• Nenhum resultado encontrado

Transformando os discursos e as práticas sobre as drogas

2. ELEMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

3.1. CONSTRUINDO UM SERVIÇO ESPECIALIZADO NA BAHIA (1985)

3.1.3. Transformando os discursos e as práticas sobre as drogas

Apresentamos até o momento uma caracterização deste campo científico quanto aos conhecimentos e discursos sobre o uso de drogas e das estratégias para lidar com este tema, chamando a atenção para que as práticas terapêuticas estavam, hegemonicamente, sob controle dos médicos psiquiatras. A equipe do CTPD insere uma novidade neste campo, à medida em que busca distanciar-se do discurso médico e encaminhar-se para o discurso social e da psicanálise sobre o consumo de drogas.

Tratamos de identificar como se deu essa mudança a partir da leitura de textos publicados pelo coordenador do CPTD no ano de 1986 e copiados no primeiro relatório técnico do Centro. A primeira e fundamental questão trazida diz respeito a compreensão da droga como um fenômeno cultural carregado de significados e valores construídos historicamente. Desta forma, a droga passou a ser entendida como um elemento simbolicamente representado que remete a um ritual de passagem, podendo, portanto, seu uso ser mais comum durante a

C T P D Assistencial/ Clínica Individual Grupo Inter-familiar Intra-familiar Usuário Informativa/ preventiva Rede escolar Rede CSU Rede saúde Associações civis ou religiosas Científica/ ensino Congressos, simpósios, etc Publicações Centro de formação

48

adolescência, período marcado por uma transição socialmente representada por diversos símbolos, sendo a droga um deles.

No artigo “A droga: uma questão a esclarecer”, publicado na revista Psiquiatria Hoje, Antonio Nery inicia dizendo que: “A questão do tóxico é uma questão do humano”, para em seguida afirmar que o consumo experimental de drogas “nada tem de patológico”, já que “[...]

nem todos que têm contato com algum tipo de droga tornam-se dependentes, ou pelo menos, não desenvolvem o mesmo tipo de relação com o produto” (NERY FILHO, 1986 apud

RELATÓRIO CTPD, 1986).

Segundo o autor, o uso curioso, recreativo ou experimental, deverá ser diferenciado da dependência, que é definida pela forte relação entre o sujeito e a droga, em que permeiam o prazer e o risco de morte. Essa diferenciação é necessária, já que cada caso requer uma terapêutica específica, correndo-se o risco de introduzir danos por meio de uma abordagem “psiquiatrizante” a um jovem experimentador de drogas, por exemplo. Sobre o utilizador circunstancial Nery explica que:

"[...] a utilização eventual ou esporádica da droga, caracterizando os chamados experimentadores, nada tem de patológico, não cabendo, quanto a estes, qualquer atuação além de fornecer-lhes adequada informação (NERY FILHO apud RELATÓRIO CTPD, 1985).

Além desta importante diferenciação entre uso experimental e dependência, o texto também traz um elemento fundamental para a abordagem ao dependente, e que será um diferencial naquele momento. Este diferencial era a compreensão de que qualquer intervenção só teria êxito se houvesse o desejo do sujeito pelo tratamento. Diferente dos usuários que Antonio Nery atendia no Manicômio Judiciário, que estavam ali de forma involuntária e compulsória para tratamento, ele buscava fazer algo diferente. Para tratar do dependente de drogas, afirma que:

“Nestes casos, qualquer intervenção só terá possibilidade de sucesso se atender à solicitação voluntária do dependente e considerando sempre sua personalidade, a droga utilizada e o momento sociocultural" (NERY FILHO apud RELATÓRIO CTPD, 1986).

Em outra publicação analisada, “Consumo de drogas: uma questão de terapia? ”, publicada no boletim da Associação Psiquiátrica da Bahia (NERY FILHO apud RELATÓRIO CTPD, 1986), o professor Nery vai contextualizar o que era, naquele momento, o cenário do tratamento para o consumo de drogas em nosso estado:

49 “A propósito das drogas que causam dependência, uma questão sempre considerada diz respeito ao tratamento: muitos creem que a hospitalização sistemática e indiscriminada dos consumidores, geralmente em hospitais ou clínicas psiquiátricas seja a solução; outros propõem a utilização de medicamentos, frequentemente neurolépticos, as vezes sem o consentimento do chamado toxicômano; e há ainda aqueles que defendem pura e simplesmente a prisão e o trabalho obrigatório, como se todos fossem marginais e necessitassem de medidas punitivas que os reconduzissem à normalidade social” (NERY FILHO apud RELATÓRIO CTPD, 1986).

