3.2 PARA QUEM TEM OLHOS NA PONTA DOS DEDOS
3.2.1 Visitando o Museu
Figura 10 Fachada do Museu do Marajó.
Fonte: acervo próprio.
O Museu do Marajó está localizado na Avenida do Museu, nº 1983 (ano de sua instalação na cidade). É devidamente registrado no Conselho Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), Conselho Nacional de Museus (CNM) e, entre outros, possui Título de Utilidade Pública em âmbito municipal e estadual – o que confere à instituição reconhecimento pela prestação de serviços, sem fins lucrativos, à sociedade. O prédio que abriga o MdM está em uma área de várzea, que encontra o rio Arari e que sofre alagamento durante o inverno. Durante o verão, esta área é recoberta pela vegetação fina, característica da região dos campos marajoaras. A fachada do museu preserva a mesma moldagem da antiga fábrica oleica, onde foi instalado, e é ornada com traçados da cerâmica marajoara.
A administração do MdM está estrategicamente situada em frente à entrada, facilitando a vigília das visitações, já que os dirigentes acumulam as funções de recepcionistas e zeladores, entre outras. A casa/escritório é também responsável pela manutenção do terreno onde está um prédio, em madeira de lei e formato circular, chamado de “a maloca achei”, “maloca do padre” ou “fazendola” – primeira
moradia de Giovanni Gallo em Cachoeira. Tanto a casa da administração quanto a “maloca” são palafitas “caneludas”, sendo que a maloca possui uma “perna” maior, por se encontrar mais exposta à inundação causada pelo transbordamento do rio Arari e pelas águas da chuva.
Adentrando-se o prédio do MdM, a visita ao acervo inicia-se logo na sala onde está a recepção, que também possui saída para o terreno do mesmo. É sobre esta saída que encontramos a primeira referência de criação do museu – a imagem de Giovanni Gallo estampada.
A recepção (Figura 11), situada do lado esquerdo de quem entra, é uma construção artesanal de bambu, ou taboca, como se costuma chamar localmente este vegetal. Quando visitei o MdM, o material informativo se resumia a um folder emoldurado na parede onde está a porta que dá acesso ao salão principal. Continha algumas informações sobre o acervo interativo.
Figura 11 Recepção do Museu do Marajó. Fonte: acervo próprio.
Ali mesmo no salão de entrada havia uma das engenhocas responsáveis pela tão famosa interatividade do museu – que Gallo chamava de “computadores caipiras”. Essas engenhocas possuem modelos diferentes e são verdadeiros bancos de dados constituídos de diversos painéis giratórios, pêndulos, engrenagens e portinholas. “Com o recurso de barbantes, tabuinhas, placas móveis, tudo é inspirado nalgum artefato de estilo popular que, quando manipulado, desvenda os
seus segredos, exatamente como um computador de verdade” (GALLO, 1996, p.260). Os computadores cabocos53 guardam muitos dos mistérios da vida no Marajó e possibilitam que os mesmos sejam descobertos por elementos como a linguagem, a história, as crenças e os métodos curativos. A descrição desses aspectos surge em um simples levantamento/giro das manivelas, plaquinhas ou abertura das janelinhas que compõem os “computadores”. Entretanto, o conhecimento do mundo marajoara está ali como um presente escondido em um jogo de labirintos, no qual o aspecto lúdico está tanto na procura quanto nas respostas a serem encontradas. O grande inventor destes brinquedos é o Sr. Otacir Gemaque – a quem Giovanni Gallo chamava de “professor pardal”.
Em frente à pequena área de recepção e ao lado da porta que dá acesso ao primeiro pavilhão encontra-se a famosa caixinha de surpresas retratada em muitos relatos de visitantes do museu, alguns deles em meio virtual. Este objeto é uma espécie mesa de madeira cujo tampo é uma caixa onde, na lateral, lê-se na gravura: “O museu começa aqui”. Com a aproximação é possível perceber que a caixa é dividida em duas partes e que cada uma delas possui suas respectivas coberturas com perguntas grafadas:
Quantos anos tem a peça mais antiga do museu?” Surpresa, incerteza e respostas absurdas. Levantando uma tampa, encontra-se a escala geológica da terra, mais em baixo, uma peça da era mesozoica, período jurássico: um fóssil, o tataravô da nossa traíra com a certidão de nascimento que espanta, 190 milhões de anos! Bem ao lado, outra pergunta intrigante: “Qual é a peça mais nova?” Embaixo, está um espelho com a escrita: “É você!”, porque cada um descobre o seu museu, seguindo os seus interesses, dirigido pela sua própria formação específica, o que estimula à procura, oferecendo a oportunidade de dar seus palpites e sua contribuição. (GALLO, 1996 p. 260).
