1.4. CONSIDERAÇÕES ACERCA DA INCLUSÃO
1.4.2 Vigotsky e o Estudante com Deficiência Visual
Entre os pesquisadores que se destacam na área do ensino de estudantes com deficiência cabe destacar Lev Semenovitch Vigotsky, entre suas muitas contribuições enquanto pesquisador e cientista apresenta o conceito de defectologia, onde aponta uma nova percepção sobre o desenvolvimento principalmente das crianças cegas.
Sobre o conceito de cegueira Vigotsky (1997, p. 74) menciona que:
A cegueira, ao criar uma formação peculiar da personalidade, reanima novas forças, altera as direções normais das funções e, de uma forma criadora e orgânica, refaz e forma a psiquê da pessoa. Portanto, a cegueira não é somente um defeito, uma debilidade, senão também, em certo sentido, uma fonte de manifestação das capacidades, uma força (por estranho e paradoxal que seja!).
Esta percepção de que a cegueira não é somente um defeito ou debilidade, mas produz outra forma de organização e manifestação de capacidades, colabora com as concepções do modelo social da deficiência segundo o qual as pessoas não devem ser consideradas apenas por suas lesões, mas, sim como um todo com restrições e com possibilidades e capacidades.
Segundo Nuernberg (2008) os trabalhos desenvolvidos por Vigotsky na área da educação refletem muito do momento histórico cultural vivenciado na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Este autor aponta três conceitos na obra de Vigotsky voltados para a área da
educação: o primeiro converte-se em uma crítica do psicólogo cientista ao enfoque da análise quantitativa no campo da deficiência.
Esta que se materializa principalmente pela mensuração em graus de deficiência ou pela comparação entre o desenvolvimento da criança e do adulto. Ao desatrelar o desenvolvimento das pessoas com deficiência do desenvolvimento dito das pessoas “normais” o autor contribui para com os fundamentos da defectologia que prevê a existência de leis de desenvolvimento próprio às pessoas com deficiência.
Sobre a defectologia Vigotsky (1997, p. 62) defende que “a criança cujo desenvolvimento se vê complicado por um defeito não é simplesmente uma criança menos desenvolvida que seus coetâneos normais, mas uma criança que se desenvolveu de outro modo”.
Nota-se neste conceito um pressuposto do modelo social da deficiência no qual a lesão é o defeito, não é toda a pessoa, portanto a pessoa se desenvolverá tendo a lesão, segundo suas capacidades, de outra forma da dita proforma da normalidade.
O segundo conceito apresentado por Nuernberg (2008) é a distinção que Vigotsky faz entre deficiência primária que seria de ordem biológica e a deficiência secundária de ordem social. No contexto do acesso e da educação de estudantes com deficiência visual esta deficiência secundária muitas vezes se apresenta sob a forma de barreiras arquitetônicas, comunicacionais, conceituais e até mesmo atitudinais.
O terceiro conceito proposto por Vigotsky é a perspectiva de compensação, no caso, da falta de um sentido Vigotsky (1997, p. 76) aponta que:
No caso da cegueira, não é o desenvolvimento do tato ou a agudeza do ouvido, senão a linguagem, a utilização da experiência social, a relação com os videntes, constitui a fonte da compensação. Neste sentido, equivoca-se ao supor que o estudante com deficiência visual terá uma “superaudição” ou tato, pelo contrário, o desenvolvimento destes sentidos estará atrelado à estimulação precoce do aluno para explorá-los.
Desta maneira é de suma importância a interação entre deficientes visuais e pessoas normovisuais sendo que o ambiente escolar propicia uma oportunidade ímpar de se realizar esta interação entre estudantes com a mesma faixa etária, com e sem deficiência.
Especificamente sobre a educação, princípios e propostas que devem ser aplicados aos estudantes com deficiência visual Vigotsky (1997, p. 82) expressa a seguinte conclusão:
Ao analisar o processo de educação da criança cega, desde o ponto de vista da teoria dos reflexos condicionados, chegamos oportunamente ao seguinte: no aspecto fisiológico não há uma diferença de princípio entre a educação da criança cega e da vidente.
Posto isso se chega à afirmação que a educação do estudante com deficiência visual e do estudante sem deficiência visual são semelhantes havendo apenas a necessidade de suprir com materiais adaptados e o uso da linguagem, às barreiras conceituais impostas pela deficiência enquanto lesão sensorial.
Ainda destacando as reflexões sobre a educação da criança cega Vigotsky (1997, p. 87) assinala que em outrora, o que se pretende pôr em prática na sociedade contemporânea através de leis e normatizações.
[...] Também é necessário acabar com a educação segregada, inválida para os cegos e desfazer os limites entre a escola especial e a normal: a educação da criança cega deve ser organizada como a educação da criança apta para o desenvolvimento normal; a educação deve formar realmente do cego uma pessoa normal, de pleno valor no aspecto social e eliminar a palavra e o conceito de “deficiente” em sua aplicação ao cego.
A educação segregada vem sendo condenada por muitos professores defensores da inclusão educacional. Durante esta pesquisa, em visita a escola para cegos Padre Chico, localizada em São Paulo, deparamo-nos com o que foi chamado o avesso da inclusão. A escola que desde sua fundação abrigava apenas alunos cegos nos últimos três anos passou a contemplar também irmãos e primos destes estudantes cegos, em turmas mistas. O desenvolvimento positivo dos cegos foi apontado pela coordenadora pedagógica que salientou ainda que, agora os estudantes cegos exploram mais o terreno da escola e são estimulados pelas crianças sem deficiência visual a correr e testar seus limites, fato que não ocorria quando todos os alunos eram cegos e seus
comportamentos eram comparados entre si. De modo geral, houve melhora no desenvolvimento dos estudantes com a interação entre videntes e cegos.
As contribuições de Vigotsky acerca do desenvolvimento das crianças com deficiência visual e sobre o processo de compensação revolucionaram alguns ramos da Psicologia e foram de inegável aporte nas propostas de desenvolvimento de uma educação de qualidade que contemple também os estudantes com deficiência visual.
Nas etapas subsequentes desta pesquisa especificamente na avaliação e nas propostas de atividades utilizou-se a perspectiva da aprendizagem mediada, conceito também proposto por Vigotsky que será aprofundado posteriormente.
1.4.3. Acessibilidade Pedagógica como Meta para um Ensino