Percebe-se que, naquele momento, Antonio Nery buscava um afastamento do modelo biomédico hegemônico, amparado pelo hospital psiquiátrico, bem como do modelo jurídico- moral e policialesco que criminalizava o usuário, tratando-o como delinquente. Levanta críticas ao modelo biomédico/psiquiátrico por não diferenciar usuário experimental e dependente, o que para ele produz efeitos danosos aos jovens experimentadores, como já dissemos anteriormente. Aqueles jovens usuários de maconha, que passavam por uma perícia médica, sempre despertaram no professor Nery um olhar crítico, conduzindo-o nesta busca por uma abordagem mais adequada.

Este novo modo de conceber o consumo de drogas e os seus usuários, bem como as críticas lançadas ao modelo vigente, foram construídos a partir da experiência e atuação de Nery no manicômio judiciário e de seu estágio no centro francês. Como já vimos, esses dois momentos de sua carreira foram fundamentais para a construção do CTPD e de sua estrutura conceitual e organizacional. O uso de drogas passa a ser também visto a partir de suas dimensões socioculturais, como um fenômeno eminentemente humano, assim como em suas dimensões subjetivas, na perspectiva da história de cada sujeito em sua constituição complexa e singular.

Propondo este novo modelo de atendimento aos dependentes de drogas, o professor Nery defende que a vontade e desejo de tratar-se deverá ser o princípio fundamental para a eficácia da terapêutica. Essa proposta de atenção aos usuários ia de encontro e levantava críticas ao tratamento obrigatório imposto através da lei nº. 6368/76, vigente naquele período. Portanto, diferentemente da legislação, o CTPD compreendia que a eficácia do tratamento estava atrelada à posição voluntária do sujeito em aceita-lo, já que o dependente não vive unicamente um problema de ordem física, mas sim de dimensão necessariamente psicológica e social, devendo haver para o início do tratamento um pedido explícito de ajuda, marcando o reconhecimento do problema enfrentado e da vontade de transformação.

A partir deste entendimento crítico sobre o consumo de drogas, o CTPD apoiou-se em três eixos de trabalho, quais sejam, a assistência, a informação/prevenção e o eixo

50

científico/ensino. O eixo assistencial amparava-se em três condições fundamentais (voluntariado, anonimato e gratuidade) que, como destacado anteriormente, teve grande influência do modelo francês de assistência.

O voluntariado significa que o centro atendia apenas pessoas que queriam fazer o tratamento, sem imposições judiciais, compreendendo assim a necessidade de uma motivação pessoal para que houvesse a adesão ao tratamento:

“[...] mas eu reconheço que foi fundamental (o voluntariado) porque quebrava a história de que o juiz podia mandar, o empregador podia mandar, a mãe podia mandar, o pai podia mandar, etc. Por isso, nós dizíamos: ‘Aqui não é lugar de quem não quer’. E eu acho que isso foi fundamental para o nosso trabalho. Eu diria até que talvez tenha sido a coisa que mais marcou nosso trabalho, foi essa história de dizer: ‘aqui só entra quem vier por suas próprias pernas’. Mas, uns anos depois nós reconhecemos que muita gente não foi ao centro por causa desta regra. Então a família vinha nos ver e a gente dizia: ‘Só atendemos se ela quiser’. Aprendemos que às vezes é preciso dizer assim: ‘Ela não quer, mas a gente quer’. E quando a pessoa vem não querendo – não amarrada, não amordaçada. Mas quando ela chegava nós dizíamos: ‘Olha, você veio sem querer. Nós vamos conversar e se você se convencer que vale a pena, continua, se não, você não volta mais! ’. Aí mudou tudo, porque a gente recebia pessoas trazidas, mas a gente negociava, eticamente, a permanência. Portanto, se ela vinha trazida a permanência nunca foi forçada. Nisso nós estamos até hoje!

Quanto ao anonimato, buscava-se a garantia de que a identidade das pessoas atendidas fosse mantida em sigilo, tendo em vista as punições de que eram passíveis os usuários de drogas ilícitas e o receio que estes poderiam, ao buscar tratamento nesse serviço, revelar involuntariamente o consumo de substâncias proibidas por lei:

“As pessoas tinham direito ao anonimato. Por quê? Porque era uma atividade considerada ilegal. Usar drogas era ilegal, a lei tinha dito que usar drogas era proibido, depois voltou atrás e disse que usar não era proibido, proibido era comprar, vender, guardar, são dezenove verbos, menos usar. As pessoas não iam facilmente. Então, anonimato era fundamental. A gente dizia: ‘Olha, você não precisa dizer nem seu nome, nem seu endereço nem o que você faz. Você vai falar da sua história e do seu uso de drogas’.

