5 FOCO NARRATIVO EM FRANKENSTEIN EM QUADRINHOS
5.2 Frankenstein de Mousse
5.2.4 Trechos silenciosos
Em contraposição à eloquência dos personagens do livro de Shelley, Mousse desenvolve alguns trechos com pouco ou nenhum som. Na página 45, Victor recolhe partes de corpos em uma vala comum (FIGURA 22).
A página representa a violência das profanações de Frankenstein. Dividida em três tiras, na primeira é apresentado o cenário, em quatro quadros. No primeiro, há uma imagem panorâmica do cemitério. No segundo, o portão aberto aparece já de forma inclinada. Um terceiro quadro mostra apenas a vegetação e o quarto quadro apresenta Victor em meio aos cadáveres, com suas silhuetas aumentadas ao fundo. A segunda linha contém seis quadros. No primeiro, são exibidas cruzes e a silhueta de árvores em movimento ao fundo, com a mesma inclinação do portão na linha anterior. No segundo quadro, o maior da página, Frankenstein brande o machado, preparando o golpe contra os corpos sem vida, com sua sombra projetada sobre a parede de terra. O terceiro e o quarto quadro dessa linha são divididos horizontalmente: no superior, a imagem de sangue negro com fundo vermelho, representando o golpe da lâmina; no inferior, a sombra do cientista apanha um membro decepado. O quinto e o sexto quadro também estão divididos horizontalmente: no superior, Victor prepara um novo golpe e, no inferior, outra imagem de sangue negro sobre o fundo vermelho indicam um novo corte nos corpos.
A terceira linha da página contém sete quadrinhos. No primeiro, é possível ver a silhueta de Frankenstein com seu olhar vazio, como se exausto pelo esforço e, ao mesmo tempo, insensível aos atos que cometeu. No segundo, ele revira os corpos e, no terceiro, ele escala a pilha de mortos. No quarto requadro, uma nova imagem de fundo vermelho, com o sangue negro escorrendo. Na quadro seguinte, o cientista parte carregando o que parece ser um saco com o produto de seu trabalho. Um estreito quadro mostra o que parece ser sangue gotejando e, no quadro final, a imagem de uma santa de pedra com o semblante triste.
A cena da profanação dos túmulos é a demonstração visual da corrupção de Frankenstein. Ele sai do âmbito de suas teorias heréticas e do estudo dos corpos embalsamados da universidade para seu próprio projeto horrendo. Essa página marca, portanto, a transformação do protagonista e procura traduzir para os quadrinhos o que Shelley descreve em seu livro.
Quem poderá imaginar os horrores de meus trabalhos secretos, enquanto eu profanava sepulturas frescas e torturava animais vivos para animar o barro sem vida? Ao me lembrar disso agora, meus membros tremem e meus olhos se enchem d’água; mas naquela época um impulso irresistível e quase frenético me impelia para a frente. Parecia que eu havia perdido toda a sensibilidade de espírito e não me preocupava senão com o meu trabalho. (SHELLEY, 1997, p. 62)
As páginas 50 e 51 apresentam, também em silêncio quase absoluto, a cena na qual Victor desperta, após a criação do monstro, e o encontra na escuridão de seu laboratório (FIGURA 23). Na primeira página, temos três tiras, com um requadro grande na primeira, três na segunda e quatro na terceira.
O primeiro quadrinho apresenta Victor acordando na escuridão de seu laboratório. Na penumbra é possível perceber a criatura ainda sentada na cadeira onde fora animada,
Figura 22 - Victor se empenha em seus trabalhos secretos
Figura 23 - Frankentein encontra seu monstro
Figura 24 - Frankentein encontra seu monstro (continuação)
Figura 25 - Disputa entre Victor e o monstro
Figura 26 - Disputa entre Victor e o monstro (cont.)
embora esteja imóvel. Na segunda linha, no primeiro quadro, vemos o movimento da criatura, que se levanta. Só é possível ver suas pernas. O segundo e terceiro quadros têm o mesmo enquadramento e mostram Victor procurando algo no escuro, sendo que no terceiro a criatura surge por trás de Victor. Na terceira linha, Frankenstein surge de costas, acendendo uma vela. Então ele percebe algo atrás de si e, no último quadro é completamente negro.
