2.2 Valores e comportamento
2.2.1 Valores pessoais e comportamento
Os estudos sobre valores têm incitado a busca de respostas a algumas questões: o quanto os valores podem prever, explicar ou influenciar as condutas de indivíduos, grupos e sociedades? Quanto e como se dá essa influência? A importância dessas respostas pode auxiliar não apenas a compreensão dos processos que influenciam o comportamento individual e coletivo, mas também possibilitar aplicações práticas como, por exemplo, na seleção e implantação de estratégias que levem em conta os sistemas axiológicos existentes, seja para reforçá- los ou para incentivar sua mudança. De acordo com Tamayo; Porto (2005, p. 121),
O conhecimento dos valores associados a determinados tipos de atitudes e comportamento possibilita a realização de ações de mudança de valores ou a seleção de ações mais apropriadas ao perfil de valores dos indivíduos. Desta forma, essas pesquisas são o primeiro passo para a realização de intervenções bem-sucedidas.
Para Ros (2006b), dois autores se destacaram nos estudos que relacionam valores como motivadores do comportamento humano: Rokeach, articulando essa relação em torno das atitudes, e Schwartz, considerando um sistema integrado de valores. De acordo com Ros (2006a; 2006b), a partir dos estudos de Rokeach e de Schwartz é que se deu o desenvolvimento teórico e empírico dos estudos que relacionam valores e comportamento de indivíduos e grupos. Rokeach, na década de
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70, realizou os estudos seminais para o desenvolvimento de uma tipologia dos valores humanos (ROS 2006b; SCHWARTZ, 2005a; ROHAN 2000), considerando os valores como crenças transituacionais hierarquicamente organizadas e que servem como critério para o nosso comportamento (ROS 2006b, p. 30). Rokeach afirmava que o conhecimento dos valores de uma pessoa nos deveria permitir predizer como ela se comportará em diversas situações experimentais e da vida real (1973, p. 122, apud TAMAYO 2005, p. 160), e definiu os valores pessoais como
metas que servem de princípios-guia de nossa vida, metas estas classificadas hierarquicamente e inter-relacionadas num sistema com coerência interna. Os valores seriam crenças relativamente estáveis e compartilhadas por membros de uma cultura, que se diferenciam fundamentalmente pela importância atribuída a cada meta (ROKEACH, 1973, apud MARTINEZ-SANCHES; ROS 2006, p. 307-308).
Rokeach propôs uma relação entre valores, atitudes e comportamentos em torno do núcleo da personalidade social, organizados num sistema de crenças . O autor defende que os valores representam o núcleo da personalidade social, e que os comportamentos são os construtos externos da personalidade.
Outra questão que tem motivado estudos sobre a relação entre valores e comportamento é se essa relação é mediada pelas atitudes. Rokeach reconhece a existência de relação funcional entre valores e comportamento, mas defende que essa relação não é direta, mas sim mediada pelas atitudes. Para esse autor, as atitudes mediariam a ativação dos valores porque as pessoas tendem a se comportar de forma coerente com o seu sistema de crenças (MARTINEZ-SANCHES; ROS, 2006). Holmer e Kahle (apud Ros, 2006b) corroboraram para essa hipótese por meio de um instrumento com nove valores extraídos de uma lista de Rokeach, tendo encontrado as atitudes como mediadoras entre valores e comportamento.
Para Schwartz (2005a, 2005b), a relação entre valores e comportamento é direta, sem a mediação das atitudes, pois na própria essência dos valores está sua relação com o comportamento, representada pelas metas motivacionais subjacentes. Tanto Rokeach quanto Schwartz defendem a centralidade dos valores, (em vez das atitudes) como objeto de estudo porque os valores são o componente central da personalidade (núcleo central do autoconceito, da auto-estima, e da personalidade social), enquanto as atitudes e os comportamentos são mais periféricos. Como crenças transituacionais, são em menor número do que as atitudes.
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Os valores também são hierarquicamente organizados de acordo com seu critério de importância relativa, mesmo que de forma inconsciente. São crenças que representam metas desejáveis ou prescrições que indicam o que é adequado ou não realizar, interferindo, portanto, nos modos de conduta. Os valores, mais centrais, guiariam atitudes e comportamentos (aspectos menos estáveis e mais periféricos da personalidade). Logo, na essência dos valores há componentes de ordem motivacional, afetivo, cognitivo e de conduta. Os valores descreverem melhor as diferenças entre pessoas, grupos, nações e culturas, permitindo comparações (SCHWARTZ, 2005a; 2005b; TAMAYO; PORTO, 2005; ROS, 2006a; 2006b).
