2. Pressupostos teóricos
2.1. Teoria Funcionalista
2.1.1. Transitividade e planos discursivos
A relação entre transitividade e planos discursivos mostra-se importante para o presente trabalho, pois eles correspondem a parâmetros que são aqui analisados para a caracterização do comportamento das expressões temporais em estudo. Em outras palavras, interessa verificar qual o contexto prototípico para as expressões temporais, figura ou fundo. Parte-se da hipótese de que as expressões, por indicarem circunstâncias, sejam mais produtivas em trechos de fundo.
Segundo Hopper & Thompson (1980), o discurso narrativo apresenta as duas estruturas, figura (foreground) e fundo (background), cada qual caracterizada por determinados traços semântico-gramaticais. Esses conceitos relacionam-se à noção de porção de texto central e periférica em termos de estrutura.
Figura é a parte na qual são apresentados os pontos importantes do discurso, caracterizada por sequência temporal de eventos concluídos, pontuais, afirmativos, realis, sob a responsabilidade de um agente. Fundo, por
sua vez, é a parte que contém as informações que comentam ou ampliam o que está sendo destacado pelo falante, correspondendo a localizações dos participantes ou das situações, comentários avaliativos, descrições de ações, estados e eventos simultâneos à porção textual de figura (Cunha, Oliveira & Martelotta, 2003).
Conforme Hopper (1979), o plano discursivo figura está relacionado ao que é narrado, é o conjunto das sequências narrativas; já fundo diz respeito a fatores que estão fora da sequência em si, embora, de certa maneira, a completem.
Esse conceito de planos discursivos está diretamente relacionado, de acordo com Hopper e Thompson (1980), ao de transitividade. Dado isso, ambos serão tratados em conjunto. Segundo esses autores, uma cláusula com alta transitividade tende a funcionar no discurso no plano de figura, enquanto uma com baixa transitividade tende a funcionar no discurso no plano de fundo.
De acordo com esses autores, a transitividade está relacionada à efetividade de uma dada ação; isto é, quanto mais efetiva a ação, mais transitiva é a sentença. Relaciona-se, também, à transferência, que se dá de um agente para um paciente. Dessa forma, uma sentença transitiva envolve, ao menos, dois participantes. Segue abaixo um quadro com os componentes considerados para a verificação do grau de transitividade para os autores supracitados.
COMPONENTES ALTA TRANSITIVIDADE BAIXA TRANSITIVIDADE
1 Participantes um dois
2 Cinese ação não-ação
3 Aspecto télico atélico
4 Pontualidade pontual não-pontual
5 Volitividade intencional não-intencional
6 Polaridade afirmativa negativa
7 Modalidade modo realis modo irrealis
8 Agentividade mais agente menos agente
9 Afetamento do Objeto totalmente afetado não-afetado 10 Individualização do objeto muito individualizado não-individualizado
Quadro 4 – Componentes considerados em relação à transitividade por Hopper e Thompson (1980)
Esses componentes são utilizados para a verificação do grau de transitividade da sentença através da atribuição de pontuação um para cada item que confere alta transitividade à sentença e pontuação zero para os que conferem baixa transitividade. Com base na baixa ou alta transitividade apresentada pelas sentenças, é possível enquadrá-las nos planos discursivos
figura e fundo. Conforme os autores, os planos discursivos devem ser
analisados não só a partir de uma propriedade, mas de um conjunto delas. Sobre os componentes, os autores defendem que só há transferência de uma ação se houver, ao menos, dois participantes. Em relação à cinese, só há transferência se houver ação; os estados não envolvem transferências entre participantes. O aspecto diz respeito à completude da ação, em uma ação perfectiva, a transferência é mais certa do que em uma ação em progresso. A pontualidade é relacionada à duração, ações que se dão sem uma fase de
transição são mais efetivas que as que envolvem uma duração maior ou as contínuas. Há volitividade quando o agente tem o propósito de fazer algo. A polaridade é ligada a sentenças afirmativas, que indicam as ações que, de fato, ocorreram, ou negativas, que indicam as ações que não se efetivaram. A modalidade também está relacionada à concretização de uma ação: o modo realis indica que algo, de fato, ocorreu, e o irrealis, algo que ainda não ocorreu. Sobre a agentividade, um participante que é mais ativo pode transferir uma ação mais efetivamente que um participante não ativo. Se o objeto é afetado, a transferência se dá em maior grau. E, por fim, para a individualização do objeto, Hopper e Thompson (1980) apresentam cinco fatores, conforme quadro abaixo. O objeto será mais individualizado quanto mais características das apresentadas na coluna “individualizado” do quadro o objeto possuir.
