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Transformando o ensino superior, construindo a liderança

5.3 AS MULHERES E A CAMINHADA NAS/DAS INSTITUIÇÕES DE

5.3.3 Transformando o ensino superior, construindo a liderança

“Os pioneiros sempre são pessoas marcadas, pessoas que tem que

carregar a chama acessa” (Diva).

“[...] nunca eu havia imaginado que ia trabalhar como uma executiva,

como uma liderança.” (Elvira).

“Eu não busquei o cargo... quer dizer, na verdade eu construí [o

cargo].” (Clarice).

Todas as mulheres deste estudo afirmaram não terem tido desejo consciente de serem reitoras. Esta é uma marca da trajetória dessas mulheres: elas nunca se imaginaram como líderes, diretoras, reitoras. Contudo, elas lideraram importantes processos de mudanças, o que se deu gradativamente em suas caminhadas no ensino superior. Ao longo desse caminho elas foram se tornando líderes dentro de seus grupos.

Diva lembrou como foi difícil lutar pelas mudanças, fazer valer suas idéias e crenças sobre o que deveria ser a educação superior. No início, apenas duas pessoas dentro de sua instituição compartilhavam convicções: “Era mais uma professora e outra professora. E nós começamos a pensar, discutir, a forçar a barra mesmo! No começo foi uma ‘forçação’ de barra, não só na cidade, mas dentro da universidade! Nós encontramos muita resistência!” (Diva).

Então, aos poucos, foram “vencendo, aderindo outras pessoas ao grupo que lutava pela criação da universidade” (Diva). E, ao passo que outras pessoas foram aderindo, sua liderança foi sendo construída, num “trabalho diuturno de convencimento” (Diva). A universidade foi sendo edificada com a participação da comunidade, que passou a abraçar a causa. Diva construiu sua liderança a partir de um grupo que iniciara com três mulheres: “eu nunca perdi a coragem e minha equipe também era muito corajosa. Então eu trabalhei sempre em equipe.”

Clarice também tem uma história muito parecida com a de Diva. Quando começou a lecionar na faculdade, já trazia consigo muitos ideais concebidos durante o mestrado. Quando começou a lecionar – na mesma faculdade onde havia se graduado – tinha uma visão muito diferente daquela que possuía durante sua graduação. Tinha vontade de realizar mudanças que antes não percebia como necessárias. Então, ela “não buscou o cargo”, na verdade, ela “construiu [o cargo]”. Ela participou “do processo de construção de uma universidade” que, por conseqüência, “construiu essa questão de reitora” (Clarice).

Clarice já era diretora da Fundação que mantinha as duas faculdades de sua cidade, quando passou a lutar pela “transformação daquelas instituições em uma universidade”. Assim, criou uma comissão de homens e mulheres, que foi fundamental para esse processo de transformação. Clarice confessou que esse momento foi mesmo “um processo muito de cima pra baixo, não um processo de baixo pra cima como a gente tinha começado lá atrás, naquele grupo pequeno.” (Clarice).

Clarice descobriu, mais cedo do que Bernadete, que se quisesse influenciar as mudanças em sua instituição teria que estar no centro das decisões. Contudo, lutar pela transformação não significava, para ela, necessariamente, assumir o cargo de reitora. Ela não quis aceitar a indicação para concorrer ao cargo, quando este foi criado. Já estava cansada, pois desde 1994 vinha trabalhando nesse processo: “já eram 8 anos, né! Muito tempo aqui... mas enfim!” (Clarice). Mas quando a universidade foi criada, ela acabou aceitando que seu nome fosse indicado para concorrer à reitoria.

Clarice acredita que estava num determinado lugar em que abraçou causas que nem eram suas, planos dos quais até certo ponto ela nem tinha participado, mas que se

aproximavam muito das idéias em que acreditava. Clarice se associou a pessoas e acabou “assumindo um papel que não tinha projetado assumir”, mas que aceitou, pelo compromisso que tinha com aquele pessoal, com aquelas idéias. Ela diz não entender direito o que aconteceu: “nunca passou pela minha cabeça, eu nunca pretendi assumir nenhum cargo público nem privado, eu nunca busquei isso, é meio complicado.” (Clarice).

Em paralelo a esse processo de transformação, Clarice enfrentou outras batalhas pessoais no caminho de tornar-se uma líder de seu grupo: “[eu] não era da cidade, não era da Região, não era professora universitária, foi tudo assim muito novo, muito desafio, um desafio em cima do outro. [...] eu tive que aprender legislação, eu tive que aprender contabilidade e tudo assim, na prática!” (Clarice).

