre do restringir-se. Se ele tivesse cedido à Tentação, teria conquistado suas credenciais — não apenas junto a Satanás, mas junto a todo Israel, confirmando-se à humanidade além de qualquer dúvida. Segundo o ponto de vista de Dostoyevsky, Satanás ofereceu três meios fáceis de despertar a fé — milagre, mistério e autoridade — e Cristo recusou todos os três. Nas palavras de Ivan Karamázov, "Você não usaria milagres para escravizar o homem; você desejou que a fé do homem nascesse espontaneamente, não como fruto de milagres."

Enquanto eu lia o relato conciso de Mateus sobre a Tentação e então a reconstrução longa e elaborada de Dostoyévsky, uma pergunta surgiu de maneira abrupta, perturbadora. Qual é a diferença entre a tentação no deserto e aquela que teve lugar no pequeno apartamento de Richard? Ele também implorou por algum tipo de manifestação sobrenatural: uma luz, uma voz, alguma coisa que comprovasse o poder de Deus além de qualquer dúvida. Ou, para tornar a questão mais pessoal, como é que a Tentação é diferente de épocas quando eu imploro, quase exijo, que Deus intervenha e me salve de algum apuro?

Existem diferenças, é claro, e a minha autodefesa rapidamente as descreve. Supõe-se que Richard era sincero; eu estava necessitado; nós dois estávamos pedindo ajuda a Deus, não estávamos insultando-o nem exigindo adoração. E, assim mesmo, não consigo desfazer-me facilmente da semelhança marcante entre o "Atira-te abaixo" de Satanás e o "Revela-te!" de Richard. Em cada caso o desafio é o mesmo: uma exigência de que Deus tire a capa e se revele. Em cada caso, Deus não quis mostrar-se.

Há um outro exemplo da auto-restrição divina. Aconteceu em Jerusalém, num local bem próximo de onde Satanás fez o seu terceiro desafio. Do alto de uma colina Jesus olhou e clamou: "Jerusalém, Jerusalém! que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!" Aquele lamento de tristeza por Jerusalém é de uma qualidade quase que de timidez. Jesus, que podia destruir Jerusalém com uma palavra, que podia mandar descer legiões de anjos dos céus para forçar uma sujeição, em vez disso observa a cidade e chora.

Deus se segura; se esconde; chora. Por quê? Porque deseja o que o poder jamais consegue conquistar. Ele é um rei que não deseja a sujeição, mas o amor. Ao invés de esmagar Jerusalém, Roma e todas as outras potências mundiais, ele optou pelo caminho lento e difícil da Encarnação, amor e morte.

George MacDonald resumiu a abordagem de Cristo: "Em vez de esmigalhar o poder do mal com a força divina; em vez de impor a justiça e destruir os ímpios; em vez de pacificar a Terra mediante o governo de um príncipe perfeito; em vez de reunir as crianças de Jerusalém sob suas asas, quer elas quisessem ou não, e de salvá-las dos horrores que angustiavam sua alma profética — Ele deixou que o mal agisse à vontade enquanto existisse; Ele se satisfez com as formas lentas e desencorajadoras de ajudar apenas no essencial; tornando bons os homens; expulsando, e não simplesmente controlando, Satanás.... Amar a justiça é fazê-la crescer, não é vingá-la."

Os Milagres

Obviamente não contei a história toda sobre Jesus. Sim, a humanidade de Jesus representava uma espécie de disfarce, pelo menos em comparação com a glória de Deus no Antigo Testamento. Sim, ele demonstrou a autolimitação, recusando-se a impressionar espectadores com uma impetuosa manifestação de poder. Mas que dizer dos milagres que ele chegou a realizar, dos quais três dúzias estão relatados nos evangelhos? Ninguém que o viu fornecer almoço para cinco mil, ou ordenar a Lázaro que saísse do túmulo, ou amainar uma tempestade de verão poderia falar com facilidade de uma qualidade como "timidez divina".

Porém, Jesus, que, caso quisesse fazê-lo, presumivelmente teve poder para operar uma maravilha em qualquer dia de sua vida, demonstrou uma curiosa ambivalência diante dos milagres. Com seus discípulos, ele os empregou como uma prova de quem era ("Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras"). Mas, mesmo quando as realizava, parecia não atribuir muita importância a elas. Quando ressuscitou a filha de um judeu da alta sociedade, deu ordens expressas para manter silêncio sobre o ocorrido. Marcos registra sete ocasiões distintas quando Jesus disse a alguém que havia curado: "Não o digas a ninguém!"

Jesus sabia muito bem sobre o efeito superficial dos milagres nos dias de Moisés e nos de Elias: eles atraíam multidões, é verdade, mas raramente estimulavam uma fidelidade de longa duração. Ele estava trazendo uma dura mensagem de obediência e sacrifício, não um espetáculo à parte para pessoas ávi- das de sensacionalismo. Como era de esperar, os verdadeiros céticos de sua época (bastante parecidos com as pessoas de hoje em dia) deram uma explicação racionalista para seus poderes. Se a voz de Deus falava do céu, rejeitavam-na como sendo um trovão. Outros creditaram suas capacidades a Satanás ou a alguma outra fonte. E os inimigos mais ferrenhos de Jesus se recusaram a crer nele, mesmo quando diante de provas concretas. Certa ocasião, instalaram formalmente um tribunal para estudar uma suposta cura. Ignorando testemunhos de primeira mão — "Uma cousa sei: Eu era cego, e agora vejo" — despejaram insultos sobre o homem curado e atiraram-no tribunal afora. E, quando Lázaro se apresentou vivo depois de quatro dias num túmulo, quiseram providenciar logo uma segunda morte para ele.

