Bibliografia Selecionada
E. Tipos de KoLVij
Muitos eruditos admitem a existência de dois níveis reais: o vulgar e o literá rio.19 Essa visão equivoca-se pelas seguintes razões: (1) Esta visão deixa de lado
18 Metzger, 45; Zerwick, 161.
19 BDF coloca a questão desta maneira: "Entre os dois extremos, onde se encontram os documentos do NT, a língua do dia-a-dia refletida nas cartas, papiros, ou nos monumentos literários? De qualquer forma, pode ser dito que a língua dos autores do NT
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as diferenças entre o verdadeiro Koinê literário e um tipo de grego aticista; (2) a questão é apresentada como se fosse imparcial: os "dois extremos" (o dialeto ático e o Koinê) são vistos como o padrão pelo qual todo o material em Koinê tem que ser analisado; (3) muitos dos livros do NT nunca pretenderam ser obras literárias. Assim, é desafortunada a comparação entre as obras literárias clássi cas e os escritos neotestamentários. Por outro lado, não foram comparados exaus tivamente os recibos, testamentos, listas de lavanderias, documentos de negó cios, memorandos, documentos legais, cartas pessoais de soldados em campo de batalha e outros documentos em Koinê descobertos recentemente com o texto do NT, pois, em grande parte, os autores de tais textos do cotidiano escreveram para uma determinada audiência, não simplesmente para um indivíduo. Tam bém é certo que esses textos seriam lidos em voz alta. Acrescente a isso o fato de que o tema e o tom freqüentemente apologéticos do NT grego impossibili tam que paralelos sejam facilmente encontrados com outros textos em Koinê. Por essa razão, poucos eruditos têm sugerido a existência de um nível intermediário do Koinê entre os extremos entre vulgar e literário. Parece-nos correta essa avaliação, procuraremos comprová-la pela seguinte análise:
1. Vernacular ou Vulgar (e.g., papiros e óstracos) ,
Temos aqui o idioma língua das ruas, o dialeto coloquial, a língua das camadas populares. Esse tipo foi encontrado principalmente em papiros egípcios. Essa era, de fato, a língua franca daqueles dias.
A origem desses papiros pode ser assim ilustrada: imaginemos que os brasileiros do século XXI esvaziassem suas cestas de lixos em um lo cal suficientemente seco para preservá-los por dois mil anos. Depois desse período, eruditos descobririam esse lixo e estudariam tal mate rial. Observando, particularmente, o tipo de português empregado em nosso século. E esperado que as deduções desses eruditos descreveri am a habilidade e a prática lingüísticas dos brasileiros do século XXL20
2. Literário (e.g., Políbio, Josefo, Filo, Deodoro, Estrabo, Epíteto, Plutarco)
A língua de tais eruditos, literatos, acadêmicos e historiadores era um Koinê mais polido. A diferença entre as expressões literária e vulgar daquele idio ma assemelha-se às diferenças entre o português das escolas, das universi dades, da Academia Brasileira de Letras e o das feiras livres, estações de trem ou ônibus etc. Epíteto provavelmente representa a forma mais colo quial do Koinê literário. Por isso, E. C. Colwell chegou a dizer que a língua do Quarto Evangelho era muito semelhante à de Epíteto. O grego de Josefo, embora, às vezes, marcado profundamente por semitismos, é com certa fre qüência muito bom.
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O Koinê coloquial era a língua falada normalmente por pessoas educadas. Seguia a expressão gramatical dos literatos; em comparação com o nível li terário, entretanto, ele era menos polido (faltavam-lhe certas peculiarida des, era menos prolixo, possuía sentenças mais curtas, com mais parataxes) que o Koinê literário. Portanto, não deveríamos esperar muitos paralelos entre os papiros (contendo, normalmente, a língua de pessoas não tão cul tas) e os literatos (sua língua é uma língua escrita, portanto mais esmera da). As evidências e/ou analogias, em nossa civilização ocidental, sobre esse nível de linguagem acham-se, em boa quantidade, nos seguintes exemplos:
a. Nossos sermões ilustram bem isso. Um sermão está normalmente acima do nível comum, mas abaixo do nível literário. De fato, muitos professores de homilética dizem que um sermão ideal deveria estar em um "nível coloquial vivido" (tome, e.g., Haddon Robinson). Temos aqui uma analogia ideal para nosso assunto, pois temos boa parte do NT no formato de prédicas legadas à posteridade. Algumas das cartas pretendiam, pelo menos, ser lidas em voz alta nas igrejas. Talvez nunca restabeleceremos a língua viva do Koinê falado, mas, em relação ao grego neotestamentário, parece que chegamos bem perto.
