VÍDEOS, PERSONAGENS, DRAMAS NARRADOS E LUGARES DE FALA: QUEM

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL MESTRADO EM COMUNICAÇÃO. Luiz Felipe Novais Falcão (páginas 62-68)

1- Ficha de leitura e análise desenvolvida para a pesquisa

5.2 VÍDEOS, PERSONAGENS, DRAMAS NARRADOS E LUGARES DE FALA: QUEM

Os procedimentos de pesquisa envolveram depois de uma primeira leitura geral, e da testagem da ficha de pesquisa, a avaliação sistemática de cada um dos vídeos com o preenchimento da respectiva leitura. Depois de preenchidas, tabuladas, avaliadas e interpretadas as fichas de análise, chegamos a alguns resultados quantitativos e outros de cunho qualitativo e interpretativo. Inicialmente apresentaremos com destaque aos aspectos mais relevantes quanto às narrativas e relação com a TV Pública, em seguida, vamos descrever o conjunto dos vídeos que compõem o corpus da pesquisa e, por fim detalhar os resultados obtidos com o preenchimento e análise da segunda parte da ficha, que trata de forma específica da mobilização social, da interação e do público.

Somados os 84 vídeos que compõem o recorte totalizam um tempo de material audiovisual de uma hora e vinte e cinco minutos de conteúdo (1h25'). Com relação ao corte de gênero, identificou-se que deste total 49 mulheres assumem o lugar de fala nos vídeos, somando quase 41 minutos de material audiovisual produzido. Os homens representam a maioria dos falantes; entre negros, índios e brancos são 55 aqueles que assumem lugar de fala nas narrativas analisadas, totalizando 45 minutos, quase 53% do tempo dos vídeos postados. Aprofundando um pouco o recorte de cor/raça no que diz respeito ao tempo de fala, os homens brancos tiveram cerca de 40 minutos, os negros dois minutos e meio (2'30") enquanto os indígenas falaram dois minutos e vinte segundos (2'20"), o que representou respectivamente 89,22%, 5,58% e 5,20%, do tempo total de fala dos homens como grupo majoritário no conjunto de vídeos da campanha. Aplicando o mesmo princípio de recorte para as mulheres que ocuparam lugar de fala, observamos que as mulheres brancas ocuparam 35 minutos do período de exibição do material audiovisual, seguidas pelas mulheres negras com quatro minutos e 40 segundos (4'40"), restando às mulheres indígenas um tempo editado de

contribuição de um minuto e oito segundos (1'08"); 85,78%, 11,44% e 2,78% do tempo total de voz feminina.

Gráfico 1- Tempos de fala nos vídeos campanha de mobilização da Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública.

Fonte: o autor

Ainda que a participação das mulheres negras seja maior, há um silenciamento também crescente das indígenas, em uma visada comparativa com a estratificação entre os falantes do sexo masculino. Ressalta-se, contudo a predominância de homens e mulheres brancas, a despeito da existência nos últimos dez anos de políticas de ação afirmativa nos últimos anos que potencialmente poderiam reduzir a desigualdade no acesso ao direito à comunicação.

Nas fichas de análise há um espaço em que a avaliação é a de distanciamento e proximidade com a narrativa de mobilização. Entre as mulheres, 27 se inseriram no contexto da Comunicação Pública indicando de que forma os conceitos e o trabalho desenvolvido pela EBC se relacionavam com suas atividades, lugar de fala, formação e cultura. Os homens estão em maiores números absolutos e percentuais, são 33 (60%, em contraposição a 55% das mulheres) que adotam uma perspectiva de proximidade com o conteúdo daquilo que falam. Alguns dos participantes da campanha, falaram sobre os problemas ligados à comunicação pública de um lugar outro, para além daquilo que afeta a subjetividade. Tal distanciamento os posiciona como observadores que, embora não esbocem os efeitos e as interferências da Comunicação Pública no Brasil em seu cotidiano, descrevem a problemática da ameaça e do risco a uma comunicação democrática com clareza. De um total de 44 homens que se

homens brancos 47% homens negros 3% homens indígenas 3% mulheres brancas 41% mulheres negras 5% mulheres indígenas 1% homens brancos homens negros homens indígenas mulheres brancas mulheres negras mulheres indígenas

manifestam ao logo do material, 33 expressam claramente a perspectiva de proximidade. No caso das mulheres, em cinco situações elas se colocam como distantes do contexto de crise na EBC e em outras 27 pontuam suas observações de um ponto de vista de íntimo em relação ao modelo público.

Ao lançarmos um olhar para os assuntos abordados pelos autores de vídeos destacamos que a Comunicação Pública é analisada de um ponto de vista democrático, de emancipação. Os participantes estiveram atentos ainda ao contexto ao que denominam como um governo ilegítimo que, em algumas das falas é apontado como responsável por criminalizar movimentos sociais, desrespeitar a Comunicação Pública enquanto direito do cidadão. Descrevem a EBC como um espaço que precisa de autonomia para desenvolver um trabalho plural, de qualidade, com garantia de contraponto, que respeite a complementariedade constitucional dos três modelos de comunicação. Outros apontamentos dos participantes estão direcionados ao histórico de luta para a criação da Empresa Brasil de comunicação, ao enfrentamento das trabalhadoras e dos trabalhadores por melhores condições de trabalho e investimento na ampliação da empresa pública. Por fim aqueles que gravaram seus depoimentos abordam o contexto vivido pela EBC no período da campanha como um retrocesso, chamando atenção para a necessidade de resistência e mobilização por notícias produzidas seguindo os preceitos da Comunicação Pública.