Bardi e Schwartz (2003) comprovaram a centralidade dos valores em relação a diversos comportamentos em estudo empírico realizado com a comunidade universitária. Por meio da técnica smallest space analisis , também utilizada por Schwartz para a identificação da estrutura (2005b), os valores ocuparam a posição central, e os comportamentos representativos das metas motivacionais dos valores subjacentes ocuparam posição periférica na estrutura.
Para Schwartz (2005a, p. 22), a importância dos valores sua valoração - deriva do fato de que, quando pensamos em nossos valores, pensamos no que é importante em nossas vidas, de modo singular e subjetivado. Esse autor considera os valores como critérios utilizados pelas pessoas, não como qualidades inerentes aos objetos. Os valores se distinguem das normas e das atitudes pelas características de serem abstratos e gerais, e por sua organização hierárquica de importância. Além disso, seu componente afetivo o diferencia de demais crenças. Schwartz (2006, p. 57- 58) incorpora a relação dos valores com o comportamento na própria definição de valores:
valores são metas desejáveis e transituacionais, que variam em importância, servem como princípios na vida de uma pessoa ou de outra entidade social ... . Está implícito nessa definição de valores como metas que: 1) servem aos interesses de alguma entidade social; 2) podem motivar a ação dando-lhe direção e intensidade emocional; 3) funcionam como critérios para julgar e justificar a ação; 4) são adquiridos tanto por meio da socialização dos valores do grupo dominante quanto mediante a experiência pessoal de aprendizagem.
Para Schwartz (2006), essa definição também enfatiza a funcionalidade dos valores nos processos de compreensão, significação, visão de mundo e comunicação
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em determinado ambiente sócio-cultural, além de sua influência na motivação para o comportamento. Schwartz (2005a, p. 22-23; 2006, p. 56) também descreve cinco características dos valores, que contribuem para sua compreensão. Valores:
1. são crenças ligadas à emoção, e são ativadas de forma consciente ou inconsciente;
2. são um construto motivacional, referindo-se a objetivos que as pessoas procuram alcançar, relativos a fins desejáveis ou a formas de comportamento;
3. transcendem situações e ações específicas, são abstratos;
4. funcionam como padrões ou critérios que guiam nossas avaliações sobre as coisas (comportamentos, pessoas ou acontecimentos); e
5. são ordenados por sua importância relativa a outros valores de modo a formar um sistema de prioridades que caracteriza cada indivíduo.
Tamayo e Schwartz defendem a motivação como um dos processos essenciais que explica a ligação entre valores e comportamento. Esses autores (SCHWARTZ, 2005b; TAMAYO, 2005; TAMAYO; SCHWARTZ, 1993) explicam que as motivações têm por base as necessidades básicas e universais (necessidades biológicas do organismo, necessidades sociais relativas à regulação das interações interpessoais e necessidades sócio-institucionais referentes à sobrevivência e bem-estar dos grupos):
a raiz dos valores é de ordem motivacional, já que expressam interesses e desejos de tipo individual, coletivo ou misto. ... Os valores também apresentam uma função que faz com que eles sejam determinantes da rotina diária, já que eles orientam a vida da pessoa e determinam sua forma de pensar, de agir e de sentir. Desta forma, a psicologia considera os valores como um dos motores que iniciam, orientam e controlam o comportamento humano. Eles constituem um projeto de vida e um esforço para atingir metas de tipo individual ou coletivo (TAMAYO; SCHWARTZ, 1993, p. 331).
Para Tamayo (2005 p. 160-167), na essência dos valores está presente a sua relação com o comportamento, à medida que sua organização hierárquica implica em metas e preferências que distinguem o que é importante para indivíduos, grupos e culturas. A base dos valores é motivacional porque os valores fornecem significado cognitivo e cultural às necessidades que originam as metas e intenções. As metas e intenções regulam os três elementos básicos da motivação: intensidade, direção e persistência no esforço (TAMAYO, 2005, p. 167). De acordo com Tamayo e Schwartz, necessidade, tendência e desejo são palavras utilizadas pela psicologia para referir-se ao aspecto motivacional. Mas para que os valores motivem a
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realização de ações é preciso que as pessoas acreditem em sua capacidade de realizá-las e de produzir os resultados esperados. Esse pré-requisito motivacional da ação foi definido por Bandura (2004) como auto-eficácia.
