1 ASPECTOS TEÓRICOS-METODOLÓGICOS DA PESQUISA
3.4 Vulnerabilidade social na comunidade Trangola
Buscando caracterizar a vulnerabilidade social da comunidade Trangola, utilizou-se nos Quadros 7, 8 e 9 os fatores predominantes em cada variável, obtidas no trabalho de campo e apresentadas nas tabelas, a fim de criar indicadores para realizar a avaliação, usando como base o Quadro 5.
Quadro 7 – Avaliação do indicador infraestrutura urbana INFRAESTRUTURA URBANA
Variáveis Característica mais presente Valor atribuído
Energia Elétrica Sim 0
Coleta de lixo Não 1
Tipo de transporte utilizado Moto 0,50
TOTAL= 1,50 Indicador: 0,50 Fonte: Elaboração própria.
Para a análise do indicador infraestrutura urbana, utilizou-se as variáveis que correspondem às obrigatoriedades do gestor do município. Esse indicador demonstra ser o maior indutor de vulnerabilidade social na comunidade, por ser o único a apresentar o valor máximo de uma variável, que é a falta de coleta de lixo na comunidade, cujo destino é a queima. Tal queima provoca problemas ambientais, principalmente a contaminação do solo, que é o principal meio de trabalho dos agricultores, além de atrair animais que podem vir a causar problemas de saúde para os moradores.
Diante disso, ausência do Estado é fator que torna o lugar um dos principais definidores da vulnerabilidade social da comunidade, este sendo uma variável externa. Diante disso, surge o questionamento do motivo para que as pessoas permaneçam na comunidade e busquem mecanismos de resistência, como citado no presente trabalho, a partir do
pensamento de Moreira (2007), que considera que o lugar é formado pelos que nele vivem; as histórias do lugar confundem-se com as histórias dos moradores. Mesmo os membros jovens da comunidade a encaram como seu “lar”. A comunidade é o lugar onde se sentem confortáveis e ambientados e de certa forma, felizes, pois na maior parte das entrevistas, e como será visto no indicador “capital social”, a natividade é de 92% e os demais entrevistados não nativos, casaram-se com nativos da região.
Como pode ser observado no Quadro 8, a comunidade apresenta uma forte tendência ao envelhecimento da população, seguindo a lógica geral do campo. Proporcionalmente, a maior fatia da comunidade apresenta idade superior a 50 anos, 46% do total; isso chama a atenção para a necessidade de se propor políticas públicas para o idoso do campo, visto que 64% tem como trabalho principal a agricultura, como visto na Tabela 16 e no Quadro 8.
Quadro 8 – Avaliação do Indicador capital social CAPITAL SOCIAL
Variáveis Característica mais presente Valor atribuído Distribuição por sexo dos
entrevistados
Metade homens e metade
mulheres 0,10
Idade da população De 56 a 65 anos 0,75
Escolaridade dos entrevistados Fundamental incompleto 0,75
Estado civil dos entrevistados Casado 0,10
Relação com a terra Própria 0,10
Propriedade da residência Própria 0,10
Associativismo Sim 0,10
TOTAL= 1,90 Indicador: 0,27 Fonte: Elaboração própria.
Novamente o Estado, pela débil presença na comunidade, como variável externa ao lugar vem como indutor de vulnerabilidade, pois uma das variáveis com valores mais altos, dentre os entrevistados, foi a escolaridade, onde a população, majoritariamente, tem apenas o ensino fundamental incompleto.
O quadro 9 traz considerações sobre o trabalho e renda dos moradores da comunidade que, como esperado, é majoritariamente de agricultores. O que chama a atenção é o abandono da comunidade no que toca aos incentivos à produção; do total de entrevistados apenas 01 (um) núcleo familiar apresentou o motivo de não produzir relacionado às condições
financeiras, onde políticas públicas de auxílio na produção para o agricultor familiar poderiam solucionar essa questão.
Quadro 9 – Avaliação do indicador trabalho, renda e produção. TRABALHO, RENDA E PRODUÇÃO
Variáveis Característica mais presente Valor atribuído
Profissão 1 0,25
Indivíduos empregados 26 0,10
Possuem renda fixa 26 0,10
Possui aposentadoria Sim 0,10
Trabalho principal Agricultura 0,50
Possui trabalho acessório Sim 0,25
Possui algum tipo de produção Sim 0,10
Qual o tipo de produção Animal e vegetal 0,40
Entre os que não produzem qual
o motivo para tal Condições financeiras 0,75
Possui assistência técnica Sim 0,10
Existe algum tipo de incentivo à
produção Não 0,50
TOTAL= 3,15 Indicador: 0,28 Fonte: Elaboração própria.
Aplicando a fórmula de cálculo para o cálculo do Índice de Vulnerabilidade Social, proposta na metodologia, o IVS da Comunidade Trangola é de 0,350, se enquadrando no nível médio de vulnerabilidade social, que compreende a faixa que varia de 0,301 a 0,400.
