CAPÍTULO 2 – LAVOURA, TRABALHO E RESISTÊNCIA
2.4 TRABALHO E SAZONALIDADE
Ao se discutir as possibilidades de reprodução das formas de sobrevivência dos povoadores pobres de Guarapuava nos trabalhos da agricultura de subsistência e abastecimento, precisamos primeiramente compreender algumas diferenciações entre trabalho dito livre e seu suposto contrário, o trabalho escravo. O problema da relação entre “liberdade” e “trabalho”, ou, mais claramente, na possibilidade da “liberdade de trabalho”, quando pensada para o Brasil escravista do século XIX, apresenta-se carregada de ambiguidades. A liberdade de trabalho existente aos povoadores pobres não se apresentava necessariamente como oposição radical ao trabalho escravo existente nas estâncias.
Como já discutimos, os casos de trabalho coercitivo aplicado aos indígenas e degredados em Guarapuava, e mesmo aos lavradores pobres migrados nas primeiras décadas da ocupação das terras, são exemplos claros da proximidade que o trabalho livre poderia chegar da escravidão na região. De acordo com Henrique Espada Lima, houve uma insistência na política e mesmo na historiografia do período pós-escravidão em demonstrar uma imagem moderna do trabalho livre, radicalmente oposta ao trabalho escravo: “Uma contraposição que parece auto-evidente – especialmente se pensada a partir dos termos estabelecidos pela economia clássica – mas que é, na verdade, tão carregada de ambiguidade quanto o modelo de sociedade em que se inspira”.402
Em suas investigações, o historiador Robério Santos Souza, ao discutir as condições dos trabalhadores imigrantes e nacionais livres, libertos e escravizados nas obras de construção da primeira ferrovia da Bahia, entre 1858 e 1863, revelou a maneira com que os trabalhadores pobres, formalmente livres, suportavam condições análogas à escravidão na execução das obras. O autor levanta a questão de que, no período escravista, cuja base fundamental estava no trabalho forçado, determinadas circunstâncias e mesmo as legislações permitiam aos empregadores formas de coerção aos livres em relações de trabalho assalariado humanamente inaceitáveis.403
402 LIMA, Henrique Espada. Sob o domínio da precariedade: escravidão e os significados da liberdade de trabalho no século XIX. In: Topoi, v. 6, n. 11, p. 289-326, 2005, p.296.
Em 1873, para realizar a travessia e o retorno pelas matas entre Curitiba e a colônia Thereza Cristina, nas proximidades de Guarapuava, Thomas Bigg-Wither contratou alguns homens pobres conhecedores do caminho nas vilas dos Campos Gerais como guias e ajudantes de sua expedição. Durante a viagem, o inglês reconheceu dois traços e uma peculiaridade que podemos considerar interessantes para a compreensão dos sentidos da liberdade para os lavradores pobres paranaenses. Na descrição eurocêntrica do engenheiro,
Eles tinham o que podemos chamar de dois arraigados preconceitos: primeiro, o orgulho absurdo do nascimento livre que, num país em que a escravidão era ainda uma instituição, os tornava exageradamente sensíveis quanto ao modo de tratamento pelo patrão e, segundo, um medo doentio do “bugre brabo” ou índio selvagem. [...] Boa ilustração do imenso ridículo com que um brasileiro, pertencente ao que na Inglaterra chamamos de classe laboriosa, conserva seu orgulho de nascimento livre, encontra-se na própria palavra “camarada” ou “companheiro”, com a qual se denomina. Ele não se importa muito de praticar certas espécies de trabalho como assalariado, mas não admite energicamente que, dentro de lógica sequência, o chamem de “trabalhador”, o que considera como sendo quase um sinônimo de escravo.404
Nesse caminho, os camaradas que acompanhavam Bigg-Wither relatavam o peso do contexto escravista em suas estratégias de manterem sinais diferenciadores da condição de homens livres. Uma definição interessante do termo camarada é descrita no “Vocabulário portuguez e latino” de 1712, segundo o qual a palavra “derivase de Camara, ou de cama & vale o mesmo que companheiro de casa, & mesa; & he particularmente usado entre gente de guerra, & soldados, alistados na mesma companhia, ou que vivem no campo, ou arraial debaixo da mesma tenda. [...] Companhia”.405
Ainda no relato do engenheiro inglês, o estabelecimento de relações contratuais de trabalho com os lavradores se mostrava difícil em função da recusa dos homens em aceitar contratos escritos, preferindo realizar acordos verbais que permitissem o rompimento das relações por ambas as partes a qualquer momento.406 A prática certamente se devia ao receio de serem coagidos por uma prática comum aos estancieiros dos Campos Gerais, citada diversas vezes por Bigg-Wither como “um muito divulgado sistema de escravidão branca”.407 O sistema, segundo o inglês, era comentado por muitos homens que se negavam a aceitar o serviço de acompanhá-lo na viagem por terem dívidas financeiras com fazendeiros locais. No trajeto de 100 quilômetros entre Curitiba e a colônia Assungui, ao Norte da capital provincial,
