33. “Não a ti, Cristo, odeio ou te não quero”
Não a ti, Cristo, odeio ou te não quero.
Em ti como nos outros creio deuses mais velhos. Só te tenho por não mais nem menos
Do que eles, mas mais novo apenas. Odeio-os sim, e a esses com calma aborreço, Que te querem acima dos outros teus iguais deuses. Quero-te onde tu stás, nem mais alto
Nem mais baixo que eles, tu apenas.
Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia Como tu, um a mais no Panteão e no culto, Nada mais, nem mais alto nem mais puro Porque para tudo havia deuses, menos tu. Cura tu, idólatra exclusivo de Cristo, que a vida É múltipla e todos os dias são diferentes dos outros, E só sendo múltiplos como eles
'Staremos com a verdade e sós. 9/10/1916
Ode tocante e significativa, toca o tema dos deuses e mais propriamente do confronto da religião crist~ com o “novo paganismo” defendido por Ricardo Reis.
“N~o a Ti, Cristo, odeio ou te n~o quero. / Em ti como nos outros creio deuses mais velhos.”. Reis diz-nos que, para ele, Cristo é apenas mais um deus, e não o deus único, o deus que prevalece sobre todos os outros. Há aqui um erro de princípio – Cristo não é deus, mas antes de matéria semelhante a deus72 – mas percebe-se o que Reis nos quer dizer.
Lembra um pouco a posição judaica quanto a Cristo, visto que os judeus consideram Cristo apenas como mais um homem santo, do seu panteão de homens santos. Reis faz o mesmo, considerando Cristo apenas mais um deus no seu panteão de deuses.
“Só te tenho por n~o mais nem menos / Do que eles, mas mais novo apenas”, conclui Reis, confirmando o que dissemos.
Sendo Cristo um deus “mais novo”, ele representa algo que de certa maneira falta aos deuses antigos – ele representa uma faceta perdida e mais humana, mais moderna.
Reis respeita Cristo e aceita-o. Porque Reis aceita todos os deuses.
O seu ódio vai na direcç~o dos que querem só Cristo e mais nada: “Que te querem acima dos outros teus iguais deuses”.
Reis esclarece a sua posiç~o: “Quero-te onde tu stás, nem mais alto / Nem mais baixo que eles, tu apenas”. Ou seja, Reis quer Cristo ao mesmo nível dos outros deuses e n~o acima deles.
Mas com um papel particular, como já tinhamos referido. E qual é o papel reservado a Cristo no panteão dos deuses pagãos?
Reis esclarece-nos:
72 Relembra-nos a polémica da Igreja Cristã primitiva sobre a natureza verdadeira de Cristo. Ário (250-336), um padre na Alexandria, defendia que Jesus Cristo, embora divino, tinha sido criado como agente para criar o universo, havendo um tempo em que esse agente ainda não existia enquanto tal. A polémica foi tanta que obrigou o Imperador Constantino a convocar o concílio de Niceia em 325, no qual o Cardeal de Alexandria, Atanásio, reafirmou a posição homoousios (Cristo era da mesma substância de Deus), em detrimento da posição homoiousios (Cristo era de substância similar a Deus). A posição do Arianismo, foi, por isso, considerada herética.
Deus triste, preciso talvez porque nenhum havia Como tu, um a mais no Panteão e no culto, Nada mais, nem mais alto nem mais puro Porque para tudo havia deuses, menos tu.
Cristo é, para Reis, o “deus triste”.
Extraordinária express~o, a de Reis, pela escolha precisa da palavra “triste”, que n~o é uma palavra qualquer no léxico Pessoano. Basta lembrarmos de imediato a conotação dada a esta palavra no Livro do Desassossego, a obra magna da filosofia Pessoana. A certa altura lá é dito: “eu n~o sou pessimista, sou triste” (in Livro do Desassossego, 1.ª parte, pág. 245, Publ. Europa- América).