Com uma uniformidade impressionante, os relatos bíblicos mostram que milagres — milagres notáveis, de parar o trânsito — simplesmente não fomentam uma fé profunda. Como prova disso, não precisamos procurar além dos três amigos mais chegados de Jesus, que foram os únicos a participar de um acontecimento conhecido como a Transfiguração, ocasião em que o rosto de Jesus brilhou como o Sol e suas roupas se tornaram ofuscantes, "sobremodo brancas,

como nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar". Para surpresa dos discí- pulos, dois gigantes da história judaica, mortos havia muito tempo — Moisés e Elias — apareceram numa nuvem com eles. Deus falou audivelmente. Foi demais para os discípulos; estes caíram ao chão aterrorizados.

Que efeito, porém, um acontecimento estupendo como esse teve em Pedro, Tiago e João? Silenciou definitivamente suas perguntas e os encheu com uma fé sólida? Umas poucas semanas depois, quando Jesus mais necessitou deles, todos o abandonaram. De algum modo o significado de quem Jesus era nunca foi na verdade completamente assimilado, se não depois de ele ter partido e então retornado.

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Tenho lido livros sobre sinais e milagres, livros que têm a pretensão de calar os céticos, como se os milagres de Jesus provassem que ele é a resposta para os problemas do mundo.

Mas devo confessar que a maioria desses argumentos me dão a impressão de serem irrelevantes para pessoas decepcionadas com Deus. Estão mais interessadas nos milagres que Jesus não realizou. Por que um Deus que possui o poder de endireitar o que está errado escolhe algumas vezes não fazê-lo? Ou, por que Jesus realizava somente alguns milagres? Por que curar somente um homem paralítico em Betesda?

Pode-se encontrar uma pista para tal pergunta numa descrição fantasiosa da vida de Jesus, a qual, por boas razões, nunca conseguiu entrar na Bíblia. O espúrio Evangelho da Infância de Jesus Cristo propõe-se a revelar histórias desconhecidas sobre a infância de Jesus. Mostra Jesus do jeito que alguém possa querer que ele fosse. Segundo esse antigo livro, onde as gotas de suor de Jesus caíam cresciam árvores balsamíferas; o local onde ficavam suas fraldas não pegava fogo. A pedidos Jesus realizava "brincadeiras" para impressionar os amigos — algo que o verdadeiro Jesus sempre se recusou a fazer. O Jesus apócrifo possuía o fascínio de um gênio-de-garrafa domesticado ou de um mágico de circo. Sempre que seu pai, José, cometia algum erro num importante serviço de carpintaria, Jesus intervinha e, num passe de mágica, consertava a falha.

Esse Jesus mítico também não receava utilizar seu poder para vingança. Quando uma vizinha feriu um dos amiguinhos de Jesus, ela misteriosamente caiu num poço e morreu com o crânio esmagado. Quando Jesus se aproximava de uma cidade, seus ídolos se desintegravam em montes de areia. Em contraste, o Jesus de verdade repreendeu os discípulos por sugerirem que clamasse por fogo do céu contra uma cidade pecaminosa. E, quando soldados vieram prendê-lo, empregou seu poder sobrenatural uma única vez — para curar a orelha decepada de um dos

que o prendiam.

Essas são as ações de um cabeça quente como Sansão, não as reações cuidadosas do Jesus histórico dos evangelhos, que empregou seus poderes com compaixão para satisfazer as necessidades humanas, não em brincadeiras para aparecer. Todas as vezes em que alguém lhe pedia diretamente, ele curava. Quando seus discípulos estavam ficando cada vez mais assustados numa tempestade no meio do lago, ele acalmou o vento. Quando a multidão que o ouvia ficou com fome, ele os alimentou, e, quando os convidados de um casamento ficaram com sede, ele fez vinho. Em resumo, os milagres nos evangelhos autênticos dizem respeito ao amor, não ao poder.

Embora os milagres de Jesus fossem por demais limitados para solucionar cada decepção humana, serviam como sinais proféticos de sua missão, ilustrando o que algum dia Deus faria em favor de toda a criação. Para as pessoas que os experimentaram — como é o caso do paralítico que foi abaixado tal qual um candelabro que vai ser limpo — as curas forneceram prova convincente de que o próprio Deus estava visitando o planeta Terra. Para todos os demais, despertaram anseios que não desaparecerão até que uma restauração final acabe com toda dor e morte.

Os milagres fizeram exatamente o que Jesus havia predito. Para aqueles que escolheram crer nele, deram ainda mais motivos para crer. Mas para aqueles decididos a negá-lo, os milagres fizeram pouquíssima diferença. Algumas coisas simplesmente têm de ser cridas para serem vistas.

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Referências bíblicas: Mateus 12, 16; Lucas 4; Mateus 23 e Lucas 13; João 14, 9; Marcos 9.

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No documento DECEPCIONADO COM DEUS (páginas 70-75)