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4.2 A MATERIALIDADE DAS ATAS

4.2.2 Um exemplo: ata de 28 de janeiro de 1998

A data que o título desta seção faz referência é a da reunião que embasa a primeira ata analisada por esse trabalho. No oitavo andar do edifício-sede do Banco Central, em Brasília, iniciou-se às 17 horas e 20 minutos, o encontro que definiu os valores da TBC e TBAN naquele janeiro de 1998. Estavam presentes nesse dia os membros da diretoria3, chefes de departamento4, além de alguns assessores5. A estrutura da ata dividia-se em uma pequena introdução, contendo os principais pontos de pauta da reunião, seguida de uma apresentação mais pormenorizada da conjuntura econômica e política.

Desse modo, elencaram-se os seguintes pontos, divididos em seções: preços e nível de atividades, agregados monetários e crédito, finanças públicas, balanço de pagamentos, ambiente externo, evolução do mercado de câmbio, reservas internacionais, liquidez bancária, mercado monetário e operações de mercado aberto e, por fim, diretrizes de política monetária. Tinha-se, ao todo, 11 seções, finalizando com as decisões relativas à TBC e à TBAN.

Por todo o ano de 1998, as atas apresentaram a estrutura descrita acima, alterando apenas a profundidade das análises de uma para outra. Em algumas, deu-se mais importância aos

3 O presidente Gustavo Franco e os demais integrantes da diretoria: Carlos Eduardo Tavares de Andrade, Cláudio Ness Mauch, Demósthenes Madureira de Pinho Neto, Francisco Lafaiete de Pádua Lopes e Paolo Enrico Maria Zaghen.

4 Altamir Lopes (DEPEC), Maria do Socorro Costa de Carvalho (DEPIN), José Antônio Marciano (chefe, em exercício, do DEBAN) e Eduardo HitiroNakao (DEMAB).

5 Alexandre Pundek Rocha (consultor da Diretoria e secretário do Copom), Geraldo Villar Sampaio Maia (assistente do secretário do Copom) e Silvia Correa de Faria (assessora de imprensa).

índices de preços e nível de atividade econômica, em outras, o ambiente externo era preponderante, por exemplo. Essas alterações respondiam a dinâmica do momento de cada reunião e à percepção do colegiado sobre os fatores que poderiam influenciar as variáveis econômicas em observação. Em outras palavras, eram influenciadas pela própria conjuntura que pretendiam analisar.

No entanto, durante esse primeiro período não se alterou a estrutura da ata. Mantiveram-se as Mantiveram-seções, as mesmas variáveis, as mesmas divisões na apreMantiveram-sentação do documento. Somente houve modificação no ano seguinte, em 1999, com a chegada de Armínio Fraga à presidência do Banco Central e a implementação da chamada política de metas de inflação na determinação das diretrizes da política monetária brasileira. Aí sim, ocorreu uma mudança no formato das atas, com a adição de novas variáveis em análise e novas seções, bem como supressão de outras. Esse documento introduziu fio condutor que será importante para a investigação futura, bem como para a compreensão da dinâmica política e econômica cujas atas representam a expressão concreta. Mesmo com sua estrutura alterada em período posterior, as atas revelam mais do que simplesmente o comportamento de agregados monetários, já que suas perspectivas vão além de discussões relacionadas à moeda ou componentes correlatos, como, por exemplo, nível de juros. Apesar de seus encaminhamentos irem nessa direção, a rota que desvendam surge muito mais sinuosa.

