• Nenhum resultado encontrado

FASE I – CARACTERIZAR O PROCESSO DE VIVER COM DOR CRÓNICA E O MODELO DE CUIDADOS EM USO NO ACOMPANHAMENTO DA PESSOA COM DOR CRÓNICA

3.3. ORGANIZAÇÃO DOS CUIDADOS À PESSOA COM DOR CRÓNICA

3.3.1. Os contextos dos cuidados

3.3.1.2. Tipo de serviços existentes

Os cuidados prestados à pessoa com dor crónica acontecem em contextos clínicos diversos, sendo influenciados pelo tipo de serviços existentes, quer ao nível dos cuidados de saúde diferenciados (nomeadamente nas UDC e Cuidados Paliativos – internamento) e dos CSP (CS, ECCI).

Como já foi referido, dada a elevada prevalência da dor crónica é referido que o seu tratamento é efetuado predominantemente ao nível dos cuidados de saúde primários (CSP). No entanto, foi salientado por alguns participantes que os profissionais da saúde

“estão muito mais despertos e sensíveis para o acompanhamento de outros grupos vulneráveis (…) as crianças (consulta de saúde infantil), a necessidade de vacinação, as consultas de vigilância da grávida, as consultas dos hipertensos e diabéticos” (I12) não

assumindo como foco de atenção a dor crónica. Um dos participantes refere que, na nova reorganização dos Centros de Saúde (CS), não existe nenhuma unidade ou equipa para trabalhar especificamente a área da dor, apesar de “ao nível das Equipas de

143

e têm dor crónica, não apenas dor oncológica ou doentes em cuidados paliativos, mas também com outras situações” (I13). De facto, se verificarmos as situações patológicas

que estão na base da necessidade de apoio para os cuidados continuados, percebemos que existem muitas condições de saúde que se apresentam com um potencial de causar dor. A questão é: porque não estão estes clientes identificados relativamente à

necessidade em cuidados relacionados com a sua dor crónica?

Ao nível dos Agrupamentos dos Centros de Saúde (ACES) “a equipa de Saúde familiar é

a responsável pelo utente e deve fazer a referenciação para a UCC” (I12). A título de

exemplo num ACES do Grande Porto é referido a existência de “projetos da UCC dirigidas

a idosos, ou pessoas com necessidades de reabilitação, e outro para a prevenção de quedas”. Tal como nos expressa uma das supervisoras de um ACES “estes projetos não são propriamente relacionados com a dor crónica” (I12). Contudo, de forma indireta

estes programas podem contribuir para a prevenção e controlo da dor.

Neste contexto, foi-nos também referido a existência de “projetos de enfermagem de

reabilitação (…) projetos para promover o envelhecimento ativo, o movimento, técnicas de distração, de grupos, que têm ajudado muito nesta área da dor crónica e assim melhorando a qualidade de vida dos utentes” (I12). De acordo com a participante, com

a utilização destas técnicas o utente ficará provavelmente com menor grau de dor, já que a dor está frequentemente presente na vida das pessoas, principalmente nos idosos. Outros projetos, como o “Idade Maior” e o “Mais Sorrisos” proporcionam “ocupação de

tempos livres, duas vezes por semana, em que as pessoas, idosas ou não, dependentes ou não (…) fazem passeios, fazem trabalhos manuais, estão ocupadas, conversam, o que melhora bastante a qualidade de vida das pessoas” (I12). Esta terapia ocupacional

parece funcionar como uma mais-valia quer no âmbito da prevenção de situações dolorosas, quer na promoção de hábitos de vida saudáveis, utilizando estratégias diversificadas que promovem a distração e simultaneamente a reabilitação. Estes projetos, mais de âmbito social poderiam ser complementados por atividades mais focalizadas na dor, sendo desta forma mais dirigidas às reais necessidades das pessoas. Tal como nos foi referido por um dos participantes, existem projetos direcionados para

“as doenças osteoarticulares e dor musculoesquelética, para além dos AVCs, do Reabilitar para bem respirar” (I13) entre outros. No seguimento destes projetos, os

enfermeiros deverão identificar as “pessoas que eles conhecem, porque estão lá sempre

a fazer medicação, e podem trabalhar a questão da dor e do autocontrolo da dor” (I13)

144

“têm conhecimentos acrescidos nesta área, em termos mesmo do relaxamento e

massagem, técnicas que podem ajudar muito na dor” (I13).

