3. ASPECTOS DA URBANIZAÇÃO EM MINAS GERAIS NO SÉCULO XIX

3.3 A NÁLISE ESPACIAL DA D INÂMICA DOS CORREIOS DA PROVÍNCIA

3.3.2. Os Trajetos dos Correios

A conformação dos trajetos de Correios apresentados nos mapas para a primeira metade do século é uma aproximação do que poderia ser os Correios em meados da década

de 1830, e se baseou em duas cartas dirigidas ao Presidente da Província36 (Mapa 5). Para a

segunda metade do século, entretanto, a pesquisa tornou-se bem mais segura e rápida na medida em que as fontes sobre as quais se debruçou eram documentos impressos (Mapa 6 e Mapa 7).

O delineamento das linhas de Correio em meados da década de 1830 tem alguns aspectos dignos de nota. Primeiramente vê-se que os Correios estabeleciam poucos elos de comunicação com outras províncias. Dentre eles, a linha que da Capital da Província seguia para a Corte tinha maior destaque por unir dois centros políticos e econômicos importantes. Era pelo horário e data de chegada das suas correspondências que se ajustavam o Correio do restante de Minas, tendo também esta linha um maior número de viagens mensais. Estes elementos, enfim, sugerem que esta linha era o centro nevrálgico das comunicações de Minas Gerais.

termo linha empreendido por parte dos próprios funcionários do Correio. As “linhas” definidas no Almank

...de 1870 (1869) na verdade são compostas de várias linhas que eram arrematadas ou administradas

independentemente umas das outras. Os nomes das “linhas” não existiam na sua tabela original e foram criadas para a construção deste estudo.

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O esforço de reconstituir todos os trajetos feitos pelos Correios na primeira metade do século XIX foi grande e as chances de se cometer omissões também, devido ao próprio tipo de documento explorado. A Carta da Administração dos Correios de Ouro Preto, assinada por Antônio Basílio Belo, ao Presidente de Província, datada de 03 de julho do ano de 1835, (SP/PP18, caixa 02, documento 39, APM), foi-nos muito útil, pois, nela, o administrador buscava informar ao Presidente de Província sobre todas as linhas de Correio em Minas Gerais. A Carta da Agência do Serro Frio, ao Presidente de Província, de janeiro de 1835, (SP/PP18, caixa 17, documento 61, APM), continha um projeto para reformulação do Correio que de Ouro Preto subia até ao Serro, e dali se dirigia a outras localidades mais ao norte. Neste projeto, por exemplo, o agente sugere que uma ramificação desse Correio chegasse até Carinhanha (BA). Embora haja evidências de que este projeto nunca houvesse sido concretizado, a sua utilidade consistiu em mostrar como o Correio era de fato, pois o texto com freqüência fazia referências às suas reais condições.

Mapa 5

Trajetos e número de condutores dos Correios Minas Gerais, década de 1830

Fontes:

APM, SP/PP18, caixa 02, documento 39; APM, SP/PP18, caixa 17, documento 61; APM, SP/PP18, caixa 02, documento 56.

Mapa 6

Comunicações Postais da Província de Minas Gerais, em 1867 Projetado por Henrique Gerber37

Fonte: Relatório...de 1867.

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As informações sobre os Correios de Minas na década de 1860, pelo projeto do engenheiro alemão Henrique Gerber, foram gentilmente fornecidas pelo Prof. Roberto Borges Martins. Gerber ocupava o cargo de engenheiro-chefe da Seção Técnica, da Diretoria Geral das Obras Públicas da Província.

Tabela 20

Linhas de correio, em 1867 Projetado por Henrique Gerber

Classe Condutores Cargueiro Velocidade

Primeira “1 estafeta montado” 3 “120 Kilom. por 24 horas”

Segunda “1 estafeta montado” 1 “80 Kilom. por 16 horas do

dia”

Terceira “1 pedestre” 1 “40 Kilom. por 10 horas do

dia”

Quarta “1 pedestre” “sem cargueiro” “40 Kilom. por 10 horas do

dia”

Particulares n.d. n.d. n.d.

De outras províncias n.d. n.d. n.d.

Fonte: Relatório...de 1867. Mapa 7

Trajetos dos Correios e emprego de cargueiros Minas Gerais, década de 1870

O Correio que comunicava com a Província de São Paulo parecia ter alguma importância. As cartas vindas da Corte dirigidas para as localidades da “Linha Sul” passavam pela província paulista ao invés de seguir o tronco principal de comunicação

entre Minas e Rio de Janeiro, que passava por Juiz de Fora e Barbacena38. Havia também

uma comunicação com Goiás, que muitas vezes na primeira metade do século, era omitida

nas cartas dirigidas ao Presidente de Província sobre as linhas de Correio39. Não há indícios

de que houvesse comunicação sistemática pelos Correios com as Províncias da Bahia e Espirito Santo.