Individualizado Não-individualizado
próprio comum
humano, animado inanimado
concreto abstrato
singular plural
contável incontável
determinado, específico não-determinado
Quadro 5 – Fatores considerados na individualização do objeto por Hopper e Thompson (1980)
Com base nesses aspectos, percebe-se que a transitividade está presente em diferentes partes de uma cláusula. Assim, a depender dessas partes, uma sentença pode ser caracterizada como mais transitiva ou menos transitiva, de acordo com uma noção de continuum (não categórico), uma concepção escalar. Além disso, um componente da transitividade pode influenciar outro. A partir
dessa escala de transitividade, chega-se ao plano discursivo em que se encontra o trecho no texto, conforme exemplo abaixo:
11. O dia amanheceu claro. Não tinha sol, mas, felismente, já não chovia mais.
Era dia do meu aniversário, macabro porque na cidade em que eu moro e Estile Estily, o dia do aniversário é dia de tortura. Falanse que a um fantasma que aterrorisa a cidade a mais de 100 anos.
Todo mundo da cidade quando alguêm faz aniversário todo mundo foge do local e vai para outro bem longe tem lendas que se o fantasma pegar vai torturar até sair sangue. [Redação, 6º ano EF]
Fundo Figura
O dia amanheceu claro. Não tinha sol, mas, felismente, já não chovia mais. Era dia do meu aniversário, macabro orque na cidade em que eu moro e Estile Estily, o dia do aniversário é dia de tortura.
Todo mundo da cidade quando alguêm faz aniversário todo mundo foge do local e vai para outro bem longe tem lendas que se o fantasma pegar vai torturar até sair sangue.
Falanse que a um fantasma que aterrorisa a cidade a mais de 100 anos.
No texto acima, pode-se verificar que a sentença formada pela expressão temporal com o verbo haver se encontra no plano discursivo figura, porque
apresenta alto grau de transitividade. Possui dois participantes (fantasma e cidade); é uma ação na modalidade afirmativa; o sujeito é intencional e agente, enquanto o objeto é afetado e individuado. Essa sentença apresenta pontuação 8, pois o verbo não é pontual e o aspecto dele não é perfectivo.
Silveira (1990), em estudo sobre a relevância em narrativas orais, faz uma releitura da proposta de Hopper (1979). A autora destaca que Hopper (1979) caracteriza figura pela sequencialidade e, então, propõe uma revisão desse conceito, afirmando que, além da sequencialidade, a importância é outro fator característico das cláusulas-figura.
Ela propõe também uma revisão do conceito de fundo, já que considera muito abrangente a definição apresentada por Hopper (1979) de que essas cláusulas ampliam e comentam as afirmações feitas pela figura. Segundo ela, há distintos tipos de cláusulas-fundo e em seu estudo verificou 17 tipos dessas cláusulas.
Assim, Silveira (1990) propõe uma hierarquia de fundidade abordando os planos de figura e fundo como um processo contínuo. Para ela, há tipos de
fundo que se aproximam mais da figura e outros que se afastam. Adota, então,
em sua análise, cinco níveis de fundidade:
1º - apresentam informações concretas sobre o evento;
2º - especificam o âmbito em que os fatos ocorrem, as circunstâncias; 3º - especificam a cláusula anterior, ampliando as informações sobre ela; 4º - especificam relações inferidas dos fatos narrados através de especificação; 5º - apresentam interferências do falante no evento que está narrando.
Sobre a hierarquia proposta, a autora ressalta que serve apenas aos dados de sua análise. No presente estudo, também será adotada uma hierarquia de fundidade. Essa, porém, será baseada nos parâmetros de transitividade (cf. 4.2.).