Ela passou por todos os cargos, trilhou caminhos que nunca imaginou um dia ter que passar, trajetórias que significaram a construção de uma forte liderança dentro da instituição em que foi reitora.

Por outro lado, Alda não acreditou quando o fundador da instituição de ensino superior onde lecionava a intimou a ser diretora. Ela sempre desempenhara liderança em sua comunidade; sempre fora exemplo de retidão, educação e respeito; fizera um excelente trabalho nas escolas da cidade. Mesmo assim, não acreditou que pudesse dirigir o estabelecimento e teve medo. Até então, aquela nunca fora uma causa sua.

Não fazia parte dos planos de Alda ser uma executiva da empresa de seu pai, determinação da qual já havia declinado muitos anos antes, nem desejava dirigir aquela instituição que seu amigo havia criado e que ninguém sabia ao certo o que era. Porém, ao aceitar o apelo do padre Almir, Alda fez do ensino superior uma causa pessoal. Assumiu os ideais do amigo e fortaleceu o grupo que a rodeava. Legitimou o ensino superior em sua cidade e construiu o que viria a ser a instituição que passou a dirigir.

Sempre teve uma voz forte, mas também soube ouvir: “a gente planejava alguma coisa, então aquela luta pra chegar lá e aí a gente chegava! E sempre tinha um grupo muito unido. Quando alguém dizia: ‘Vamos lá. Opa, então vamos!’” (Alda).

Alda foi questionada sobre os rumos que deu à sua instituição, mas sempre esteve certa de que as decisões que tomou foram construídas em grupo: “Então, lá no conselho estadual me questionaram, em público: ‘porque vocês não se transformam em universidade?’ Eu disse: ‘porque nós não nos sentimos como universidade. Porque a nossa concepção da palavra universidade é outra!’” (Alda).

Alda sempre foi porta-voz de um grupo que lutava de forma coesa. Ajudou sua instituição a transformar-se em um centro universitário. Porém, seu grupo partilhava a idéia

de que a universidade é algo diferente e eles não desejavam essa mudança. Por compartilhar dessa idéia, sofreu pressões das políticas educacionais. Nem por isso aderiu à onda de criação de universidades, conforme disse. Queria preparar sua instituição para esse processo.

A instituição de Alda iniciou suas atividades com apenas um curso, a faculdade de Estudos Sociais, e passou pelo processo de transformação de Centro de Ensino Superior em Centro Universitário: “porque essa legislação de Centro Universitário, ela veio muito mais recentemente, eu acredito que começou lá no final de 96, 97 que surgiu essa legislação, e nós fomos a primeira do Estado.” (Alda).

Porém, Alda não fez nada sozinha. Fazia parte de “um grupo coeso, alguns ainda estão na reitoria, alguns em outros setores, mas nós estávamos todos juntos! Nós todos juntos fizemos o trabalho, lutamos! Foi um trabalho em conjunto mesmo, e não posso dizer que houve alguém que se sobressaiu, eu como reitora... não! Era assim: ‘gente, vamos partir pra isso? Então vamos!’” (Alda). Compartilhar com o grupo fez parte da trajetória de todas as reitoras.

No caso de Bernadete também houve esta partilha. Sempre foi membro dos conselhos de sua instituição, mas participava mais “por falta de pessoas, éramos um grupo pequeno”. Ela lembra que, mesmo pertencendo ao conselho, “a gente se inteirava, mas de pouca coisa, do modo como eles faziam a gestão”. A instituição de Bernadete estava sob o poder de uma congregação religiosa da cidade, que não tinha nenhum interesse em que a situação mudasse.

O pequeno grupo de “leigos”, do qual Bernadete fazia parte, nunca teve coragem para se insurgir contra as coisas que consideravam erradas. Nunca se engajaram politicamente para lutar por aquilo que acreditavam ser o correto. Em todo caso, havia da parte desse grupo uma preocupação com o fato de a congregação dirigir a instituição “como se fosse propriedade deles”. Aquela era “uma instituição municipal! Como o é a maioria das instituições de ensino superior de Santa Catarina. Todas elas provêm do mesmo modelo: as fundações municipais, que criaram escolas e se transformaram em grandes universidades hoje.”

