2 ESTILO, AUTORIA E GÊNERO DISCURSIVO NA CONSTRUÇÃO DA
4.1 A SUBJETIVIDADE E O ESTILO NAS CATEGORIAS FORMAIS
4.1.3 Tipos de Argumentos
Um dos problemas nas produções analisadas tem sido a falta de argumentação a favor de seu ponto de vista enunciado ou a argumentação contraditória, normalmente causada por uma tese não bem definida. Na sequência didática aplicada em sala antes da proposta de escrita do artigo de opinião, foram trabalhados, especialmente, cinco tipos de argumentos, a saber: de autoridade, por exemplificação, estatístico, científico e histórico, a fim de disponibilizar aos alunos mais uma ferramenta para dar consistência ao seus textos.
Embora muitos deles tenham feito a tentativa de usá-los, outros não conseguiram ainda casá-los com a tese de modo a constituí-los como força argumentativa. É o que acontece com o texto do Exemplo 5, como já vimos. Embora o aluno A2 já apresente uma propensão maior a argumentar, se comparado a sua produção da primeira fase, vista no Exemplo 6, ele acaba apenas expondo informações e exemplificações, sem atribuir valor argumentativo, uma vez que sua tese é apenas realmente delineada no último parágrafo.
O tipo argumentativo por exemplificação é o que aparece com mais frequência entre os textos, como podemos ver no exemplo da 2.ª fase do aluno B3:
EXEMPLO 15:
(Aluno B3 – Texto da 2.ª fase de coleta)
O Risco da Internet
Como qualquer coisa do mundo, a internet pode oferecer riscos se usada inadequadamente, mas se for usada de forma correta pode trazer inumeros
beneficios, como auxiliar a pessoa em pesquisas, mate-la informada de acontecimentos no mundo, interação social, etc.
A internet nos da um amplo espaço de pesquisa, nos permitindo comparar ideias facilmente sem precisar sair de casa... Nos permite ter ideias de acontecimentos de outro canto do mundo.
A exemplificação é introduzida, nesse caso, pelo termo “como”, enumerando os benefícios do uso da Internet e, assim, buscando sustentar a tese de que é possível ver a rede como uma boa ferramenta, apresentando ao leitor situações nas quais isso acontece. No segundo parágrafo, a exemplificação vem como maneira de explicar o porquê o autor a classifica como “espaço de pesquisa”.
Além desse tipo de argumentação, o aluno faz uma referência que, embora extremamente genérica, atribui um mínimo de historicidade ao artigo: “como qualquer coisa do mundo, a internet pode oferecer riscos se usada inadequadamente”. Isto é, remeter-se a outros elementos que proporcionariam os mesmos riscos leva o leitor a buscar na sua experiência uma comparação e provável confirmação do afirmado.
Os argumentos desse exemplo são ainda bastante simples, não buscando a evolução do texto em direção ao convencimento de fato do leitor. No entanto, se comparado a sua primeira produção, certamente constatamos uma diferença:
EXEMPLO 16:
(Aluno B3 – Texto da 1.ª fase de coleta)
A liberação da marcha da maconha não poderia ser proibida, pois toda pessoa tem o direito de se expressar. Mas a marcha em si gera muita polemica, pois, ela acaba fazendo apologia a droga.
Sou a favor da liberação da marcha, pois quem quer se expressar tem que buscar formas de como fazer isso, e essa foi uma delas. Mas sou contra a liberação da droga, pois as pessoas não vão conseguir ter controle para consumir e o governo controle de vendas. Mesmo com a liberação, ainda ira ter crimes e trafico.
Apesar de haver uma certa tomada de posição, marcada por “sou a favor” e “mas sou contra” e um teor argumentativo, entendemos ser complicado enquadrar tal texto como artigo de opinião. Em primeiro lugar, não apresenta um tese clara e definida a ser defendida. Também a voz do outro não é remetida e a tomada de posição é inserida sem uma construção argumentativa introdutória. Os argumentos são fracamente defendidos e sem consistência, apesar da tentativa não muito bem sucedida de se introduzir uma exemplificação em “mesmo com a liberação, ainda ira ter crimes e trafico”.