As atas são documentos de análises econômicas e políticas que baseiam decisões sobre a taxa básica de juros no país. Sua complexidade pode ser percebida pela relevância de dois itens das seções anteriormente elencadas: preços e nível de atividade e ambiente externo. Em um primeiro momento, pode-se considerar que não compõem dados diretamente relacionados à moeda, entretanto apresentavam-se como fatores basilares na dinâmica econômica com o Plano Real, ao que se ligavam à política fiscal, às finanças públicas e ao financiamento externo. Somente esses fatores já seriam suficientes para explicitar que o debate sobre juros no Brasil envolve mais do que apenas questões monetárias. Quando se refere à política fiscal, liga-se, necessariamente, à distribuição de renda, do mesmo modo como o financiamento do Estado brasileiro relaciona-se ao mercado internacional. Enfim, considera-se que não apenas a moeda está em jogo, mas um modelo de desenvolvimento. É isso que as atas representam e é sobre isso que dialogam.

Como dito, preços e nível de atividade econômica são as duas maiores seções dos textos e o espaço em que se encontravam as análises mais detalhadas, perpassando os principais índices de preços do período e os três principais mercados no capitalismo global ao final da década de 1990: Estados Unidos, Alemanha e Japão. Indo ao encontro do parágrafo acima, não

é factível acreditar que tal característica aparecia como algo aleatório ou fruto da subjetividade daquele que redigiu o documento. Pelo contrário, expressava a compreensão da dinâmica da economia brasileira a partir da implementação do Plano Real.

Há, assim, dois temas centrais que, conforme o texto, baseavam as decisões quanto aos níveis de juros: política fiscal e seus reflexos nas finanças públicas (as atas já revelavam preocupação com o resultado primário do setor público) e comportamento do mercado global, relacionando tanto o comércio internacional, volume de exportações e importações, quanto à disponibilidade de capitais, seja para investimentos diretos ou aplicações financeiras de curto prazo.

O ano de 1997 findou com uma queda acentuada nos índices de preços. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu 5,22%, após os 9,56% do ano anterior. Comparado ainda aos 22,41% de 1995, a queda foi ainda maior (IBGE, [2020?]). No entanto, o relato da reunião de janeiro frisou a aceleração, em dezembro de 1997, de alguns valores como o Índice de Preços ao Consumidor (IPC-FIPE), a “alta generalizada, principalmente em alimentação e bebidas” (BACEN, 1998) do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), além de elevação do Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), bem como os efeitos dessas variações sobre a taxa de câmbio real. Deu-se ênfase também a queda da produção industrial verificada em novembro de 1997, principalmente nos setores de bens de capital e bens de consumo duráveis, confirmando, segundo a própria ata, dados da Federação da Indústria do Estado de São Paulo (FIESP) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre o recuo da atividade na indústria de transformação no mês de novembro. Dados da Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (IBGE, 1997) do IBGE mostravam, de fato, uma sensível redução na produção industrial no último bimestre de 1997, com queda generalizada em todos os setores, despontando os bens de consumo duráveis (-1,4%). Segundo a pesquisa, na comparação dezembro de 1997/dezembro de 1996, apesar da predominância de resultados negativos, houve aumento de 4,7% na produção de bens de capital, devido ao “aumento da renda agrícola e consequente crescimento do investimento em máquinas e insumos para o setor; crescimento da atividade de construção, inclusive construção pesada [...] e desempenho positivo das indústrias extrativas mineral” (IBGE, 1997, p. 7). Já o fraco desempenho da produção de bens de consumo duráveis teve como causa, segundo o documento, “esgotamento dos fatores que propiciaram a notável expansão acumulada no período 1993/97” (IBGE, 1997, p. 7). Em outras palavras, correspondia a uma retração cíclica, em vista do crescimento do período anterior (ainda segundo o documento, a elevação em bens de consumo

duráveis entre os anos de 1993 a 1996 foi de 94,6%). Desse modo, o cenário descrito pela ata referente à indústria, agravou-se no mês de dezembro de 1997.

