2 SIGNIFICAÇÃO DE UM TEMA RECORRENTE NA VIDA HUMANA: marcos no círculo do saber sobre a autonomia
2.1 Trechos do caminho para significar a própria autonomia
Quem ou o que faz sinal de que, de quem, por quem, para que, por quê? (PINEAU, 1999, p.40)
Etimologicamente a palavra autonomia tem seu significado no grego autonomos (de autos) “ele próprio” e nomos “lei” (CLEMÉNT et al., 1994, p.38). É ainda atribuído a esse significado o movimento de “dar-se, a si mesmo, reflexivamente, suas leis [...] mediante um processo de interiorização de regras” (CASTORIADIS, 1992, p. 140). Com a ajuda de Pineau (1999), entendo que para a clareza cognitiva desse significado há necessidade de abertura de outras portas de entrada no círculo do sentido.
Com a entrada pela sensação, tenho a possibilidade do exercício na escuta sensível32 de mim mesma e do outro para compreender a dimensão da
autonomia enquanto questão individual e social para a interiorização de regras; com a da direção das ações (da/pela autonomia, movimento sem fim com marcas no tempo individual e social. Esta última entrada é a da ação e de suas orientações. Portanto, mais contingente, menos certa, mais mutável, como alerta Pineau (1999).
Na constituição histórica da autonomia estão presentes o desejo e o objetivo do homem pela sua liberdade e independência, ou seja, trata-se de uma questão recorrente na condição humana. Para melhor entendimento dessa afirmação, observo o que diz Castoriadis (1992) quando considera a possibilidade da autonomia como modo de ser do homem e nossa principal aspiração, que ultrapassa as singularidades de nossa constituição pessoal. Nesse sentido, o
32 Barbier (2002, p. 94) argumenta que a escuta sensível reconhece a aceitação incondicional
do outro. “O pesquisador deve saber sentir o universo afetivo, imaginário e cognitivo do outro para „compreender do interior‟ as atitudes e os comportamentos, o sistema de ideias, de valores, de símbolos e de mitos (ou a „existencialidade interna‟, na minha linguagem”. Para o autor “a escuta sensível é multirreferencial não é projeção de nossas angústias ou de nossos desejos”. Nessa perspectiva, “supõe, então, um trabalho sobre si mesma, em função de nossa relação com a realidade [...]” (BARBIER, 2002, p.96).
autor aponta que as razões pelas quais visamos a autonomia são e não são localizáveis em determinada época33. “Não o são, porque afirmaríamos o valor
da autonomia quaisquer que sejam as circunstâncias”. E, ainda, “o desejo de autonomia tende fatalmente a emergir onde existem homem e história, porque, como a consciência, o objetivo de autonomia é o destino do homem, porque, presente desde o início, ela constitui a história mais do que é constituída por ela” (CASTORIADIS, 2007, p.121).
As referências para o projeto de autonomia do sujeito sejam as do plano individual ou as do coletivo, e os contextos dos quais participa definem também as circunstâncias nas quais se espera que seja autônomo, conforme seu nível de pertencimento e envolvimento nas relações sociais. Isso pode ser percebido na história do homem pela conquista da autonomia, quando o momento histórico e ou as circunstâncias definem o que se espera de um sujeito de autonomia.
Isso me sugere pensar a autonomia como instância definidora de nossa identidade, em vocação ontológica na busca para sermos nós mesmos donos de nossas leis, como marca que nos afirma nas relações sociais. Segundo propõe Castoriadis (1992, p.140) [...] autonomia é “o agir reflexivo de uma razão, [...] ao mesmo tempo individual e social”. Assim, o processo de desenvolvimento de autonomia está relacionado aos planos individual e coletivo que se interconectam.
33 Para melhor compreender a proposta conceitual de Castoriadis (1992, 2007) é necessário
resgatar um pouco do contexto do qual este autor se vale para fazê-la. Em uma vertente do marxismo para o simbólico, situa a filosofia como elemento central no resgate do projeto de autonomia nos planos individual e social. Acredita descobrir uma significação na história efetiva para compreender a possibilidade e a procura da autonomia. Situa a concepção de autonomia no caminho de um projeto revolucionário (a possibilidade de outra forma de sociedade que não a capitalista). Desenvolve seus argumentos relacionando autonomia e alienação. Esclarece primeiro esse termo a propósito do indivíduo, ou seja, o que é um indivíduo autônomo e depois passa para o seu significado no plano coletivo, o que é uma sociedade autônoma ou não alienada.
Castoriadis (2007, p.123) utiliza-se das categorias psicanalíticas de Freud34 para falar que o sujeito vai adquirindo autonomia à medida que amplia sua consciência a respeito do discurso do outro que fala por ele. O Ego representa o consciente em geral e o Id (origem e lugar das pulsões, instintos), tomado nesse contexto, representa o inconsciente no sentido mais amplo. O Ego (sem a supressão das pulsões e sem a eliminação ou a reabsorção do inconsciente) como consciência e vontade deve tomar o lugar do Id. “Trata-se de tomar seu lugar na qualidade de instância de decisão”. Nessa perspectiva, a autonomia seria o domínio do consciente sobre o inconsciente. Como propõe o autor,
[...] lá onde estava a função do inconsciente, e o discurso do Outro que fornece seu alimento, que o Ego deve advir. Isso significa que meu discurso deve tomar o lugar do Outro. Mas o que é o meu discurso? O que é um discurso meu? Um discurso que é meu é um discurso que negou o discurso do outro; que o negou, não necessariamente em seu conteúdo, mas enquanto discurso do Outro; em outras palavras, que, explicitando ao mesmo tempo a origem e o sentido desse discurso, negou-o ou afirmou-o com conhecimento de causa, relacionando seu sentido com o que se constituiu como a verdade própria do sujeito - como minha própria verdade. (CASTORIADIS, 1982, p.125).
