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Transferência de cidade e reposicionamento social 

3 INSERÇÃO NO ESPAÇO SOCIAL CURITIBANO (1949‐1951) 

3.1  Transferência de cidade e reposicionamento social 

 

Na  coluna  “No  lar  e  na  sociedade”  da  edição  de  3  de  julho  de  1949,  o  Diário  de 

Notícias  do  então  Distrito  Federal  anunciava:  “estão  habilitados  para  casar  [...]  Sydnei 

Lima  Santos  e  Maria  de  Lourdes  Rangel”.77 Cinco  dias  depois,  em  8  de  julho,  o  mesmo  periódico  noticiava,  na  seção  de  “Permissões”  do  “Boletim  da  Diretoria  do  Pessoal  do  Exército”,  o  deferimento  do  pedido  de  permissão  feito  por  Sydnei  para  “contrair  matrimônio”.78 Uma semana mais tarde anunciava‐se a cerimônia:     Realiza‐se hoje, às 15 ½ horas, na Igreja de São José, o casamento da senhorita  Maria de Lourdes Rangel, da sociedade curitibana, filha do sr. Flávio Rangel e da  d. América Rangel, com o tenente Sydnei Lima Santos, filho do sr. Astolfo Severo  Dias dos Santos e de d. Alayde Lima Santos.79 [grifos do autor].   

Sydnei  era  então  segundo‐tenente  de  infantaria,  tinha  24  anos  e  formara‐se  na  Escola Militar havia pouco mais de seis meses, no final de 1948. Em 3 de março de 1949,  o  Correio da Manhã  registrara  uma  convocação  da  divisão  de  pessoal  do  Exército,  que  incluía Sydnei entre outros recém formados de Resende, para o recebimento de carta‐ patente, o que indicava a formalização da posição de aspirante a oficial.80 Pouco tempo  depois,  em  5  de  julho  do  mesmo  ano,  encontra‐se  registro  da  primeira  promoção  de  Sydnei  na  carreira,  promoção  de  aspirante  a  segundo‐tenente.81 Portanto,  quando  se  casou, havia acabado de receber sua primeira promoção. 

      

76 O  capital  social  é  um  “crédito”  cuja  fonte  é  o  pertencimento  a  determinados  grupos:  “é  a  soma  dos 

recursos  reais  ou  potenciais  ligados  à  posse  de  uma  rede  durável  de  relações  mais  ou  menos  institucionalizadas  de  conhecimento  e  reconhecimento  mútuo  –  ou,  em  outras  palavras,  à  condição  de  membro  de  um  grupo  –  que  proporciona  a  cada  um  de  seus  membros  o  apoio  do  capital  possuído  pela  coletividade,  uma  ‘credencial’  que  os  permite  ter  crédito,  nos  vários  sentidos  da  palavra”  (BOURDIEU,  1986, p. 51).  77 Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 3 de julho de 1949, p. 6.  78 Idem, 8 de julho de 1949, p. 3.  79 Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 de julho de 1949, p. 12.  80 Idem, 3 de março de 1949.  81 Diário de Notícias, 5 de julho de 1949; A Manhã, Rio de Janeiro, 6 de julho de 1949. 

Maria de Lourdes era normalista, isto é, formada no magistério, na então Escola de  Professores  do  Paraná,  sediada  em  Curitiba.82 Nascida  lá,  chegou  a  trabalhar  como  professora.  Tendo  uma  profissão,  a  moça  era  uma  mulher  “independente”  para  os  padrões de uma cidade que, em 1950, tinha menos de 200 mil habitantes. Se não o fosse,  ao menos em alguma medida, dificilmente teria conhecido Sydnei no Rio de Janeiro e se  casado  lá,  longe  da  família,  e  com  um  homem  mais  novo;  Maria  de  Lourdes  tinha  27  anos,  sendo,  portanto,  três  anos  mais  velha  do  que  Sydnei.  Além  do  mais,  a  moça  era  branca,  de  uma  família  de  certa  inserção  social  na  cidade,  e  voltava  da  Capital  da  República casada com um oficial do Exército negro, carioca, e que acabava de começar  sua carreira. 