Portanto, vemos que a sequência didática surtiu algum efeito para esse aluno, pois a tese e os argumentos ao menos se apresentaram melhor definidos no Exemplo15, não obstante ainda incipientes.
No mesmo sentido, podemos enquadrar o aluno B4, que, em sua primeira produção, tomou uma posição contra a liberação da maconha, mas pouco argumentou:
EXEMPLO 17:
(Aluno B4 – Texto da 1.ª fase de coleta)
Supremo libera Marcha da Maconha em todo o país (...)
Essa decisão, impede que muitas autoridades do setor judiciário interdissesse qualquer dessas manifestações. Por muito tempo houve discussão no supremo tribunal, devido à polêmica liberação da erva, mas, deram ênfase para que não encoraje o uso da erva, muitos mestres da Universidade Federal do PR apóiam a liberação da marcha, apenas crêem na liberdade de expressão, e que com essa arma nas mãos certas, as pessoas poderiam “conquistar” outras pessoas para que apóiem tal marcha. Segundo uma pesquisa que o jornal Gazeta do Povo fez a dois anos atrás, sobre a legalização da maconha, 80% das pessoas entrevistadas eram contra, 12% eram a favor e 8% não sabiam ou não quiseram declarar e então vem aquela pergunta: “Será que legalizar a maconha vai diminuir o tráfico?”, devido à estrutura de nosso país, entretanto, liberar a cannabis não seria uma boa idéia a seguir. Por isso, liberar a marcha, é um passo para a evolução do país, mas como todo prós, tem os contras, o Brasil não tem estrutura, e em muitos departamentos.
(...)
Já começando pela observação do título, temos um que caberia melhor a um texto de cunho mais informativo, como uma notícia, por exemplo, mas não a um artigo de opinião. O corpo do texto é basicamente constituído de dados de uma provável reportagem base e meramente descritos de novo pelo aluno, afinal, apesar de ele tomar uma posição posteriormente, em nada os dados contribuíram para seus supostos argumentos que, aliás, demonstram-se bastante confusos. A única inserção interessante é o argumento ser introduzido por uma pergunta: “Será que legalizar a maconha vai diminuir o tráfico?”, o que leva o leitor a se questionar e abrir-se para a resposta argumentativa do autor.
Entretanto, o artigo de opinião produzido depois do trabalho com a sequência didática já foi mais bem elaborado, principalmente em questões argumentativas:
EXEMPLO 18:
(Aluno B4 – Texto da 2.ª fase de coleta)
A rede em nossas vidas (...)
A exposição de “assuntos” inapropriados em quantidades ilimitadas é um bom exemplo de que as pessoas não sabem usar a internet. Este instrumento tem suas qualidades, como: Podemos fazer trabalhos escolares mais rápidos e com
qualidade para fazer uma apresentação escolar, podemos entrar no Youtube ou no Google imagens e “baixar” fotos e vídeos, e até fazer uma boa introdução fazendo um uso correto deste “serviço”. Mas todo prós, há contras, e nisso a exposição exacerbado de materiais não adquiridos, sem qualquer estrutura ou conteúdo interessante e aproveitável.
(...)
Nesse texto, o aluno já entendeu melhor o teor argumentativo do artigo de opinião e expõe muito mais argumentos do que apenas informações, como fez no anterior. Para reforçar sua tese de que a Internet não é um risco para quem sabe usá-la, ele apresenta como um exemplo negativo os “‘assuntos’ inapropriados”, o que leva o leitor a ir buscar no seu conhecimento de mundo e historicidade o que essa expressão estaria representando, conduzindo-nos à conclusão de que se trata de conteúdos de pornografia veiculados na rede. Porém, em seguida, depois de trazer um argumento contrário ao seu, passa a enumerar diversos exemplos de utilização diária da ferramenta online que em muito auxilia seus usuários. Contudo, volta novamente a citar os “materiais não adequados”, tornando ao mesmo lugar e, também, não conferindo evolução à argumentação.