Cruzando-se a portinhola vaivém, que leva ao primeiro pavilhão, concentra-se o acervo arqueológico composto pela de cerâmica marajoara. Este material está disposto em fileiras formadas por grandes vitrines individualizadas, que abrigam os objetos maiores, e outras de menor proporção onde estão peças agrupadas segundo sua categoria ou similaridade (tangas, inaladores, caretas etc.) (Figura 12).
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Esses “computadores” são chamados de “computadores caboclos”, em muitos dos trabalhos e reportagens atuais sobre o MdM. Contudo, chamo de “computadores cabocos”, por achar que traz mais identificação com o povo marajoara.
Ambos os mostruários possuem sobre suporte e arestas em madeira, como é possível verificar na figura a seguir.
Figura 12 Seção Arqueológica d'O Museu do Marajó. Fonte: acervo próprio.
O acervo arqueológico é composto por elementos decorativos, utilitários e rituais representados, dentre outros, por pratos, vasos, tangas, vasilhames e igaçabas. A maioria desses objetos possui engobo ornado por traçados geométrico de aparência simétrica e figuras antropomorfas e zoomorfas, porém, há também alguns não estilizados. Os desenhos que não são recobertos pela cor natural, são tingidos nas cores preta, branca e vermelha e, em alguns casos, combinam técnicas de moldagem, entalhe e incisões, formando desenhos em alto e baixo relevo.
O estado de deterioração/preservação dos artefatos alude a distintas datações arqueológicas e condições de aquisição, visto que, é possível encontrar desde cacos de material cerâmico a peças inteiriças com sua estrutura e decoração em condições perfeitas (Figura 13). Algumas dessas peças estão bastante desbotadas, e outras têm suas representações e/ou identificação, a partir do formato, comprometidos devido ao avançado processo de decomposição.
Figura 13 Tangas e caretas marajoaras. Fonte: Museu do Marajó54 e acervo próprio.
Quando visitei o MdM, não havia placas ou textos informativos sobre o material arqueológico. Entretanto, o senhor Otacir informou-me de que as peças foram trazidas de diversos tesos da região – o que é possível confirmar em Gallo (1996). Tive ciência, ainda, de que as informações catalográficas sobre o material, bem como o daqueles guardados na reserva técnica, se perderam durante o período nebuloso, já comentado, pelo qual o museu passou. Outros documentos que contêm estas informações encontram-se sob custódia do Museu Paraense Emílio Goeldi, de pesquisadores que realizaram estudos MdM e da antiga gestão, segundo a mesma fonte.
O salão onde está a seção arqueológica subdivide-se, ao final, em dois corredores amplos que dão passagem ao próximo salão e à escada que dá acesso a um segundo piso. Este é constituído por um tablado que forma uma espécie de camarote de madeira, do qual é possível observar a exposição e as engenhocas das seções baixas, dependuradas por fios presos ao teto. O acervo, tanto nos corredores quanto na seção superior e nas inferiores, é formado por computadores
cabocos, objetos e representações dos personagens formadores da atual população
marajoara e do Brasil.
O corredor direito representa o universo da cultura negra com elementos afirmativos de sua herança cultural, bem como “uma denúncia inteligente para gente inteligente55, apresentada por tabuinhas penduradas numa grande taboca: o racismo bem brasileiro revelado pela gíria de hoje. Gíria referrada ‘Eu não gosto de duas
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Fotografia adquirida na página do Museu do Marajó em rede social.
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O Sr. Otacir Gemaque conta que algumas pessoas entenderam como preconceito de Gallo as frases e piadas ilustrativas da discriminação contra os negros, criticando-o duramente.
coisas: do racismo e dos pretos’” (GALLO, 1996, p.264) e muitas outras frases e piadas preconceituosas. Entre os objetos referentes à cultura negra o acevo possui, ainda, instrumentos de tortura e documentos históricos como uma carta de alforria datada de 1847, na qual João Manoel da Cunha Mello “doa a liberdade à cafusa Maria de Nazaré com a “condição, porém, dela não poder se retirar da minha companhia em quanto eu for vivo’” (GALLO, 1996, p.264)”. Possuem, igualmente, espaço neste setor o indígena e o nordestino e figuras como o vaqueiro e o pajé que “naturalmente merece papel de destaque: uma série de computadores nos ensina como funciona um trabalho, quais são os atores, os convidados, [...] o diagnóstico, as causas e os remédios de cada doença não-natural” (p.263).