404 BIGG-WITHER, Thomas P. Op. Cit., p.282. Grifo nosso.
405 BLUTEAU, Raphael de. Vocabulario portuguez e latino. Coimbra: Companhia de Jesus, 1712, p.69. Disponível em: https://digital.bbm.usp.br/view/?45000008426&bbm/5439#page/292/mode/2up. Acesso em 22 de janeiro de 2019.
406 BIGG-WITHER, Thomas P. Op. Cit., p.280. 407 Ibidem, p.360.
Bigg-Wither conheceu esse sistema aplicado pelo senhor Nóbrega, um estancieiro estabelecido nas proximidades da colônia. O relato descreve as etapas do endividamento adquirido pelos lavradores nesses casos:
Um caboclo precisa de certa soma de dinheiro. Digamos cem mil réis, grande importância nesses sertões, onde os pagamentos são feitos principalmente em gêneros e o dinheiro é tão escasso que vale vinte e quatro por cento ao ano, com a maior garantia. Ele vai ao ricaço da vila, neste caso o Sr. Nóbrega, e pede-lhe um empréstimo daquela quantia, prometendo-lhe pagar dentro de certo tempo. Desde esse momento o infeliz caboclo, em todas as intenções e propósitos, torna-se um escravo. Como poderá ele ganhar dinheiro para pagar a sua dívida, a não ser do próprio patrão, o Sr. Nóbrega? Que pode fazer ele, supondo que o seu patrão sinta muito, mas não tenha necessidade de seus serviços, por algum tempo? Nesse meio tempo vence-se o prazo do pagamento da dívida, e o infeliz não tem condições naturalmente de fazê-lo. “Não faz mal”, diz o Sr. Nóbrega, “você paga com trabalho”. Eu não o obrigarei a fazê- lo em dinheiro”. Dá-lhe trabalho e ele vai para a roça, capinar, plantar ou colher, qual seja o caso, por certo número de dias e a mil réis por dia. Ele fica feliz, pensando que com esse salário possa pagar o seu débito, quando, de repente, é avisado de que tem de interromper o trabalho na temporada, ficando sem receber. Os juros, entretanto, vão se acumulando e quando a sua próxima temporada começa o seu débito original continua igual a antes. E ele então trabalha de novo para pagá-lo, mas não o consegue, porque esse não é o interesse de seu credor. Assim, ano após ano, ele trabalha por nada, sem deixar de continuar devedor, enquanto o patrão prospera e enriquece.408
Nesse sentido, os lavradores do Paraná que se endividavam com os estancieiros eram coagidos a se manter trabalhando por tempo indeterminado junto aos fazendeiros. Tal situação está ligada à mesma modalidade de exploração investigada por Francivaldo Nunes nos aldeamentos indígenas paraenses em 1849. No caso do Pará, os indígenas que trabalhavam como agregados em casas fora do aldeamento, contavam sempre com contas abertas pelos proprietários. Com os baixos salários e a entrega de produtos por valores superfaturados como parte do pagamento, as contas nunca se pagavam e os aldeados estavam sempre devendo, permanecendo sob a condição de trabalhadores agregados por tempo indeterminado.409 Aos lavradores paranaenses, a estratégia de manterem roças próprias que permitissem a alimentação familiar e ainda a possibilidade de venda de excedentes, direcionados para o abastecimento das vilas ou ao mercado das tropas, constituía as mínimas garantias de se afastar da possibilidade de exploração do trabalho dentro do “sistema de escravidão branca”.
