Como docente no ensino superior constato que o movimento em prol da educação para todos41 mobilizou e impulsionou uma grande parcela (embora ainda infinitamente pequena) das pessoas com deficiência a ter acesso ao Ensino Superior. Nesta última década, o debate sobre a inclusão da pessoa com deficiência ganhou respaldo significativo nas leis e políticas públicas e também, amplas projeções na mídia, no poder público, nas instituições, nos movimentos sociais liderados por pessoas que no cotidiano vivem situações de discriminação pela deficiência e, consequentemente, a exclusão.
Penso que é nas políticas públicas e em sua efetivação que se pode avaliar o real compromisso da sociedade em defesa da inclusão, mas o acesso a educação em nível superior marcado pelas iniciativas legais, até então existentes, são os elementos que podem promover as discussões, mas não garanti-las efetivamente.
A inclusão se mostra muito mais complexa e, com certeza, transcende um discurso meramente romântico de estarem todos juntos, com os mesmos direitos. É um processo que se mostra em realidades de múltiplos interesses, principalmente quando se intensificam os questionamentos acerca da diversidade humana e das desigualdades sociais, em especial na sociedade brasileira devido ao grande número de excluídos, por razões diversas (classe, gênero, etnia, deficiência...).
A busca pela justiça social e o reconhecimento da diferença faz parte de um movimento produzido recentemente pela sociedade e está ligada aos direitos humanos e sociais. Taylor (1994) afirma que o reconhecimento nada mais é do que uma “necessidade humana vital”, ou seja, reconhecer socialmente o outro é condição básica do desenvolvimento social e humano. Sem a devida compreensão
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A Conferência Mundial sobre Educação para Todos, realizada na Tailândia, em 1990, tinha por objetivo estabelecer compromissos mundiais para garantir a todas as pessoas os conhecimentos básicos necessários a uma vida digna, para desenvolver uma vida mais humana e mais justa. Desta conferência resultou a elaboração de um documento que incluiu definições e novas abordagens sobre as necessidades básicas de aprendizagem, as metas e compromissos dos Governos e outras entidades participantes. Os países participantes foram incentivados a elaborar Planos Decenais de Educação Para Todos, em que as diretrizes e metas do Plano de Ação da Conferência fossem contempladas.
acerca da complexa dimensão da inclusão e seus fundamentos, ela pode se transformar em objeto de um discurso vazio, ou simplesmente ideológico. A inclusão dos deficientes depende de modificações nas relações sociais e se dará de forma muito mais efetiva quando as pessoas com deficiência participarem como protagonistas deste movimento.
Atualmente, pesquisadores42 dedicam-se a mostrar, através de um amplo resgate histórico e/ou de um posicionamento filosófico político, a importância da inclusão nos dias de hoje e buscam discutir os rumos do processo, propondo caminhos a partir de princípios como a “educabilidade de todos” e de estudos comparativos com outros países. Desde o ponto de vista da Educação Especial, tais pesquisadores defendem a necessidade de garantir a qualidade da aprendizagem de todos os alunos, não apenas daqueles com deficiência. Assim, discutem a possibilidade de uma mudança de paradigma educacional na rede escolar possibilitada pelos princípios da educação inclusiva.
Diversas teorias podem respaldar análises acerca da inclusão, mas meu foco recai exatamente na condição destes sujeitos com deficiência que, num processo de exclusão permanente, foram e são alijados da sociedade e, pela sua própria condição, foram se constituindo em grupos identitários em luta pelo reconhecimento.
O conceito de inclusão que se aproxima mais da minha compreensão e prática diz do conceito formulado por Oliveira (2009, p. 46), “convidar a que se aproximem aqueles que estiveram historicamente excluídos, deixados de lado ou de fora”, confirmando, assim, a existência de um processo de exclusão anterior, pensado a partir do que se constituiu no passado. Tal posição sugere uma revisão do que definimos ser a inclusão, já que, de um ponto de vista crítico, todos os seres humanos estão incluídos na lógica do sistema capitalista, porém, em posições diferenciadas.
