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Cinzenta de Qorpo Santo

11 horas; morreu em Porto Alegre a 1º de maio de 1883. Inquieto, de uma sensibilidade doentia, atormentado pelos problemas religiosos, sexuais, sociais, políticos e morais, sobre o apelido que acrescentou ao nome, diz-nos ele próprio:

“Se a palavra corpo-santo foi-me infiltrada em tempo que vivi completamente separado do mundo das mulheres, posteriormente, pelo uso da mesma palavra hei sido impelido para esse mundo.(...)95

Obcecado pela idéia fixa da santidade; tendo sofrido em menino, aos três anos, profundo choque moral; crendo-se perseguido pelas autoridades provinciais; reconhecida pela Justiça a sua insanidade mental, com a nomeação de um curador; vendo-se nesse desamparo, o pobre homem voltou-se para dentro de si mesmo, refugiou-se na literatura, e escreveu então uma autobiografia lancinante.

95 LEÃO, José Joaquim de Campos (Qorpo Santo), Teatro

Completo. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro – Funda-

ção Nacional de Arte, 1980. p. 16

§25

A

pesar de inúmeros autores94 já terem se aventurado sobre sua obra, acho importante apresentar rapidamente o Qorpo Santo:

José Joaquim de Campos Leão, conhecido como Qorpo Santo, nasceu na Vila do Triunfo, Província do Rio Grande, às margens do Rio Jacuí, em 19 de abril de 1829, às 94 Companhias de Teatro, Diretores de Teatro e Cineastas: Teatro do Clube de Cultura (Antônio Carlos de Senna), Boa Companhia (Verônica Fabrini), Cia São Jorge de Variedades (Georgete Fadel), Cia. Bonecos Urbanos (Carlota Joaquina), Depozito de Teatro (Roberto Oliveira), Teatro Giramundo (Ál- varo Apocalypse), Luís Carlos Maciel, Haroldo Marinho Bar- bosa, Eduardo Escorel - escritores e poetas: Luiz Antônio de Assis Brasil, Carlos Drummond de Andrade, Álvaro Moreyra, Achylles Porto Alegre; - pesquisadores e jornalistas que cons- truíram uma fortuna crítica sobre o autor: Gulhermino César, Flávio Aguiar, Eudynir Fraga, Denise Espírito Santo, Aníbal Damasceno Ferreira, Yan Michalski, Dario de Bittencourt, Julio Petersen, Júlio Zanotta Vieira, Janer Cristaldo, Décio Pignatari, Fausto Fuser, João Roberto Faria, Leda Maria Martins, Eurídi- ce Silva, Frank Hines, Lothar Hessel, Múcio Teixeira, Olyntho San Martin, Cláudio Heeman, Roque Callage (conhecido como passadista), Athos Damasceno Ferreira, Aldo Obino, Luís Au- gusto Fischer, Lúcia Carvalho Mello, João Batista Marçal, Luis Araújo Filho.

Como Jarry (1873 – 1903), criador da Patafísica96, viria a fazê-lo depois, o dramaturgo rio-grandense acomodava-se entre os extremos – realidade e ficção, lucidez e loucura, pondo a serviço da ação uma extraordinária capacidade inventiva cultivada em regiões abissais, onde as contradições desaparecem. Na obra de Qorpo Santo é perceptível uma predominância do modelo interior sobre o exterior, o aprofundamento da relação entre a arte e o mundo dos loucos, dos primitivos e da “arte infantil”.

96 A patafísica é a ciência das soluções imaginárias que con- fere simbolicamente aos contornos as propriedades dos objetos descritas pela sua virtualidade. JARYY, Alfred, Gestes et opinions

du Docteur Faustroll. Paris: Fasquelle, 1968.

§26

A produção dramatúrgica de Qorpo Santo está localizada em Porto Alegre, isolada produção teatral brasileira do século XIX. Qorpo Santo, talvez sem ser percebido e sem perceber, constrói uma dramaturgia aberta, incompleta, inacabada, despedaçada, que permite e até exige a complementação de um encenador.

É como se encontrássemos numa escavação arqueológica fragmentos de peças teatrais do período. O dramaturgo gaúcho corrige-se no momento da impressão de seus textos, visto que as peças foram escritas em 1866 e sua impressão só se concretizou em 1877.

Flávio Aguiar coloca que Qorpo Santo escrevia os pequenos textos que mais tarde reuniria na Ensiqlopedia e que admitia estar na verdade, perdendo tempo97. Sua verborragia se desenha em milhares de palavras que permeavam sua imaginação, como uma espécie de compensação.98

Aguiar coloca que QS:

Fragmentou sua visão das coisas e do mundo nos milhares de pequenos “verbetes”(...). Cada um desses “verbetes”, que se apresentam misturados temática e formalmente, tirou do conjunto da Ensiqlopedia qualquer caráter narrativo. Ou seja: ela não possui princípio, nem meio, nem fim, no sentido de uma sucessão organizada e necessária de textos.99

97 AGUIAR, Flávio, Os Homens Precários: inovação e conven-

ção na dramaturgia de Qorpo Santo. Porto Alegre: Instituto Esta-

dual do Livro, 1975. p. 69.

