• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO I – (RE)VISÃO DE LITERATURA

1.2 VULNERABILIDADE SOCIAL E POLÍTICAS PÚBLICAS

Temas relacionados à cidadania e ao seu avesso, a desigualdade social, tornaram-se objeto de grande relevância social e de investigação no campo da Psicologia Social (SANTOS, 2014; SANTOS; MOTA; SILVA, 2013; JODELET, 2010; SAWAIA, 2010; GONÇALVES, 2010). A vulnerabilidade está relacionada à oferta de recursos materiais para a pessoa poder se movimentar dentro da sociedade

(ABRAMOVAY et al., 2002), e a educação, como parte desse processo, cumpre um papel significativo como possibilidade de promover a redução da desigualdade social em uma sociedade de classes e de hierarquias sociais.

As sociedades são constituídas de hierarquias. Por exemplo, o status social é uma forma sutil de determinar o lugar dos indivíduos. Mediante a alocação do desigual, como consequência das hierarquias, surgem as desigualdades (THERBORN, 2010). Nesse contexto, a análise da vulnerabilidade, sobretudo em seu aspecto programático, é fundamental para determinar ações no campo das políticas públicas, principalmente aquelas que se situam no âmbito da assistência social, da educação e no campo da Saúde (TOROSSIAN; RIVERO, 2012). Concentraremos a discussão no campo da política de assistência social, embora nosso objeto também tangencie as demais políticas, uma vez que o trabalho no campo da assistência é realizado em uma perspectiva intersetorial e o CRAS é o ponto de partida dessa investigação.

Pode-se, então, no mínimo, esperar do estudo das relações sociais que ele revele os processos marcados por diferentes alternativas de exclusão. É sobre isso que a Psicologia Social pôde, e pode ainda trazer uma contribuição original para a análise deste tipo de fenômeno. (JODELET, 2010, p. 55)

Analisar a vulnerabilidade e a cidadania com o objetivo de compreender os elementos constituintes das subjetividades, presentes nas relações sociais, tem sido a proposta da Psicologia Social (SAWAIA, 2010; VERAS, 2010; MELLO, 2010). A dimensão econômica, indiscutivelmente, tem seu devido lugar, pois é componente da desigualdade, mas a construção da subjetividade deve ser analisada em vários ângulos, isto é, devem ser enfatizados componentes tanto de ordem social quanto psicológica. Nessa perspectiva, busca-se a superação da dicotomia indivíduo- sociedade (SANTOS; MOTA; SILVA, 2013).

A Psicologia, no campo das políticas públicas de assistência social, encontrou um campo fértil para desenvolver novas práticas de subjetivação que vem determinar ações sobre grupos de pessoas em vulnerabilidade social. Nesse contexto, ela deve pautar-se em um posicionamento ético-político que questiona a realidade e o ambiente nos quais o sujeito está inserido (HADLER; GUARESCHI, 2012). Em situações de desigualdade, luta-se, primariamente, para garantir direitos sociais atenuadores da exclusão e do desamparo social. Interessa-nos, também,

compreender como incluir na dimensão da cidadania a dimensão subjetiva dos sujeitos. Como incluir o cidadão sem excluir o sujeito? (SUSIN; POLI, 2012).

Na assistência social são muitas as narrativas que contêm as expressões da dor, da vivência traumática, sendo que o reconhecimento de que a exposição a acontecimentos desorganizadores pode afetar subjetivamente o sujeito nos coloca como técnicos em posição de testemunhar as histórias de perdas e dor [...] Intervir no intuito da construção de narrativas ainda é um caminho a ser percorrido nesse campo de realização de atos e urgências. (SUSIN; POLI, 2012)

As narrativas sobre os dilemas individuais dos usuários da assistência social devem ser analisadas numa perspectiva que considere a instituição e a forma como é oferecido o acolhimento. É necessário que os serviços disponíveis deem conta de serem continentes, potentes, respeitosos, efetivos, afetivos e que sigam na direção da política que se quer implantar (CARLSON; GOULART, 2012). A vulnerabilidade de um grupo envolve tanto fatores objetivos como dimensões subjetivas. Torossian; Rivero (2012) sintetizam:

A partir dessas reflexões, a vulnerabilidade pode ser compreendida sempre num movimento de vai e vem entre ideias geralmente consideradas como opostas: fatores contextuais e processos sociais, condições materiais e recursos individuais/grupais, dados objetivos e subjetividade. Assim, não haveria a necessidade de realizar uma opção entre um olhar que destaque os dados socioeconômicos e demográficos de um olhar que destaque os processos sociais. A composição poderia acontecer quando os dados “objetivos” são inseridos e lidos considerando os cenários dos processos de exclusão e potencialidades da população. (TOROSSIAN; RIVERO, 2012, p. 58)

Compreender as dimensões envolvidas nessa concepção de vulnerabilidade exige esforços e diferentes análises. Para Abramovay et al. (2002), a vulnerabilidade social revela um lado perverso, pois está relacionada à escassa disponibilidade de recursos materiais ou simbólicos de indivíduos ou grupos que estão excluídos da sociedade. O fato de não ter acesso a determinados serviços oferecidos pelo Estado – como educação de qualidade, garantia de trabalho, saúde, lazer e cultura – diminui as chances das pessoas concorrerem com outras em condição de igualdade em situações que se constituem oportunidades de ascensão social, oferecidas pelo mercado e pela sociedade. Desse modo, a vulnerabilidade é inversamente proporcional à mobilidade social porquanto determinados grupos permanecem em

situação de desvantagem na tentativa de transposição das barreiras que impedem a movimentação das estruturas sociais e econômicas.

O nível de vulnerabilidade está intrinsecamente relacionado aos fatores de proteção, risco e condutas de risco. As três dimensões estão associadas ao processo histórico/social, individual e coletivo (BURAK, 1999). Essa noção de vulnerabilidade surge em uma cadeia de significações, produzindo múltiplos sentidos. As dimensões mencionadas têm uma dupla face: podem contribuir para pensar estratégias com as quais as pessoas podem movimentar-se na busca de superação ou podem manter as pessoas em um processo de homogeneização e controle (TOROSSIAN; RIVERO, 2012). Portanto, é necessário construir outras possibilidades de leitura “que não apontem apenas para as condições de carência, mas também às formas de resistências engendradas por esses sujeitos, nas quais a ‘pobreza’ e a ‘carência’ não sejam tratadas enquanto impossibilidade de vida” (LASTA; GUARESCHI; CRUZ, 2012, p. 64).

O fato de usuários da assistência social, inseridos na Proteção Social Básica, serem nomeados “vulneráveis”, por exemplo, pode reforçar o discurso prescritivo da política de proteção. Ao contrário de promover empoderamento e emancipação, as estratégias de cuidado e os serviços dispensados ao público dito “vulnerável”, bem como a maneira como são conduzidos os atendimentos e os encaminhamentos, podem colaborar para a manutenção do status quo.

Nesse sentido, refletir sobre a vulnerabilidade social implica dar atenção aos três eixos que a compõem, os aspectos individual, social e programático, como abordamos anteriormente. A vulnerabilidade está associada aos grupos ou indivíduos fragilizados, nas perspectivas jurídica e política, quando o objetivo é a promoção, a proteção ou garantia dos direitos de cidadania (AYRES et al., 2003). Assim, são necessários esforços para pensar estratégias, no campo das políticas públicas, que deem visibilidade aos grupos que, historicamente, estiveram marginalizados.

O conceito de vulnerabilidade é resultado de uma racionalidade científica marcada por linhas de força e envolvida em relações de poder (TOROSSIAN; RIVERO, 2012). Em alguns casos, reduz a complexidade dos fenômenos ou retira a responsabilidade do Estado pelas situações concretas nas quais vivem a população. Nessa lógica, os indivíduos são responsabilizados por sua condição social, cabendo ao Estado apenas fornecer instrumentos que favoreçam a criação de comportamentos preventivos (HILLESHEIM; CRUZ, 2012). Críticas veem sendo feitas às concepções

que analisam a pobreza como um atributo individual. As pessoas permanecem em condições precárias de existência porque não tiveram motivação para superá-las. Em alguns casos, quando buscam a assistência social para garantir seus direitos, são vistos como “pedintes” (CRUZ; GUARESCHI, 2012).

Essa compreensão restrita acerca da condição social das pessoas em situação de vulnerabilidade como consequência de um posicionamento passivo frente às exigências concretas da vida tende a uma prática reducionista e não libertadora. Não obstante, deve-se analisar o modo como vem sendo realizada a gestão desses serviços e as concepções subjacentes às práticas desenvolvidas com o intuito de verificar a efetividade e resolutividade da assistência prestada às famílias.