“Triste” para Pessoa é uma maneira de existir que em muito se diferencia do pessimismo, de deixar cair os braços. E isto diz muito a Reis, que advoga vigorosamente uma perspectiva estoica mas simultaneamente epicurista da vida. A tristeza é, quanto a nós, traduzida neste compromisso frágil em que, se por um lado o poeta aceita a vida tal como é dada pelo Destino, por outro decide que essa aceitação é uma escolha básica que parte da sua liberdade individual.
Este ser “triste” é uma condiç~o de vida, uma escolha existencial, ontológica, fundamental para definir a sua natureza humana e a sua missão de vida. E é também uma escolha livre, por paradoxal que possa parecer é mesmo a escolha mais libertadora que o homem pode ter.
Há pois aqui uma mistura da crença gnóstica de Pessoa (num Cristo humano, mais acessível, um Cristo já meio pagão) e da crença pagã absoluta de Reis. Um compromisso que gera um Cristo pagão, mas com reminescências gnósticas, ou seja, um Cristo metafísico mas igualmente humano e, no que tem de humano, com características falhas humanas (Cristo é de certo modo o “deus falhado”, o “deus que morre”: o deus triste!).
Será ele a ser incluído com os outros deuses.
Na acepç~o final, Cristo é apenas mais um, mesmo que diferente, mesmo que o “deus perdido”, e quem perdurar no idolatrismo exclusivo da sua figura renega a uma característica essencial da vida: a sua multiplicidade.
É a multiplicidade que sustenta o rito pag~o, porque é também múltipla a Natureza. “Só sendo múltiplos” teremos pois o acesso { verdade.
34. “Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo…”
Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo Que aos outros deuses que te precederam Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus. No Panteão faltavas. Pois que vieste No Panteão o teu lugar ocupa, Mas cuida não procures
Usurpar o que aos outros é devido. Teu vulto triste e comovido sobre A ésteril dor da humanidade antiga Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo Panteão incerto.
Mas que os teus crentes te não ergam sobre Outros, antigos deuses que dataram Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas. E melhores memórias recolheram Do primitivo caos e da Noite Onde os deuses não são
Mais que as estrelas súbditas do Fado. 9/10/1916
Esta ode está directamente relacionada – ao ponto de se poder considerar uma verdadeira e própria continuação – com a ode “N~o a ti, Cristo, odeio ou te n~o quero…”.
Em ambas Reis analisa a importância da oposição entre uma religião dominante (a religião Cristã) e uma religião renascida (a religião pagã). Colocando ênfase no símbolo de Cristo, como representante máximo dessa oposição de crenças, Reis procura integrá-lo no paganismo, de modo a “abafar” a necessidade do monoteísmo Ocidental.
Já na ode antes referida, Reis pensa Cristo como mais um deus, mais um deus no vasto panteão de deuses, onde cada um desempenha o seu papel, onde cada um tem a sua definida personalidade. Continua agora falando-nos deste tema. Reforçando que a sua análise não parte de um ódio, ou de uma recusa – e isto é importante em matéria de história comparada das religiões – Reis afirma a sua vontade de aceitar Cristo no novo paganismo. Será essencial que assim aconteça, para que o novo paganismo seja também ele aceite mais rapidamente.
Esta é de certo modo uma medida política sensata por parte de Reis.
Mas qual o papel de Cristo neste pante~o antigo? Cristo é, curiosamente, o “novo deus”, mesmo na sua antiguidade de dois milénios.
Já indicamos a importância que Reis dá à tristeza de Cristo. É significativo que Reis aqui novamente se refira a esta tristeza: “Teu vulto triste e comovido sobre / A estéril dor da humanidade antiga / sim, nova pulcritude / Trouxe ao Pante~o incerto”.
A pulcritude (beleza) ser| a nova perspectiva, de um “novo deus”. N~o é belo certamente o sofrimento de Cristo, a sua paixão, mas antes a sua considerável humanidade – o seu vulto triste e comovido. Cristo é, entre os deuses, aquele mais humano, aquele que sofreu pelos pecados dos homens. Cristo é o último símbolo do sacrifício – ele nasceu para sofrer.
Mas esta qualidade inegável do Cristo não o pode elevar mais alto do que os restantes deuses, que est~o “mais perto da origem igual das coisas”.
