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TRABALHO INFANTIL E A ATUALIDADE BOLIVIANA

No documento ISSN Edição Comemorativa 2020 (páginas 76-79)

BOLÍVIA

TRABALHO INFANTIL E A ATUALIDADE BOLIVIANA

A hegemonia crioulla sobre todos os setores da vida social e política da Bo-lívia começou a ter seu projeto ruído somente a partir de 2005, quando diferentes protestos populares levaram ao surgimento de uma confederação dispersa de mo-vimentos sociais nativos (MAS), tendo a figura do presidente do país, Juan Evo Morales Ayma8, como principal líder.

Finalmente, em 2009, com a aprovação da nova Constituição, também conhe-cida como o marco da “Refundação do Estado”, foi alavancado um enorme processo de mudança estrutural sem precedentes na história da Bolívia, marcando o início de um novo paradigma, onde se abandonou o eurocêntrico conceito de república para um ampliado reconhecimento do Estado Plurinacional (BITTENCOURT e PEREZ, 2018, p. 91). Desde então, a Bolívia buscou a superação do Estado colonial, clas-sista, elitista, discriminador para um Estado plurinacional inclusivo, assumindo o papel de transformador da sociedade na busca do bem-estar da comunidade.

Todavia, a superação de convenções estipuladas por séculos de domínio e estimuladas por um mercado internacional não é fácil. A exemplo disso, tem-se o agravante de que o maior índice de pobreza continua localizado nos núcleos rurais e indígenas da Bolívia. Segundo dados do Instituto Nacional de Estadística (INE) de 2008, em torno de 60% das crianças que trabalham no país continuam sendo de origem indígena. Também são maiores a taxa de abandono escolar e as horas de trabalho; o rendimento econômico é menor. Outros fatores podem ser adicionados, como o gênero: as crianças indígenas do sexo feminino apresentam maior probabi-lidade de trabalho (23%) do que as crianças não indígenas (ZAPATA, 2010).

O Código aprovado por Evo Morales, em 2009, que legalizou o trabalho in-fantil, foi percebido pelas comunidades indígenas como um respaldo legal para um mal persistente de mais de três séculos – a exploração – além de uma ferramenta que impele, ao menos juridicamente, a violência contra as crianças. O Código en-fatiza uma diferenciação governamental entre o trabalho infantil e a exploração do trabalho infantil. Em geral, o primeiro refese a todas as atividades laborais,

re-8 Evo Morales esteve na presidência até 2019.

muneradas ou não, realizadas por uma pessoa com menos de 17 anos. Em contraste, a exploração do trabalho infantil é definida como qualquer situação trabalhista que viole os direitos de proteção do menor e sua dignidade.

O Artigo 126 do novo Código, que estabelece o direito à proteção no local de trabalho, afirma que:

Las niñas, niños y adolescentes tienen derecho a estar protegidas o protegidos por el Estado en todos sus niveles, sus familias y la sociedad, en especial contra la explotación económica y el desempeño de cualquier actividad laboral o trabajo que pueda entorpecer su educación, que implique peligro, que sea insalubre o atentatorio a su dignidad y desarrollo integral.

(BOLÍVIA, 2014).

Sendo a exploração a situação mais extrema, o Código reconhece o trabalho infantil e proíbe a exploração. A diferença entre essas categorias é complexa – de modo geral, a baixa remuneração e os riscos à saúde ilustram melhor o que seria a exploração de crianças segundo o Novo Código. Ilustraremos dois casos específi-cos do que é hoje considerado exploração infantil na Bolívia (que, embora ilegais, ainda ocorrem): os “niños triperos” e os “niños estuqueros”9.

Conforme Quispe (2014), o primeiro caso refere-se a crianças guaranis que trabalham manualmente com galinhas, chamadas de “triperos” em referência à tri-pa, ou intestinos, que são removidos no processo. Em 2014, um relatório investiga-tivo da imprensa de Santa Cruz trouxe à tona a situação dos niños triperos. Três ca-sos foram identificados em três comunidades indígenas, Guapoy, Piedrita e Cañon Segura, nos municípios de Camiri e Lagunillas, localizados no leste da Bolívia, no departamento de Santa Cruz. As reportagens foram resultadas de denúncias nas comunidades guaranis de Kami, Irundaiti e Puente Viejo.