É  preciso  destacar  três  pontos  a  respeito  de  sua  atitude.  Primeiro,  tratou‐se  certamente de uma decisão subversiva frente a família e, de maneira mais ampla, frente  à moralidade da época. Tanto pela diferença de idade quanto pela cor do marido – que,  embora de constituição física pequena (não era alto nem muito forte), tinha talvez um  charme de mulato (romantizado por Gilberto Freyre em seu capítulo sobre “o bacharel e  o mulato” [FREYRE, 1977]), quem sabe temperado por certa simpatia e loquacidade  de  carioca, que não deixava de mexer com os estereótipos acerca da sexualidade tropical,  “brasileira”.  Tão  distante  do  também  estereotipado  jeito  curitibano.  Segundo,  como  veremos mais adiante, a mãe de Maria de Lourdes, dona América, se separara do marido  quando a filha era ainda pequena, nos anos 1920 ou 1930. Professora, como a filha viria  a ser, era também uma mulher “independente”. Assim, a atitude subversiva de Maria de  Lourdes, que se casou, ao que tudo indica, longe dos olhos e dos comentários da família e  da “sociedade curitibana”, tinha precedentes muito próximos. Um último ponto que deve  ser ressaltado reúne aspectos dos demais. Aproximava‐se dos 30 anos, idade em que era  considerado  normal  moças  já  estarem  casadas,  e  pode  ainda  que  fosse  considerada  independente demais aos olhos da moralidade machista da cidade pequena. 

Sydnei  e  Maria  de  Lourdes  se  conheceram  no  Rio  de  Janeiro  quando  estava  hospedada  na  casa  de  um  tio.  O  tio  morava  na  penúltima  casa  de  uma  vila  na  Rua  Leopoldina,  bairro  da  Piedade. Sydnei  tinha  um  amigo  próximo  (e  colega  do  Colégio  Militar) que morava justo ao lado, na última casa da mesma vila (TRAJETÓRIAS, 2002, p.        

82 A  instituição  foi  fundada  em  1876  como  Escola  Normal  ligada  ao  Ginásio  Paranaense.  Atualmente, 

735). E moravam também o próprio Sydnei e sua família no bairro da Piedade, na Rua  Bernardino de Campos (ibidem). Ele era, portanto, quase vizinho do tio da moça e tinha  um amigo que morava justamente na casa ao lado. Sydnei e Maria de Lourdes devem ter  começado a namorar pouco depois que Sydnei havia terminado o curso da Escola Militar  e voltado para o Rio de Janeiro, no final de 1948. Ela pode ter estendido a estadia no Rio  e não demoraram muito para tomar uma decisão mais definitiva. 

Casando‐se  em  julho  de  1949,  no  Rio  de  Janeiro  mesmo,  eles  logo  tiveram  o  primeiro filho, Sydnei Antônio Rangel Santos, que era “pequeno” quando o tenente pediu  transferência para Curitiba. O casal mudou‐se em setembro de 1951 (idem, p. 736). Ao  lado  da  maior  tranquilidade  oferecida  pela  capital  paranaense,  um  dos  principais  motivos que tiveram para mudar para Curitiba, segundo Sydnei, foi a proximidade com  os parentes e conhecidos da esposa, que poderiam auxiliar nos cuidados com o pequeno  (idem,  p.  735‐736).  Ela  deveria  apostar  que  a  família  acabaria  por  aceitar  bem  sua  decisão se pudesse conhecer melhor o marido. Os demais filhos do casal, três homens,  nasceriam na nova cidade.  

Outra razão importante para a mudança foi a vida corrida que se levava no Rio de  Janeiro. Por um lado, a atividade militar era intensa na capital. Sydnei lembrou que na  época  os  militares  viviam  de  prontidão  com  medo  de  ações  dos  comunistas  e  que  ele,  casado havia pouco, precisava passar longos períodos em operações de campo (ibidem).  Por  outro  lado,  a  vida  era  corrida  também  porque  os  deslocamentos  entre  a  casa  e  o  trabalho  eram  longos  e  Sydnei  os  realizava  em  transporte  público;  o  tempo  era  ainda  mais exíguo porque começara a dar aulas em um curso depois do expediente no quartel.  De acordo com o relato dele sobre a vida naquela época, “saía de casa às quatro horas da  manhã para, às sete, estar em forma lá na Vila Militar. Saía do quartel às quatro e meia,  cinco  horas  da  tarde  e  chegava  em  casa  às  nove  e  meia,  dez  horas  da  noite  em  casa”  (idem, p. 737). 

