4.2 IDENTIFICAÇÃO DAS TECNOLOGIAS SOCIAIS NAS UNIVERSIDADES 110
4.3.5 Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro)
Na Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) foi analisada uma única Tecnologia Social, denominada “Aplicação de Biocarvão em Plantio de Eucalipto”, que foi indicada pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação.
4.3.5.1 Aplicação de Biocarvão em Plantio de Eucalipto
A Tecnologia Social analisada teve origem no projeto de pesquisa denominado “Avaliação da utilização de finos de carvão e resíduos vegetais carbonizados nos atributos do solo e no desenvolvimento de espécies florestais”, iniciado em 2010 com financiamento do CNPq, e neste estudo passa a ser denominada “Aplicação de Biocarvão em Plantio de Eucalipto”.
A Tecnologia Social consiste em um processo para aplicação de biocarvão (biochar) em solo de plantio florestal, com objetivo de melhorar a qualidade do solo.
A origem da pesquisa se deu a partir de outros trabalhos envolvendo extensão e pesquisa na linha de desenvolvimento de pequenas propriedades rurais dos quais a Unicentro participa, e, a partir das aplicações feitas por um grupo da Embrapa com este tipo de carvão, optou-se por realizar a aplicação na produção florestal da Unicentro em trabalho de mestrado, gerando os experimentos que foram desenvolvidos na pesquisa e com foco voltado para as pequenas propriedades rurais.
O princípio essencial do processo é melhorar as propriedades e a fertilidade do solo, disponibilizando maior quantidade de nutrientes essenciais ao crescimento das plantas, o que poderá proporcionar aumentos na produção florestal. Assim, o objetivo foi desenvolver tecnologias sustentáveis que pudessem consistir em fonte de renda para pequenas propriedades voltadas para a produção de madeira e produtos florestais, por meio da reutilização de recursos disponíveis (biocarvão ou carvão vegetal), para redução de custos com a aquisição de insumos para produção, sendo economicamente viável, socialmente aceitável e ambientalmente correto, conforme destaca o artigo publicado pela equipe na II Semana de Integração Ensino, Pesquisa e Extensão.
Isto tem sido feito com experimentos controlados com diferentes dosagens de carvão e formas de aplicação, dos quais participam docentes, discentes e
recém-formados da Unicentro, bem como os agricultores das pequenas propriedades onde é feito o plantio florestal.
As atividades foram iniciadas em 2010, a partir de conversa com os agricultores e seleção das propriedades envolvidas no projeto e realização do plantio florestal. Em 2011 e 2012 foram feitas as medições e avaliações das plantas para análise de resultados. Inicialmente quatorze propriedades de agricultura familiar do Território Centro-Sul do Paraná receberam o experimento, e atualmente doze estão ainda em atividade: três propriedades em Irati, três em Fernandes Pinheiro e seis em Inácio Martins.
A pesquisa ainda está em fase de experimento, portanto não foi realizada divulgação para outras propriedades, sendo a conclusão prevista para 2012. No entanto, existe a intenção de que esta aplicação seja divulgada e reaplicada, no sentido de que seja uma Tecnologia Social, evoluindo, no futuro, para a formação de carvão com resíduos da própria propriedade para ser usado em menores áreas, tais como as hortas. A continuidade da pesquisa está prevista, de imediato, com o recebimento de Bolsa de Produtividade em Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora do CNPq. Esta nova etapa será realizada com a produção de carvão nas propriedades atendidas, e já foi iniciado o processo de seleção das propriedades rurais para participação na reaplicação.