Já a gratuidade visava o acesso e proteção social do público mais vulnerável, marcando claramente uma posição crítica em relação ao tratamento de alto custo, que movimentava (e ainda movimenta) um mercado lucrativo de atenção a usuários, formando então uma “economia das drogas”, termo cunhado e referenciado no relatório do CTPD para contextualizar o cenário de assistência aos usuários de drogas no Brasil:

51 “É gratuito! Necas de pagar. Ah, mas serviço público não paga! Eu sei disso, mas eu dizia: “Olhe, isso aqui é gratuito, você não tem que dar pro labore nenhum! Você não tem que dar saco de farinha para ninguém”.

Segundo o Relatório de atividades do Centro, entre julho de 1985 a dezembro de 1986 o CTPD havia recebido 177 pedidos de atendimento, sendo que 51% dos casos estavam relacionados ao uso da maconha, 11,5% ao uso de cocaína e 10,7% ao uso de medicamentos. O relatório alertava para o fato de que à exceção da maconha, as demais drogas eram usadas de maneira concomitante. Compreendendo a diversidade de drogas utilizadas e dos diferentes padrões de uso, estas demandas eram atendidas de forma singular, de modo que cada paciente recebia um tratamento específico de acordo com a sua necessidade, sendo que o que havia em comum era a orientação psicanalítica e o uso restrito de medicamentos.

Quanto ao eixo científico/ensino, este teve como característica a construção de uma ponte entre os especialistas da universidade e a sociedade, constatada através das atividades que se desenvolveram para além dos muros institucionais do recém-inaugurado serviço. Ainda neste primeiro ano foram realizadas atividades científicas, como simpósios e seminários. Neste aspecto destacamos como um diferencial do trabalho acadêmico realizado, o diálogo, entre diferentes saberes, sobre as drogas. Já em 1985 foi realizada a I jornada franco-brasileira de

estudos das toxicomanias e o II seminário baiano sobre terapia e prevenção ao abuso de drogas, realizados entre os dias 25 e 28 de setembro de 1985 em Salvador, reunindo-se para

isso renomados profissionais da área como Claude Olievenstein, Gilberto Velho14 e Joel

Birman15.

Além das atividades inseridas no eixo científico/ensino, a proposta do centro também estava voltada ao eixo da prevenção/informação. Pelo fato de estar ligado à universidade e coordenado pelo professor da escola de medicina, compreendia-se a importância de pautar a informação científica, de maneira séria e honesta para a sociedade. Havia então o entendimento de que os usuários de drogas, especialmente o público jovem, ao se deparar com dados e fatos a respeito do uso de drogas poderiam optar por construir um outro caminho e fazer escolhas mais saudáveis.

A partir deste entendimento, o CTPD realizou atividades de pesquisa e formação junto a professores da rede de educação do estado, numa parceria com a Secretaria da Educação. A pesquisa intitulava-se “Conhecimento das drogas: o que se sabe e o que se diz no senso comum”

14 Gilberto Velho (1945-2012) foi um importante antropólogo brasileiro, pioneiro nos estudos de antropologia

urbana voltados ao uso de drogas.

15 Joel Birman é um psiquiatra e psicanalista brasileiro que publicou diversos livros sobre psicanálise, dentre os

52

e tinha como objetivo identificar os conhecimentos dos professores, diretores e outros profissionais da educação sobre o consumo de drogas, avaliando se estes estavam amparados por informações científicas ou se eram saberes leigos/estigmatizados, além de conhecer os problemas relacionados ao uso de drogas vivenciados por estes profissionais. Já a etapa de formação deu-se por meio da construção de grupos de estudos, seminários e assembleias envolvendo os profissionais da educação, sempre supervisionados pelos especialistas do CPTD. Atividades semelhantes ocorreram em outras instituições de ensino, incluindo escolas públicas e privadas, na cidade de Salvador e também no interior, contando com a participação dos pais. Outra importante ferramenta para o eixo de prevenção/informação foi a criação de uma biblioteca, atendendo leitores desde o ensino fundamental até estudantes de doutorado. Este espaço de estudos e leitura também é frequentado pelos usuários atendidos pelo centro e seus familiares que buscam mais informações que possam auxiliar na compreensão do tema e do tratamento.

Este primeiro ano de funcionamento assentou as bases estruturais do centro, que manteve muitas destas ideias vigentes ao longo dos anos. O que veremos nos próximos capítulos será a evolução desta estrutura institucional, com a criação de novas propostas de trabalho que revelam a complexidade e abrangência do trabalho realizado. O centro foi aos poucos recebendo novos profissionais, mantendo esta importante parceria com o estado, e futuramente com outras instâncias públicas.