Todo esforço classifi catório deve levar em conta os objetivos a que se propõe. No caso da classifi cação sugerida a seguir, foram levados em consideração os seguintes objetivos:
1. Auxiliar na determinação dos critérios distributivos das receitas que ve- nham a ser auferidas com a venda, no mercado, dos “Early Credits”, classifi cando os projetos entre aqueles que diretamente contribuíram para as Reduções de Emissões em seu sentido estrito, no passado, e aqueles que poderão contribuir para tal fi m no futuro.
2. Classifi car os projetos de forma que seja possível identifi car e mensurar as remunerações a que têm direito, quer sejam receitas oriundas da ven- da de créditos de carbono, ou ressarcimento de custos de oportunidade. 3. Classifi car os projetos de forma que se possam criar mecanismos de es- tímulo, quando sua contribuição para o desmatamento se dá de forma indireta e, consequentemente, de difícil mensuração objetiva.
Com esses objetivos em mente, um esforço preliminar, que certamente não esgota todas as possibilidades, poderia classifi car projetos nas seguintes categorias:
1. Projetos de preservação integral de fl orestas nativas. 2. Projetos de exploração sustentável de fl orestas nativas. 3. Projetos de refl orestamento nas bordas das fl orestas nativas.
4. Projetos de aumento da produtividade agrícola ou agropecuária em áre- as vizinhas, ou não, a fl orestas nativas.
Esta classifi cação nos parece adequada porque agrupa, em grandes cate- gorias, projetos que têm características semelhantes e que, portanto, poderiam ter tratamentos apenas ligeiramente distintos em função de suas idiossincrasias particulares. Porém, certamente ela não esgota todas as possibilidades, mas ser- vem ao propósito deste artigo de nos auxiliar na compreensão do conceito de REDD+ e na aceitação da necessidade de se incorporar o conceito de custo de oportunidade na busca de soluções para este complexo tema do desmatamento das fl orestas nativas.
Com efeito, as duas primeiras categorias agrupam projetos que certamente contribuíram para os resultados auferidos pelo Estado do Acre em seu traba- lho de monitorar os “Early Credits”, segundo uma metodologia de “Nested Approach”, ou de monitoramento das Reduções de Emissões para o Estado como um todo. Embora tais projetos não tenham sido registrados formalmente
CONSIDERAÇÕES SOBRE OS CONCEITOS DE REDD E REDD+ 161
no passado, a demarcação das terras indígenas, o desenvolvimento de projetos de exploração sustentável das fl orestas, e os assentamentos diferenciados, cujas atividades econômicas se baseiam em práticas sustentáveis, permitem georre- ferenciar áreas que certamente são fortes candidatas a se benefi ciarem de uma eventual distribuição das receitas oriundas da venda dos “Early Credits”.
O registro formal de projetos futuros com as características dessas duas categorias também os torna elegíveis à apropriação de receitas oriundas de ven- das de créditos futuros, pois a análise desagregada dos dados de desmatamento mostrou que no passado esses tipos de atividade foram as que mais contribuí- ram para a preservação das fl orestas nativas, permitindo antecipar que deverão continuar a se comportar dessa forma no futuro.
Entretanto, projetos de preservação e de extrativismo sustentável em terras privadas, inclusive em áreas de preservação permanente, certamente requererão, no futuro, remuneração adicional que cubra os custos de oportunidade da terra, pois, como frisamos ao longo deste artigo, os créditos de carbono, em Estados com grandes áreas de cobertura fl orestal, são insufi cientes para cobrir os custos de oportunidade da terra.
Os projetos de refl orestamento nas bordas das fl orestas nativas, entretanto, embora do ponto de vista de sua contribuição para o combate ao aquecimento global sejam os mais recomendáveis, difi cilmente se benefi ciarão dos “Early Credits”, simplesmente pelo fato de não existirem no período coberto pelo mo- nitoramento. Porém, além dos créditos de carbono do tipo tCER, aceitos no âmbito do Protocolo de Quioto, esses projetos deveriam se benefi ciar também da distribuição dos créditos de carbono oriundos de Reduções de Emissões, que venham a ser monitoradas no futuro segundo o “Nested Approach”, pois fl orestas plantadas nas bordas de fl orestas nativas não só absorvem CO2 da at- mosfera, como constituem também uma barreira física que impede o acesso às fl orestas nativas, contribuindo, portanto, diretamente para a redução das emis- sões que ocorreriam por desmatamento. No caso das fl orestas nativas privadas, protegidas por projetos de refl orestamento, elas deveriam ainda ser elegíveis a receber ressarcimento de seu custo de oportunidade.