Três outras seções receberam destaque ao longo do documento: finanças públicas, balanço de pagamentos e ambiente externo. Em relação ao primeiro item, o documento refere-se a uma dívida líquida do refere-setor público (DLSP) que atingiu, em novembro de 1997, 33,2% do Produto Interno Bruto (PIB), assim como as necessidades de financiamento do setor público (NFSP) no conceito nominal alcançaram a ordem de 5,03% do PIB no acumulado em 12 meses a partir do mesmo mês de 1997. Como resultado primário, no acumulado em 12 meses, obteve-se um superávit de 0,12% do PIB. Já no obteve-segundo item, a ata destacou que o “aumento de 38% no déficit em transações correntes em 1997 deveu-se ao maior déficit da balança comercial (51%) e da conta de serviços (27%) e à redução nas transferências unilaterais (24%)” (BACEN, 1998). Salientou também que do “total dos investimentos estrangeiros diretos, US$ 180 milhões foram destinados à privatização, em dezembro” (BACEN, 1998) e “em que pese as maiores saídas de capitais de curto prazo, o movimento do mês de janeiro vem permitindo expansão das reservas internacionais em aproximadamente US$ 1 bilhão” (BACEN, 1998). Dessa forma, citou os dois maiores pilares do financiamento externo brasileiro no pós-Plano Real: privatizações e capitais de curto prazo.

O terceiro item indicado apareceu como a seção mais extensa do documento e centrou-se, basicamente, nos três grandes mercados do capitalismo global na época: Estados Unidos, Alemanha e Japão. No entanto, em seu início discorreu-se acerca da crise dos mercados financeiros da Ásia, indicando a piora da situação da Indonésia, em um cenário em que houve melhora no mercado sul-coreano:

Assim, embora em menor escala, a Ásia parece estar iniciando (sic) processo semelhante ao vivido pela América Latina no início dos anos 80 e que resultou na securitização da dívida externa de países como o Brasil, via troca de dívida original por Brady Bonds. A situação da Indonésia combina instabilidade política e insolvência financeira. Sessenta por cento da dívida externa do país é de curto prazo, tendo a rúpia se desvalorizado em mais de 80% contra o dólar desde julho de 1997 (59,9% somente nestes primeiros dias do ano). (BACEN, 1998)

Logo se confirmou que a análise do cenário político também se apresentava como uma variável importante para o Copom, principalmente em um quadro que combinava “instabilidade política” e “insolvência financeira”. É curiosa a referência à “insolvência financeira” da Indonésia, referindo-se, para isso, à composição dominante de curto prazo da dívida externa do país, pouco depois de afirmar que, apesar das saídas de capitais de curto prazo da economia brasileira, as reservas internacionais aumentaram em cerca de R$ 1 bilhão. A descrição do

cenário de insolvência do país asiático guardava os segredos da insolvência brasileira que se revelaria em aproximadamente dez meses, com o ataque especulativo ao real. Esse assunto, de fato, não estava “oficialmente” sendo tratado pelo documento, demonstrando-se confuso nesse sentido. Apesar de mencioná-lo, não faz nenhuma digressão sobre a capacidade brasileira de resistir a um ataque especulativo ou se havia risco de contaminação do real pela crise externa. Existia apenas um trecho que comentava a preocupação do “mercado doméstico” sobre a solvência brasileira e esse se encontrava quando o assunto era evolução do mercado de câmbio:

No mercado doméstico, o clima de “recesso” que caracterizou o mercado de câmbio até o início do mês de janeiro foi interrompido com as notícias sobre o agravamento da situação na Indonésia, acompanhadas por artigos na imprensa nacional e estrangeira a respeito da vulnerabilidade do Brasil a novo ‘ataque especulativo’.(BACEN, 1998)

Logo após, referindo-se às reservas internacionais, o texto mencionou um aumento de R$ 1 bilhão compondo, em dezembro de 1997, R$ 53,2 bilhões em liquidez internacional e R$ 52,5 bilhões em caixa. O documento não indicou o tipo de reservas que se dispunha no momento, apenas fez uma menção, já citada, sobre a saída do país de capitais de curto prazo e o aumento das privatizações. Na última seção, citou ainda que o “quadro [crise asiática] que se afigurava era bem mais favorável, tendo em vista a disposição de diversos países da região em se adequar a programas amplos de ajuste.” (BACEN, 1998). Dessa forma, o colegiado apresentou postura titubeante quanto à capacidade brasileira de resistir à propagação da crise externa e defender a moeda doméstica. A mensagem era, no mínimo, dúbia.