Há, então, segundo Oliveira (2009), uma inclusão privilegiada e uma inclusão desvantajosa, sendo que uma somente existe e se mantém a custa da outra. Para alguns, a inclusão se configura em oportunidades, acesso e usufruto dos bens culturais, privilégios econômicos etc. Para a maioria, entretanto, a inclusão se
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consubstancia em falta, ausência, escassez e, às vezes, em trajetórias de vida marcadas pela desumanização.
A autora ainda afirma que o discurso da inclusão promove um ocultamento que não deixa perceber que a inclusão privilegiada de uns poucos é possibilitada pela inclusão desvantajosa de muitos. Ou seja, para alguns terem benefícios, outros não os usufruem.Neste entendimento, a inclusão pode ser atribuída a um prolongamento do capitalismo em direção a novos mercados produtores e consumidores, o que implica em uma inclusão que se dá, predominantemente, para formação de capital humano, com consequências desastrosas para os chamados excluídos, que é o que temos visto até agora.
Frigotto (2003, p.32) acentua que “Cabe, apenas, registrar que o caráter explícito desta subordinação é de uma clara diferenciação da educação ou formação humana para as classes dirigentes e a classe trabalhadora”. Desta maneira, o paradigma da inclusão tem se firmado como política voltada para a produtividade, eficiência e desempenho, categorias estas contidas na lógica da mercadorização das relações humanas e de ideais economicistas que reduzem a educação à formação de capital humano, a fator de produção.
Há também que se considerar o caráter da formação humana quando falamos em inclusão. A possibilidade de nos constituirmos sereshumanos com os outros através da palavra, dos ensinamentos, da ajuda e do modelo do outro nos mostra a importância de estarmos juntos e sermos reconhecidos na nossa singularidade. A inclusão pode ser considerada, assim, fator preponderante para a formação humana e a cidadania. Propicia a construção de identidades, o respeito às diferenças, de modo a compreender que somos todos permeados pela diversidade.
Nesse sentido, Frigotto (2003) acrescenta que a formação humana diz respeito ao desenvolvimento de condições físicas, mentais afetivas, estéticas elúdicas do ser humano, capazes de ampliar a capacidade desatisfação das múltiplas necessidades no seu devenir histórico. Assim sendo, está no plano dos direitos que não podem ser mercantilizados, pois agridea própria condição humana.
Para Mantoan (2006), a inclusão pode ser considerada como a capacidade de entender e reconhecer o outro e assim, ter o privilégio de conviver e compartilhar com pessoas diferentes de nós, acolhendo a todas as pessoas sem exceções, pois é por meio do outro que nos desenvolvemos e nos humanizamos.Todavia, ao analisarmos o percurso histórico da Educação Especial vamos perceber que só
recentemente a pessoa com deficiência é entendida e reconhecida como um sujeito de direitos. A pessoa deficiente sempre foi apontada como a diferente que feria todo e qualquer padrão ideal de sujeito, daí porque foi identificada como incapaz e marcada pela sua segregação.Situação, por muito tempo, institucionalizada na sociedade.
Conforme Aranha (2004)43, é possível afirmar que somente a partir do século vinte, com o avanço das ciências sociais e humanas, ampliou-se o campo conceitual das concepções da deficiência, desencadeando perspectivas de entendimento que repercutem hoje nas práticas educativas, sejam elas metafísica, clinica-medica, social, educacional ou interacionista. Desta forma, também observo que os grandes problemas sociais se configuraram na eliminação da diferença pelas práticas educativas, no caso da educação especial, pela segregação, que substituía a institucionalização através da criação de classes e escolas especiais para os deficientes, impedindo-os de frequentarem o ensino regular. Estas práticas limitaram as possibilidades de o deficiente lograr espaços nos níveis mais elevados de escolaridade, sendo uma das grandes causas do número inexpressivo de pessoas com deficiência no ensino superior.