Para Schwartz (2005b), outros processos de ligação também colaboram para explicar a influência dos valores no comportamento. Primeiramente, é preciso que os valores sejam ativados . Se determinado valor é importante na hierarquia de uma pessoa e, além disso, é facilmente acessível a sua memória, esse valor provavelmente resultará em um comportamento compatível com sua motivação subjacente. Em princípio, as ações que obstruem objetivos valorizados serão evitadas. Além da acessibilidade e da motivação para o comportamento, os valores também influenciam na atenção, percepção e interpretação de situações. Os valores também interferem no planejamento das ações, aumentando a persistência para alcançá-los, mesmo com obstáculos. Para Schwartz (2005b, p.82),
objetivos mais importantes devem induzir uma motivação maior para que se planeje cuidadosamente. Assim, quanto mais prioridade é dada a um valor, mais provável é que as pessoas formulem planos de ação que possam levar a sua expressão no comportamento. ) Planejar foca os indivíduos nos prós da ação desejada, ao invés dos contras . Ele fortalece a crença em suas habilidades de atingir o objetivo de forma bem-sucedida.
Tipologia e estrutura dos valores humanos de Schwartz
A base motivacional subjacente aos valores possibilitou a Schwartz identificar 10 tipos de conteúdos dos valores humanos com base nas metas motivacionais que eles expressam, organizados em uma estrutura circular. Tendo em vista que essas características são compartilhadas por todos os valores, o que distingue um valor do outro é o tipo de objetivo ou motivação que o valor expressa (SCHWARTZ, 2005a, p. 23), ou seja, seu conteúdo motivacional. A identificação de uma tipologia dos valores também já havia sido proposta por Rokeach, que distinguia os valores entre pessoais, sociais, morais e de competência (SCHWARTZ, 2006, p. 57).
Schwartz (2005a; 2006) postulou dez (10) tipos motivacionais básicos, distintos e abrangentes, representativos das metas motivacionais que eles expressam. Esses tipos motivacionais tendem a ser universais porque estão baseados em um ou mais
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dos três requisitos básicos necessários à existência humana: necessidades como organismos biológicos, requisitos de ação social coordenada e necessidade de sobrevivência e bem-estar dos grupos. Os valores humanos representam mentalmente esses objetivos humanos básicos e universais, e são utilizados nas interações sociais; são o vocabulário utilizado para expressar esses objetivos básicos que indivíduos de todas as culturas reconhecem (SCHWARTZ, 2005a, p. 23-24;). Para Schwartz (2006, p. 60), a realização de pesquisas transculturais que permitam verificar a evidência da existência desses valores humanos básicos nas diferentes culturas é vital para sua comprovação. Os dez tipos motivacionais propostos são:
1. Autodeterminação: pensamento e ação independente (escolher, criar, explorar).
2. Estimulação: excitação, novidade, desafio na vida. 3. Hedonismo: prazer ou gratificação sensual.
4. Realização: sucesso pessoal por meio de demonstração de competência do acordo com os padrões sociais.
5. Poder: status social e prestígio, controle ou domínio sobre pessoas e recursos.
6. Segurança: segurança, harmonia e estabilidade na sociedade, dos relacionamentos e de si mesmo.
7. Conformidade: restrição de ações, inclinações e impulsos que tendem a incomodar ou prejudicar outros e que violam expectativas ou normas sociais.
8. Tradição: respeito, compromisso e aceitação dos costumes e idéias que a cultura ou religião do indivíduo fornecem
9. Benevolência: preservar e fortalecer o bem-estar daqueles com que o contato pessoal do indivíduo é mais freqüente (grupo interno).
10. Universalismo: compreensão, agradecimento, tolerância e proteção do bem-estar de todas as pessoas e da natureza.
Um dos pontos fundamentais e inovadores da teoria de valores humanos de Schwartz é a estrutura dinâmica das relações entre os tipos motivacionais (ROHAN, 2000). Até então, as teorias motivacionais concebiam seus construtos como independentes ou apenas relacionados hierarquicamente (sob a forma de listagem de valores, por importância). A teoria dos valores de Schwartz representa uma grande
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colaboração para o estudo dos valores, à medida que a relação entre as prioridades axiológicas passou a ser analisada de forma sistêmica, e não apenas como uma listagem hierarquizada de valores. De acordo com Porto (2005, p. 97), um sistema de valores é uma estrutura cognitiva, carregada afetivamente, que contém em número finito de tipos motivacionais .
