Capítulo 4 – Representar o crime: tornar presente a disposição e o compromisso
4.5. O gesto estético para romper a incomunicabilidade
4.5.1. A voz que ultrapassa as muralhas
Em entrevista para o UOL, o rapper Dexter conta como seu desejo e projeto de tornar-se músico, que foi o que o levou de fato ao encarceramento, acabou por se realizar a partir de sua experiência prisional (ENTREVISTA UOL – Rapper Dexter fala sobre o P.C.C.). Apoiado pelo projeto “Talentos Aprisionados”, Dexter fundou juntamente com Afro-X o grupo 509-E (número de sua cela no Carandiru) quando ainda cumpria pena, e gravou seu primeiro CD, Provérbios 13, que recebeu o prêmio revelação em 2000 no Hútuz, prêmio brasileiro do hip- hop idealizado pelo produtor Celso Athayde. O grupo 509-E destacou-se com o clipe “Só os Fortes” (2000), que narra a experiência do encarceramento. Em 2005, em carreira solo, Dexter gravou seu primeiro álbum em estúdio, o CD “Exilado sim, Preso não”, com participação de
Mano Brown, vocalista do grupo de rap Racionais MC’s. O álbum conquistou a categoria Álbum do ano na sexta edição do prêmio Hútuz, em 2005.
O fato de que o desejo de ser artista (e talvez com isso realizar o sonho da redenção emancipadora através da palavra e de um testemunho público de transformação) possa ser ele mesmo porta para o crime é cantado, por exemplo, por MC Lano:
Muitos entram pro crime querendo ser artista Querem mais fama que dinheiro e quando aperta chora Facilitou já era, perdeu a sua vida, menor do morro guarda o seu pulso, a visão de cria (RESPEITO não se compra)
Dexter considera a si mesmo um caso pouco habitual, pois conseguiu refazer sua vida fora do crime e apesar do encarceramento e do estigma que isso impõe. A população carcerária brasileira é majoritariamente uma população carente de educação, de cultura, de informação, de oportunidades. A carência é ainda mais aguda na saída da prisão devido às rupturas que o encarceramento representa com suas próprias redes sociais. Dexter sabe usar a as palavras e encontrou o caminho comercial do rap, um dos pilares da cultura hip-hop54, que
possibilitou sua reintegração social e o posicionamento de sua voz como uma voz política. É pelo isolamento e pela incomunicabilidade que o ingresso no mundo do crime somado ao encarceramento produz, juntamente com a nomeação social do sujeito como bandido criminoso, que a possível reinserção, propõe Misse (2010), ocorra frequentemente como uma espécie de reconversão que reintegra o indivíduo como alguém especial, dono de uma história incomum que lhe permitiu acessar um registro ontológico de existência pouco habitual. Contudo, como observa Misse, a reconversão em si não basta para a reintegração, que requer que se dê ao indivíduo o testemunho público. Nesse processo de tornar pública a conversão, o estigma negativo converte-se em estigma positivo. Daí que essas reintegrações possam ocorrer transformando o ex-bandido “no seu tipo oposto, em pastor, sacerdote ou mesmo em ‘santo’” (MISSE, 2010, p. 30). E também em artista que narra sua própria experiência ontológica ou uma realidade da qual ele fez ou faz parte, redimido, reconvertido e transformado. Ele é dotado, então, de capacidade enunciativa e demonstrativa que pode alterar a relação entre o que pode ser dito e visto.
54 O fato de que o rap e o hip-hop tenham conquistado espaço comercial para um gênero que contém em si a busca de lugar para vozes marginais permite conduzir a lugares sociais diferentes dos lugares aos que o proibido pode conduzir. Esta discussão ultrapassa os limites desta tese, mas é relevante para pensar como o rap ou o funk proibido, na qualidade de dispositivos interacionais, podem ser acionados por quem e para quê.
A gravação de testemunhos de ex-presidiários em CDs é comum em produtoras evangélicas, constituindo-se em um gênero discursivo que possibilita o reposicionamento do sujeito através da redenção religiosa. Um caso destacado é o testemunho de Aldidudima Salles, hoje Pastor Salles, que gravou um CD com seu testemunho antes que YouTube e os serviços de nuvem existissem na Internet55. Salles, ex-líder do Comando Vermelho cuja condena ascendia a 300 anos56, conta com detalhes sua trajetória na gravação cuja estética é própria dos relatos evangélicos. O Pastor Salles foi entrevistado em várias ocasiões pela grande mídia, por exemplo, para opinar sobre a guerra entre o Comando Vermelho e o PCC (ALESSI, ELPAÍS, 19/10/2016).
O rapper Kaskão, líder do grupo Trilha Sonora do Gueto desde sua criação em 1999, também gravou seu testemunho de conversão evangélica, seguindo o gênero com narrativa biográfica, em primeira pessoa, com música melódica de fundo, não sem ensaiar algumas rimas em forma de rap57. Kaskão conta em entrevista para o UOL que começou a trajetória que ele mesmo nomeia como infratora aos 13 anos no bairro em que morava, Capão Redondo, e que foi preso aos 18 anos depois de várias passagens pela FEBEM, cumprindo 8 anos de pena. Posteriormente estudou Direito e Teologia, segundo ele para não fazer uso indevido do Evangelho (ENTREVISTA UOL, Kaskão 2015), e atualmente se dedica ao rap.