Quando o assunto é o cotidiano marajoara, a representação é feita através de maquetes das fazendas, enfeitadas com carcaças de várias espécies de búfalo e placas de madeira, onde estão entalhadas as ferraduras utilizadas pelos fazendeiros da região. Há, ainda, cabines de alguns dos barcos que sofreram os naufrágios históricos do arquipélago, animais da fauna regional e outros que instigam a curiosidade dos visitantes, como o bezerro de duas cabeças e um enorme couro de sucuri que ocupa um corredor e se estende ao último salão (todos embalsamados). No painel “Marajó Ontem e Hoje” há alguidares, peneiras e outros utensílios de barro e de fibra vegetal, utilitários do passado e presente marajoaras e, quase sempre, acompanhados de respectivos modelos mais modernos.
O painel sobre as lendas e superstições amazônicas serve para demonstrar a forma pela qual “o Museu prevê várias categorias de visitantes: o apressado que se contenta em ler o nome e uma figura estilizada (vitória-régia), o mais curioso que levanta a tampa e contempla a apresentação plástica e, por fim, o pesquisador que lê a estória” (GALLO, 1996, p.263).
Muitas das palavras usadas pelo caboco e diversas outras de origem indígena, bem como sua etimologia estão registradas no painel “Você Fala Tupi?”. As tabuinhas da engenhoca trazem os termos na frente e suas respectivas explicações no verso. “O igarapé é o riacho ou o caminho da senhora da água (a canoa), iguaçú é a água grande (a cachoeira), ipanema (pedindo desculpas aos cariocas) é a água que é panema, quer dizer, que não presta, dá azar ao pescador, por que não tem peixe” (GALLO, 1996, p. 261).
Os computadores cabocos referentes às práticas curativas da região, como o da “Pescaria da Saúde” (Figura 14) “inspirado naquela brincadeira de arraial”
(GALLO, 1996, p.264) trazem um composto de misticismo e conhecimentos fitoterápicos, homeopáticos e até métodos curativos polêmicos, como a excretoterapia. Esses engendres possuem indicações de cura, tanto de males físicos quanto espirituais, apresentados em receitas como de banhos, garrafadas e defumações. “Na beira do computador está a relação das doenças. Puxando a cordinha, sobre o remédio (esta é pesquisa, não prontuário!)”(GALLO, p.264).
Figura 14 Computador "Pescaria da Saúde". Fonte: Revista Pará Zero Zero56.
Para demonstrar a integralidade do MdM à realidade de sua comunidade, cito outras engenhocas, entre elas, o painel “Marajó de Ontem e de Hoje”57, “com uma série de objetos que é preciso identificar e acoplar: qual era a pasta de dentes da avó? (o pó de carvão), a bacia? (o croata de palmeira), o espanador? (a espiga de milho) [...]” (p.265). Destaco, ainda, “A Cidade do Já Teve” e “A Cidade do Agora-já- tem” e outros, que trazem as coisas que se perderam no tempo, os avanços e as
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N° 11. Ano IV.
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É também Marajó de hoje porque muitos, talvez a maioria, dos objetos descritas nesse painel seguem presentes na realidade marajoara.
carências do Marajó e de Cachoeira. A exposição contempla, ainda, temas contemporâneos mundiais e regionais, entre eles, questões políticas, aquecimento global e outros temas ambientais.
A descrição feita neste trabalho, ainda que com auxílio do relato de Gallo (1996) não consegue dar conta da diversidade de temas tratados e da importância com do acervo do MdM para os marajoaras e para o conhecimento de sua cultura. Mas também, “não dá para contar mais, senão quem chegar até aqui já sabe tudo, mas, com certeza, também se dará conta de que esta descrição não consegue dar a idéia do que está guardado nos 900 m² da Exposição Permanente” (p.264). Contudo, “antes de sair, uma sabatina para realizar o proveito da visita, a pergunta com a resposta oculta: tinga quer dizer pequeno, mergulhador ou branco? O que é
caiçara para o índio, o marajoara e o paulista? Piracuí é bicho, planta ou comida?”
(p.265).