A teoria de valores de Schwartz sugere que os tipos motivacionais básicos estão organizados em uma estrutura circular que opõe duas dimensões bipolares que se contrastam em significado motivacional: (1) conservaçãoXabertura à mudança e (2) autopromoçãoXautotranscendência. A dimensão conservaçãoXabertura a mudança representa o conflito entre a ênfase no pensamento e ações independentes do indivíduo, que favorecem a mudança, e a auto-restrição submissa, preservação de práticas tradicionais e proteção da estabilidade. A dimensão autotranscendênciaXautopromoção representa o conflito entre a ênfase na aceitação dos outros como iguais, e a busca pelo sucesso pessoal e domínio sobre os outros (SCHWARTZ, 2005a). Dessa forma, os dez tipos motivacionais formam uma estrutura circular de valores motivacionalmente opostos ou compatíveis, e cada tipo motivacional se relaciona com os demais tipos da estrutura de forma dinâmica e integrada. Na Figura 1, a seguir, podem ser observadas as relações de conflito e compatibilidades entre as duas dimensões bipolares, além da localização de cada tipo motivacional na estrutura circular de valores:
Figura 1
Estrutura teórica da relação entre valores humanos.
Universalismo Benevolência Tradição Conformidade Segurança Poder Realização Hedonismo Estimulação Autodeter- minação ABERTURA A MUDANÇA AUTOPROMOÇÃO AUTOTRANS- CENDÊNCIA CONSERVAÇÃO
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Nota Fonte: Schwartz 2005a, p. 30.
Os valores de tradição e conformidade são especialmente próximos motivacionalmente porque eles dividem o objetivo de subordinação do indivíduo em favor de expectativas impostas socialmente. Conformidade implica subordinação a pessoas com as quais o indivíduo se relaciona freqüentemente pais, professores, chefes. Já tradição implica subordinação a objetos mais abstratos costumes e idéias religiosas e culturais. O hedonismo tem elementos tanto da abertura à mudança quanto de autopromoção (SCHWARTZ, 2005a, p. 29).
Quanto mais próximos dois tipos motivacionais estão em qualquer uma das direções ao redor do círculo, mais semelhantes são suas motivações subjacentes. Quanto mais distantes os tipos motivacionais, mais antagônicas são suas motivações subjacentes. Sua bipolaridade deriva dos conflitos que as pessoas experimentam quando agem de acordo com seus valores. As oposições ocorrem porque as ações que expressam valores têm conseqüências práticas, e a escolha de uma delas pode se opor a um tipo motivacional antagônico. Nas diversas ações e situações da vida as pessoas buscam valores antagônicos, mas não em uma única ação. Dessa forma, ações para a busca de qualquer valor implicam em conseqüências que podem conflitar ou ser congruentes com a busca de outros valores constantes da estrutura (SCHWARTZ, 2005a, p.28-29). O modelo proposto representa esses antagonismos e conflitos dos tipos motivacionais por meio da organização da estrutura nessas dimensões bipolares (SCHWARTZ, 2005a; 2005b). A estrutura de valores e sua relação dinâmica de conflito e congruência refletem as conseqüências práticas, sociais e psicológicas de buscar diferentes valores simultaneamente (SCHWARTZ, 2005a, p. 47).
O estudo das relações entre valores e comportamento avançou muito a partir da possibilidade de análise de todo o sistema de valores com relação a comportamentos, e permite que o sistema de prioridades axiológicas possa ser estudado em relação a qualquer outra variável, de maneira integrada (SCHWARTZ 2005a, p. 22). Para Schwartz, essa estrutura integrada pode ser analisada com relação a qualquer tipo de comportamento, sem a mediação das atitudes. De outra
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forma, ficaria difícil elencar que valores deveriam ser analisados para cada comportamento. De acordo com Tamayo (2005, p. 161),
Não é a prioridade dada a um determinado valor que influencia o comportamento, mas a interação entre os múltiplos interesses representados pelos valores. Assim, a relação entre os valores pessoais e qualquer atitude ou comportamento tende a ser associada de forma similar a tipos motivacionais adjacentes na estrutura circular, e diminuem monotonicamente ao longo dos tipos motivacionais nas direções horária e anti-horária da estrutura circular.