Tratando dos aspectos investigados nesta pesquisa, a Tecnologia Social resultante pode ser classificada com relação aos princípios que a caracterizam considerando:
a) transformação social: não quantificado ainda, pois é inicial o estudo; para a qualidade de vida a contribuição esperada é que a melhoria do solo gere melhores produtos e, indiretamente, melhor renda aos pequenos produtores;
b) desenvolvimento participativo: os produtores rurais participam ativamente de toda a aplicação e auxiliam na avaliação da técnica;
c) contextualização local: a região é produtora de carvão, então é um resíduo de finos de carvão característico da região (passivo ambiental);
assim, é adaptado ao contexto local dos produtores que podem utilizar deste recurso disponível;
d) simplicidade: o mais difícil é a produção do carvão, mas a aplicação no solo é simples;
e) baixo custo: o uso do carvão é um recurso de baixo custo para melhorar o solo, desde que o produtor tenha este recurso em certa proximidade da propriedade (o transporte seria mais custoso);
f) reaplicabilidade: as propriedades que tiverem os melhores resultados serão mantidas como unidades demonstrativas para propagar o uso do biocarvão – não houveram reaplicações além das 14 propriedades iniciais;
g) viabilização de empreendimentos populares: contribui para a melhoria da propriedade de agricultura familiar.
A forma de adequação sociotécnica identificada pode ser classificada como uma combinação de:
a) ajuste do processo de trabalho: adaptação de um processo produtivo, incluindo o carvão no tratamento do solo, de forma que os produtores possam utilizar de forma autônoma;
b) incorporação de conhecimento científico-tecnológico existente: aplicação de conhecimento já existente em trato de solo para outras culturas especificamente na produção florestal, aplicando este conhecimento no espaço produtivo dos pequenos agricultores.
No que diz respeito ao processo de desenvolvimento, em razão de ser ainda uma pesquisa ainda em fase de experimentos, nota-se que somente a fase de criação está em desenvolvimento. O processo só é consolidado em grande escala ou em laboratório, mas com aplicação em pequenas propriedades para que possam futuramente produzir o próprio carvão de resíduos vegetais, está ainda em desenvolvimento (faltam outras fases de pesquisa para chegar neste estágio). As demais fases, de viabilidade técnica, política e social, não foram iniciadas, pois não foi difundido o resultado das pesquisas.
A participação da comunidade não ocorreu no desenvolvimento do processo, mas nas aplicações para teste, com a cessão do espaço em suas propriedades, no auxílio na demarcação da área, na distribuição do carvão no solo e incorporação, no plantio da muda de eucalipto que receberam, e em todo o manejo houve a responsabilidade do agricultor. Após isso, os produtores aprenderam a auxiliar na realização das medições feitas pelos bolsistas.
Até a fase em que se encontra a pesquisa ainda não foi feita uma avaliação que possibilitasse retorno dos agricultores, com exceção de alguns que já fizeram
algumas observações e as repassaram ao grupo de pesquisa, a exemplo de um deles que realizou uma experiência paralela (plantio de horticultura) e repassou os resultados, indicando outro tipo de plantio que poderia se beneficiar do mesmo processo, e de outros que sugeriram aumentar a quantidade de biocarvão utilizada, ou seja, a atividade e a experiência dos agricultores contribuem para o desenvolvimento da tecnologia.
Quanto às parcerias, o financiamento da pesquisa que está gerando a Tecnologia Social ocorreu com fomento do CNPq, possibilitando contratação de bolsistas recém-formados e outros custos da atividade. Também foram utilizados recursos financeiros da Fundação Araucária, que possibilitou bolsistas de graduação. Outra importante parceria foi com a Emater, que propiciou todo o contato e seleção dos agricultores. Também foram realizadas parcerias com as Prefeituras de Fernandes Pinheiro, Irati e Inácio Martins, que contribuíram com o transporte do carvão, que, por sua vez, foi cedido sem custo por um assentamento de Inácio Martins.
Para montar novos experimentos será necessário buscar mais recursos financeiros, e, sem isso, somente será possível se houver o investimento dos próprios agricultores que provavelmente não terão recurso para tal, necessitando de financiamento bancário. Além disso há o custo de laboratórios para as análises clínicas, que deverá ser buscado de alguma outra forma.
