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4.4 DOBLE CHAPA

4.4.4 Travessias multiterritoriais

O descaminho de mercadorias não é enquadrado como um ato ilegal pelos moradores fronteiriços, e tampouco pelos diretores, pois se trata de uma forma de enfrentar as dificuldades de modo a tornar viável a vida na fronteira. Percepções semelhantes são abordadas nos documentários A Linha Imaginária e Causos e Cuentos de Fronteira, mas nominados de contrabando pelos próprios personagens destes filmes. Assim como nesses documentários, em Doble Chapa tanto as estradas, rios, pontes ou rodovias são retratadas como rotas para o deslocamento de pessoas e mercadorias, atuando como suporte para travessias multiterritoriais.

Na sequência que aborda a fronteira entre Quaraí (BR) e Artigas (UY), onde a delimitação dos contornos nacionais é estabelecida por um rio, esse acidente geográfico natural não separa os municípios vizinhos, pois tanto a ponte quanto o rio que cruza abaixo dela são usados como rotas de deslocamento, em uma mobilidade social transfronteiriça. No primeiro caso, percebemos que o fluxo ocorre sem restrições, sem a presença da vistoria alfandegária na Ponte da Concórdia. No entanto, para deslocar mercadorias cujo valor se encontra além da cota, é necessário pagar uma taxa em virtude do valor que ultrapassa essa cota, ou usar uma via alternativa para manter esse fluxo de mercadorias.

Após as imagens do trânsito contínuo de veículos e pessoas por sobre a ponte, temos uma cena em que a prática do descaminho é realizada por um brasileiro, que desloca uma máquina de lavar roupas por dentro do rio (DOBLE..., 2014, 18’30’’).

Figura 13 – Fluxo de pessoas e mercadorias de forma legal e ilegal na fronteira entre as cidades de Quaraí (BR) e Artigas (UY).

A trilha sonora instrumental que acompanha o lento, mas decidido, trasladar da máquina de lavar roupas sobre uma carroça no cruzar o rio é usada como ponte sonora até o começo da penúltima sequência de Doble Chapa, que aborda a chamada “Ilha Brasileira”. Essa pequena localidade está situada no extremo sudoeste do Rio Grande do Sul, entre a foz do Rio Quaraí e o Rio Uruguai, na região da tríplice fronteira do Brasil (Barra do Quaraí) com o Uruguai (Bella Unión) e com a Argentina (Monte Caseros). A ilha é visualizada inicialmente por cenas captadas a partir de uma ponte, e posteriormente, pelo deslocamento realizado de barco por entre as águas, até alcança-la. Sobre a duplicidade identitária nessa zona de fronteira, Caobelli menciona o caráter duplo da linha divisória, afirmando que “A linha imaginária termina em uma ilha. Uma porção de terras cercada por água. Uma ilha é um ponto no meio da linha; nem lá, nem cá. Ou em ambos” (DOBLE..., 2014, 23’).

A ilha representa, materialmente, o entrelugar dos limites fronteiriços onde as

nacionalidades brasileira e uruguaia espelham-se, duplicam-se e geram sentidos identitários distintos das identidades nacionais isoladas. Essa ilha foi adjudicada ao Brasil pelo Tratado de 1851, mas desde meados de 1960 sua posse vem sendo pleiteada pelo Uruguai (DORFMAN, FRANÇA e ASSUMPÇÃO, 2016, p. 113), sendo uma porção de território em disputa. É a partir da imagem de um arco-íris nas águas que levam à Ilha Brasileira que a linha divisória entre Brasil e Uruguai é sinalizada como algo móvel, fugaz e impermanente. Assim como o arco-íris, os marcos divisórios são visíveis, mas não pertencem a ninguém.

A última sequência do documentário refere-se à capital uruguaia, Montevidéu. É pela cena de aproximação aérea com a capital que Vidart repete o texto narrado por Caobelli no começo do documentário, em Porto Alegre, mudando apenas a direção do trajeto a ser percorrido. “Saí para caminhar. Esvaziar a cabeça. Na calçada um velho gaúcho abaixou a cuia, apontou para o norte e disse que alguém me esperava” (DOBLE..., 2014, 25’, legenda do filme). O convite ao encontro com o Outro é a intenção celebrada ao longo de todo o documentário, no qual a identidade cultural gaúcha espelha-se a partir da fronteira.

Os créditos também são espelhados nesse filme, onde a insistência no uso de planos abertos, com imagens de duração prolongada em longas tomadas e poucos planos, apresenta- nos, de modo poético, a zona de fronteira como um lugar de repetições e constância, onde poucas coisas acontecem. Os textos narrados em primeira pessoa conferem um tom subjetivo ao filme, expressando a forma como os narradores-diretores elaboram sua visão sobre as zonas de fronteira a partir do registro do mundo histórico. O registro é realizado na forma de

fragmentos visuais sobre os diferentes municípios fronteiriços, nos quais o destaque está nas paisagens e não nas pessoas.

A ética modesta é adotada pelos diretores que restringem as representações das zonas fronteiriças a impressões fugazes sobre o mundo, expressos pelo ponto de vista individual, com percepções bastante subjetivas. A montagem do filme é organizada em torno das imagens, que evocam sentimentos e impressões, mas não elaboram uma interpretação única sobre ele. Desse modo, o filme exige uma postura mais ativa do espectador para significar as associações entre imagens e sons. Mas ainda que poético e subjetivo, no conjunto das imagens, textos e sons, o sentido de identidade advindo do filme demonstra as zonas de fronteira como lugares de semelhanças, onde diluem-se e hibridizam-se as diferenças. Percebemos assim, também em Doble Chapa, a prevalência da identidade cultural gaúcha em sua heterogeneidade de sentidos, que perpassa os limites territoriais, e por isso não enseja os embates produtivos de resistências culturais, como veremos no próximo capítulo da tese.

O viver na fronteira articula um sentido identitário de pertencimento mútuo que o caráter híbrido inclui. Na relação entre brasileiros e uruguaios, os grupos em contato constituem adaptações recíprocas, estáveis e simbólicas, que atuam no reconhecimento da alteridade constituidora dos sentidos identitários fronteiriços. Assim, o espaço fronteiriço é tido como um lugar de permanência, baseado em traços culturais comuns, sobretudo em relação ao uso do território de acesso fácil e trânsito pouco controlado. A diferença para com outros grupos étnicos que também habitam esses territórios não é abordada no filme, que se restringe a uma perspectiva integradora das zonas de fronteira a partir do ponto de vista de ambos os realizadores locais, que propõem um tratamento subjetivo ao mundo vivido, demonstrando como eles mesmos se percebem em relação a esse mundo.