• Nenhum resultado encontrado

4. O PODER TECNOLÓGICO-MILITAR NAS REDEFINIÇÕES ESTRATÉGICAS

4.3. Os Modos Americanos de Guerra

4.3.2. O tradicional modo de guerra e a ala tradicionalista

O velho american way of war, ou o tradicional modo americano de guerra, significou a aplicação do poder destrutivo do peso dos números, seja na Guerra Civil, na Primeira Guerra Mundial ou na Segunda Guerra Mundial.330 Para Dolman (2004), o tradicional american way of war sempre esteve enraizado e institucionalizado no histórico de guerras dos Estados Unidos. Desde então, foram se enraizando na cultura militar americana um padrão de conduta, permeado pelo conflito de aniquilamento, pelas forças expedicionárias e pela organização miliciana de contenção de ameaças. Resumidamente, o velho american way of war foi caracterizado pela grande quantidade de armamento pesado, grande margem de superioridade, superioridade material e aniquilamento331 – embora esta última característica seja controversa.

O old american way of war focou no uso de uma logística avançada e de um massivo poder de fogo ofensivo em guerras regulares, agressivas e de larga escala. Ademais, Gray (2006) o caracterizou como “apolítico”, pois os americanos não estiveram preparados para lidar com as consequências dos conflitos, o que refletiu em falhas em algumas gestões de crise e em alguns momentos do pós- conflito. Como “aestratégico”, no sentido de não ter tido uma definição clara dos seus objetivos, o que reverberou em indefinições, (in)sucessos político-militares e

329 SEMPERE, 2006. 330 BOOT, 2003. 331 BULEY, 2008.

avaliações finais sensíveis a perdas. “Ahistórico”, pois ao ser considerado tecnologicamente dependente e defensor assíduo da tecnologia como determinante dos resultados otimistas, conclusivos e imediatos, negligenciou alguns aspectos da realidade e algumas especificidades historicamente implícitas e explícitas. Assim como, o classificou de “acultural”, no sentido de desvalorizar as relações civil- político-militares e aversões à opinião pública.

No Pentágono, a ideia preponderante defendida pelos tradicionalistas foi a de que os conflitos baseados na alta tecnologia implicariam em uma percepção de invulnerabilidade às ameaças. Colin Powell, presidente do Joint Chiefs of Staff do governo de George H. W. Bush e, posteriormente, o primeiro Secretário de Estado do governo George W. Bush foi um dos mais cotados do alto escalão a defender essa acepção. Powell (1992) defendia que a concepção de segurança americana, na condição de obrigação de liderança nas relações internacionais, deveria ser criada a partir da preservação das Forças Armadas.

Segundo Powell, as Forças Armadas seriam representantes da defesa da ‘democracia’, da ‘liberdade’, da ‘dignidade humana’, da ‘lei’ e dos ‘aspectos institucionais, culturais e religiosos’ do conjunto de homens e mulheres, ‘futuro da nação’ e ‘futuro do mundo’. Além disso, levantou a bandeira de que as Forças Armadas eram compostas por um contigente qualificado, voluntários dispostos e pelas minorias. Todos indispensáveis para a manutenção da capacidade militar americana. Os argumentos de Colin Powell foram fundamentados na doutrina defendida por Caspar Weinberger, o primeiro Secretário de Defesa do governo Ronald Reagan, nos últimos anos da Guerra Fria. Esta doutrina pregava que a ação militar deveria ser feita estritamente pelo interesse nacional ou dos aliados; as ações militares deveriam ser feitas com a paixão de vencer; as Forças Armadas deveriam definir os objetivos políticos e militares; deveria haver avaliação contínua dos meios e dos fins; que o esforço é pelo povo e pelos representantes; o combate deveria ser a última instância; e o uso pesado da força deveria ser utilizado para a vitória.332