Quanto ao processo de desenvolvimento sob a perspectiva do atendimento aos requisitos práticos da construção do processo nota-se:
a) reconhecimento de autoria: autoria é coletiva, mas a atividade tem a coordenação identificada e existe variação da equipe que publica os resultados em eventos e revistas;
b) registro de experiência: resumos em congressos e eventos, fotos, registros de cada experimento;
c) status de excelência: não houve ainda divulgação dos resultados para que se apresentasse este reconhecimento;
d) sistematização dos processos de construção: a sistematização existe para todas as atividades do projeto, ainda em andamento;
e) manualização: existe possibilidade de criar, e está sendo desenvolvido, note-se que a indicação de atendimento no questionário foi total (5), embora exista também a afirmação de que está em desenvolvimento
ainda e os materiais fornecidos (resumos publicados) não possibilitam este fim;
f) formação e capacitação: formação dos alunos que participam do projeto, mas é uma capacitação não dedicada ao processo especificamente.
Desta forma, uma breve síntese da análise Tecnologia Social “Aplicação de Biocarvão em Plantio de Eucalipto” é demonstrada no Quadro 16.
Princípios característicos Nível de atendimento indicado no questionário
Indicativo da característica
Transformação social 3 Não quantificado – espera-se que a melhoria do solo gere melhores produtos e, indiretamente, melhor renda aos pequenos produtores
Desenvolvimento participativo 4 Produtores participam ativamente de toda a aplicação e auxiliarão na avaliação
Contextualização local 5 Adaptado ao contexto local dos produtores que podem utilizar o recurso de carvão vegetal disponível na produção florestal
Simplicidade 4 A aplicação no solo é simples – é mais difícil produzir o carvão (etapa seguinte da pesquisa)
Baixo Custo 5 O carvão é um recurso de baixo custo para melhorar o
solo, desde que esteja próximo da propriedade
Reaplicabilidade 5 Não houve reaplicações – há previsão de que propriedades
com melhores resultados sejam mantidas como unidades demonstrativas
Viabilização de empreendimentos populares
4 Contribui para a melhoria da propriedade de agricultura familiar com a melhoria do solo
Tipo de Adequação Sociotécnica Síntese
Ajuste do processo de trabalho Inclusão do carvão no processo de tratamento do solo, para uso futuro de forma autônoma
Incorporação de conhecimento científico-tecnológico existente
Aplicação de conhecimento existente em trato de solo para outras culturas na produção florestal, aplicado no espaço produtivo dos pequenos agricultores.
Fases de Desenvolvimento Síntese
Criação – em desenvolvimento Em fase de experimentos, ainda faltam outras etapas para consolidação.
Viabilidade técnica – não iniciada
Ainda não houve difusão do resultado das pesquisas.
Viabilidade política – não iniciada Viabilidade social – não iniciada
Participação da comunidade Síntese
Participa na reaplicação. Participam de todas as atividades na propriedade (plantio, manejo e medição) e a experiência dos agricultores contribui para os resultados.
Principais organizações parcerias Tipo de organização Tipo de Parcerias
CNPq Órgão público (federal) Financeira
Fundação Araucária Fundação pública (estadual) Financeira
Emater Autarquia (estadual) Técnica
Prefeituras Administração pública (municipal) Técnica
Requisitos práticos do processo Nível de atendimento indicado no questionário
Indicativo da característica
Reconhecimento de autoria 5 Autoria coletiva, com identificação da coordenação e variação da equipe colaboradora
Registro de experiência 5 Resumos em congressos e eventos nacionais e
internacionais, fotos e registros de cada experimento
Status de excelência 1 Não houve ainda divulgação
Sistematização dos processos de construção
4 Existe para todas as atividades do projeto – ainda em andamento
Manualização 5 [sic] Possibilidade de criar e está sendo desenvolvido [não desenvolvido ainda].
Formação e capacitação 1 Formação somente dos alunos que participam do projeto (não para reaplicação).
QUADRO 16 – SÍNTESE DE RESULTADOS: APLICAÇÃO DE BIOCARVÃO EM PLANTIO DE EUCALIPTO
FONTE: A autora (2012)