Estratégias para enfrentar os aspectos da vulnerabilidade social e os riscos a ela associados têm sido debatidas no âmbito das políticas públicas, em particular, no da Assistência Social. Esse interesse foi apontado por Jaccoud, Hadjab e Rochet (2009) quando observaram que a vulnerabilidade esteve associada à violência e aos comportamentos de risco, principalmente quando relacionada à fase da juventude. Assim, propõem estratégias que visam reduzir as desigualdades sociais e ampliar as oportunidades de qualificação para um grupo etário (de jovens) em confronto com o mercado de trabalho cada vez mais competitivo, instável e precário. Para Torossian e Rivero (2012):

A vulnerabilidade social é muitas vezes associada diretamente a condições de pobreza e miserabilidade e, assim, demonstrada através de índices socioeconômicos. A pobreza é, sem dúvida, um dos grandes pilares nos quais se assentam diversas situações de vulnerabilidade social da sociedade capitalista, uma vez que produz a exclusão da população em relação a políticas e serviços públicos. (TOROSSIAN; RIVERO, 2012, p. 57)

Associar a vulnerabilidade à pobreza, assim como reduzir a violência à juventude e instituir serviços que operam a partir da lógica da prevenção têm sido o foco de grande parte das políticas públicas na assistência social. Medrado (2002) destaca que a gestão da vida passou a ser tomada como instrumento de governamentalidade em que aspectos como norma e disciplina são a mola propulsora de um conjunto de agências que se desdobram em todas as esferas possíveis da sociedade.

Os profissionais que se ocupam das pessoas em situação de pobreza e vulnerabilidade ratificam o discurso do cuidado e da proteção presente na concepção das políticas públicas executadas pelo Estado. Com tais políticas, o Estado intervém mais nas relações parentais. A autorização do Estado sobre as famílias tem gerado a compreensão reducionista de que elas são responsáveis pelo sucesso e fracasso dos seus membros. Como analisa Julien (2000), em relação à sociedade como um todo:

[...] o social, que invade o domínio do político, avança de agora em diante sobre o território familiar. De fato, cada vez mais, os representantes da sociedade intervêm na relação entre pais e filhos [...] O terceiro social vem hoje cada vez mais interferir no processo dessa transmissão intergeracional. São o pediatra, a assistente materna, a assistente social ou o professor, ás vezes o psicólogo ou o juiz que, em nome da lei do bem-estar, esclarecem os pais sobre suas competências e seu julgamento. Pouco a pouco, o saber do perito se arroga um poder sobre a criança de tal modo que a lei do bem-estar se transmite à geração seguinte não mais apenas pelo familiar, mas pelo social. (JULIEN, 2000, p. 25)

As políticas públicas, especialmente a de assistência social, cumprem o desafio de assegurar os direitos e universalizá-los. Ainda assim, Medrado (2002) reitera a necessidade de criar novas estratégias de governamentalidade que levem em consideração as etapas da vida das pessoas. Segundo Gonçalves (2010), a contribuição que a Psicologia pode oferecer, na elaboração de políticas públicas, é trazer à discussão o conceito de dimensão subjetiva e a forma como ela se organiza a partir do projeto de sociedade determinado. Uma sociedade em que há a previsão de atender às necessidades como direitos, mediante a participação dos indivíduos, deve ser garantida nas decisões políticas. Isso implica ao indivíduo poder exercitar sua condição de sujeito histórico.

Destacamos as ações desenvolvidas nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e nos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS), bem como o programa Benefício de Prestação Continuada (BPC), para lidar com a problemática da superação de situações ligadas à carência de renda, à ausência de oportunidades e aos parcos recursos para desenvolver as potencialidades. O conjunto dos serviços citados, segundo Jaccoud, Hadjab e Rochet (2009), compõe a política de assistência social. Essa política cumpre os seguintes objetivos:

As políticas sociais têm buscado não apenas combater, mas também evitar a instalação de situações de extrema pobreza. Respondem igualmente aos objetivos de redução das desigualdades sociais e de ampliação das oportunidades. Visam ainda promover o bem-estar da população pela via do enfrentamento de vulnerabilidades e da proteção em situações de violação de direitos. É neste contexto que os objetivos da política de Assistência Social expandiram-se, tanto para o campo da garantia de renda como para a oferta de serviços voltados à socialização, à integração, ao desenvolvimento de autonomia e defesa e à proteção em situação de violação de direitos, como nos casos de violência, abandono ou trabalho infantil. (JACCOUD; HADJAB; ROCHET, 2009, p. 171)