Cabe destacar ainda que nas narrativas construídas pelos participantes da campanha nas redes sociais digitais, homens e mulheres se colocam prioritariamente como agentes de possíveis transformações da realidade vivida pela EBC, ou como conceitua Iluska Coutinho, heroínas e heróis21(numa analogia aos papéis desempenhados pelos personagens das narrativas). Um percentual de 51% das mulheres participantes se enxergam e apresentam como essas heroínas, 40% apenas descrevem o contexto e o problema sem efetivamente expressarem de que forma poderiam interferir no processo e 8% se colocam nas narrativas como vítimas das transformações e mudanças vividas pela empresa. Já entre os homens são 52% os que constroem seu lugar na narrativa como agentes de transformação na luta pela democratização da Comunicação, 33% se limitam a descrever o contexto e os 15% restantes estão presentes como vítimas no enredo contado/ narrado.

21 A autora estabelece em sua pesquisa que heroína/herói, mocinha/mocinho são papéis que integram a dramaturgia do telejornalismo. A mocinha e/ou o mocinho seriam as personagens que sofrem uma prova, para conquistar seu final feliz. A heroína e/ou o herói seriam aqueles que têm um papel ativo, que agem para solucionar um conflito não apenas pessoal, mas que pode auxiliar a comunidade.

Gráfico 2- Papel desempenhado na narrativa dos vídeos da campanha de mobilização da Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública.

Fonte: o autor

Quando lançamos olhar para os lugares de fala emergem do conjunto de audiovisuais representantes da cultura, da política, da EBC, de universidades, de movimentos sociais, pessoas que trabalham com jornalismo fazem parte da campanha de mobilização e representam etnias e regiões do país.

Gráfico 3 - Lugares de Fala nos vídeos da campanha de mobilização da Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública. Fonte: o autor homem participante mudança 30% homem arauto 19% homem vítima do desmonte da EBC 8% mulher participante na mudança 22% mulher arauto 17% mulher vítima do desmonte da EBC 4% índias índios negras negros brancas brancos0 5 10 15 20 índias índios negras negros brancas brancos

Os resultados obtidos após a totalização e tratamento das fichas de análise apontam que entre as mulheres 28,5% era de espaços de mobilização ligados à cultura; 10,2% vinham do cenário político; 12,2% estavam ligadas a EBC; 24,4% atuam nas universidades como professoras ou estudantes; 16,3% são jornalistas; 10,2% participam de movimentos sociais; outros 10,2% das mulheres apresentam-se como representantes de mulheres negras ou índias e 4% evidenciam seu lugar de fala como representantes do nordeste do Brasil. É importante salientar que somadas as porcentagens, o número ultrapassa os 100%. A explicação para isso é o fato de que em alguns casos as mulheres, assim como aconteceu entre o grupo dos homens, assumem mais de um vínculo de representatividade, mais de um lugar de fala. No caso dos homens há presença de 41,8% deles nos vídeos ligados à cultura; 3,6% à política; 5,4% são oriundos da EBC; 12,7% evidenciaram a relação com universidades; 9% são jornalistas; 12% defendem as bandeiras de movimentos sociais; 5,4% destacaram o lugar de fala como sendo a própria campanha de mobilização; 14,5% são negros ou índios e 23,6% representam o nordeste brasileiro.

Por fim, destacamos o surgimento de algumas molduras e temáticas que atravessam e dialogam com os conceitos de TV pública que integram o marco de interesse e de trabalhos e pesquisas realizados no Núcleo de Jornalismo e Audiovisual da UFJF – diversidade, pluralidade, direitos, deveres, cidadania e participação.

Gráfico 4 - Abordagem dos conceitos adotados pelo NJA nos vídeos da campanha de mobilização da Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública.

Fonte: o autor índias índios negras negros brancas brancos0 5 10 15 20 índias índios negras negros brancas brancos

Entre as molduras e temáticas que atravessam e dialogam estes conceitos destacam-se a articulação política, os critérios de acesso à informação, a narrativa do golpe, a democracia enquanto reunião de todos os conceitos que dão sustentação à Comunicação Pública, os desafios diante de um novo contexto social, o interesse público, a promoção da cultura, a autonomia e a liberdade também ganharam ênfase assim como a mobilização e os relatos sobre a exoneração do diretor presidente da EBC. Em outros momentos, algumas outras visões conceituais sobre Comunicação pública também foram identificadas.

Gráfico 5 - Molduras e temáticas que emergem dos vídeos da campanha de mobilização da Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública.

Fonte: o autor

Com o perfil geral dos vídeos evidenciados, e a partir dos aspectos estruturais e das características narrativas abordados e elencados na primeira etapa da ficha de análise, apresentamos a seguir os vídeos que integram a campanha de mobilização em prol da EBC.

índias índios negras negros brancas brancos0 5 10 15 20 25 índias índios negras negros brancas brancos

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL MESTRADO EM COMUNICAÇÃO. Luiz Felipe Novais Falcão (páginas 62-68)