O trabalho realizado era composto por grupos de crianças entre 10 e 14 anos, que se reuniam para trabalhar entre 01h00 e 5h00 da manhã, depenando

manual-9 Convém dizer que ambos os casos, “niños triperos” e os “niños estuqueros”, foram retratados e denunciados massivamente pela mídia boliviana. Sobre os “niños triperos”, a situação das crianças foi à mídia após investigações da Fundación DyA e do repórter Jorge Quispe, vinculado ao jornal La Razón Boliviana. A matéria pode ser conferida em: http://www.la-razon.com/index.php?_url=/

suplementos/informe/Pequenos-polleros-guaranies_0_2154384663.html. Acessado em 12 de abril de 2019.

Sobre os “niños estuqueros”, consultar o documento Dossier De Estadísticas E Indicadores, Proyec-to De Erradicación De La Explotación Laboral Infantil (2014), disponível em: http://www.dyaboli-via.org.com. Acessado em 12 de abril de 2019.

mente galinhas e recebendo em média 0,50 bolivianos (US$ 0,07) por frango de-penado. Cada um deles depenava aproximadamente 40 galinhas por dia, pelo qual eles recebiam um pagamento de 20 bolivianos (cerca de US$ 3). O destino final das galinhas era a cidade de Santa Cruz, que tem alta demanda pelo produto. A contra-tação de menores devia-se ao alto custo do trabalho adulto e pela disposição das crianças de trabalharem para sustentar suas famílias. Alguns dos riscos para a saúde desse tipo de trabalho decorrem da manipulação de animais mortos e da exaustão física do trabalho muito tarde da noite (QUISPE, 2014).

O outro caso, de niños estuqueros, conforme Mayta (2017), refere-se a crian-ças aimarás que produzem estuque nas comunidades de Vichaya e Kasilluna, lo-calizadas na província de Pacajes, na região ocidental dos Andes do departamento de La Paz. Essas comunidades fazem parte do território coletivamente intitulado de Pakajaqui, que por vários anos foi administrado como um território indígena legalmente reconhecido. Uma das principais fontes de renda para essas duas comu-nidades vem da exploração de pedreiras de calcário para produzir estuque (também chamado de yeso). Várias famílias são dedicadas à extração, moagem e processa-mento do calcário, que é acabado em fornos de madeira e gás. A maioria dos fornos e ferramentas usadas pelas famílias para explorar os depósitos de calcário é arte-sanal. O principal mercado para a produção de estuque é a cidade de El Alto, que tem quase um milhão de habitantes e uma das taxas de crescimento urbano mais significativas do país. A demanda por estuque artesanal é estável na cidade, devido à sua boa qualidade, tempo de secagem rápido e baixo custo, com um saco de 10kg custando apenas 4 a 6 bolivianos (menos de US$ 1,00).

Durante o processo, crianças entre 7 e 17 anos de idade podem ser observa-das trabalhando, principalmente extraindo e moendo calcário, coletando madeira e fornos de iluminação, e embalando o produto final (MAYTA, 2017). As crianças trabalham em média 7 horas por dia e, por ser uma forma de trabalho familiar, não recebem remuneração, exceto quando trabalham para outra família. Os principais riscos para a saúde desse trabalho incluem sérios problemas respiratórios causados pela inalação de poeira e riscos físicos causados pelo trabalho com objetos pesados.

Em ambos os casos, pode-se observar que a maioria das crianças trabalha sem qualquer medida de segurança ou proteção, expostas aos riscos físicos que se somam a outras consequências negativas, como baixo desempenho educacional ou abandono escolar. Ambos os casos são condenados pelo novo Código, embora a legislação não seja suficiente para impedir a prática.

No documento ISSN Edição Comemorativa 2020 (páginas 76-79)