Como elementos da temporada dos trabalhos com as roças, podemos considerar que o ano agrícola em Guarapuava começava pouco antes do final do inverno. Entre agosto e
408 Idem.
409 NUNES, Francivaldo Alves. Agentes públicos, agricultura e propriedade da terra nos aldeamentos da Amazônia, décadas de 1840-1850. História Unisinos. São Leopoldo: Ed. 22 (4), nov/dez. 2018, p.667.
novembro era realizado o plantio mais tradicional, do milho e do feijão, assim como da batata. Em 1854, a Câmara tentou regular as queimadas necessárias para o preparo do solo, proibindo que fossem realizadas antes de setembro e depois de novembro. Acreditamos que as queimadas, necessárias no preparo das roças, acabavam se estendendo de julho até dezembro, levando em conta a organização da mão de obra familiar e os locais de plantio ocupados por cada família. Em 1869 o engenheiro Antonio Pereira Rebouças Filho, de quem trataremos mais detalhadamente no terceiro capítulo, descreveu a rotina dos lavradores nas roças da região.
Poucos são os proprietários dos campos, desde os mais vizinhos de Curitiba até os de Guarapuava, que não possuão mais ou menos longe, às vezes até em distância de mais de cinco léguas [33 km], terras de plantio, onde annualmente fazem roçadas e semeião, quase exclusivamente, feijão e milho. As derrubadas, roçadas e plantações durão desde Agosto até Novembro, e a colheita principia em Janeiro para as primeiras plantações, porém geralmente fez-se com mais força de Maio por diante, quando tem cahido as primeiras geadas.410
As colheitas de milho e feijão, alcançadas dois a três meses após o plantio, entre janeiro e maio, abrangiam o período de maior entrada de tropas de gado, muares e cavalares nas invernadas das estâncias a partir da década de 1840. Para esse dado podemos levar em consideração que a viagem até Sorocaba tinha uma duração média de até dois meses a partir de Guarapuava, e as maiores negociações de tropas em São Paulo ocorriam entre abril e maio. O Gráfico inserido na Figura 9 permite compreender o volume e a sazonalidade da passagem de tropas de animais pela vila de Itapetininga, no caminho da feira de Sorocaba. No caso do gado muar, vendido em Sorocaba para cafeicultores que utilizavam as mulas para o transporte do café e de mercadorias em direção ao porto de Santos até a década de 1870, os picos da passagem ocorriam em dezembro e, em volume cinco vezes maior, entre abril e maio. Os cavalos acompanhavam as primeiras tropas de muares, tendo seu ápice entre dezembro e janeiro. No caso dos muares, maior volume negociado, as tropas que seguiam para Sorocaba saíam de Guarapuava rumo à Itapetininga entre dois e três meses antes das indicações dos gráficos.
Muitos desses animais descansavam por meses nas invernadas antes de seguir para a feira. Isso nos permite auferir que grande parte das lavouras do Campo da pobreza era negociada durante a passagem ou estadia das tropas nos campos e invernadas locais, entre
410 REBOUÇAS FILHO, Antonio P. Relatório da Comissão Exploradora da Estrada para Mato-Grosso, pela província do Paraná, passando por Guarapuava e o baixo Ivahy. In: ALBUQUERQUE, Diogo Velho C. Ministério da Agricultura: Relatório do anno de 1869 apresentado à Assemblea Geral Legislativa na segunda sessão da décima-quarta Legislatura. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1870, p.36.
dezembro e janeiro, quando tinham suas primeiras colheitas, e depois, a partir de março, com uma segunda colheita. Essa dinâmica de duas colheitas entre a primavera e o verão é confirmada por notícias publicadas em jornais paranaenses relatando o avanço de pragas de gafanhotos sobre as roças de Guarapuava em 1874, conforme discutiremos no tópico seguinte deste capítulo.
FIGURA 9. Média de animais conduzidos pela barreira de Itapetininga rumo a Sorocaba, segundo meses do ano, 1854/55 – 1868/69.
Fonte: SUPRINYAK, Carlos Eduardo. Tropas em marcha: o mercado de animais de carga no centro-Sul do Brasil imperial. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2008, p.53.