No quesito redução dos gastos públicos, Powell (1992) argumentou que a redução dos custos e subsídios implicariam diretamente no desemprego em massa dos militares ativos e indiretamente dos trabalhadores dos setores da base industrial de defesa, que contempla os setores militar e civil. Isto é, as propostas de

“transformações militares” orientadas pelas tecnologias militares ilustrariam esta situação. Para Powell (1992), estabelecer o uso compulsório das tecnologias, como preconizaram as transformações militares dos anos 1990, é o mesmo que dizer que as pessoas sempre usarão o elevador no caso de incêndio no prédio que estão. Uma crítica válida para os anos 2000, após as experiências da Guerra do Afeganistão (2001) e da Guerra do Iraque (2003), aceita por Donald Rumsfeld, o segundo Secretário de Defesa de Gerald Ford e o primeiro Secretário da Defesa de George W. Bush.

Alguns estudiosos também contribuíram com esse debate, distribuindo elogios, críticas e refutações teóricas e históricas. No mesmo sentido de Colin Powell, por exemplo, o historiador militar americano Max Boot resgatou a experiência do colonialismo britânico e constatou que no século XIX, o Reino Unido teve algumas vantagens para além da tecnologia, como o exército colonial favorável, disciplina, treinamento, exército de nativos indianos, administradores coloniais, agentes de inteligência e cientistas colaboradores do interesse imperial333 – qualquer semelhança com as propostas de “Military Transformations” de Donald Rumsfeld não foi mera coincidência. Acompanhando Colin Powell, em relação à defesa do peso do contingente das forças armadas na capacidade militar, Max Boot (2014) defendeu que os serviços militares teriam uma função designada de “lutar as guerras da nação em defesa dos interesses nacionais.” Acrescentou: “se os EUA não estariam preparados para sujarem as mãos, deveriam ficar em casa.”334

Na academia, Everrett Dolman (2004) apresentou argumentos coerentes com a ala tradicionalista, principalmente ao destacar o papel e o peso das forças armadas no ambiente político e nas implicações democráticas. Na sua perspectiva, as Forças Armadas promoveram e ajudaram a manter a democracia liberal desde o início da sua formação organizacional, quando as milícias profissionais e voluntárias tinham um propósito democraticamente bem definido ao defender o sufrágio universal por meio do alistamento militar e fazer oposição ao controle “opressivo” da monarquia inglesa. Dolman (2004), no entanto, deixou algumas lacunas a serem compreendidas. Como, por exemplo, em relação a alusão de que “a contínua

333 BOOT, 2005.

preparação para a guerra, pelo propósito da liberalização política, é uma proposição inquieta para a maioria dos americanos.”335

Além de ter exagerado, ao dizer que as Forças Armadas dos Estados Unidos tiveram laços históricos estreitos com a defesa e a expansão da democracia pelo mundo, bem como, ao afirmar que “para onde os Estados Unidos caminham, o mundo segue...”336. Não esclareceu se o termo “inquieto”, supracitado, estaria imbricado na aversão da opinião pública ao histórico de guerra dos serviços americanos, ou se significaria a necessidade automática da participação das Forças Armadas em operações militares de contenção, fundamentada na vitória das batalhas travadas contra as forças “opressoras” do Reino Unido, França e Espanha, indispensáveis para o estabelecimento da democracia.

Evidentemente, houve uma sobrevalorização das expectativas sobre a participação militar nas decisões governamentais e, principalmente, em relação as suas “supostas” implicações democráticas, mesmo mencionando que “para as mulheres, os negros e os homossexuais serem mais aceitos na sociedade, deveriam anteriormente ter passado pelas Forças Armadas.”337 Ou seja, uma perspectiva enviesada na “supervalorização” militar epistemologicamente passível de revisões, se levado em consideração que os interesses dos militares e das demais bases do poder tecnológico-militar contribuíram pesadamente para a formação das preferências governamentais na construção das ameaças do pós-Guerra Fria.