A fase mais recente da emigração portuguesa está a ser construída por um conjunto de indivíduos que, em ter- mos de capital humano, evoluiu de uma população com elevados níveis de analfabetismo e baixa escolaridade (nos anos 60 e 70) para uma população composta, em boa parte, por recursos humanos mais escolarizados (em resultado do aumento geral da escolarização da população portuguesa, cf. figura seguinte), alguns deles com um capital humano altamente especializado (sobretudo na última década). Não significa que Portugal tenha deixado de exportar mão-de-obra menos qualificada (que continua a ser maioritária) mas sim que, desde há alguns anos, a emigração portuguesa apresenta uma composição mista (qualificada e não qualificada) incluindo Figura 1 – Taxa de crescimento real do PIB 1981-2016
As saídas anuais nesse período igualam os valores registados durante última vaga emigratória massiva, entre meados da década de 1960 e início da década de 1970. Os números do Observatório da Emigração (OEm) em Portugal mostram essa evolução (ver figura 2). Entre 2001 e 2007, a emigração foi aumentando de maneira gradual, tendo passado de 40 mil para 90 mil saídas anuais entre estes dois anos. Nos anos de 2008 a 2010, ocorreu uma quebra nas saídas, devido, principalmente, aos efeitos da crise financeira e económica internacio- nal nos tradicionais países de destino dos emigrantes que reduziram, momentaneamente, a sua capacidade de atração (e.g. Espanha). A partir de 2011, e em consequência do agravamento da situação económica e social em Portugal no contexto já referido de assistência financeira internacional, a emigração voltou a aumentar para atingir o pico máximo de 120 mil saídas anuais – o equivalente a 1% da população residente – no ano de 2013. Desde 2013, a emigração iniciou uma trajetória de descida gradual, em linha com a recuperação económica no país correspondendo, em 2016, a cerca de 100 mil saídas anuais (Pires et al., 2017).
Figura 3 – População residente com 15 ou mais anos: total e por nível de escolaridade completo mais elevado
Figura 3 – População residente com 15 ou mais anos: total e por nível de escolaridade completo mais elevado
Para ilustrar esta evolução e os seus resultados, importa revelar alguns números: a população portuguesa com ensino superior triplicou nos últimos 20 anos. O total de portugueses com um grau de Ensino Superior era de 49.065 em 1960 (21,8% eram mulheres) e de 1.244.742 em 2011 (60,6% eram mulheres). Este crescimento de mais de 2.500% no número de diplomados do ensino superior não foi acompanhado por um ritmo semelhan- te de evolução das necessidades do mercado de trabalho nacional (sobretudo no setor privado), o que acabou por tornar explícito um desequilíbrio estrutural entre o nível e volume da formação, da oferta de mão-de-obra, face ao exigido pela procura no mercado de trabalho nacional.
Figura 4 - População residente com 15 e mais anos, segundo os Censos, com o ensino superior completo: total e por sexo
Anos Total Masculino Feminino
1960 49 065 38 345 10 720 1970 49 375 34 710 14 665 1981 155 284 100 515 54 769 1991 284 075 149 896 134 179 2001 674 094 283 117 390 977 2011 1 244 742 490 405 754 337
Fontes de Dados: INE - X, XI, XII, XIII, XIV e XV Recenseamentos Gerais da População Fonte: PORDATA
Este desajustamento entre qualificações na oferta de mão-de-obra e a procura de trabalhadores no mercado de trabalho tem consequências económicas, sociais e políticas. O elevado investimento que o país fez na formação de capital humano (ver figura seguinte) em valor acumulado ou per capita, não é recuperável através da sim- ples exportação deste capital e da importação de remessas financeiras. De um investimento próximo de dois euros per capita, nos anos 1960 e 1970, para valores máximos de 810 euros por ano e per capita no período pré-troika, há hoje um potencial imenso por rentabilizar económica e socialmente.
Figura 5 – Despesas do Estado em educação: execução orçamental per capita
Este forte investimento em educação (sobretudo no ensino superior) não tem sido aproveitado pelo mercado de trabalho nacional. Portugal apresenta uma das maiores percentagens de trabalhadores com qualificações supe- riores ao exigido pelo exercício da profissão (entre os 18% e os 20%, cinco pontos percentuais acima da média da OCDE), evidenciando, assim, “uma afetação ineficiente dos recursos e uma qualificação dos trabalhadores desajustada a uma parte significativa da procura do mercado de trabalho” (Alexandre, 2017: 109). Acresce que, na última década, se assistiu a uma redução da rendibilidade do investimento em ensino superior. Dito de outro modo, é menos compensador tirar um curso de Ensino Superior atualmente do que no passado. A vantagem salarial dos diplomados com formação superior (face a detentores de qualificações mais baixas) reduziu-se, sobretudo, nos graduados com menos de dez anos de experiência no mercado de trabalho, passando de 58% para 38% (Alexandre, 2017). Com formação superior mas sem experiência laboral, para muitos, isto significa a obtenção de uma menor rentabilidade do investimento feito na educação. Por outro lado, a taxa de desemprego jovem (qualificado e não qualificado) tem sido, ao longo das últimas décadas, pelo menos o dobro da taxa de desemprego total. O desemprego jovem em Portugal atingiu o seu pico máximo em 2013 quando 38,1% dos
MODELO PROSPETIVO DE DESENVOLVIMENTO
jovens menores de 25 anos se encontravam desempregados numa manifestação da desadequação das suas qualificações e/ou das necessidades, procuradas pelo mercado de trabalho nacional.