98 LEÃO QORPO SANTO, Jozé Joaquim de Qampos, En-

siqlopedia ou Seis Mezez de Huma Enfermidade (II, 12, 2, 4º.),

apud AGUIAR, Flávio, idem ibid. 99 Idem ibid.

É possível comparar os verbetes que Qorpo Santo escreveu em sua Ensiqlopedia com instantâneos fotográficos, que foram montando uma obra de natureza fragmentária. As peças teatrais, que constam do volume IV da Ensiqlopedia, foram escritas entre Janeiro e Junho de 1866. São textos e personagens que se apresentam como unidades reorganizáveis e podem possuir um caráter fotográfico100. As personagens da dramaturgia qorposantense podem ser entendidas como verbetes de sua Ensiqlopédia.

Isto é perceptível na peça A Impossibilidade da Santificação; ou a Santificação Transformada. As falas das personagens estruturam-se como verbetes da Ensiqlopédia, ou seja: as personagens vão aparecendo em cena e suas falas podem ser consideradas uma espécie de significação de cada personagem, sobretudo na última cena da peça, na qual aparecem nada menos do que 12 personagens, que nem sequer haviam sido incluídos nas cenas anteriores. É como se fosse uma lista de personagens que vão sendo definidos, de acordo com o que falam. Estes pedaços de textos de Qorpo Santo, que pretendem compor, de modo peculiar, um daguerreótipo moral101 da sociedade gaúcha de seu tempo, podem ser reordenados gerando novas dramaturgias.

Aguiar considera, ainda, a obra de QS um passatempo enganador, aqui e ali seus pequenos textos assumiam um comportamento errático, desviando-se da rota original e provocando pequenas explosões de um outro sentido.102 A 100 AGUIAR, Flávio, Op. Cit., p. 70.

101 (...) o “daguerreótipo moral”, isto é, a peça que fotografa a realidade, mas adicionando ao retrato a pincelada moralizadora. FARIA, João Roberto, Idéias Teatrais: o século XIX no Brasil. São Paulo: Perspectiva: FAPESP, 2001. p.103.

102 AGUIAR, Flávio, Op. Cit., p. 71.

peça Certa Entidade em Busca da Outra, constitui um desses exemplos. O texto de Qorpo Santo coloca em cena as relações entre rascunhos de personagens que buscam suas identidades ainda incompletas, apoiando-se na perseguição de uma personagem pela outra. Parafraseando Artaud, os temas das peças de Qorpo Santo são vagos, artificiais. O que lhes dá vida é o desabrochar103 de conflitos essenciais, que se desencadeiam descontinuamente, interrompendo muitas vezes um pensamento que se desenvolve através da ação dramática.

103 ARTAUD, Antonin, O Teatro e seu duplo. São Paulo: Ed. Max Limonad Ltda., 1987. p. 72.

A Enciclopédia escrita por Qorpo Santo e impressa em sua tipografia105, reúne, além de sua dramaturgia, todo um projeto de pensamento sobre o mundo. Qorpo Santo ambicionava realizar uma reforma em inumeráveis aspectos da vida de sua sociedade, pátria e até da humanidade. Qorpo Santo:

produziu numerosos trabalhos sobre todas as ciências, compondo uma obra de mais de 400 páginas, além de interpretar diversos tópicos do Novo Testamento de N. S. Jesus Cristo, que até aos próprios Padres ou sacerdotes pareciam contraditórios! 106

Uma obra maior do que suas possibilidades, um projeto que abrangia:

O estudo da História Universal; da Geografia; da Filosofia, da Retórica - e de todas as outras ciências e artes que o podiam ilustrar. Estudou também um pouco de Francês, e do Inglês; não tendo podido estudar também - Latim, 105 Em 1877, conforme termo de responsabilidade existente no Arquivo da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, abria-se na cidade uma tipografia, à Rua General Câmara. (...) O certo é que a Tipografia Qorpo Santo foi mesmo instalada naquela rua, e do seu prelo saíram, ao que sabemos, os fascículos de uma publicação que o autor chamou de Enciclopédia ou Seis Meses de

uma Enfermidade. Idem Ibid.

106 Ato Primeiro – Cena Primeira da peça Hoje sou um; e

amanhã sou outro, pág. 115.

§27

O

fascículo I da Enciclopédia ou Seis Meses de uma Enfermidade traz a seguinte informação:

“JOZÈ JOAQUIM DE

QAMPOS / LEÃO QORPO SANTO. / ENSIQLOPÉDIA: / OU / SEIS MEZES DE UMA ENFERMIDADE / VOLUME 2. / PENSAMENTOS EM 100 PÁJINAS DE DUAS COLUNAS DE 60 LINHAS CADA HUMA, / DE VINTE QUADRATINS CADA LINHA RÉIS...5$000. / PRODUÇÕES, COM RARAS EXCEPÇÕES DO 1º DE SETEMBRO / DE 1862, ATÉ O 1º DE JUNHO DE 1864, NA VILA / DO TRIUNFO. // TIPOGRAFIA / QORPO SANTO. / Porto Alegre, Maio 2 de 1877.”104

104 CÉSAR, Guilhermino, O criador do teatro do absurdo.

In Qorpo Santo: José Joaquim de Campos Leão – Teatro Completo.

Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, Fundação Nacional de Arte, 1980. p. 40.