1.1 Criação e competência
Reconhecendo as violações graves do Direito Internacional Humanitário que foram cometidas no Ruanda, o Conselho de Segurança das Nações Unidas criou o Tribunal Penal Internacional para o Ruanda (TPIR) pela Resolução 955, de 8 de Novembro de 1994.
Os objetivos desta medida eram contribuir para processo de reconciliação nacional no Ruanda e para a manutenção da paz na região. O Tribunal Penal Internacional para o Ruanda foi estabelecido para julgar as pessoas responsáveis pelos genocídios e outras violações graves do Direito Internacional Humanitário cometidas no território do Ruanda entre 1 de Janeiro de 1994 e 31 de Dezembro de 1994 e, lidar com a perseguição de cidadãos ruandeses responsáveis por genocídio e outras violações do Direito Internacional cometidas em territórios de Estados vizinhos durante o mesmo período.
Esta foi a primeira vez que os indivíduos de alto escalão foram chamados a prestar contas perante um Tribunal de Direito Internacional por violações maciças dos direitos humanos em África. O TPIR prefere executar as suas sentenças em África, por razões socioculturais. Isto também terá maior efeito dissuasor no continente.
O Tribunal Penal Internacional para o Ruanda é regido pelo seu Estatuto, que é anexo à Resolução 955 do Conselho de Segurança. O TPIR é composto por três órgãos, nomeadamente, as Câmaras de apelações, o gabinete do procurador, a cargo de investigar e instruir processos, a Secretaria, responsável pelo fornecimento de apoio judicial e administrativo geral para as Câmaras e para o Ministério Público.
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1.2 Competência e Jurisdição do Tribunal Penal Internacional do Ruanda.
O Tribunal Penal Internacional para o Ruanda tem competência para julgar as pessoas responsáveis por violações graves ao direito internacional humanitário cometidas no território do Ruanda, bem como os cidadãos ruandeses responsáveis por essas violações cometidas no território de Estados vizinhos, entre 1 de Janeiro 1994 e 31 de Dezembro de 1994. (art. 1º TPIR)
O TPIR tem competência para julgar crimes das pessoas que tenham cometido crimes de genocídio (art. 2º); crimes contra a humanidade (artº 3) e violações do artigo 3º Comum às Convenções de Genebra e ao Segundo Protocolo Adicional.
No número 2 do artigo 2º do Estatuto do TPIR, entende-se por genocídio, qualquer um dos atos que a seguir se enumeram, praticados com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, tais como:
Homicídio de membros do grupo;
Ofensa grave à integridade física ou moral de membros do grupo;
Sujeição intencional do grupo a condições de exigência suscetível de virem a provocar a sua destruição física, total ou parcial;
Imposição de medidas destinadas a impedir nascimentos no seio do grupo; Transferência forçada de crianças de um grupo para outro.
São puníveis os seguintes atos (art 2º, número 3): Genocídio;
Conspiração com vista ao genocídio; Incitamento direto e público ao genocídio; Tentativa de genocídio;
Cumplicidade em atos de genocídio.
No artigo 3º do Estatuto do TPIR, crimes contra a Humanidade, compete ao TPIR proceder contra os responsáveis por qualquer um dos seguintes crimes, quando cometido como parte de um ataque generalizado ou sistemático, contra qualquer população civil por motivos nacionais, políticos, étnicos, raciais ou religiosos:
Assassínio; Extermínio; Escravidão; Deportação; Prisão; Tortura; Violação;
Perseguição por motivos políticos, raciais ou religiosos; Outros atos desumanos.
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O Tribunal Penal Internacional para o Ruanda tem ainda a competência para julgar as pessoas que tenham violado ou que tenham ordenado a prática de violações graves ao artigo 3º Comum às Convenções de Genebra, de 12 de Agosto de 1949, para a Proteção das Vítimas de Guerra, e ao Segundo Protocolo Adicional, de 8 de Junho de 1977. Tais violações incluem, entre outras (art. 4º TPIR):
Atos de violência contra a vida, saúde ou bem-estar físico e moral das pessoas, em particular, o assassínio bem como os tratamentos cruéis, tais como a tortura, mutilação ou qualquer outra forma de pena corporal;
Penas coletivas; Tomada de reféns; Atos de terrorismo;
Ultraje à dignidade da pessoa, nomeadamente os tratamentos humilhantes e degradantes, violações, prostituições e qualquer outra forma indecente de ofensa;
Pilhagem;
Sentenças ou execuções sem julgamento prévio por um tribunal regularmente constituído, denegando assim todas as garantias judiciais reconhecidas como indispensáveis…;
Ameaças com vista à prática de qualquer um dos atos atrás referidos.
Jurisdição do Tribunal Penal Internacional para o Ruanda:
Ratione materiae: genocídio, crimes contra a humanidade, violação do artigo 3º Comum às Convenções de Genebra e do Protocolo Adicional II será castigar-poder;
Ratione temporis: crimes cometidos entre 1 de Janeiro e 31 de Dezembro de 1994;
Ratione personae et ratione loci: crimes cometidos por ruandeses no território de Ruanda e no território de Estados vizinhos, bem como os crimes cometidos em Ruanda por cidadãos não ruandeses.
1.3 Responsabilidade Penal Individual
A responsabilidade penal individual recai sobre quem tiver planeado, instigado, ordenado, cometido ou, por qualquer outra forma, tiver ajudado e encorajado a planear, preparar ou executar um dos crimes referidos nos artigos 2.º a 4.º do Estatuto do TPIR, é considerado individualmente responsável por esse crime. Entretanto, o estatuto oficial de um acusado, quer se trate de um Chefe de Estado ou de Governo ou de um alto funcionário, não o isenta de responsabilidade penal, nem constitui motivo de redução da pena. O facto de um dos atos, referidos nos artigos 2.º a 4.º, terem sido cometidos por um subordinado não isenta o seu superior de responsabilidade penal, se sabia ou tinha motivos para saber que o subordinado se preparava para cometer tal ato ou já o tinha
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cometido e não adotou as medidas necessárias e razoáveis para impedir que o referido ato fosse cometido ou para punir os seus autores. (Art. 6º, nºs 1,2 e 3)
O facto de um acusado ter agido em cumprimento de uma ordem emitida por um governo ou um superior hierárquico não o isenta de responsabilidade penal, mas pode ser considerado motivo para redução da pena, se o Tribunal Penal Intencional para o Ruanda assim o determinar, no interesse da justiça. (Art. 6º, nº 4)