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Transmasculinidade, o que sabemos sobre isso?

No documento Transexualidades: um olhar multidisciplinar (páginas 84-86)

Iniciaremos a reflexão sobre as conjunções e disjunções entre travestis e transexuais pe- los homens transexuais, por compreender que a visibilidade desses sujeitos é quase nula, não somente no campo político-social, como – no Brasil – na produção do campo científico. Então, mesmo com as lacunas imensas na produção literária brasileira, iremos traçar alguns pontos conceituais sobre a categorização dos sujeitos que nascem em corpo com genitália de fêmeas humanas e vivem no gênero e ethos considerados masculinos.

Almeida (2012) não chega a elaborar um conceito fechado, mesmo que apenas didático, sobre os sujeitos que nascem com genitália e corpo de mulher, mas vivem a sua existência social e de gênero no masculino. Agrupando as diferentes características dos grupos que ele analisou, podemos montar – apenas para efeito de ilustração – um conceito “fabricado”, como tantos ou- tros, que define os homens transexuais, ou trans-homens, como pessoas que nascem com geni- tália feminina, mas assumem uma identidade de gênero masculina, adotam nomes masculinos e remodelam seu corpo para dar inteligibilidade ao seu gênero, apesar de existir alguns sujeitos que não fazem o caminho da remodelação corporal e se sentem homens do mesmo jeito.

Transexualidade e travestilidade ‡ 83

Almeida nesse momento não tem o objetivo de realizar a discussão sobre “sentir-se” em/ ou “assumir-se” em uma identidade, questão que vem sendo pensada no movimento LGBT bra- sileiro na perspectiva política do coming out, ou seja, “sair do armário” e assumir politicamente uma identidade de gênero ou sexual que é usada como frente de embate na luta pelos direitos humanos e sociais básicos. (SILVA FILHO; RODRIGUES, 2012) Um exemplo disso são as páginas, perfis e blogs individuais e coletivos de sujeitos que se apresentam como homens trans, dando informações sobre transmasculinidades.4

Conforme Berutti (2010, p. 90), a comunidade transgender norte-americana utiliza o termo anglo-saxão Female to Male (FTM) para “designar os transexuais masculinos – mulheres biológi- cas que optam por transformar seu corpo em masculino por meio de hormônios e/ou cirurgia”. Esta autora utiliza o termo “opção” para a identidade de gênero transexual, fazendo-nos refletir a partir da ideia de que existem múltiplas identidades de gênero e sexuais, e que a escolha/ opção por uma ou mais delas implica na assunção dos encargos sociais que todas elas trazem em seu bojo e no silenciamento de tantas outras identidades sociais que podemos assumir no nosso cotidiano.

Berutti (2010) suscita uma grande discussão, travada tanto no campo científico quanto social, que diz respeito à noção de que as identidades sexuais ou de gênero são ou não opções/ escolhas. Essas discussões, ainda sem consenso, são perpassadas pelas concepções de fluidez ou fixidez das classificações identitárias. Enfim, no escopo deste capítulo, não nos é permitido realizar tais digressões.

Saleiro (2012) conceitua os homens transexuais como pessoas a quem foi atribuído o sexo feminino e se expressam permanentemente no masculino, sendo mais familiar a expressão an- glo-saxônica FTM. Para a autora, a transexualidade expressa um processo de migração de gênero e não uma oscilação ou transgressão, como em outras expressões trans.

Questiono a ideia de migração de gênero, pois parece indicar que o sujeito nasceu em um gênero específico – por conta da sua anatomia e genitália? – e decidiu ir para outro gênero. As pessoas transexuais com as quais convivi e outras que são descritas por outros pesquisadores reiteram em seus relatos, entre tantas diferenças, que sempre tiveram a sensação de estar no “corpo errado”. Neste caso, as modificações corporais são realizadas com o objetivo de tornar o gênero vivido inteligível.

Por conta da sua forma de viver o gênero – que se contrapõe às imposições essencialistas sobre a relação sexo e gênero –, os homens transexuais enfrentam, no seu cotidiano, situações de violência voltadas à sua identidade de gênero masculina. Uma dessas situações é o desres- peito ao nome social adotado e a possibilidade desses homens viverem a sua masculinidade para além dos marcadores falocêntricos, característicos do universo cismasculino.

Sobre esse processo, Almeida (2012, p. 517) afirma que, nas narrativas dos homens trans,

há frequentes experiências de discriminação compostas de marcos, como a rejeição do lugar outorgado pelo binarismo de gênero (basea- do na leitura inicial de sua genitália) e por experiências sociais varia-

4 Ver os perfis: “Homens Transexuais” e “Homes transexuais bi e gay”, na plataforma de sociabilidade virtual Face- book.

84 ‡ Transexualidades

das de sexismo e homofobia em decorrência dessa rejeição (ainda na infância e prolongando-se na idade adulta).

Almeida também comenta sobre como o passing pode favorecer uma vivência menos es- tressante da identidade masculina e, ao mesmo tempo, torná-los invisíveis, o que, em sua opi- nião, dificulta a produção de estudos sobre eles. Segundo o autor, uma das restrições em relação aos estudos transidentitários,

É a sua rápida capacidade de passing (estreitamente vinculada ao des- conhecimento social da condição FTM), mas também relacionada à bem elaborada construção de ‘corpos sociais masculinos’, que se torna especialmente eficaz após a realização da mastectomia e do uso pro- longado de testosterona. Em outras palavras, o uso da testosterona no caso dos homens trans, ao contrário do que ocorre com as mulheres trans, torna-os bastante próximos fisicamente às expectativas sociais de como deve parecer um homem, o que contribui para invisibilizá-los. Essa invisibilidade adquirida com frequência a duras penas significa para a maior parte um agradável momento de trégua na estressante e

contínua batalha por respeito à identidade/expressão de gênero.(AL-

MEIDA, 2012, p. 519)

Se o passing é mais fácil para os homens transexuais do que para as mulheres, ainda assim existem tensões nessa passagem do universo feminino para o masculino. Essa tensão é registrada por Berutti (2010) ao relatar o drama vivido pelos homens trans na transição entre a comunidade lésbica, onde são vistos como butches (mulheres masculinizadas), e a masculina. Conforme a pesquisadora, para muitos homens transexuais os problemas da inserção no mundo dos homens cis são bastante complexos.

Semelhanças e diferenciações entre travestis e mulheres transexuais

No documento Transexualidades: um olhar multidisciplinar (páginas 84-86)

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