Outro exemplo de tecnologia que está sendo fundamental nesse momento de isolamento social para a continuidade dos serviços judiciais consiste na realização de audiências por videoconferências.
Basicamente, são audiências feitas com uso de recursos tecnológicos diversos, ou seja, com a transmissão de imagens e sons que são captadas pelas partes componentes da audiência.
Há algum tempo, já se discutia o uso das videoaudiências pelo Judiciário, sobretudo na área criminal, existindo argumentos e correntes doutrinárias favoráveis e contrárias.
Quem era contra, basicamente alegava que direitos constitucionais do réu estavam sendo prejudicados, como o da ampla defesa e do contraditório, afirmando que a falta da presença física do juiz em frente ao réu e seu advogado violava o devido processo legal.
Durante a videoconferência, o exercício pleno do direito de defesa sofre comprometimento. As formalidades legais deixam de ser cumpridas com a realização do interrogatório em dois lugares distintos. O advogado não conseguirá, ao mesmo tempo, prestar assistência ao réu preso e estar com o juiz, no local da audiência, para verificar se os ritos processuais legais estão sendo cumpridos. (...) A comunicação do advogado-cliente, em que o profissional permanecer na sala de audiências, também fica prejudicada, mesmo havendo um canal de áudio reservado, pela insegurança natural que
sempre haverá em saber-se realmente é totalmente imune a escutas e gravações. (D’URSO, 2009, p. 89)
Todavia, não há como se negar as inúmeras vantagens, principalmente econômicas, de segurança e celeridade que as videoconferências proporcionam.
Para que alguns presos mais perigosos fossem levados até o fórum a fim de participarem de audiências, verdadeiras operações, envolvendo vários policiais, helicópteros, viaturas e armamentos eram utilizados, ocasionando um gasto enorme ao Estado. Ainda, sempre estava presente o perigo de fuga ou arrebatamento do preso e potencial troca de tiros e confrontos que poderiam gerar “balas perdidas” e riscos para sociedade em geral.
Quem defende a medida fala em segurança, rapidez, modernidade, economia, lembra de casos de resgate de detentos no caminho ao fórum. Diz que, levando em conta o custo do deslocamento das viaturas e das horas de trabalho policial empenhado nas escoltas, é até mais barato. Preceitua que com o sistema on-line evita-se o envio de ofícios, requisições, precatórias, rogatórias, economizando, assim, tempo e dinheiro. Afirma que representaria uma economia incalculável para o erário público, e mais policiais nas ruas, mais policiamento ostensivo, mais segurança pública. Quem defende a medida não encontra qualquer obstáculo à sua implantação no sistema de garantias processuais. (FIOREZE, 2009, p.125)
De uma maneira tímida, esse problema já havia sido enfrentado e relativamente resolvido, com a edição da Lei 11.900/2009, que não apenas permitiu que o interrogatório do réu preso fosse realizado, em sala própria, no estabelecimento em que estivesse recolhido, desde que garantidas a segurança do juiz, do membro do Ministério Público e dos auxiliares bem como a presença do defensor e a publicidade do ato, mas também, excepcionalmente, por decisão fundamentada, de ofício ou a requerimento das partes, pudesse o interrogatório do réu preso ser realizado por sistema de videoconferência ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em tempo real, desde que presentes alguns requisitos.
Na ponderação de princípios, parece que a balança está pendendo para o lado da segurança e da saúde, não havendo muitas perdas consideráveis para as partes.
Com o advento do Processo judicial em meio eletrônico instituído pela Lei 11.419/2006 e regulamentada pela Resolução nº 105/2010 do CNJ, a prática de atos processuais por meio de videoconferência passou a ser amplamente utilizada pelos Tribunais brasileiros, ainda mais com o advento do Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015), o uso
do recurso tecnológico da videoconferência foi definitivamente consolidado no ordenamento jurídico. (CNJ-c, 2020)
As audiências gravadas por vídeo são muito mais rápidas, já que não é necessária a sua degravação. Audiências que anteriormente demorariam mais de trinta minutos, podem agora ser colhidas em um tempo muito menor. Além disso, depois de juntadas no processo, podem ser revistas e analisadas quantas vezes for necessário. Interessante ressaltar que a depender do andamento dos processos, a sentença pode ser proferida depois de decorrido certo tempo da colhida do depoimento e, caso entenda útil, o juiz pode rever a audiência, revigorando sua memória. No mesmo sentido, as partes podem rever os depoimentos, antes das alegações finais.