Desse modo, a autonomia traz os resíduos do discurso do outro. Nos termos de Castoriadis (2007) é “instauração de uma outra relação entre o discurso do Outro e o discurso do sujeito. A total eliminação do discurso do Outro não reconhecido como tal é um estado não histórico” (p. 125). Não há indivíduo sem interiorização da instituição social (CASTORIADIS, 1992).
2.1.1 Família e escola: aprendizado sobre ter autonomia
Como num cenário retrospectivo, as cenas da minha vida vão se reconstituindo. Percebo o aprendizado para a autonomia como um movimento, ao mesmo tempo, entre as referências do outro (pais, familiares, amigos, professores) e a minha subjetividade para avaliar, reprocessar, discordar,
34 Castoriadis (2007, p.123) alerta que, sem deixar de dar o crédito a Freud quanto à
profundidade de seus estudos, o programa da reflexão filosófica sobre o indivíduo existe há mais de vinte séculos, o pressuposto e, ao mesmo tempo, o resultado da ética tal como a viram Platão ou os estóicos, Spinoza ou Kant.
aceitar e reprocessar o discurso do outro e me constituir como um ser de autonomia.
Nasci em Brumadinho (Minas Gerais), cercada pelo carinho dos pais, tios, avós, primos e amigos da família. O interesse pelas coisas da escola era estimulado pelas brincadeiras, pelo “faz-de-conta” ao dar aulas para os irmãos e crianças amigas da vizinhança, caminho na constituição da identidade para ser professora. Desde que aprendi a ler e até à fase de minha pré- adolescência, meu pai destacava textos do jornal “Estado de Minas”, que sempre lia aos domingos e que julgava serem convenientes e interessantes que eu lesse. Ele e minha mãe estimulavam atitudes de autonomia e de liberdade com responsabilidade nas tarefas da escola, na ajuda em casa e nas brincadeiras com os irmãos, primos, amigos e vizinhos, para observar os direitos e deveres na convivência. As atitudes de meu pai, com o estímulo à leitura e à importância que atribuía ao estudo, hoje são marcas reelaboradas (entre o “discurso do Outro e o meu discurso”) na constituição da minha identidade e autonomia na busca do conhecimento.
Tive uma vida familiar e estudantil agradável e rica em aprendizados para me transformar em um ser de autonomia. Ingressei na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ainda com dezessete anos. Participei de projetos organizados por essa instituição, como o Projeto Rondon35, Festival de Inverno36, entre outros. Posso dizer que eu aprendera na família, na escola básica e na formação na graduação o que era ter autonomia.
A autonomia é um processo em que vamos nos desenvolvendo para capacitarmos a nós mesmos a agir com liberdade, ancorados na independência moral ou intelectual, aprendida no contexto de significados dos espaços culturais aos quais pertencemos. Assim, como nos ensina Castoriadis
35 Projeto Rondon – Foi criado pelo governo brasileiro em 1966, com o objetivo de realizar
extensão universitária mediante o contato de estudantes voluntários com o interior do país para a realização de atividades assistenciais em comunidades mais carentes.
36 O Festival de Inverno da UFMG iniciou-se em Ouro Preto, em 1967, com cursos apenas nas
áreas de Música e Artes Plásticas. Trata-se de um dos festivais mais tradicionais do país. É referência para a cultura nacional e um dos objetivos é promover a integração cultural com a cidade onde é realizado.
(1992), na interiorização das regras, nesse caso, oriundas da instituição família, do convívio social e das referências para os cuidados na aprendizagem com as crianças, adquiridos também na formação acadêmica, passei, como mãe, a adotar a conduta que considerava a mais indicada na direção da autonomia dos filhos. Estimulava a autonomia nos seus pequenos gestos: ajudar nas tarefas de casa, cuidar dos seus brinquedos, ter gosto, responsabilidade e iniciativa nos estudos, ter liberdade com responsabilidade.
Nas relações familiares, os conflitos quanto ao que deveria ser da minha autonomia ou do outro se constituíram em desafios de uma caminhada para compreender-me, compreender e aprender com o outro. Desse aprendizado, afirmei no sentido da autonomia a liberdade, a iniciativa e a busca do equilíbrio na independência, para compreender na autonomia do outro (do esposo, dos filhos, dos parentes...) e minha um movimento constante de interações. O movimento para ter autonomia me trouxe à consciência a dimensão do ser de autonomia que residia em mim. E o desejo de autonomia mais uma vez se fez presente em mim, seguindo o curso desse desejo como no da história humana.