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Transbordamentos do olhar

No documento Flavia Liberman (páginas 140-144)

A partir da observação clínica, das falas dos participantes e dos estudos em torno do olhar e da produção de atmosferas, pareceu-me central destinar um momento para tra- tar do contato olho a olho e refletir sobre os efeitos provocados no corpo.

Considerei também que os olhares acompanhavam uma gestualidade – um tônus corporal, um comportamento, signos não-verbais, todos impregnados de afetos –, que provocava respostas muito refinadas que iam além da expressividade dos olhos.

Delicadas coreografias: instantâneos de uma terapia ocupacional

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Para Keleman, o olhar acompanha e é parte de uma forma somática que organi- za, estrutura e configura um comportamento motor/emocional metaestável.

Assim, quando analisamos propostas que envolvem o encontro entre olhares, tratamos de encontros entre corpos que se olham, reagem, respondem e, ao mesmo tempo, afetam a forma emocional.

Pode-se dizer que nos contatos corporais acontece uma conversa entre formas emocionais, vinculares, que pulsam segundo afetos de acordo com as intensidades pre- sentes no encontro.

Um olhar agressivo, por exemplo, é parte de uma estrutura somática que se ex- pressa em determinado momento, contexto e ambiente em relação a uma determinada situação ou acontecimento.

Da mesma forma, um olhar triste modula e é modulado por um corpo que constrói uma arquitetura somática pouco conectiva ao ambiente, tal como verificamos em mui- tos casos de depressão profunda.

Quando Silvana diz que se sentiu invadida pelo olhar de sua parceira, parece-me que não estava invadida pelos olhos do outro, ou mesmo por seu olhar, mas por toda uma

atmosfera, um ambiente de contato que se configurava naquela relação.

Penso portanto, e esta é uma das minhas hipóteses, que o olhar acompanha um estado de presença, que pode ser ameaçador, agressivo, perturbador, desafiador, amá- vel, de acordo com as forças que se engendram no encontro.

Como vimos, esses estados de presença produzem atmosferas que criam um ambiente entre as pessoas, presenças formatadas nas pequenas percepções que ema- nam dos corpos, tal como vimos anteriormente.

Outra idéia bastante perturbadora, e que nos faz pensar que há um transborda- mento necessário para a idéia de um olhar do corpo, está numa frase de José Gil:

“Não devemos esquecer, na sedução do olhar, o seu poder de irradiar sobre o corpo todo” (...) “É o corpo todo do outro que nos olha: a superfície da pele povoa-se de olhos, já não é preciso olhar-se um olhar, basta olhar um corpo para ser captado ou seduzido por ele, pa- ra receber a sua atmosfera ou a sua aura”. 26

Solicito que todos fechem os olhos e iniciem uma caminhada pela sala e que, ao encon- trar outro participante ou “alguma coisa” (parede, obstáculo etc.), realizem uma pausa, procurando captar a atmosfera produzida por aquele encontro.

Série Olhar

Ao se encontrarem, alguns participantes estabelecem uma aproximação corporal, tocam uma parte do corpo do outro, permanecem no contato por alguns instantes.

Os arranjos são construídos e desmanchados várias vezes, com o mesmo parceiro ou no encontro com outros componentes do grupo.

Depois de um tempo, e neste caso 27para finalizar a proposta, solicito uma pausa em de-

terminada configuração.

“Como sentem as atmosferas nos encontros?

“Muda alguma coisa em cada novo encontro/configuração?”.

Orientados por estas perguntas, os olhos se abrem, observam a composição grupal. Em seguida, como num susto, Bárbara, uma das participantes, pega sua máquina foto- gráfica, tira uma foto; passa a máquina para outra participante que realiza o mesmo gesto. Com isso, cria-se uma rede que envolve todo o grupo no gesto de fotografar uma cena a partir de um olhar-lugar. 28

Depois, as pessoas fecham novamente os olhos e encontram um parceiro com o qual irão trabalhar na próxima seqüência de exercícios.

Neste trabalho, como em outros, reforço a importância da concentração para cap- tar as sensações das atmosferas que se anunciam no encontro entre corpos. Observo que muitos participantes têm dificuldades de concentração, por isso sugiro que fechem os olhos, como recurso para distanciá-los da visão que pode restringir o exercício do olhar. Luciana se afasta um pouco de Claudia, permanece de olhos abertos como se quisesse distanciar-se do contato, sai rapidamente do que chamo de seu corpo ambien-

te, dirigindo-se para um contato que possa produzir outras sensações. Durante a conver-

sa, realizada posteriormente, fica nítido o seu desconforto.

“Me senti muito incomodada ao olhar algumas pessoas. Busquei um lugar que me permitisse olhar todo mundo à distância e acabei me sentindo fora do grupo”.

Bárbara circula por entre os corpos.Conta que foi tranqüilo se aproximar e se dis- tanciar e que foi tomada por uma alegria quando pôde se aproximar das outras pessoas. Diz ainda que não sentiu nenhuma vontade de abrir os olhos, deixando-se tocar pelo cli- ma amoroso que sentia no grupo.