A antiguidade dos restantes deuses fá-los igualmente divinos. Eles são feitos do escuro e do caos do universo primitivo. Foi deles que nasceram os propósitos de todos os elementos e isso é o bastante para que eles próprios sejam de natureza semelhante ao “novo deus” que aceitam como igual. São estes deuses antigos que contêm em si a essência do vazio universal, a partir do qual iluminam as vidas humanas como os seus exemplos, “como estrelas súbditas do Fado”.
Adivinhamos que o Fado é a própria noite que acolheu o princípio de tudo. O Fado é o espelho que nada reflecte, mas que se esconde por detrás da realidade transcendente. É o pano negro e morto debruado a estrelas vivas. Sendo tudo, não é nada sem a sua realização imanente: nos deuses, na Natureza e depois nos homens.
34b. “Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo…”
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo,
Tu não és mais que um deus a mais no eterno Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Panteão que preside À nossa vida incerta.
Nem maior nem menor que os novos deuses, Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava Ao número dos divos.
Por isso reina a par de outros no Olimpo, Ou pela triste terra se quiseres
Vai enxugar o pranto Dos humanos que sofrem.
Não venham, porém, 'stultos teus cultores Em teu nome vedar o eterno culto Das presenças maiores
Ou parceiras da tua.
A esses, sim, do âmago eu odeio Do crente peito, e a esses eu não sigo, Supersticiosos leigos
Na ciência dos deuses.
Ah, aumentai, não combatendo nunca. Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando Cada vez maior força
P'lo número maior.
Basta os males que o Fado as Parcas fez Por seu intuito natural fazerem. Nós homens nos façamos Unidos pelos deuses. 9/10/1916
Numa série tripartida de odes (referenciadas neste volume com os números 33, 34 e 34b), Ricardo Reis enfrenta o tema do paralelismo entre as religiões cristã e pagã.
Esta ode em an|lise é extremamente parecida com a ode “N~o a ti, Cristo, odeio ou menos prezo…”. Como nessa ode, Reis diz-nos que Cristo deve ser considerado como mais um deus no Pante~o de deuses antigos, “nem maior nem menor que os novos deuses”.
Novidade que traz esta ode é simplesmente o facto do poeta agora se referir directamente aos “cultores” de Cristo – os que promovem o seu culto, ou seja, quem se encarrega da sua Igreja estabelecida73.
Defensor da multiplicidade, no seguimento dos outros pensadores da “família”, Reis vê no “novo paganismo” uma religi~o superior, na medida em que expressa essa essência do múltiplo num fenómeno social pleno. Um fenómeno que não bloqueia o culto a um único símbolo, que não “veda o eterno culto / Das presenças maiores”.
73 Sabemos o “ódio” de Pessoa face ao fenómeno social das igrejas organizadas, na famosa “nota biogr|fica” de 1935 Pessoa escreve: “Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e
sobretudo á Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais diante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradiç~o Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da maçonaria”
Reis diz-nos que esses crentes no monoteísmo, são apenas seres “supersticiosos leigos / Na ciência dos deuses”. De certa maneira isto reforça o que dissemos em outras odes: que a religi~o advogada por Reis é verdadeiramente uma religião da inteligência e refuta a crença como sendo apenas a demonstração de uma superstição básica ou apenas ritualista.
A religião pagã, o novo paganismo de Reis, é uma expressão da inteligência humana e certamente uma expressão da liberdade humana. É a liberdade de escolher e a liberdade do homem se submeter ao Destino pela sua própria vontade.
A inteligência também diz a Reis que, se os deuses servem os homens, não é lógico que o homem limite os deuses, e tenha culto a apenas um. Por isso Reis é imperativo: “Ah, aumentei, n~o combatendo nunca. / Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando / Cada vez mais força / Pelo número maior”. Repare-se o uso contínuo da palavra “deuses” com minúsculas – expressão silenciosa da multiplicidade divina, em que todos valem o mesmo, em que não há nunca a possibilidade do reino do Deus único e Omnipotente.