É  razoável  inferir  que,  muitos  anos  mais  tarde,  quando  deu  esse  depoimento,  Sydnei tenha lembrado de tantas coisas que lhe desagradavam na vida no Rio porque o  pensava  em  contraste  com  a  vida  que  o  casal  passou  a  ter  em  Curitiba.  As  distâncias  eram  muito  menores  e  não  se  perdia,  em  deslocamentos,  nada  perto  do  tempo  de  transitar  entre  o  subúrbio,  a  Vila  Militar  e  o  centro  do  Rio.  Alguns  minutos  bastavam  para ir de casa até o quartel do Bacacheri, onde servia. Pouco mais de um ano depois de  ser  transferido  para  Curitiba,  Sydnei  foi  promovido  a  capitão  e  passou  a  desfrutar  de 

carona  diária  de  casa  para  o  quartel  e  vice‐versa,  em  viatura  do  Exército.  Tinha  mais  tempo livre em virtude dessas facilidades. Ainda com relação à vida profissional, viera  transferido de um centro, a Capital da República, onde se tinha contato direto com tudo  o  que  havia  de  mais  atualizado,  em  termos  técnicos,  o  que  lhe  foi  importante  para  conseguir  uma  função,  no  quartel,  do  tipo  que  desejava,  isto  é,  de  instrução  (sua  predileção por funções ligadas ao ensino será discutida no quarto capítulo). 

Da perspectiva analítica, a principal implicação da mudança foi o reposicionamento 

social. Ou seja, a simples transferência de um espaço social a outro modificou a posição  de classe, mesmo que mantidas as mesmas condições de classe (o soldo, as prerrogativas 

objetivas  do  oficial  etc.).  Assumo,  com  Pierre  Bourdieu,  que  em  espaços  sociais  diferentes,  como  o  eram  o  da  capital  da  República  e  o  da  provinciana  Curitiba,  as  mesmas  condições  –  profissionais,  de  vida  material  –  proporcionavam  posições  diferentes, pois as posições se definem no espaço social em relação às outras posições e  ao sistema que compõem como um todo (BOURDIEU, 2007, p. 3‐6). 

Tem  também  peso  importante  nessa  requalificação  o  status  diferencial  do  oficial  do  Exército  na  Capital  em  contraposição  a  seu  status  relativamente  maior  na  Curitiba  dos anos 1950. É claro que é preciso levar em conta que o status do oficial militar, em  geral,  ganhava  importância  conforme  o  Exército  se  tornava  ao  mesmo  tempo  “moderador e participante” na política da Segunda República (McCANN, 2007, p. 557) –  e,  é  claro,  principalmente  após  o  golpe  de  1964.  O  status  de  oficial,  ademais,  potencializava o acesso a grupos tanto menos acessíveis quanto mais poderosos. 

Um dos efeitos mais importantes do reposicionamento sobre a trajetória de Sydnei  foi  abrir  as  portas  do  convívio  em  círculos  de  posição  social  superior  àqueles  que,  presumivelmente,  devido  à  sua  origem  de  classe,  constituíam  os  relacionamentos  do  tenente Sydnei no Rio de Janeiro. Entretanto, seria muito difícil traçar o significado e a  dimensão  desse  efeito  levando  em  conta  apenas  uma  ideia  abstrata  da  nova  posição  enquanto  oficial.  E,  sobretudo,  ela  não  produziu  efeitos  sobre  a  trajetória  senão  em  combinação com outro elemento, ainda mais importante. 

A  notícia  que  anunciava  o  casamento,  no  jornal  do  Rio  de  Janeiro,  referiu‐se  a  Maria de Lourdes como uma “senhorita da sociedade curitibana”. Uma pequena pesquisa  nos  anúncios  de  bodas  do  mesmo  jornal,  algumas  semanas  antes  e  algumas  semanas  depois da data do casamento, revela que, se informações sobre as profissões dos noivos  eram  comuns,  aparecendo  mais  ou  menos  na  metade  das  notas  (incluindo  várias 

referências  a  patentes  militares),  uma  qualificação  do  tipo  “da  sociedade...”  não  o  era.  Seguindo  a  pista  da  caracterização  da  noiva,  veremos,  a  seguir,  quem  era  Maria  de  Lourdes  naquela  “sociedade  curitibana”  –  o  que  nos  levará  a  indagar  quem  era  a  sua  família  –,  já  que  o  pertencimento  a  essa  sociedade  foi  considerado  digno  de  nota  pelo  redator do anúncio ou por quem porventura o tenha encomendado.