Como descrevemos acima, no início de cada ano, o trabalho na colheita das roças para o próprio consumo das famílias, alimentação dos pequenos rebanhos e abastecimento do mercado municipal junto aos tropeiros, estancieiros ou mesmo outros lavradores pobres ficava dividida entre os membros das famílias. A ida de muitos membros para os ervais mais afastados – tarefa que poderia se estender do fim das primeiras colheitas até os últimos dias de agosto, regulada pelas posturas municipais de 1854, poderia complementar a renda familiar. De acordo com relatos oitocentistas, a colheita de erva-mate no território paranaense ocorria “em periódicas peregrinações, fazendo-se acompanhar da família [...] por causa da erva-mate, que quando é tempo de colhê-la, a todos convida esse fácil trabalho, de um lucro sempre certo [...] recolhendo-se para os bosques homens, mulheres, velhos, inválidos e até crianças, sem exceção”.411
411 Autos do inventário dos donos da Fazenda Jaguariaíva – Cartório de Castro (século XIX). Apud: BALHANA, A. P.; MACHADO, B. P.; WESTPHALEN, C. M. Op. Cit., p.93.
Porém, as colheitas de erva mate e as andanças pelas matas cessavam em grande parte com a chegada do inverno, entre junho e julho. Como descrevem os relatórios da Câmara municipal da década de 1850, “aproxima-se esta época, a população fica em consternação, e quase inhibida de trabalhar, e attender as suas lavouras, recciando a invasão dos bugres, onde resulta que não podem as lavouras aqui apresentar vantagens desejáveis”.412 Assim, durante o inverno, os povoadores pobres permaneciam aguardando o retorno de dias mais amenos, quando a vegetação secava após as sucessivas geadas da estação fria, o que permitia as queimadas necessárias para o novo ciclo de plantio das roças.
A alimentação nesses meses de frio e tensão com as correrias dos indígenas em busca de alimento era conseguida com a colheita da mandioca e preparo da farinha, geralmente ocorrida entre maio e julho.413 Requerendo poucos cuidados, pois cresciam em meio ao mato, os pés de mandioca demoravam dezoito meses para atingirem o ponto de colheita, mas poderiam ficar até três anos sob o solo esperando a necessidade alimentar dos lavradores, “literalmente armazenada na própria terra, colhida em função das necessidades do produtor”.414 Em 1857, o presidente da província explicava a preferência dos lavradores da província pelo plantio da mandioca em relação ao trigo, inclusive para o preparo da farinha: “O plantio da mandioca não está no mesmo caso do trigo e outros cereaes ainda não cultivados, ou cuja cultura tenha sido abandonada; em quasi todas as localidades da província é aquelle farinaceo conhecido e aproveitado; não me parece pois haver necessidade para o seu desenvolvimento da intervenção do governo”.415
Sabemos algo sobre a importância alimentar e econômica do pinhão, fruto dos pinheiros nativos da região Sul, a partir de dados a respeito de seu consumo encontrados no formal da criação da freguesia de Guarapuava, datado de 1819, ainda nos primeiros anos da ocupação paulista. No documento, ficou definido para todos os povoadores “que ninguém no dito rocio, ou nas terras dos Indios corte pinheiros para aproveitarem unicamente os seus fructos, que por não estarem ainda maduros não cahem por si mesmos das pinhas”.416 Embora não tivesse um valor comercial no século XIX, por ser possível encontrá-lo em abundância nos meses de inverno em meio aos pinheirais paranaenses, o pinhão se tornou um alimento
412 Relatório da Câmara Municipal de Guarapuava em 1º de junho de 1859. Livro de Registro de Expediente da Câmara Municipal de Guarapuava, Livro 1, p.32.
413 LEANDRO, José Augusto. A roda, a prensa, o forno, o tacho: cultura material e farinha de mandioca no litoral do Paraná. In: Revista Brasileira de História. São Paulo: v.27, nº56, p.261-278, 2007, p.265.
414 CASTRO, Hebe Maria Mattos de. Ao sul da história: lavradores pobres na crise do trabalho escravo. Rio de Janeiro: Editora FGV/Faperj, 2009, p.84.
415 CAVALHAES, José Antonio Vaz de. Op. Cit., p.120.
416 LOURES, A. R.; LIMA, F. C. Formal da creação da povoação e freguezia de Nossa Senhora de Belém, nos campos de Guarapuava, 1819. Op. Cit., p.90.