Suas músicas são polêmicas. Discute, por exemplo, a quebra da corrente de transmissão da criminalidade entre membros da mesma família, da constituição do sujeito criminal geração após geração. Nas periferias brasileiras, trabalhar no crime atravessa gerações, sendo frequente que dentro da mesma família haja zé povinho e bandidos (ver FELTRAN, 2011). A instalação do PCC como instância normativa e de sociabilidade nas periferias proporciona um ambiente social no qual crianças e adolescentes estão expostos a uma socialização inscrita na ética e no proceder do Comando como referência. O filho de Kaskão, que canta com o pai, encarna no rap o exemplo vivo de que “filho de peixe” não tem por que ir para o arrebento:
Estamos aqui a familia junto pra fortalecer Pode passar 30 anos, tô junto com você Estou efirme na escola, tô tentando ser exemplo Que nem sempre filho de peixe tem que ir para o arrebento (CALIX‐SE, Trilha Sonora do Gueto)
55 A gravação com o testemunho de Salles está disponível no YouTube. SALLES, Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=E6H5ln4-yeI>. Acesso em 08 de jan. de 2017.
56 Salles, que nos tempos do crime era conhecido como Ligeirinho, foi um dos líderes do Comando Vermelho. Em 1985, participou da fuga mais ousada da história do sistema prisional brasileiro. Ele estava no helicóptero que pousou no pátio do presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande, para resgatar José Carlos dos Reis Encina, conhecido como Escadinha (ALESSI, ElPaís, 19/10/2016).
Kaskão fala abertamente sobre sua trajetória, sobre a passagem pelo crime e sobre o encarceramento, e sobre as coisas que acontecem no mundo do crime e das muralhas. Dizer a verdade, sem medo, mesmo que fira ou desconcerte, para romper o stablishment (parresía) é uma técnica que permite ao sujeito apropriar-se de si, de seu próprio script. Para Foucault (1995), novas formas de subjetivação surgem quando o indivíduo se arrisca a falar de si e a desvelar mecanismos que produzem assujeitamento. Implica coragem e um relato que é “voltado ao mesmo tempo para a auto-revelação, a auto-transformação e configuração dos termos e esquemas de inteligibilidade que definem quem fala” (MARQUES; BIONDI, 2016, p. 173).
Em entrevistas, vídeos de produção amadora e na introdução de seus clipes, Kaskão retrata cenas típicas do dia-a-dia nas periferias, com o crime atravessando a vida das pessoas, aproximando delas suas caminhadas. No clipe oficial da música Calix-se, disponível no canal da Trilha Sonora do Geto no YouTube, Kaskão intervém em uma negociação para afastar seus colegas da caminhada, nome dado aqui para uma encomenda de serviço para o crime, falando como voz qualificada porque viveu a experiência de cair no crime e cumprir pena em prisão.
O Pastor Salles, Dexter e Kaskão são três exemplos bastante diferentes de transcendência através do testemunho público. Salles ergue-se como voz qualificada através da redenção religiosa. Seu uso da palavra como veículo de transformação está vinculado à transformação religiosa, à reconversão que não apenas recupera, mas transcende elevando-se na figura do pastor evangélico dono de uma história de vida incomum. Voz qualificada, acionada pela mídia para opinar sobre conflitos entre comandos criminais. Voz qualificada para falar aos seus fiéis sobre a vida no crime e sobre a redenção.
Dexter transcende através da música. Encontrou o caminho qualificado do rap e do hip- hop, com canais configurados no cenário da indústria da cultura. No clipe de “Oitavo Anjo”, do grupo 509-E, Dexter canta na letra a fortaleza da mente e do coração de quem não precisa se esconder nem dos fatos e nem na Bíblia:
Assim, sigo em frente Deus está comigo Não preciso virar crente (OITAVO Anjo, 509‐E)
As músicas do grupo 509-E e de Dexter já em carreira solo contam o cotidiano prisional em letras longas com a estrutura narrativa própria do gênero rap. Não realizei uma análise sistemática de sua discografia, mas de um modo geral a voz que é possível apreender de suas
letras é a voz humanizada do sujeito que entra no crime e passa pelo encarceramento. O vetor estético é acionado aqui para situar esse sujeito, em retratos da população encarcerada, compartilhando a vivência, aproximando-a da escuta de uma sociedade que habitualmente vira o rosto para o outro lado, também castigada e cansada da violência social e criminal. Uma vez mais, uma história incomum.
Kaskão também transcende através da música, mas passando antes pela redenção da religião. Mas seu lugar de fala é polêmico e marcadamente político. Em 2015, a música “W2 proibida”, um salve em forma de canção dirigido da caverna para a geral, ou seja, do sistema prisional para a sociedade, gerou cobertura na mídia (CARVALHO, Carta Capital, 17/06/2015). Kaskão diz na música que o salve foi encomendado pelo PCC, inaugurando um novo movimento na comunicação das muralhas para a sociedade.