De qualquer maneira, os argumentos de exemplificação trazidos pelo aluno nesse segundo texto são de bastante valor para reforçar a sua tese e já aponta para um melhor conhecimento do gênero e das possibilidades argumentativas.
Isso também acontece com o aluno B5. No seu primeiro texto, o teor no início é basicamente apenas informativo. Quando chega à enunciação de uma posição, esta é fraca e não argumentativa:
EXEMPLO 19:
(Aluno B5 – Texto da 1.ª fase de coleta)
Legalização da Maconha
(...) O Brasil não possui estrutura nenhuma para poder legalizar uma droga, com a desordem de nosso país posso ate ver com uma droga a solta a bagunça que esse pais não vai ficar.
A “desordem de nosso país” é o único possível argumento de se identificar no texto e, mesmo assim, é pouco convincente. Nenhum dos tipos argumentativos é trabalhado e o sujeito autor é praticamente ausente, possível de se encontrar apenas na tomada de posição do aluno.
Por outro lado, o segundo texto, apesar de ainda longe do ideal esperado, apresenta uma melhora na textualização dos argumentos:
EXEMPLO 20:
(Aluno B5 – Texto da 2.ª fase de coleta)
Jovens na Rede
A internet faz mal para a formação dos jovens? Será? A internet e uma ótima ferramenta de conhecimento, onde o jovem pode ter contato com tudo o que ocorre no Brasil e no mundo. Ao ser bem utilizada e com o acompanhamento dos pais pode ser de grande ajuda como fone de pesquisas escolares. (...)
O autor, nesse caso, inicia com um argumento de questionamento, formado pela questão da proposta do texto e reforçado pela pergunta “Será?”. Em seguida, são dados dois exemplos explicativos, um ressaltando a possibilidade de contatos diversos pela Internet e o outro a ferramenta de pesquisa que ela é. Da mesma forma, os textos são simples e o sujeito autor ainda incipiente, mas claramente o segundo texto também apresenta uma melhora em relação ao primeiro, o que nos levar a crer na eficiência da sequência didática, em que se apresentou, discutiu e exemplificou os tipos de argumentos.
Mesma ocorrência encontramos na retomada dos textos do aluno A3. Observando o Exemplo 7, produzido na primeira fase de coleta, vemos uma carência de argumentos e posicionamento em um texto construído de forma bastante intrincada. No entanto, na continuação do segundo texto, iniciado no Exemplo 8, já há uma tentativa do autor, apesar de não com muito êxito, de inserir um tipo argumentativo:
EXEMPLO 8a:
(Aluno A3 – Texto da 2.ª fase de coleta)
(...)
A História diz com que facilidade o celebro consegui se adaptar com os interno, com as maneiras errada.
(...)
O que o aluno procura colocar é o chamado argumento histórico, ou seja, ir buscar na história ou em pequenas anedotas uma exemplificação ou uma fundamentação. Contudo, além de ser um trecho confuso e sem identidade, identificamos nele uma paráfrase da argumentação utilizada por um dos textos bases trabalhados em sala, o que não seria um problema se devidamente referenciado. Portanto, em vez de o aluno localizar o argumento como histórico, ele poderia ter-se aproveitado da mesma estrutura, mas atribuído a um argumento científico, trazendo, assim, corretamente a voz do enunciador.
Como exemplo de utilização de argumento científico, podemos analisar o texto do aluno A6:
EXEMPLO 21:
(Aluno A6 – Texto da 2.ª fase de coleta)
Influência da Internet (...)
Um estudo mostra que ficar na internet aumenta a produtividade no trabalho. Um novo estudo sugere que buscar fofocas de famosos na web, assistir vídeos e navegação em geral não diminui a produtividade na verdade, ajuda. De acordo com a pesquisa da Universidade Nacional de Cingapura, “navegar na internet serve como uma importante junção reparadora”.
(...)
Ao remeter-se a resultados de estudos e pesquisas, o aluno busca uma credibilidade maior para seus argumentos e ainda trabalha com o plurilinguismo textual. Nesse caso, interessante notar que o autor inclusive traz um trecho entre aspas, marcando perfeitamente a voz do outro, isto é, da pesquisa universitária citada, adicionando esse discurso como reforço daquele que ele assume na sua produção.