tão versátil quanto a mandioca no restante do território brasileiro e a castanha no Norte de Portugal. Em dezembro de 1821, os deputados paulistas na corte em Lisboa listavam seus usos como um dos exemplos de “fartura” das terras brasileiras concedidas pela Coroa portuguesa desde D. João III, no século XVI. Segundo os deputados:
O fim do Soberano era povoar o Brasil, e as dattas de terra eram para chamar povoadores a estabelecer-se, e fixar-se perpetuamente n’esta região; he verdade que para o poderem assim fazer era necessario meter as terras em cultivo; mas não era isto tão geral, e tão absolutamente indispensável, que não fosse possível achar-se huma, e muitas sesmarias em que os colonos vivessem com fartura sem cultivar a terra. Por exemplo nos terrenos (que muitos ha) cobertos de pinhaes, que produzem huma especie de castanha coberta de huma capa conacea, e cuja poupa abunda de amido, e d’huma fécula similhante a farinha, com a qual se podem sustentar animaes, e fazer pão, como se pratica em Curitiba; podia haver huma povoação applicando-se os braços dos homens a outros empregos, e deixando ao cuidado da natureza o produzir-lhe os pinhões para a sua subsistência; assim como nas Provincias do Norte de Portugal grande parte da gente se sustenta com a castanha, pouco differente do Pinhão do Brazil, a não ser na menor quantidade de amido que tem.417
A exposição dos deputados também supõe que os estancieiros recebedores de sesmarias nos Campos Gerais não praticavam a agricultura nos terrenos em que criavam seus animais, no caminho de Viamão. Esse dado corrobora com os relatos da demanda criada na passagem das tropas pelas lavouras dos lavradores pobres que se instalaram em meio ao caminho, conforme já aprofundamos no primeiro capítulo. No caso do pinhão, com tais usos na alimentação de animais e na fabricação de pães, sendo colhidos justamente na época do inverno, mesmo sem valor econômico, certamente cumpria funções importantes para a subsistência dos lavradores pobres e de suas criações nessa estação em Guarapuava durante o oitocentos. Complementando a norma de usufruto dos pinheiros nativos do rocio de Guarapuava, também ficava estipulada desde 1819 a proibição da retirada das cascas das mesmas árvores, “porque então seccam e se perdem todo lenho e fructos, que dariam annualmente”.418 Alimento indígena nos meses do inverno, o pinhão era igualmente presente e comum na alimentação dos lavradores guarapuavanos desde o início da ocupação no oitocentos.
Os lavradores do rocio e do Campo da pobreza também possuíam criações em terrenos separados de suas roças. Os primeiros a receber terras entre 1817 e 1821 possuíam em média
417 Sessão 249 das Cortes de Lisboa em 5 de dezembro de 1821. In: GAZETA do Rio. Rio de Janeiro, n.37, terça feira, 26 de março de 1822, p.221.
418 O formal de criação da povoação também determinou “(...) que ninguém corte outros alvoredos fructiferos, mas que sejam silvestres, como sejam Guabiroveiras, Jaboticabeiras e as Palmeiras de Butiá, que dão fructo especioso.” Cf. LOURES, A. R.; LIMA, F. C. Formal da creação da povoação e freguezia de Nossa Senhora de Belém, nos campos de Guarapuava, 1819. Op. Cit., p.90.
pouco mais de cinquenta cabeças entre vacas, cavalos, mulas, porcos e ovinos, o que sugere alguma posse.419 Porém, segundo levantamentos de Luís Augusto Farinatti para o início do século XIX, relativamente ao Rio Grande do Sul, rebanhos com menos de quinhentos animais não permitiam a reprodução dos meios de sobrevivência dos criadores apenas pela pecuária.420 Nesses casos, os estudos a respeito da questão agrária nas estâncias gaúchas, em periodizações similares, apontam como complemento para as rendas familiares dos pequenos criadores a busca de trabalhos nas grandes estâncias. Como descreve Guinter Leipnitz, analisando o volume das posses de gado na pecuária riograndense de meados do oitocentos,
as unidades familiares com rebanhos abaixo desse limite [500 cabeças] necessitavam que periodicamente alguns de seus membros buscassem trabalho externo, empregando-se geralmente como peões ou jornaleiros em unidades produtivas com maiores estoques de animais [...]. Tal característica mostra que os produtores integrados na autoexploração familiar assumiam muitas vezes a função de assalariados nas estâncias, dependendo de fatores como ciclo de vida e conjuntura econômica.421
A conjuntura econômica da região fronteiriça da Campanha rio-grandense, com uma grande produção de animais no extremo Sul do Império, continha elementos econômicos que diferenciam o contexto socioeconômico dos povoadores pobres de Guarapuava em relação a essas estâncias gaúchas, onde os lavradores e pequenos criadores poderiam atuar como