Como os valores se relacionam na estrutura de forma compatível ou conflituosa, conforme sua localização seja adjacente ou antagônica, um determinado comportamento estará mais relacionado a alguns tipos de valor do que a outros. Outro ponto importante da teoria é que, mesmo tendo sido discriminados dez tipos motivacionais, os valores formam um continuum de motivações relacionadas que dá origem à estrutura circular, ou seja, há afinidade entre a ênfase motivacional compartilhada por valores adjacentes, conforme pode ser observado na Tabela 1, a seguir:
Tabela 1:
Motivação compartilhada por tipos motivacionais adjacentes
Tipos Motivacionais Adjacentes Motivação Subjacente Compartilhada
poder e realização superioridade social e estima realização e hedonismo satisfação centrada no indivíduo
hedonismo e estimulação desejo por excitação afetivamente agradável. estimulação e autodeterminação interesse intrínseco em novidade e domínio
autodeterminação e universalismo confiança no próprio julgamento e conforto com a diversidade da existência
universalismo e benevolência promoção de outros e transcendência de interesses egoístas benevolência e conformidade comportamento normativo que promove relacionamentos
íntimos
benevolência e tradição devoção ao grupo primário
conformidade e tradição subordinação do indivíduo em favor de expectativas socialmente impostas
tradição e segurança preservação de arranjos sociais existentes que dão segurança à vida
conformidade e segurança proteção da ordem e da harmonia nas relações
segurança e poder evitação e superação de ameaças, controlando relacionamentos e recursos
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A alocação dos tipos motivacionais na estrutura bipolar não elimina ou substitui a organização hierárquica dos valores por pessoas, grupos ou por culturas. A relação bipolar também não é a única forma de analisar a relação entre os tipos motivacionais. Os tipos motivacionais localizados à esquerda da estrutura representam interesses individuais, enquanto os tipos motivacionais localizados à direita da estrutura representam motivações da coletividade. Os tipos motivacionais localizados nas regiões fronteiriças servem tanto a interesses individuais como coletivos (SCHWARTZ, 2005a, p. 47)
Instrumentos para análise dos valores pessoais
Alguns instrumentos foram desenvolvidos para verificar a relação entre valores e comportamento. Rokeach contribuiu com o desenvolvimento de uma escala de medida para os valores, o Rokeach´s Value Survey RVS, composta por 36 valores listados em itens que representam 18 valores instrumentais (meios para alcançar as preferências individuais) e 18 valores terminais (as próprias preferências) para serem organizados hierarquicamente pelos indivíduos, com base nos princípios que guiam suas vidas (MARTINEZ-SANCHES; ROS, 2006b). O RVS foi pioneiro no sentido de procurar identificar a hierarquia de valores para as pessoas e, provavelmente tem sido o mais popular método de medida de prioridades axiológicas (ROHAN, 2000), No entanto, Rokeach não avançou nos estudos relativos à estrutura do sistema de valores, o que torna a RVS uma lista desconectada de palavras que descrevem valores. Sem uma teoria sobre a estrutura de valores, é impossível compreender as conseqüências das altas prioridades com relação a outros tipos de valores, ou estudar a dinâmica entre conflitos e compatibilidades entre eles. Além disso, Braithwaite e Law (1985, apud ROHAN, 2000) identificaram quatro omissões na lista de valores de Rokeach: valores relativos ao desenvolvimento físico e bem-estar (preparo fisco, saúde), direitos individuais (privacidade, dignidade), parcimônia (cuidado com dinheiro, tirar vantagem de oportunidades) e despreocupação (agir por impulso, espontaneidade).
A fim de verificar empiricamente a existência da tipologia dos valores proposta, Schwartz desenvolveu um instrumento - o Inventário de Valores de Schwartz (SVS) - que, baseado na escala de Rokeach, inclui 57 itens de valores selecionados a priori
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para abarcar os motivos dos dez tipos motivacionais da estrutura. O instrumento requer que os sujeitos indiquem a importância de cada item como um princípio orientador da minha vida em uma escala de nove pontos, numerada da seguinte forma: 7 (suprema importância), 6 (muito importante), 5 e 4 (não rotulados), 3 (importante), 2 e 1 (não rotulados), 0 (não importante) e -1 (oposto aos meus valores), de modo a permitir que seja indicado o que é muito importante para as pessoas e o que é medianamente importante e o que é rejeitado.
Para testar a validade da estrutura de valores, o SVS foi aplicado em 67 países em diversas amostras (professores, adolescentes, estudantes etc.), com um total de 64.271 questionários O SVS foi traduzido por nativos de cada país e validado semanticamente. O autor utilizou alguns critérios para validar a confirmação de discriminação dos tipos motivacionais em cada região da estrutura. Os 57 itens de valores testados na edição revisada apresentaram localização empírica idêntica ou próxima da região do tipo motivacional esperado (SCHWARTZ, 2005a, p. 38). A análise dos resultados revelou que:
- os indivíduos relatam suas prioridades pessoais verdadeiras e reais (devido a não haver consenso nas respostas e pelo fato de já haver comprovação de correlações entre valores e comportamento);
- no nível de orientações de tipos motivacionais amplos, existe um conjunto universal de valores diferenciados pelo conteúdo motivacional. As orientações amplas, capturadas por tipos motivacionais adjacentes que compartilham conteúdo motivacional, foram discriminadas em 96% ou mais das diversas amostras em uma grande variedade de sociedades;
- os tipos motivacionais são abrangentes, pois não ocorreram tipos ausentes ou