No contexto hospitalar, a pessoa pode ser referenciada para o setor ambulatório, para uma consulta de especialidade ou para uma consulta de dor crónica ou ainda para o serviço de internamento. Quando questionados sobre o acompanhamento da pessoa com dor crónica, os participantes salientaram a importância das UDC no contexto da instituição para a orientação destas situações. Trata-se de unidades especialmente concebidas para o tratamento mais diferenciado das situações de dor crónica, cujos objetivos e tipos de unidades já foram referenciados no contexto deste relatório. Os entrevistados referiram a organização dos cuidados relativamente à atividade desenvolvida ao nível hospitalar, que tal como nos refere um dos participantes é essencialmente “ambulatória, na consulta da dor e noutras consultas, nomeadamente

no doente institucionalizado, no atendimento da pessoa com dor crónica não controlada (oncológica ou não) com a possibilidade de ser referenciada para outras áreas” (I10).

No entanto, existe também a possibilidade de “atividade de apoio ao internamento

quando solicitados” (I10). Este seguimento é efetuado por parte da equipa médica e de

enfermagem da UDC, no caso especifico de uma das instituições, “existindo informação

da evolução do controlo da dor e posterior visita no internamento do profissional responsável pela mesma” (I11), noutras, o acompanhamento de enfermagem da UDC ao

internamento “é esporádico” (I7).

Existe ainda outra realidade, que embora pontual, é referida por um dos participantes e que importa realçar: o apoio domiciliário. De facto, numa das UDC “o apoio

domiciliário é realizado três dias por semana, um dos dias com o médico e enfermeira da UDC e do CS e dois dias só com a enfermeira. São referenciados para este apoio domiciliário os doentes acamados, ou com limitações que os impedem de aceder à UDC no contexto hospitalar (dificuldade na acessibilidade), assim como nas situações em que existam dificuldades familiares, nomeadamente famílias desestruturadas” (I14). Esta

situação reporta para o esporádico apoio domiciliário, sem estrutura de apoio efetiva no acompanhamento das pessoas com dor crónica. Esta iniciativa positiva reforça ainda o contacto com o enfermeiro de família, proporciona continuidade dos cuidados, e ajuda na identificação das necessidades da pessoa no seu próprio ambiente familiar.

Os cuidados paliativos existem em vários contextos diferentes, quer nos CSP, quer no contexto hospitalar (internamento). Neste tipo de cuidados além de todo o cuidado prestado à pessoa em fase final de vida, o controlo da dor e de outros sintomas é uma das prioridades. Tal como nos refere um dos entrevistados, os profissionais que

145 trabalham em cuidados paliativos “permitem finais de vida com dignidade e qualidade” (I15). Mesmo nas instituições onde existem serviços de cuidados paliativos (internamento) parece existir ainda a ideia de que “a medicina paliativa é uma medicina

menor (…) e só entregam o doente aos cuidados paliativos já numa fase em que até nem é cuidados paliativos, é um fim de vida”: Adianta ainda que “os doentes assim já nem usufruem daquilo que são realmente os cuidados paliativos” (I15), este aspeto leva-nos

para a necessidade de uma intervenção mais precoce, indo de encontro aos objetivos dos cuidados paliativos.

Ao contrário do desejável e suportado pela legislação, as ações neste âmbito da dor fora do contexto das UDC, revelam-se esporádicas, sem objetivos concretos e, deste modo, difíceis de operacionalizar em termos dos resultados.

Com a criação das UDC e consequente definição de espaços físicos especificamente destinados a atender pessoas com dor crónica, fez crer que os locais privilegiados para dar resposta às necessidades destas pessoas fossem aquelas unidades de saúde. Por isso, mesmo em contexto de CSP, tendo a noção que “o enfermeiro de família tem aqui uma

enorme responsabilidade na identificação destas situações de dor” (I13), os casos de

dor crónica não têm sido valorizados com a importância que tal situação requer, quer da parte dos profissionais, quer dos utentes. Também, parte significativa dos clientes parecem não considerar a dor que sentem “habitualmente tendem a desvalorizar (…)

porque trabalham no campo, acham que as dores são normais” (I13), não entendendo

como motivo para desencadear cuidados diferenciados de enfermagem, desvalorizando a sensação de dor numa fase inicial, “até ela se tornar insuportável”.