Na página 51, Victor ostenta uma vela e o monstro surge diante de si (FIGURA 24). A criatura fala seu nome e lhe estende a mão. Victor retribui: “Você está vivo... Vivo!”. O toque entre os dois, em princípio amistoso, logo se torna agressivo e o monstro espreme o braço de Frankenstein enquanto repete: “Pai... pai!”. Ele tapa-lhe a boca e a cena termina dessa forma. Na página seguinte, Victor acorda em seu leito, cuidado por Henri. O desfecho dessa cena só é revelado depois, na página 96, que mostra a luta entre Victor e o monstro.
Essas páginas são marcadas por grandes volumes de negro, nos quais é impossível distinguir as formas. Ao acender a vela, surgem as formas do cientista e de sua criação, que figuram num palco sem cenário. Naquele momento, são apresentadas sua dualidade e sua oposição em um confronto que conduzirá o restante da história.
A relação de oposição e similaridade entre criador e criatura já foi abordada nos capítulos anteriores, mas ela volta à tona nessa sequência. Enquanto Victor porta a luz, na forma da vela em sua mão, o monstro espreita nas sombras e o domina, lançando-os novamente na escuridão. No momento em que o cientista desenvolve sua criatura, ele na verdade cria seu duplo, personificando sua metade violenta e emotiva, que vai destruir seus entes queridos até consumir sua contraparte fraca e racional.
As páginas 115 a 117 também desenvolvem uma sequência quase sem palavras. Na página 115, Victor desperta no casebre, aguardando o monstro que viria retaliá-lo pela destruição de seu experimento. Uma imagem da criatura enforcando Elisabeth o desperta e ele vislumbra o monstro fugindo. Na perseguição, a criatura entra no mar e Victor o segue num barco. Na página seguinte, o monstro nada enquanto Victor navega. A alternância de cenas mostra o cientista tendo problemas com sua embarcação enquanto o monstro consegue sair na outra margem. Na página 117, o sol brilha e o cientista jaz na praia. Ao retornar a seu casebre, a polícia está à sua porta, para responder pela morte de Henri (FIGURAS 25 e 26).
Há outras sequências na obra de Mousse nas quais os diálogos e a enunciação são suspensos e cabe ao mostrador conduzir a trama. Como nos conceitos de Reuter, tratam-se de cenas, nas quais o tempo da narrativa se aproxima do tempo da narração e as ações e falas dos personagens são ressaltados. No caso dos quadrinhos, na concepção de Barbieri, a ausência de texto provoca aceleração na leitura, tornando a ação mais dinâmica. Embora a ausência de texto não seja implique necessariamente na aceleração da narrativa, a exemplo de cenas contemplativas em página inteira ou outras aplicações de quadrinhos sem texto, para Barbieri, há relação entre a quantidade de texto e o tempo de leitura, visto que as palavras, seja na leitura silenciosa por parte do leitor no mundo real, seja na fala ou no pensamento do personagem no mundo da história, levam o tempo de sua pronúncia, no mínimo. (BARBIERI, 2017, p. 214)
Isso faz todo o sentido na cena da perseguição no mar, no qual a velocidade é um elemento crucial na disputa entre os oponentes. Entretanto, na cena do despertar da criatura ou no cemitério, o silêncio parece representar não a velocidade, mas o isolamento de Victor. O mesmo ocorre nas páginas 55 a 59, nas quais o monstro vaga pela floresta, também de forma solitária.
É importante frisar que esses trechos são poucos ao longo da obra, que é marcada pela presença constante de recitante e por diálogos entre os personagens. Essas cenas sem texto proporcionam, além de seus efeitos específicos, quebras no ritmo narrativo que impõe a leitura de texto.