Finalmente, a última classifi cação tenta englobar uma difusa gama de pro- jetos que, embora venham a contribuir para uma redução das pressões poten- ciais sobre as fl orestas nativas, difi cilmente terão uma metodologia inquestioná- vel de monitoramento. Como em sua maioria se referem a projetos de aumento de efi ciência econômica, eles já possuem, intrinsecamente, o devido estímulo econômico à sua implantação. Porém, na maioria dos casos desse tipo, a imple- mentação de tais projetos só é possível após um longo período de desenvolvi-
mento de novas tecnologias o que, além de dispendioso, é na maioria das vezes de difícil apropriação dos retornos, pois o conhecimento, uma vez difundido, se torna um bem público. Este tipo de projeto certamente se benefi ciaria de eventuais linhas de fi nanciamento a juros subsidiados, ou de verbas a fundo perdido, que permitissem o desenvolvimento das novas práticas geradoras des- sas externalidades positivas.
Conclusão
Pelo que foi exposto no presente trabalho, a experiência do Estado do Acre no desenvolvimento de um projeto de REDD, em seu sentido estrito, usando uma metodologia de “Nested Approach”, contribuiu não só para o desenvolvimento de uma metodologia de monitoramento e verifi cação das Reduções de Emis- sões, equiparando -as em função de sua transparência e credibilidade a outras metodologias já amplamente aceitas no âmbito do Protocolo de Quioto, como ajudou a identifi car, também, as variáveis econômicas envolvidas na dinâmi- ca do desmatamento, explicitando, de forma clara, a necessidade de esforços complementares no sentido de se desenvolverem mecanismos que venham a ressarcir os custos de oportunidade da terra.
Mecanismos com esse objetivo podem ajudar no desenvolvimento de pro- jetos dentro de uma denominação que se convencionou chamar de REDD+, pois na maioria dos casos o que esses projetos buscam são remunerações com- plementares que cubram os custos de oportunidade da terra que nos Estados com grandes extensões de cobertura fl orestal são provavelmente maiores do que as receitas que se poderão obter através da venda de créditos de carbono.
O desenvolvimento de tais mecanismos, entretanto, em função de sua complexidade, foge ao escopo do presente artigo.
Introduction
According to North (2000:1) “the institutional framework provides the in- centive structure that dictates the kinds of skills and knowledge perceived to have the maximum payoff ”. Observing the diff erent institutional structures of modern market economies, authors like North (1990), Eggertsson (1990), Furubotn and Richter (1998), and Williamson (1985, 2000) emphasize that institutions are introduced to reduce uncertainty and economize on transaction costs. On the other hand, the social constructive perspective on institutions understands the world as socially constructed, where concepts are collectively produced (Vatn, 2005). Two fundamental issues related to Reducing Emis- sions from Deforestation and Degradation (REDD+) in developing countries concerns to uncertainty/risks and transaction costs of projects. Th is analysis argues for the need of establishing and reforming institutions for REDD+ ha- ving a more “socially oriented” focus (Vatn, 2005) as a way of eff ectively reduce risks like: elite capture of benefi ts, corruption and unfair distribution of rights and responsibilities. Th e choice of a social oriented focus would also refl ect Agrawal et al. (2010) argument that “attempts to reverse deforestation on the extensive forest frontier need macro -policy reforms but that such reforms can be strengthened if policy makers also attend to micro -level forest governance by creating strong local forest management institutions”. Th rough the lenses of the Brazilian case this work will look for formal and informal institutions for REDD+ with particular focus on property rights and benefi t -sharing as a way to increase eff ectiveness and fairness of the mechanism. Th e fi rst part will introduce the concept of institutions and how I will analyse them in this paper. Th e second part will be dedicated to an analysis of REDD+ institutions in the 1 Th e author is very thankful to Arild Vatn for his fundamental comments on the text and his inspiring
arguments.
2 Author affi liations: Programa de Direito e Meio Ambiente (PDMA) — Fundação Getúlio Vargas and Federal Rural University of Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ). Contact: [email protected].