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Verbos de movimento temporal e movimento subjetivo

CAPÍTULO I A SUBJETIVIDADE NA LINGUÍSTICA: DIVERSIDADE

4.6. Verbos de movimento temporal e movimento subjetivo

Traugott (2010), Hopper e Traugott (2003) e Finegan (2005) citam a mudança sofrida pelo verbo de movimento inglês go, que passou de item lexical para um item gramatical, como um exemplo de subjetividade. Hopper e Traugott (2003, p.92), baseando-se em Langacker (1990, apud HOPPER; TRAUGOTT, 2003), explicam que o verbo go, com a noção de movimento, requer que a direção do movimento esteja ancorada no sujeito e também no ponto de vista do falante, como pode ser observado no exemplo (135), a seguir. Em seu significado gramatical (136), a ancoragem é realizada somente no ponto de vista do falante. Os exemplos são adaptados de Hopper e Traugott (2003, p. 92-93):

(135) He is going to visit Bill. 'Ele está indo visitar o Bill' (136) It seems as if it is going to rain.

'Parece que vai chover'

Em (135), considerando que o sujeito está a caminho, na representação mental do falante, o movimento é realizado pelo sujeito ele, ou seja é ancorado nele, e é um

movimento de partida, para longe do falante, ou seja, é ancorado em seu ponto de vista (para ficar mais claro, considere que, se fosse um movimento para perto do falante, o verbo utilizado seria coming - 'vindo').

Em (136), não há um sujeito que se move fisicamente, mas há um evento que é colocado em um ponto distante no tempo em relação ao falante. Portanto, a ancoragem é realizada somente em relação ao ponto de vista do falante.

De acordo com a interpretação de Hopper e Traugott (2003), esse item não expressa uma atitude do falante, mas é considerado subjetivo por se basear exclusivamente em seu ponto de vista. Essa interpretação, entretanto, é relevante apenas em relação ao mapeamento mental realizado pelo falante, algo que foge ao escopo da GDF.

Do ponto de vista da GDF, importa a funcionalidade do item, ou seja, seu papel no funcionamento da língua, e seu comportamento gramatical. No caso da construção be going to, seu uso gramatical é classificado por Hengeveld (2011) como um operador de

aspecto prospectivo, na camada da Propriedade Configuracional (f). Os operadores de aspecto, segundo Hengeveld e Mackenzie (2008, p.210), especificam a constituição temporal de um Estado-de-Coisas e não apresenta uma função situacional, tarefa encarregada às distinções de Tempo Absoluto. Adaptando o exemplo anterior, poderíamos ter a seguinte distinção realizada no passado:

(137) It was going to rain.

Assim, o uso aspectual de go não representa uma atitude do falante, e suas diferenças gramaticais não apontam para seu comprometimento.

Isso não significa, entretanto, que a diferença de significado entre as duas formas seja irrelevante do ponto de vista discursivo-funcional. Significa apenas que, para a GDF é mais relevante o fato de que o significado lexical, de movimento no espaço, seja representado como uma unidade da camada da Propriedade Lexical, uma camada adjacente abaixo da camada da Propriedade Configuracional. De acordo com Hengeveld (no prelo), a mudança de significado envolvida nos processos de gramaticalização sempre levam a um aumento no escopo desse item. Portanto, a mudança de go, de um verbo lexical de movimento para um operador aspectual, reforça a hipótese levantada por Hengeveld (no prelo).

Além disso, o uso temporal do verbo go é perfeitamente compatível com contextos interrogativos, negativos e condicionais:

(138) Is it going to snow?/It is not going to snow/If it is going to snow... 'Vai nevar?/Não vai nevar/Se vai nevar...'

No que concerne à subjetividade, entretanto, o uso aspectual de go configura apenas uma expressão de subjetividade inerente.

De forma similar, os verbos que expressam um movimento subjetivo, como run, no exemplo abaixo (FINEGAN, 1995, p.5), também são considerados subjetivos por representarem um movimento abstrato, um escaneamento mental.

(139) The highway runs from the valley floor to the mountain ridge 'A estrada vai do fundo do vale até a serra'

Para a GDF, não há diferenças gramaticais entre o uso abstrato representado nesse exemplo e um uso concreto desse mesmo verbo. A única possível diferença seria o emprego de um ser animado e um ser inanimado, mas essa distinção não parece ser relevante, ao menos no inglês e no português: ambos os seres são representados na camada do Indivíduo (x).

De Smet e Verstraete (2006, p. 372) parecem corroborar a leitura objetiva em uma análise desse mesmo exemplo, sendo o seu exemplo (13b) equivalente ao exemplo (139), exposto anteriormente:

Langacker entende tais usos como subjetivados porque "o movimento espacial realizado por um participante objetivamente construído é substituído por um movimento subjetivo (mental scanning) realizado pelo conceitualizador" (1990: 19). Parece intuitivamente claro, entretanto, que enquanto o uso de run em (13b) requer uma operação mental da parte do falante, o falante mesmo não figura na interpretação de run, que simplesmente descreve uma cena do mundo "exterior"80 (DE SMET; VERSTRAETE, 2006, p. 372,)

No português, o verbo ir apresenta um processo semelhante ao verbo go, do inglês. Castilho (1997) propõe um processo de mudança de "movimento no espaço" para "movimento no tempo". Diversos autores, entre eles, Neves (2011), Bagno (2011), Cunha e Silva (2007), também identificam esse uso do verbo ir como indicador de futuro. Poucos, entretanto, fazem a distinção entre as funções temporais e aspectuais.

80Langacker sees such uses as subjectified because ‘‘spatial motion on the part of an objectively construed participant is replaced by subjective motion (mental scanning) on the part of the conceptualizer’’ (1990: 19). It seems intuitively clear, however, that while the use of run in (13b) requires a mental operation on the part of the speaker, the speaker him- or herself does not figure in the interpretation of run, which simply describes a scene in the world ‘out there’

Em um estudo sobre construções perifrásticas sob a ótica da GDF, Paula (2014) classifica o auxiliar ir como operador de Tempo Absoluto e Tempo Relativo.

Também encontramos no português usos semelhantes ao apresentado no exemplo (139), como podemos observar na ocorrência (140), abaixo:81

(140) Português (Internet82)

Oficialmente, a estrada vai do limite de Porto Alegre com Viamão, na Ponte da Divisa, até a 040.

Com relação aos contextos interrogativos, condicionais, negativos e temporais, podemos perceber que os verbos de movimento subjetivo também são compatíveis:

(141) Essa estrada vai até Porto Alegre?/Se essa estrada vai até Porto Alegre... /A estrada não vai até Porto Alegre/ Essa estrada ia até Porto Alegre

Assim, podemos concluir que os casos de verbos de movimento subjetivo também configuram apenas um exemplo de subjetividade inerente.