O texto ainda fez referências ao papel da Alemanha como país fiador da unificação monetária e do Bundesbank, como garantidor do futuro banco central europeu. Demonstrou preocupação com a falta de dinamismo da economia japonesa e a principal referência aos EUA relacionava-se à chamada “flight to quality”, devido a crise asiática. Em síntese, os títulos do tesouro americano apresentavam-se como porto-seguro da economia mundial em fins de 1997. Após essas digressões e alguns dados levantados sobre liquidez bancária, mercado monetário e operações de mercado aberto, chegava-se, por fim, as diretrizes de política monetária, momento em que se decidiu, por consenso, fixar a TBC em 34,5% a.a. e a TBAN em 42% a.a. No corpo do texto ainda havia uma observação sobre o nível da atividade econômica e os “efeitos secundários da alta dos juros”:

Observou-se que a atividade econômica estava mostrando redução significativa em certos setores, expressando os primeiros impactos da política monetária, mas não ainda os efeitos secundários da alta dos juros. Estes efeitos deveriam ocorrer ao longo de um período mais prolongado tendo em vista a defasagem natural na transmissão da

política monetária. Considerou-se que a política monetária se mostrava eficaz no controle da absorção interna, mas a extensão de seus efeitos dependeria de seus próximos passos. (BACEN, 1998)

De fato, a atividade produtiva voltaria a patinar no ano seguinte. Segundo dados do IBGE ([2020?]), o 4º trimestre de 1998 encerrou, no acumulado de 12 meses, com elevação de apenas 0,3%, recuando 0,4% no 3º trimestre de 1999, também no acumulado de 12 meses. Esse cenário apenas se alterou no decorrer do ano 2000, como consequência da desvalorização do real promovida em janeiro de 1999 e pela paulatina melhora do cenário externo.

A ata da reunião de janeiro de 1998 serve como referência da maneira como as avaliações do Copom serão analisadas e expostas neste trabalho. Representa, assim, o concreto da análise, a materialidade das atas do Comitê de Política Monetária. Através de suas linhas procura-se confirmar a hipótese central desse trabalho, qual seja, a constituição do Plano Real como modelo de desenvolvimento de longo prazo da economia brasileira, instituindo um bloco no poder cuja hegemonia baseava-se nos interesses do capital financeiro nacional. Portanto, prossegue-se a investigação na busca da totalidade concreta (KOSIK, 1985) do período, de seu concreto pensado (MARX, 1978).

5 O REAL DO GOVERNO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO: ÂNCORA CAMBIAL E CONSTRUÇÃO DA HEGEMONIA FINANCEIRA (1995 – 1999)

Após a reconstituição histórica da financeirização do capital e o estudo do que se considerou os principais pontos ligados à economia política e à macroeconomia do Plano Real, a partir da materialidade das atas do Comitê de Política Monetária, mira-se por ora nos aspectos contingentes do período em estudo. Como explicitado na introdução, optou-se por dividir a exposição da análise de acordo com os mandatos presidenciais, com subdivisões relacionadas às trocas na presidência do Banco Central. Trata-se das gestões de Gustavo Franco e Armínio Fraga, durante os mandatos de Fernando Henrique Cardoso, e de Henrique Meirelles nos governos Lula. A intenção é expor à cronologia dos fatos que baseiam a documentação. O presente capítulo discorre sobre as atas do Copom elaboradas no decorrer do ano de 1998, focando o Plano Real dos governos Fernando Henrique Cardoso.