O IVS da comunidade Trangola está um pouco acima do Índice Do Estado do Rio Grande no Norte que era de 0,349, em 2010 e de 0,303, em 2015 (IPEA, 2015), mas ainda na faixa considerada média. Ao se comparar com o IVS do município de Currais Novos, que é de
𝑰𝑽𝑺 =𝟎, 𝟓𝟎 + 𝟎, 𝟐𝟕 + 𝟎, 𝟐𝟖
0,294, como exposto na Figura 10, constata-se que a comunidade está numa condição de vulnerabilidade maior que o geral do município, pois este se enquadra na faixa de vulnerabilidade baixa, por estar abaixo de 0,300 representada pela cor azul.
Figura 10 – Rio Grande do Norte: Índice de Vulnerabilidade Social do Municípios (2010)
Fonte: Atlas da Vulnerabilidade Social dos Municípios Brasileiros, IPEA (2015).
O indicador que mais pesou para o cálculo final foi o relacionado ao trabalho, renda e produção. As variáveis que apresentaram maior valor foram os relacionados à produção. A variável que teve maior peso nesse indicador foi o motivo de não produzir, não relacionado às condições naturais e sim as condições financeiras, porém nesse mesmo indicador houve a maior quantidade de atenuantes com a maior quantidade de variáveis com valor 0,10.
As variáveis que tiveram menor peso foram as relacionadas ao capital social dos entrevistados. Apesar de termos duas variáveis com valores altos, as demais foram todas com valores mínimos, o que indica uma importância grande do capital social. Os fatores que mais influenciaram foram os moradores serem donos de suas próprias terras e moradias. Levando- se em conta que a maioria da população da comunidade é de agricultores ou envolvidos na produção agropecuária, possuir a própria terra influencia muito na vulnerabilidade, por estes terem maior autonomia sobre a sua produção.
Outra variável importante é o grau de associativismo dos moradores, na qual 64% dos agricultores estavam inseridos na associação dos agricultores do Trangola. Para 54% dos entrevistados a associação é importante, pois traz benefícios. Essa consciência os instiga a buscar maior nível de organização social, reduzindo seus níveis de vulnerabilidade.
Enquanto aplicavam-se os formulários, um fato comum que ocorreu de forma espontânea foi a relutância dos entrevistados em um dia deixar a comunidade, mesmo entre os jovens; eles se classificavam como felizes morando lá. Visto que 96% são nativos de Currais Novos, esse fato traz à luz a relação de pertencimento que os moradores têm com a comunidade, a lida com a terra. Há ainda os jovens que trabalham na cidade e retornam à comunidade nos fins de semana, num modelo de migração pendular, onde eles saem, mas retornam ao seu lugar de origem.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Buscando atender ao objetivo da pesquisa que foi avaliar o grau de vulnerabilidade da comunidade Trangola, se fez necessário considerar e trabalhar partindo da discussão teórica sobre o papel que o lugar possui sobre a vulnerabilidade de uma população e de que maneira isso se reflete para os indivíduos. Os capítulos do trabalho foram divididos de maneira a ser elos que se combinam para construir a compreensão sobre a pesquisa.
Por meio das visitas de campo e das entrevistas, foi observado que a resistência dos moradores em permanecer na comunidade se associou à ideia de ambiência, onde a história dos moradores se confunde com a história do lugar; tal aspecto demonstrou o sentimento de pertencimento e de “lar”, fazendo com que os moradores não imaginem realidade diferente.
Conforme foi observado, o indicador que apresentou menor valor tanto no total do indicador, como nas suas variáveis, foi o que trata do capital social, indicando a capacidade de resiliência e força dos indivíduos; demonstrando, assim, que a vulnerabilidade social da comunidade depende majoritariamente de agentes externos.
Como constatado na pesquisa, os moradores possuem receio em relação às pessoas externas à comunidade. Enquanto respondiam aos questionários, demonstravam apreensão com relação às informações fornecidas, perguntando se os entrevistadores possuíam relação com o governo. Isso denota um nível de desconfiança por parte da população.
A etapa de campo, aliada à etapa da construção do referencial teóricos possibilitaram que fossem produzidos os quadros de síntese sobre a realidade da comunidade Trangola, apresentando os aspectos que mais se destacavam dentro das variáveis. Após as análises teóricas e etapas de campo, foi verificado que existe moderado grau de vulnerabilidade na comunidade, onde as variáveis com maior valor estão diretamente relacionadas à gestão, revelando que a governança local pode ser um aspecto decisivo para a mitigação de vulnerabilidade social ou impulsor para aumentar a vulnerabilidade.
Por fim, concluiu-se que a comunidade Trangola apresentou dinâmica própria, sofrendo pouca influência de comunidades vizinhas ou até mesmo do centro urbano municipal, com população predominantemente agricultora e feminina; a comunidade possui um grau de vulnerabilidade médio, sendo apenas pouco acima à média do município, apresentando valores inferiores aos de municípios tais como João Câmara (mostrado na figura 10 deste trabalho).
Entendeu-se, então, que a pesquisa se tornou importante para a comunidade Trangola, visto que não há trabalhos voltados a estudar comunidades tradicionais localizadas no
município. Assim, esse trabalho evidencia fragilidades e valida a voz dos moradores da comunidade, com o propósito de reduzir as vulnerabilidades presentes na mesma. Considera- se que o objetivo geral do trabalho foi atendido em virtude de ter-se construído o índice de vulnerabilidade social aplicado à comunidade Trangola e analisada a influência do lugar nessa questão.
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