Esse segundo texto, também como os outros vistos, apresenta um melhor desenvolvimento dos argumentos do que o produzido na fase anterior, sinalizando para uma influência positiva da interferência da sequência didática:
EXEMPLO 22:
(Aluno A6 – Texto da 1.ª fase de coleta)
Drogas (...)
Pessoas que querem fugir dos problemas de casa, pessoas revoltadas com a vida, influência dos amigos, muitos que entram nesse mundo não conseguem mais sair, começam com uma coisa “leve” e quando vêem já estão viciados, mas muitos não assumem, não acham que estão, tem alucinações, vê coisas que não existem.
(...)
Este trecho é o corpo do texto, o qual deveria conter a argumentação a favor ou contra as drogas. Como já vimos ocorrer em diversos textos da Escola A, o primeiro texto passa a ser apenas descritivo, sem conter qualquer argumentação e sem tomar um posicionamento claro. Embora consigamos inferir seu provável direcionamento contra o uso de drogas pela descrição negativa do usuário, não há claramente uma opinião, apenas uma exposição de fatos.
Se relembrarmos o Exemplo 1 e Exemplo 2, do aluno B1, no entanto, veremos um bom trabalho com o argumento científico e estatístico. Não obstante apresente alguns problemas de coerência em alguns trechos, estudos e dados são desenvolvidos em favor de seus argumentos, apenas reforçando-os com uma maior credibilidade e autoridade da ciência. Nesse caso, a aula
do pesquisador não teve tanta influência, uma vez que esses tipos de argumentação apresentem recorrência nas duas fases de coleta dos textos, ou seja, o aluno mostra já ter anteriormente o conhecimento e domínio desse recurso.
Também se utilizando do argumento estatístico, o aluno A7 agrega maior valor argumentativo ao seu texto:
EXEMPLO 23:
(Aluno A7 – Texto da 2.ª fase de coleta)
Internet, um facilitador
17 anos, aluna do ultimo ano do ensino medio defende o uso da Internet.
(...)
60% dos jovens interagem em redes sociais, o que torna difícil o isolamento, pelo contrário pois com um boa cabeça aprendemos a respeitar informações pois sempre estamos em contato com diferentes tipos de pessoas.
Para defender a facilidade e agilidade da Internet, o aluno explora, então, o argumento estatístico, apresentando dados concretos a fim de provar a veracidade de sua opinião. O problema, no caso, é que o aluno não o fez de forma a inserir a voz corretamente, isto é, não sabemos de onde ele pode ter tirado o dado apresentado, causando ao leitor uma dúvida da sua credibilidade, mas fica denotado que ele apreendeu a necessidade de usar diferentes tipos de argumentos para sustentar sua tese.
Entretanto, há a tentativa da inserção de uma argumentação, enquanto no primeiro texto, composto apenas de dois breves parágrafos, não há nem uma posição clara do autor, nem qualquer teor argumentativo:
EXEMPLO 24:
(Aluno A7 – Texto da 1.ª fase de coleta)
Drogas
mal que afeta a sociedade, porque com ela vem a violencia, contrabando, mortes, assassinatos etc...
está acabando com as familias que ficam desestruturadas.
Sem qualquer autonomia, o texto refere-se a “ela” sem ter antes mencionado o referente, o qual inferimos ser a “droga” apenas por relacionarmos com o título. A droga, portanto, é apenas caracterizada sem nenhuma referência à historicidade, sem conectivos e mesmo sem nenhum objetivo. Portanto, em comparação com o segundo texto produzido, vemos uma melhora na questão argumentativa e até mesmo na estrutura do gênero discursivo.
Assim, em relação à internalização da ideia de tipos de argumentos para sustentar e defender a tese, a modelização do artigo de opinião e os procedimentos seguidos na proposta da sequência didática aplicada parecem ter provocado mudanças visíveis nas produções dos alunos, permitindo, inclusive, a presença mais notável da autoria e do estilo.