Essa atitude, da crença no deus único é algo que Reis (e Pessoa?) vê como extremamente negativo para a humanidade. É algo que Reis reforça na conclus~o { ode dizendo: “Basta os males que o Fado as parcas fez / Por seu intuito natural fazerem”. As inversões nesta frase, tornam-na de difícil leitura, mas o que Reis quer dizer é basta o mal que nos vem pelo Destino, que não podemos evitar porque é desenhado pela Parcas que o fiam. O homem não tem de acrescentar a esses males, desejando ter apenas um deus – Cristo.
Os homens têm, isso sim, de se unirem “pelos deuses”.
Curiosíssima esta frase e o significado passivo da mesma. Mas Reis não diz nada de novo, apenas reforçando a visão do próprio Fernando Pessoa que, nos seus escritos sobre religião, escrevera longamente sobre o significado sociológico das religiões no que toca à união das massas humanas74.
Estas massas que melhor se uniriam em torno de uma religião múltipla, como a própria natureza humana, do que por uma religião estranha e redutora, apenas com um Deus.
Mais uma característica ent~o se acrescenta ao “novo paganismo”: a utilidade social plena. Por ser múltiplo, o “novo paganismo”, é a religi~o ideal para unir os homens em torno de uma ideia comum e simples.
74 “Uma religi~o é um fenómeno ligador de almas, porque é qualquer coisa que elas têm de comum; é um fenómeno
imaginativo, ; é um fenómeno de autoridade. É, assim, um critério moral tanto como metafísico, estético quanto político” (in
35. “Sofro, Lídia, do medo do destino.”
Sofro, Lídia, do medo do destino. A leve pedra que um momento ergue As lisas rodas do meu carro, aterra Meu coração.
Tudo quanto me ameace de mudar-me Para melhor que seja, odeio e fujo. Deixem-me os deuses minha vida sempre Sem renovar
Meus dias, mas que um passe e outro passe Ficando eu sempre quase o mesmo, indo Para a velhice como um dia entra No anoitecer.
26/5/1917
Existe uma ode alternativa com o texto seguinte: Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena coisa de onde pode Brotar uma ordem nova em minha vida, Lídia, me aterra.
Qualquer coisa, qual seja, que transforme Meu plano curso de existência, embora Para melhores coisas o transforme, Por transformar.
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem Que ininterrupta minha vida fosse Uma planície sem relevos, indo Até ao fim.
A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca Amor ou justa estima me dessem outros, Basta que a vida seja só a vida
E que eu a viva.
Já por diversas ocasiões denotamos as aproximações da poesia de Reis à do poeta clássico Horácio. No que ambas têm de avisos nobres, no que ambas transmitem de uma visão da vida permeada pela calma e pela filosofia prática.
Se bem que é verdade que há semelhanças, Pessoa-Reis não é como Horácio, defensor de vida dentro dos mesmos moldes. Pois que Horácio defende uma visão epicurista da vida, em que se devem degustar os pequenos prazeres do momento e não as promessas eternas do futuro, enquanto Pessoa-Reis defende precisamente a renúncia do amor (no âmbito do seu epicurismo parcial).
Parece-me que, numa análise mais próxima, esta incapacidade de amar, ou a descrença no amor, é uma coisa muito própria de Pessoa, relacionada com a sua infância e também com a sua idade adulta. Ele um homem sempre desiludido com a "traição" da mãe, que, adulto, desconfia do amor de outras mulheres, afastando-se delas, mas sempre desejando o que não pretende alcançar. Passando em concreto à análise da ode:
Há que notar uma coisa muito importante - destacada pelo iminente crítico Pessoano Angel Crespo - que é o facto de tanto Lídia como o seu interlocutor serem "crianças grandes", que nunca se tocam nem se beijam75.
Parece que Pessoa dialoga consigo mesmo, projectando o seu medo e desilusão numa figura feminina, que encarna simultaneamente a figura da sua mãe e da sua amante.
Os seguintes temas estão nesta Ode: 1) o medo do futuro para além da segurança da infância ("Sofro, Lídia, do medo do destino); 2) o ideal de "uma vida passiva e silenciosa" (Angel Crespo) ("Deixem-me os deuses minha vida sempre sem renovar); 3) a infância como idade ideal, para os espíritos puros (como ele e Lídia, ambos simbolicamente crianças) (Ficando eu quase sempre o mesmo/Indo para a velhice como um dia entre no anoitecer).