Ao observar os mapas de trajetos, principalmente o da primeira metade do século, é possível vislumbrar um sentido geral dos trajetos dos Correios. Os serviços postais foram criados para atender justamente a carência de uma comunicação regular e institucionalizada da Capital do Império com Minas Gerais, e principalmente, com o seu maior centro político e econômico, Ouro Preto. O delineamento dos trajetos dos Correios não cumprem a tarefa de comunicar as várias regiões de Minas entre si, mas sim de comunicar cada lugar dessa Província com a Corte. Assim, os caminhos trilhados pelos condutores de cartas na porção meridional do território mineiro tinham predominantemente o sentido leste - oeste. Já na sua porção central e setentrional, o Correio caminhava mais no sentido norte - sul, sem muitas comunicações entre suas ramificações. Organizado dessa forma, pode-se observar também nos mapas, que os Correios ofereciam (e refletiam) baixa integração das localidades ao norte da Província, vis a vis ao sul. Ou seja, os Correios favoreciam a comunicação sul - sul e norte - sul, mas não norte - norte, do tipo Paracatu - Januária, por exemplo.

Na segunda metade do século, vão sendo criadas ramificações sobre os percursos mais antigos que complexificaram a circulação de informações dentro da província mineira. No entanto, estas alterações não resultaram em mudança radical na conformação das linhas de 1830, que acabaram por ser preservadas. Poder-se-ia dizer até que as modificações encontradas na segunda metade do século reforçaram as principais características já apontadas no início do Oitocentos, no sentido de que os fluxos sul - sul e sul - norte continuaram sendo mais favorecidos, enquanto que o norte permanecia desarticulado na circulação de correspondências. Isso é observado principalmente no Mapa 6.

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Martins (1864). APM.

39 A já referida carta que estabelecia as linhas de Correio existentes em Minas (SP/PP1

8, caixa 02, documento 39, APM) não menciona qualquer comunicação com Goiás. Muitos documentos do período, no entanto, admitem a sua existência, como por exemplo a carta da Administração de Correios de Ouro Preto de 3 de outubro de 1830: “Entre esta cidade e Goiaz há só a intermedia de S. João e as cartas para Goiaz vão na

mesma linha das de São João...” (SP/PP18, caixa 01, documento 05, APM). Pode-se conjecturar que a pouca importância dada a esta comunicação fosse reflexo de sua pouca importância a nível econômico e político para Minas Gerais, embora fosse muito importante para Goiás por esta linha ligar com a Capital do Império.

O objetivo de manter uma sólida estrutura de comunicação, via serviços postais, no entanto, parece ter sido alterado. Se na primeira metade do século a meta era, sobretudo, ligar o antigo centro político de Minas - Ouro Preto - com a Corte, na segunda metade do século, o interesse da Capital do Império em se comunicar com Minas se deslocava para a porção meridional da Província, onde se concentraram os melhoramentos dos Correios.

Dessa forma, no âmbito da circulação interprovincial de informações, as ligações de Minas com as províncias do sul (São Paulo e Rio de Janeiro) foram significativamente ampliadas (vide Figura 8). Estas alterações, somadas ao fato de ter sido estabelecida uma linha que ligava a Província ao Espirito Santo foram os únicos melhoramentos dos Correios na comunicação interprovincial na segunda metade do século.

Figura 8

Detalhe da “Carta das Communicações postaes da Província de Minas-Geraes, Projetada pelo engenheiro Henrique Gerber”, em 1867.

Obs.: Além da “linha de Primeira Classe” que ligava a Corte à cidade de Barbacena (MG) via Petrópolis (passando pela Cia. União e Indústria), Rio de Janeiro se comunicava com Minas, na sua porção sul, por mais outras quatro vias postais, sendo que parte considerável desse percurso (Corte até a Barra do Pirai - RJ) era feito de trem (pela Estrada D. Pedro II) o que pode sinalizar maior rapidez. Fonte: Relatório...de 1867.

A Bahia, via Correios, continuava incomunicável com o norte da província mineira, conforme se pode observar pela carta de 1866 enviada pela Câmara Municipal de Januária

ao Presidente da Província40. Segundo esta correspondência, as cartas do lugar destinadas à

40 Reproduz-se dessa carta o seguinte trecho:

“Sendo sua sede [de Januária] situada á margem do Rio de São Francisco, no Porto do Salgado, e seu Municipio confinando com a Villa de Carinhanha, Provincia da Bahia,(...) e sendo quasi todo o genero do commercio, que importa, e exporta neste Municipio o da Bahia: entende a Camara ser de necessidade uma linha de Correio desta Cidade a Villa de Carinhanha, para onde chagão as da Bahia, em quinze dias, quando nossas correspondencias pelo correio de Minas ao Rio de Janeiro, e deste a Bahia, dependem de

Bahia seguiam para o Rio de Janeiro para dali, via mar, chegarem enfim ao seu destino final. O pedido de se estabelecer um Correio com a Bahia, ao analisar o Correio da década de 1870 parece não ter sido atendido.

No documento O caso das minas que nao se esgotaram: a pertinácia do antigo núcleo central minerador na expansão da malha urbana da Minas Gerais oitocentista (páginas 79-85)