Para realizar esta dinâmica levo o grupo a um silenciar de palavras que, pouco a pouco, permite aos corpos se abrirem para captar as pequenas percepções 29que ema-

27Em algumas oficinas o próprio grupo define o tempo de finalização da

proposta. Como este grupo tem como objetivo também refletir sobre os procedimentos na clínica, sugiro experimentações que propiciem a vivência corporal , mas que não se aprofundem necessariamente como o faria em um grupo terapêutico.

28Como já dissemos anteriormente, a fotografia permite o acesso a outros

aspectos impossíveis de captar quando se está implicado na experiência. Através de algum distanciamento, é possível saber mais sobre os

acontecimentos. Cabe ressaltar que não estamos privilegiando uma distância, mas experimentando lentes.

29Como já discutido, o termo pequenas percepções é utilizado por José Gil (1996)

para tratar das percepções sutis que não podem ser nomeadas. “São unidades infinitesimais de articulação (...), sinais ínfimos e invisíveis que povoam a claridade do espaço em busca de linguagem”, p. 52 .

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nam daquele acontecimento, reforçam na vivência a não necessidade da palavra como conexão, pois, muitas vezes, estas habitam excessivamente uma proposta e, por isso, im- pedem outros caminhos sensíveis.

Manuela rapidamente ficou silenciosa. O grupo, composto por oito participan- tes, permitiu que o silêncio de palavras acontecesse.

As pessoas estabeleceram momentos para compartilhar intimidades, o que favo- recia a dinâmica; porém, ficou claro naquele e em outros contextos que os contatos cor- porais exigiam dos participantes outras disposições, tocavam a cada um de um modo, mobilizavam e ativavam memórias, sensações e respostas às vezes muito delicadas e quase imperceptíveis a “olho nu”.

Quando surgiam após a vivência, na maioria das vezes, as palavras não substi- tuíam alguma angústia ou ansiedade do contato, mas expressavam aquilo que aconte- cia nos encontros.

Além disso, nesta proposta as aproximações e os afastamentos dos corpos estão sempre sinalizados por atmosferas e um olhar mais sensível permite captar e guiar-se por aquilo que afeta.

Aninha, ao referir-se à dinâmica, fala da intensidade vivida naquelas aproximações.

“Mesmo diferente a cada contato ou configuração, estar muito próximo das outras fez seu coração bater, um calor subir, uma vontade de permanecer ali por muito tempo.”

Este comentário revela que o exercício do olhar produz respostas variadas e sin- gulares nos corpos que participam e expressam essas “com-posições”. Dores de barri- ga, de cabeça, taquicardia, enrijecimento dos músculos são algumas manifestações observadas e mencionadas pelos participantes como fruto dos contatos intensivos que acontecem em algumas dinâmicas.

Não se pode separar então um corpo orgânico de um corpo “subjetivo”, pois são dimensões de um mesmo corpo que formatam um ambiente metaestável30em cone-

xão e produzido por outros ambientes. Tal como Keleman propõe: um corpo que é par- te da biosfera, produzido e produzindo realidades físicas, culturais, subjetivas, sociais, históricas.

Outro ponto importante nessa dinâmica é a efetuação de linhas de fuga31que

compõem esta e todas as dinâmicas que produzem respostas, que se desviam do à

priori, tal como a máquina fotográfica que se presentifica na composição ou um gesto,

um andar, ou olhar que se formatam instantaneamente, às vezes de modo fugidio e quase inapreensível à nossa sensibilidade.

30Grifo meu

31“A linha de fuga é uma desterritorialização (...). Esse conceito define a

orientação prática da filosofia de Deleuze. Observa-se, em primeiro lugar, uma dupla igualdade: linha = fuga, fugir= fazer fugir. O que define uma situação é uma certa distribuição de possíveis, o recorte espaço-temporal da existência (papéis, funções, atividades, desejos, gostos, tipos de alegrias e dores etc). Não se trata tanto de ritual de repetição morna, de alternância demasiado regulada, de exigüidade excessiva do campo das opções–, mas da forma dicotômica, da possibilidade disto ou daquilo, de disjunções de toda a ordem (masculino/ feminino, branco/preto etc) que estriam a percepção, a afetividade, encerrando as experiências”.

Série Olhar

O que está em jogo não é o encontro entre os sentidos da visão, que procura cap- tar uma perna, um braço, as costas, uma parede, esquadrinhando e revelando um es- paço-temporal, que, implicado e produzindo espaços-tempo, acaba por impregnar-se pelas intensidades que circulam e são produzidas pelos encontros.

Carolina afirma: “parece que consegui de fato estar próxima de algumas pes-

soas. Às vezes a gente está fisicamente junto de alguém e não sente”.

“Estou tão tocada por esta proposta, tem tanta intensidade aí, que minhas pernas estão trêmulas”.

Podemos ainda notar que as respostas do corpo às afetações transitam pelas in- tensidades que criam trilhas de excitação nervosa pelo corpo, constroem uma determi- nada forma corporificada que permanentemente se constrói e se desmancha.

As pernas trêmulas, o coração que acelera, a respiração que bloqueia, o enrijeci- mento muscular, o pulso que aumenta, as emoções produzidas pelo encontro, os pensa- mentos que se multiplicam são algumas das possíveis respostas do corpo àquele encontro, em um contexto em particular, o que mostra que fazemos corpo a cada instan- te num processo infinito que age e reage nos e aos ambientes.

No documento Flavia Liberman (páginas 140-144)