Estes temas, que encontramos em Reis, são temas Pessoanos, mas de um Pessoa genuíno, um Pessoa verdadeiro, por detrás das suas máscaras e realidades alternativas. São os temas da sua “poesia sincera”, usando palavras de Gaspar Simões, seu primeiro biógrafo.
É Pessoa ele próprio que atravessa estas palavras sentidas:
"Sofro, Lídia o medo do destino", porque não queria o futuro, por medo de não poder regressar ao passado feliz que conhecera. "A leve pedra que um momento ergue / As lisas rodas do meu carro, aterra / meu coração", ou seja, o movimento que o faz avançar, arruína-lhe as esperanças que ele constrói, sempre irrealizáveis, idealizadas, e por isso o movimento é doloroso, parte-lhe o coração esperar pelo melhor76.
"Tudo quanto me ameaça de mudar-me", tudo quanto seja novo, melhor ou pior, tudo o que seja mudança. "Para melhor que seja, odeio e fujo. / Deixem-me os deuses minha vida sempre sem renovar", porque o que nunca muda, é o que é certo, o que se pode controlar e conhecer, e o desconhecido é sempre pior para quem tem medo de conhecer, por se ter protegido, fechando-se a ele.
"Meus dias, mas que um passe outro passe / Ficando eu sempre quase o mesmo; indo / Para a velhice como um dia / Entra no anoitecer", ou seja, que a vida passe por mim, sem que eu passe pela vida, pois se eu me deixar assim, só símbolo, distante, eu não sofrerei mais, eu pelo menos não vou correr o risco de sofrer na vida a desilusão que já senti e que tanto me marcou nela. Desejar a passagem do tempo sem que passe o tempo interior é um desejo tipicamente Pessoano – um desejo de reunião de opostos. Simultaneamente é um desejo extremamente doloroso, porque se por um lado é uma promessa de tranquilidade, é igualmente uma certeza de vazio absoluto, de falta de significados.
Mas estes temas atravessam toda a poesia de Reis e indicam-nos um dos seus principais objectivos: precisamente solucionar o problema da passagem do tempo e das coisas, mantendo imutável a nossa identidade, sacralizada, pura.
75 V. análise à ode 6; Yvette Centeno foi provavelmente das primeiras Pessoanas a referir este aspecto, falando sobretudo em referência a Ophélia, quando disse que Pessoa “n~o a queria ou n~o a podia ver de outra maneira que n~o fosse a de
uma criança, inofensiva. Pois como mulher poria em risco o seu próprio equilíbrio, todo feito de recusa, e não de aceitação do outro e de si mesmo.” (in "Fernando Pessoa : Ophélia-bébézinho ou o «horror do sexo»"; Revista Colóquio/Letras, Maio
1979, p. 16). De facto estudos mais recentes, nomeadamente da Prof. Dr. Celeste Malpique (com o seu livro Fernando em
Pessoa) sugerem isso mesmo, que a dificuldade de relação com o sexo oposto tem sobretudo a ver com o período difícil da
infância e da adolescência de Fernando Pessoa que o levaram a uma clivagem auto-defensiva, dentro de si mesmo. Cf.
Infra, Apêndice I.
76 As rodas do “carro” que aparece no poema, “evocam a concepç~o mitológica que figura o homem como um cocheiro que
guia um carro tirado por dois cavalos: um branco (a raz~o) e outro negro (os instintos” (in José Romero Antonialli; Fernando Pessoa - Poeta Onto-cósmico, p. 23).
36. “Uma após uma...”
Uma após uma as ondas apressadas Enrolam o seu verde movimento E chiam a alva espuma
No moreno das praias.
Uma após uma as nuvens vagarosas Rasgam o seu redondo movimento E o sol aquece o espaço
Do ar entre as nuvens escassas. Indiferente a mim e eu a ela, A natureza deste dia calmo Furta pouco ao meu senso De se esvair o tempo.
Só uma vaga pena inconseqüente Pára um momento à porta da minha alma E após fitar-me um pouco