O terreno do MdM representa uma miniatura da paisagem natural marajoara, que também constitui o acervo do MdM – como informado por inscrição em uma das janelas do prédio. Através desta, é possível avistar o arvoredo com espécies frutíferas e outras típicas da mata nativa do Marajó. Também é possível avistar animais domesticados e pássaros marajoaras, além das estivas de madeira que levam ao teso, túmulo de Giovanni Gallo, e à casa onde ele passou seus últimos anos de vida – o “cantinho do Gallo”. Esta é hoje um pequeno museu/biblioteca onde permanecem alguns dos objetos pessoais, documentos que pertenciam ao padre, livros didáticos e outras publicações, sendo algumas de autores marajoaras e/ou sobre o Marajó. O terreno abriga, também, diversas construções pequenas, entre elas, a reserva técnica do museu e a “casa do caboclo” – uma construção de bambu cuja placa de identificação expõe “Assim Morava o Caboclo Marajoara”. A frase, com verbo no passado, conta, porém, uma das realidades dos Marajós. É permitido visitar o arvoredo, bem como descansar nos diversos bancos de madeira dos quais, a maioria, está em volta das árvores, como é costume nos terrenos das casas marajoaras.
Meu intuito ao fazer a descrição acima foi passar a percepção de que a exposição do MdM consegue intrigar o visitante e incitá-lo às descobertas que se fazem com “a ponta dos dedos”. Acredito que a exposição do MdM não se restringe à apresentação/representação de fatos e contextos sociais marajoaras, mas potencializa o diálogo e a reflexão sobre a construção histórica do lugar e seus
desdobramentos. Isto porque o acervo comporta os mais variados aspectos a cerca da vida cotidiana, natural, religiosa e política da região. Assim, qualquer um que busque o conhecer da vida no Marajó tem no MdM o início mais acertado.
O MdM se configura como um patrimônio do Marajó, por ser um lugar com o qual a população marajoara se identifica, podendo vir a se constituir num centro de desenvolvimento socioeconômico. Contudo, a falta de recursos técnicos e de profissionais capacitados para o manuseio, sobretudo, do material arqueológico e da documentação – tanto dos que se encontram expostos como dos que estão sob a guarda da administração – é uma pequena parte dos graves problemas pelos quais o MdM passa, desde sua fundação. A carência de recursos para a manutenção do prédio, e para o pagamento de funcionários com a função de monitoramento da visitação é outra das questões que ameaçam seu funcionamento
Durante o trabalho de campo desta pesquisa, em que visitei o MdM, identifiquei um razoável fluxo de visitação, apesar da limitação de acesso até o município de Cachoeira do Arari. Em entrevistas com sete58 visitantes do museu observei que a maioria obteve informações sobre ele em meios de hospedagem de municípios vizinhos. Os visitantes entrevistados eram oriundos não apenas do estado do Pará, mas também de diversos outros estados brasileiros. Pude então conhecer a opinião destas pessoas sobre o museu durante a visitação, já que me foi permitido acompanha-las, como comentei na introdução deste relato. “Eu soube da existência do museu em Soure, é uma coisa extraordinária”59
, contou o Dirceu Maciel, que visitava o MdM acompanhado pelo guia da pousada onde estava instalado em Soure. Diante de minhas perguntas sobre o que consideravam como mais interessante no museu, estes visitantes responderam que: “O museu é pra ser visitado, não rapidamente, tinha que ser por uns três dias [...] A piada da entrada, achei mais interessante que todas elas”60 ; “Tudo, né! Até as crenças do povo...(...)
achei muito interessante!”61; “Os ‘cacos’ indígenas! Eu acho que eles têm um
significado muito grande, apesar de que tudo eu acho muito importante, porque, na verdade isso é o resgate da nossa história!”.62
.
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Estes eram componentes de grupos e, assim, entrevistei um representante de cada.
59
Dirceu Maciel. Mineiro. Entrevista em 13 fev. de 2012.
60
Idem.
61
Gilberto Perinazzi. Paranaense. Entrevista em 13 jan. de 2012.
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As frases deixadas no livro de registros do MdM também servem como fonte de informação sobre a origem dos visitantes, bem como de suas impressões sobre a visita. Gallo (1996) registra muitas delas, deixadas por italianos, alemães, norte- americanos, povos de língua espanhola, franceses e brasileiros. Entretanto, apesar de sua grandiosidade, as dificuldades para a manutenção do MdM provocou o desalento do padre, que registrou:
Os nossos recursos são raros, imprevisíveis e sempre insuficientes, o sonhado patrocinador ainda não apareceu. Será que sou um idealista ou simplesmente um visionário com a obsessão de uma façanha irrealizável? Neste momento me sinto como aquela mulher sertaneja, com o filhinho no colo que está morrendo por definhamento e, no desespero, diz ao gringo: “Você quer meu filho? Eu lhe dou! Só quero que ele viva!” (GALLO, 1996, p. 266).
3.3 O MUSEU DO MARAJÓ E CERÂMICA MARAJORA: PATRIMÔNIOS