Foi apenas quando percebeu o momento crítico pelo qual passava o estabelecimento que Bernadete resolveu assumir a liderança do grupo, uma vez que poucas alternativas restavam. Ela percebeu que, se quisessem realizar as mudanças necessárias para a sobrevivência da instituição, teriam que “estar no centro da decisão, porque perifericamente a gente conseguia muito pouco”. O momento em que assumiu a liderança foi instigado por um

[...] sentido de urgência, que é dado pela maturidade. A gente vai ficando mais velha e vai percebendo que não tem mais tanto tempo pela frente e, se quiser influir para alterar, eu tenho que assumir, me expor, que lutar, que assumir mesmo, ter

visibilidade, ser visibilidade, ser vidraça que é o que uma executiva acaba fazendo, né?! (Bernadete).

O processo se iniciou em um momento crítico, quando a continuidade da instituição foi questionada. Então, o grupo começou a se mobilizar por causa da urgência da situação: “chegamos à conclusão de que nós não permitiríamos que as coisas acontecessem mais como era habitual: eles convidavam pra uma reunião, havia uma eleição [pró-forma], punham os candidatos, ninguém mais se candidatava e se reelegiam sempre” (Bernadete).

Bernadete se candidatou à presidência da Fundação e, assim, tornou-se diretora da instituição de ensino superior em que era professora. Para tanto, teve o apoio dos colegas, que queriam mudanças que protegessem a instituição como um bem da comunidade.

Já para Elvira, o processo de construção da liderança começou muito cedo em sua trajetória. Mesmo nas escolas em que lecionou, assumiu funções administrativas que a apontavam como uma líder entre as colegas. Ainda muito nova foi convidada, como professora de Inglês, a coordenar o Departamento de Inglês de uma escola.

Mais tarde, já como professora na universidade, tornou-se uma pessoa sempre envolvida com as atividades acadêmicas e administrativas. Logo de início, foi convidada a coordenar o estágio, depois substituiu a chefia por um período. Elvira conta que se “dava bem com as pessoas” e sempre gostou “desta questão de administrar, coordenar.” Com o passar do tempo, foi se envolvendo em diversas atividades, tais como, o jornal universitário e a revista do centro. Mais tarde, como “representante do centro”, a eleição para a direção de ensino e pesquisa foi fundamental em sua carreia.

Contudo, como as outras entrevistadas, ela afirmou que nunca sonhou com a reitoria ou qualquer cargo mais elevado dentro da universidade. Almejara fazer o doutorado fora do país. Elvira analisa sua história e considera que sua caminhada foi lenta e sempre crescente:

Eu fui indo... então acho que não foi assim uma coisa que eu simplesmente cheguei lá... saí daqui e cheguei lá. Não, eu tinha essa trajetória com atividades num âmbito menor, né. E sempre fui com muito dedicação: se eu assumo uma coisa, eu assumo pra valer. Eu não sei assumir uma coisa pela metade. Ou eu faço, ou eu não faço. Eu não consigo enrolar.... E, claro, eu tive dificuldades também. (Elvira).

Elvira construiu entre seus pares uma imagem que a aproximava “das pessoas de esquerda”, daqueles que lutavam pela igualdade dentro da universidade. Ela sempre acreditou na igualdade como um bem de todos: “Eu me lembro tão bem da luta que se tinha pras eleições, pra direção de centro... Assim, as manipulações que eram feitas por essas pessoas

que achavam que a democracia, que essa coisa de todo mundo votar, que não podia... e a gente ter que enfrentar, poder fazer frente, né, com uma outra proposta.” (Elvira).

A exemplo de Elvira, as mulheres que se tornaram reitoras em Santa Catarina sempre foram guiadas, “por aqueles ideais democráticos da Revolução Francesa, que ficaram como uma coisa muito forte [...]” (Bernadete) na juventude da época. Elas sempre quiseram as transformações. Por esse motivo, talvez possamos dizer que elas se aproximam de um estilo de liderança transformacional: elas queriam mudanças que privilegiavam a todos. Não defendiam interesses próprios.

Tais sentimentos deram coragem para que lutassem por suas instituições, fosse por suas práticas docentes, fosse por pequenas ou grandes mudanças no ensino superior. Contudo, essa coragem de enfrentamento, essa atitude de contestação do status quo, não as eximiu de serem tomadas por sentimentos de medo e aflição no momento em que assumiram a reitoria.