Historicamente, as pessoas com deficiência foram consideradas pessoas “diferentes”. Segundo Aranha (1995), a deficiência sempre foi vista pelos olhos da cientificidade, já que ser diferente não estava em um nível de discussão filosófica e/ou educacional, mas, sim, orgânica e clínica. Ou seja, a diferença sempre foi considerada a deficiência de algo considerado normal e nunca reconhecida como uma forma de vida, uma cultura com identidade própria.
A educação especial conserva para si um olhar iluminista sobre a identidade da alteridade deficiente, Istoé, vale-se das oposições de normalidade/anormalidade, de racionalidade/irracionalidade e de completude/incompletude como elementos centrais na produção de discursos e práticas pedagógicas. Os sujeitos são homogeneizados, infantilizados e, ao mesmo tempo, naturalizados, valendo-se de representações sobre aquilo que está faltando em seus corpos, em suas mentes, em sua linguagem, etc.(SKLIAR, 2003, p.158).
Esse autor considera que a exclusão é uma forma de negar o exercício do direito de viver na própria cultura, no próprio corpo, e principalmente de impedir que
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Texto aprofundado sobre as concepções que nortearam a construção de uma política de inclusão (ARANHA, 2004).
o sujeito possa pertencer a uma comunidade de direitos e de ter o direito da/à diferença.
Segundo diversos autores, entre elesRepa(2010), Nobre (2003), Honneth (2009), Holmes (2009), Saavedra e Sobottka (2008), os debates sobre o reconhecimento da diferença sugerem reflexões e até, muitas vezes, saídas para a minimização das exclusões causadas pelos padrões estabelecidos historicamente.
O interesse pelo debate acerca da diferença/deficiência no âmbito da luta pelo reconhecimento liga-se, portanto, aos estudantes que chegam a frequentar um curso de nível superior, por entender que estes nunca foram reconhecidos como alunos capazes de estarem na classe comum de ensino regular e quiçá na universidade.Percebo que os alunos com deficiência na universidade e talvez em qualquer espaço, ainda são vistos como sujeitos incapazes, doentes, coitadinhos e, com isso muitas vezes excluídos pelas suas diferenças.
Nas palavras de Honneth(2009), o reconhecimento está diretamente relacionado ao conceito de eticidade e justiça social e destes, depreende-se o entendimento de que a inclusão significa a plenitude da participação na/da vida em sociedade usufruir dos espaços, das instituições, da vidacoletiva em iguais condições de oportunidades a todas as pessoas.
A forma como se classificou a deficiência, no decorrer da história, ajudou a determinar quem seriam os iguais e quem seriam os diferentes na sociedade. Neste caminho, é esta relação, do sentido que a deficiência nos causa quepossibilita abrir novas perspectivas e novos horizontes, pois traz a certeza de que temos que reconhecê-la, sem modificá-la, somente tomá-la como diferença. A deficiência é uma forma de vida como tantas outras existentes em nossa sociedade e, nessa perspectiva a Convenção Internacional dos Direitos Humanos (CPCD-ONU, 2006) define um conceito de caráter social para a deficiência
[...] pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.
Desta forma, é possível perceber que o que está sendo discutido são as relações sociais que se estabelecem e não mais o indivíduo pela sua condição. A deficiência não reside, hoje, somente na pessoa, mas na sociedade.
Lima e Dantas(2013) afirmam que a culturalidade da deficiência cria mais um grupo específico para atingir o alcance dos direitos fundamentais, logo, a sociedade deve firmar-se para incluir este grupo específico, sendo que, independente das patologias das múltiplas deficiências existentes, todos precisam ser destinatários de direitos para sua plena participação social. E acrescentam que em termos constitucionais não há como não reconhecer a deficiência como uma forma diversa de vida, uma cultura, pois caso isso não possa acontecer, o modelo social fica dotado de pragmaticidade não possibilitando a participação eficaz dos deficientes na sociedade.