Pensar a assistência social como política de Estado, em seu aspecto programático, exige uma retrospectiva histórica para compreender sua evolução até o atual contexto. Graças à Constituição Federal de 1988 foi regulamentada a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS). O documento legitimou o reconhecimento dos direitos socioassistenciais no país. Se antes desse período o acesso aos serviços dependia de contribuição previdenciária, a Loas possibilitou o acesso universalizado. A assistência social passou a constituir parte da responsabilidade pública no âmbito da Seguridade Social. Mas, somente em 2004 a Política Nacional de Assistência Social (PNAS) aprovou e estabeleceu as bases do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e definiu a proteção social básica e especial que esta política deve assegurar. As principais características da política devem ser: efetivar as seguranças de rendimento, de autonomia, de acolhida e de convívio social em que estão envolvidas as famílias e a comunidade. Nesse cenário, os jovens tornaram-se o público na condição de usuário da assistência social (JACCOUD; HADJAB; ROCHET, 2009).

A institucionalização de serviços socioassistenciais visa dar visibilidade à condição política da vulnerabilidade, pois, historicamente, as políticas de assistência social foram associadas ao assistencialismo. Por exemplo, as pessoas na condição de “carentes” recebiam a “atenção” do “gabinete da primeira dama”. Os “favores” estavam dissociados dos direitos (TOROSSIAN; RIVERO, 2012). “As práticas assistenciais foram reguladas pela filantropia, inicialmente por meio da Igreja – principalmente católica – e depois pelo Estado, deixando profundas raízes” (CRUZ; GUARESCHI, 2012, p. 17).

A Constituição Federal de 1988 representou mudanças na gestão da assistência social no Brasil. Essa última adquiriu, junto com a Saúde e a Previdência

Social, a base da Seguridade Social. Isso representou um marco fundamental na transformação da assistência enquanto benesse e caridade para a noção de direito e cidadania da assistência social. A mudança revelou o caráter da assistência social como política pública de proteção social em articulação com as demais políticas que buscam garantir os direitos e promover condições dignas de vida (LASTA; GUARESCHI; CRUZ, 2012).

Os serviços (CRAS e CREAS) criados nos territórios de referência assumem as tarefas de promover o fortalecimento dos vínculos e a garantia de direitos e trabalhar com o foco na prevenção. Hillesheim e Cruz (2012) demonstram que a noção de vulnerabilidade abriu espaço para a possibilidade de intervenção do Estado por meio de programas concretos. As ações mitigadoras operam com a lógica probabilística. Assim, quanto maior a presença de fatores de risco, maior será a vulnerabilidade da população. Para evitar a ocorrência de agravos, torna-se necessária a intervenção sobre o perigo. A estratégia desloca-se da ordem do imponderável tornando o perigo passível de previsão e controle.

Na medida em que se busca, mediante o cálculo das probabilidades, controlar todas as variáveis da vida, de modo a prever o que irá acontecer e permitir a modificação daquilo que não é desejado, a noção de risco trabalha com uma ótica de causa e efeito, a partir de uma noção cronológica do tempo. Nesta perspectiva, o futuro é um tempo fabricado no presente. (HILLESHEIM; CRUZ, 2012, p. 81)

Pensar uma Psicologia comprometida com o reconhecimento das singularidades e interessada em promover a autonomia exige do psicólogo intervenções assertivas para garantir os direitos sociais. Essas posturas ética e política devem ter como consequência uma mudança de “olhares”, isto é, exige um trabalho em rede que leve em consideração o contexto e defenda a integração (CRUZ; GUARESCHI, 2012).

O trabalho no campo da política pública requer posicionamento ético e político. Em alguns programas, como o da Proteção Social Básica, as práticas institucionalizadas necessitam ser desnaturalizadas se considerarmos as implicações das formas de governar o indivíduo e os coletivos. Uma análise crítica dessa política pública permite observar que buscam a regularidade, a norma, adaptar as pessoas e manter o controle para promover o equilíbrio social. A partir da concepção de “vulnerabilidade social” como geradora de problemas que envolvem a família, o

trabalho, a educação de crianças e adolescentes; gera-se a necessidade de governo (LASTA; GUARESCHI; CRUZ, 2012).