Figura 6 - Taxa de desemprego: total e por grupo etário (%)
Anos Grupos etários
Total <25 25-54 55-64 1983 ┴ 7,8 ┴ 18,3 ┴ 5,1 ┴ 2,4 1984 8,4 20,1 5,7 1,9 1985 8,7 20,5 5,9 2,4 1986 8,4 19,2 6,0 2,4 1987 7,0 15,8 5,0 2,4 1988 5,7 13,0 4,2 2,2 1989 5,0 11,5 3,8 1,6 1990 4,7 10,3 3,6 2,1 1991 4,1 9,1 3,3 2,2 1992 ┴ 4,1 ┴ 10,0 ┴ 3,2 ┴ 1,9 1993 5,4 12,6 4,4 3,4 1994 6,7 14,7 5,8 3,9 1995 7,1 16,1 6,1 4,1 1996 7,2 16,5 6,1 4,7 1997 6,7 14,8 5,8 5,0 1998 ┴ 4,9 ┴ 10,4 ┴ 4,4 ┴ 3,3 1999 4,4 8,8 4,0 3,0 2000 3,9 8,6 3,5 3,2 2001 4,0 9,4 3,5 3,1 2002 5,0 11,7 4,5 3,6 2003 6,3 14,6 5,8 4,3 2004 6,6 15,4 6,0 5,5 2005 7,6 16,2 7,2 6,1 2006 7,6 16,5 7,3 6,3 2007 8,0 16,7 7,8 6,5 2008 7,6 16,7 7,2 6,6 2009 9,4 20,3 9,2 7,6 2010 10,8 22,8 10,7 8,9 2011 ┴ 12,7 ┴ 30,2 ┴ 11,9 ┴ 10,8 2012 15,5 37,9 14,7 12,7 2013 16,2 38,1 15,5 13,7 2014 13,9 34,8 12,7 13,5 2015 12,4 32,0 11,2 12,4 2016 11,1 28,0 10,0 11,0
Face a esta evolução do mercado de trabalho nacional e às suas deficiências (algumas de natureza estrutural), é natural que um número cada vez maior de jovens com formação superior procure um emprego fora do território nacional e aí aproveite as oportunidades de carreira profissional. Numa Europa onde o mercado de trabalho é hoje o somatório dos mercados de trabalho dos países membros da União Europeia, onde a liberdade de circula- ção e o reconhecimento de habilitações é hoje regra mas, onde, ao mesmo tempo, as discrepâncias salariais para o exercício das mesmas atividades salariais e a fiscalidade sobre o trabalho é tão diversa, é natural que sejam os jovens a reagir e a mover-se no interior destas fronteiras.
Já, em 2004, João Peixoto alertava para o facto de os fluxos migratórios de indivíduos altamente qualificados te- rem, globalmente, tendência a aumentar. No caso Português, as preocupações direcionavam-se tanto para a falta de competitividade do país e consequente falta de capacidade para atrair imigrantes altamente qualificados e em assegurar uma retenção dos portugueses que o país qualificava internamente, como para conseguir o retorno dos Portugueses que emigraram. De entre as principais dificuldades então enunciadas estava a falta de centralidade social, económica e cultural do país num contexto europeu, em que o alargamento aos países da Europa de Leste tornava Portugal um país (ainda) mais periférico. A dificuldade em reter no país os portugueses altamente quali- ficados implicaria, no dizer do autor, um aumento no processo de brain drain direcionado, sobretudo, para centros científicos e económicos (Peixoto, 2004)0. Poucos anos passados, com uma crise económica e financeira de per- meio, o país viu aumentar os fluxos migratórios de saída para uma média anual de cerca de 100.000 indivíduos nos últimos 10 anos. No total terão emigrado (de forma permanente ou temporária) entre 2001 e 2017 cerca de 1.300.000 portugueses (a que acresce o número de imigrantes em Portugal que regressou aos seus países ou re-emigrou). De acordo com os dados do Eurostat sobre as migrações nos países da UE e EFTA, Portugal, que apresentava um saldo migratório positivo de quase 47 mil indivíduos em 2000, passou a ser, em 2013, um dos países europeus com saldo mais negativo em termos absolutos (-36 mil indivíduos) e relativos (-0.3% da popula- ção residente) situação que se agravou nos anos subsequentes (Pires and Espírito-Santo, 2016).