Sendo assim, entender a existência da culturalidade da deficiência é reconhecer a identidade de um grupo que por muito tempo foi excluído da sociedade e que hoje, pela luta do reconhecimento de sua diferença busca garantir seusdireitos. Percebo com isso a importância de pensar de forma crítica e hermenêutica essas questões para poder ampliar as possibilidades de compreensãoda diferença sem determinar um único caminho para tal, pois as pessoas com deficiência estão nesse debate, muitas vezes, numa relação de não reconhecimento de suas identidades.
Para Honneth (2009),a formação da identidade humana está conectada ao reconhecimento intersubjetivo cotidianoe, nesse sentido, aponta estruturas que podem servir como possibilidades de análise. Segundo o autor, a primeira forma de desrespeito e não reconhecimento do outro, refere-se às formas de abuso, seja físico, emocional ou sexual; a segunda relaciona-se à negação de direitos e à exclusão; a terceira tem a ver com degradação e insulto.
A importância do reconhecimento do outro é a base para as relações sociais, base por meio da qual buscamos a valorização da relação intersubjetiva e a autorrealização pessoal e estas dependem, exclusivamente, da existência de relações éticas bem estabelecidas. Assim, a deficiência não pode ser entendidacomo “um estado não desejável, impróprio, de algo que cedo ou tarde voltará a normalidade [...] a diferença existe independentemente da autorização, da aceitação, do respeito ou da permissão outorgada da normalidade” (SKLIAR, 1999,p.22).
Isso implica, segundo Repa (2010, p. 28), em considerar que “na luta pelo reconhecimento, o reconhecimento do outro é ao mesmo tempo um reconhecimento de si no outro e do outro em sua identidade inalienável, ou seja, em sua diferença”.
Dessa forma, para a teoria do reconhecimento a identidade não é algo fixo, mas uma autorrelação, constituída pela autoconfiança em si mesmo, pelo autorrespeito e pela autoestima, mediadas, sempre, pelo reconhecimento do outro.
A busca por esta compreensão faz rever as noções de igualdade e diferença como algo que precisa ser mais problematizado, pois, nesta pesquisa entendo a diferença não como “o diverso”, mas como algo pensado sempre em relação à identidade. Conforme Gallo (2011,p. 9), “tomar a diferença de si mesma e para si mesma, sem ser relativo a algo ou mesmo uma negação, significa deslocar o referencial da unidade para a multiplicidade”. Geralmente buscamos a igualdade queapaga e ignoram as diferenças e que torna o diferente um grupo, um coletivo distante que necessita ser normalizado, ou olhamos para diferença como possibilidade de (des)igualdade.
Essa problemática segue centrada em pensar as identidades dos estudantes com deficiência a partir do discurso da igualdade, negando as diferenças. Silva (2012) enuncia que devemos deslocar o nosso olhar e não nos limitarmos a celebrar a diversidade, mas aprender a ver a diferença de forma disjuntiva, como um processo que envolve contextos históricos impregnados por relações de poder profundamente assimétricas. Nesse sentido Silva, Hall e Woodward (2012) reforçam afirmando que a diferença é um elemento central dos sistemas classificatórios por meio dos quais os significados são produzidos.
Nessa mesma perspectiva, Santos (2006) problematiza a igualdade/ diferença, de forma a reconhecer as diferenças culturais dos grupos humanos, sem as desqualificar, garantindo a todos a sua igualdade de direito de serem humanos, individualmente, e, também, suas diferenças como sujeitos sociais e políticos, lembrando que elas são permeadas pelas relações culturais.
Assim, pode-se afirmar que atitudes que denotam discriminação têm um papel de destaque tanto na identificação das formas de desrespeito aos grupos sociais marginalizados, neste caso os deficientes, quanto no processo de reconhecimento intersubjetivo dos sujeitos na formação da identidade e no processo de seu reconhecimento social. Essas indagações contribuem paraentender como temos dificuldade em falar sobre os diferentes e as diferenças, pois, ao não perceber a diferença como uma construção histórica, social e cultural,permeada por relações de poder e dominação, corremos o risco de não reconhecer as diferenças.