b. "Praticamente cada era da civilização ocidental, principalmente,' depois das composições e narrativas dos épicos de Homero, exibe três níveis básicos da língua: literário, coloquial e 'v u lg ar'.... As composições sobreviventes da Grécia e Roma antigas estão quase que inteiramente no nível literário".21 Os discursos de Cícero são um bom exemplo de latim coloquial.
c. Como nota Jannaris, há pelos menos três níveis de Grego, em todos os seus períodos evolutivos:
As obras-primas literárias desse período [era clássica] até então não representam a língua como era realmente falada na época... Pois, tan to nos diálogos encontrados nas classes cultas quanto entre a popu lação geral, o nível do diálogo não ultrapassaria, em muitos casos, o simples discurso coloquial ou popular, transformando-se em um idi oma vernacular ou até mesmo rústico. A coexistência, em todas as épocas, de um estilo artístico ou literário e um discurso coloquial e popular... com uma língua convencional intermediária, é um fato inquestionavelmente estabelecido pela lógica, investigação históri ca, analogias modernas e pela experiência diária.22
O mesmo autor vai além e descreve a distinção entre a modalidade escrita e a falada do grego assim:
"...nunca qualquer escritor usou o mesmo estilo na escrita e na fala. Pelo contrário, ele utiliza uma escrita estilizada para expressar seus pensamentos de modo mais ou menos elegante.... Assim, toda a
3. Coloquial (Novo Testamento, alguns papiros)
21 Hoerber, 252. 22 Jannaris, 4.
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literatura grega [clássica] e a glória da Grécia antiga são compostas quase que exclusivamente no estilo literário. Com respeito ao discurso coloquial ou popular, dificilmente é representado nas obras clássicas".23
Concluindo, Jannaris apresenta quatro níveis diferentes de Grego: 1) Aticista, (2) Convencional [=literário], (3) L evan tine [=coloquial; especificamente o grego dos estrangeiros helenizados, incluindo o NT], e (4) Coloquial ou a língua das camadas populares (=vulgar).24
d. Concluindo, parece que a empolgação sobre os papiros paralelos ao NT foi talvez exagerada. Isto significa que, por mais útil que seja os papiros para o nosso entendimento do vocabulário do NT, não temos achado paralelos sintáticos perfeitos nos papiros. Muitos dos papiros são inferiores ao NT quanto à sintática, por conseguinte o NT não está no mesmo nível literário que autores como Josefo ou Políbio. A sintaxe do NT se encontra numa posição mediana entre vulgar e literária, conhecida como conversacional.25
4. Aticista (e.g., Luciano, Dionísio de Halicarnasso, João Crisóstomo, Aristides,
Frínico, Moéris)
Uma língua artificial reavivada pelos literatos, desatentos à evolução da língua (semelhante a muitos atuais defensores da King James Version que declaram a superioridade dessa versão porque ela representa o inglês no auge da sua glória, durante a era shakespeareana).
A língua grega, debaixo de certas condições e influências [e.g., sob o governo romano, a vida cultural e intelectual floresceram pouco quando comparada com o período áureo], encontrava-se em situação desfavorável - não era mais o Ático dos velhos e gloriosos tempos da hegemonia ateniense. À vista disso, muitos eruditos acompanhados por diversos discípulos, agindo em uma silenciosa conspiração, esforçaram-se para deter o desenvolvimento desse grego "comum" (i.e., o Ático não-clássico) e ressuscitar o antigo Ático puro. Essa atitude lhe conferiu o título de Aticistas, i.e., "puristas". Seu empenho consistia em imitar a forma ática, e não em desenvolver um padrão novo, original...
IV. O Grego do Novo Testamento
Há duas questões distintas quanto ao conteúdo, porém relacionadas quanto a nosso objetivo aqui, as quais precisam ser respondidas ao considerarmos a na tureza do grego do NT: (1) Quais eram as línguas vigentes no primeiro século a.C., na Palestina?, e (2) Onde o grego neotestamentário se encaixa no Koinê? 23 Ibid., 5.
24 Ibid., 8.
25 Hoffmann von Siebenthal tem chegado a uma conclusão similar (2-3). 26 Jannaris, 7
24 Sintaxe Exegética do Novo Testamento