A vulnerabilidade social serve como indicador socioeconômico para que a gestão pública elabore metas no sentido de superar as desigualdades sociais. Esse discurso tem sido o principal fundamento para criar serviços que abordam a problemática. Aspectos como pobreza, famílias cujos membros sejam alcoolistas, presença de doenças crônicas/inabilidades, maternidade na adolescência, delinquência juvenil, ausência de autoridade no lar, têm sido apontados como fatores de risco. Os elementos identificados justificam a necessidade de desenvolver programas de prevenção com o objetivo de minimizar os seus impactos (BLUM, 1997).

Trabalhar com políticas públicas exige pensar a partir do lugar do outro, e não apenas reproduzir conhecimentos ou aprender técnicas; implica sensibilizar para tópicos (pouco contemplados na academia) como assistência social, direitos humanos, cidadania, movimentos sociais e conselhos. O desafio é articular a dimensão política na formação acadêmica e, consequentemente, nas práticas profissionais, pois são indissociáveis. (CRUZ; GUARESCHI, 2012, p. 38)

O cenário da assistência social na qual a Psicologia tem sido convocada a contribuir requer também posicionamento reflexivo. Ao analisarmos os princípios regulatórios da política pública em destaque deparamo-nos com diferentes concepções que tornam a assistência social uma área complexa. Benelli e Costa- Rosa (2011) explicam que o fato da Assistência Social ser um campo nebuloso exige da Psicologia coordenadas claras que efetivamente cumpram o papel de promover a busca de equacionamento dos problemas sociais de modo crítico, analítico, ético e dialético.

Grandes desafios à Psicologia e às práticas psi nos Centros de Referência de Assistência Social, que é poder pensar o sujeito psicológico para além de um sujeito a ser normalizado e institucionalizado por uma política de assistência social e que pelo risco da “vulnerabilidade social” e da “pobreza” deixa de ser percebido e pensado enquanto sujeito no qual também existe vida, contradições, passividades e resistências. (LASTA; GUARESCHI; CRUZ, 2012, p. 64)

À vista disso, estão em jogo os direitos sociais e o reconhecimento das singularidades. Em relação ao desafio das políticas públicas, Gonçalves (2010, p. 58) sugere que “recuperar a noção de cidadania ou tentar impedir sua ‘mercadorização’

implica opor resistência ao processo de desenvolvimento que anula os direitos juntamente com os sujeitos de direitos”.

Quanto às políticas públicas que levam em consideração os adolescentes em contexto de vulnerabilidade social, uma proposta sugerida pelo estudo de Blum (1997) PCAP (do inglês People, Contribuition, Activities, Place) pode ser uma alternativa para repensarmos estratégias que colaborem para a superação de dificuldades. O autor aponta caminhos como redirecionar o impacto do risco; redirecionar a reação que se faria por uma trajetória negativa; desenvolver a autoestima e o poder de ações positivas (autoeficácia) por meio de relações pessoais, de novas experiências de aprendizagem para suplantar desafios e criar oportunidades que permitam ao indivíduo ter acesso a recursos. Esse modelo de intervenção parte do pressuposto de que a tríade escola, família e comunidade devem fornecer reforços para o desenvolvimento social dos seus membros. Como o estudo apontado não foi realizado em contexto brasileiro, acrescentamos ao papel do Estado fomentar serviços e programas com incidências, sobretudo, na vulnerabilidade programática.

Os argumentos em torno da vulnerabilidade social estão relacionados a um conjunto de fatores dinâmicos que não podem ser negligenciados em análises isoladas. Se as estratégias desenvolvidas a partir de políticas públicas consideram que pessoas em determinada faixa etária estão mais suscetíveis aos riscos e, por essa razão, criam ações de proteção que vão ao encontro desses grupos, necessitamos compreender as concepções, por exemplo, sobre adolescentes em que se baseiam os programas, como veremos a seguir.

Considerando que os encaminhamentos relativos à queixa escolar desembocaram ou ainda desembocam no setor Saúde – não por causa de uma compreensão consistente “médica” da problemática, mas porque essa tem se apresentado como um desvio frente à impossibilidade do setor educacional dar conta com seus parcos recursos decorrentes de uma compreensão reducionista – devemos perguntar: o que vem acontecendo desde a criação dos CRAS e CREAS para lidar com a mesma problemática? Haverá um deslocamento de responsabilidade do setor educacional que passará pelo setor Saúde e que vai desaguar na assistência social?