Durante um excelente evento ocorrido entre os dias 02, 03 e 04 de junho de 2020, denominado Expojud, sendo 100% on-line, José Andrade, Juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul, comentou um caso interessante em que um juiz, que também era professor, criou um modelo de ensino no qual ele gravava audiências e disponibilizava aos estudantes. Estes, posteriormente, poderiam ter acesso aos autos. Depois, eram feitas 5 perguntas sobre as audiências, se o estudante respondia 4 de 5 questões corretamente, recebia um certificado que poderia apresentar na faculdade. Esse juiz acabou percebendo que muitos dos estudantes não eram acadêmicos, mas sim advogados e passou a emitir certificados para eles também. Essa ideia permite, por exemplo, que uma sala de 70 alunos tenha acesso a audiências, sem tumultuá-las, trazendo os alunos um pouco mais para perto da realidade dos serviços forenses e, por conseguinte, deixando-os mais preparados para certas situações que irão enfrentar.
Esse magistrado comentou também que as audiências iniciais de conciliação podem ser feitas por empresas privadas. Essas empresas fazem a conciliação por videoconferência, desinchando a máquina pública e produzindo audiência com bastante qualidade. Outro fator que ele relatou como positivo para o Judiciário são as próprias partes que remuneram esses conciliadores, reduzindo custos para o Judiciário.
Oportuna a lembrança da recente Lei 13.994, de 24 de abril de 2020, que alterou os artigos 22 e 23 da Lei 9.099/1995 (Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais), passando a possibilitar a conciliação não presencial no âmbito dos Juizados Especiais Cíveis, dispondo de forma expressa no §2º do artigo 22 que “é cabível a conciliação não presencial conduzida pelo Juizado mediante o emprego dos recursos tecnológicos disponíveis de transmissão de sons e
imagens em tempo real, devendo o resultado da tentativa de conciliação ser reduzido a escrito com os anexos pertinentes.”.
Outro importante exemplo do uso das videoconferências consiste em seu uso para oitiva de pessoas nas cartas precatórias, ou seja, de pessoas que residam em outras comarcas, pois o próprio juiz do processo é quem houve o depoente. Já que o processo todo correu em sua comarca, ele estará muito mais apto a questionar a pessoa de uma forma mais eficiente, que a carta precatória feita de maneira tradicional, na qual eram enviados alguns pré- questionamentos, ou, às vezes, nem isso, apenas solicitando a oitiva de maneira genérica, sobre os fatos narrados em documentos enviados anexos, e a audiência era conduzida por um juiz que não teve nenhum contato anterior com a ação principal.
Com a crise da pandemia do Covid-19, esse tipo de tecnologia está sendo ainda mais utilizada, sobretudo em questões cíveis, audiências de conciliação e aquelas audiências que possuem uma urgência latente, sem que se coloquem em risco de contaminação as partes, ou os outros operadores do direito envolvidos.
Inclusive, o próprio Conselho Nacional de Justiça – CNJ – colocou à disposição de todos os Tribunais e Juízes do Brasil uma Plataforma Emergencial de Videoconferência para Atos Processuais – Cisco Webex. Essa plataforma foi desenvolvida em cooperação técnica decorrente de um acordo celebrado com a empresa Cisco Brasil Ltda., não implicando quaisquer custos ou compromissos financeiros por parte do CNJ e com duração concomitante ao período especial vivenciado pela pandemia. Segundo dados do próprio CNJ, já foi realizado por esse sistema de 01/04/20 até 20/06/20, um total de 211.094 reuniões. (CNJ-d, 2020).
Figura 4: Robôs substituem estudantes japonesas em cerimônia de formatura afetada pelo Coronavírus em 28/03/2020 BBT UNIVERSITY
Fonte: Divulgação via Reuters7
Por fim, não apenas por ser bastante curiosa, mas também, por ser uma possível forma de se complementar a ideia de uma videoconferência, uma vez que é acrescida aos participantes a possibilidade de produzirem movimentos, aproximando-se, de certa forma, de uma nova realidade, cite-se a matéria veiculada pela Reuters, uma das maiores agências internacionais de notícias do mundo, sobre uma cerimônia de formatura ocorrida no Japão, realizada pela universidade de administração Business Breakthrough University, em Tóquio, na qual, em virtude da pandemia do Coronavírus, foram utilizados robôs, chamados de “Newme”, os quais foram vestidos em trajes de formandos e exibiam em um tablet o rosto do respectivo aluno que controlava a máquina a partir de sua casa. (SAKAI, OKAMOTO; 2020)
Esse exemplo, embora um pouco pitoresco, permitiu que os formandos aparecessem em fotografias e pudessem guardar lembranças preciosas de um momento único em suas vidas.
4.4 Justiça 4.0 – Inteligência Artificial e soluções tecnológicas utilizadas pelo Tribunal de