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4. GERAÇÃO DE ENERGIA E SEUS IMPACTOS AMBIENTAIS

4.3 ZONEAMENTO EÓLICO NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

O planejamento é o instrumento básico de ordenamento do território. Planejar é algo próprio das sociedades humanas e pode se aplicar as suas várias atividades. Dentro da análise da ordenação do território, o planejamento traça linhas de ação específicas para alcançar os objetivos pretendidos. O planejamento territorial trata, especialmente, de temas estruturantes e a partir dele temos diretrizes e zoneamentos. O diagnóstico dos problemas e

potencialidades do território embasam a busca por metas e objetivos, logo o diagnóstico assume o papel de importante ferramenta de planejamento. O objetivo básico do planejamento é desenhar um território futuro que responda adequadamente aos desafios aos quais este território será submetido (PUJADAS & FONT, 1998).

No Rio Grande do Sul o primeiro parque eólico teve sua Licença Prévia emitida em dezembro de 2002. Com a crescente demanda por esse tipo de atividade no Estado e a necessidade de estabelecer parâmetros que normatizem os empreendimentos de geração de energia a partir de fonte eólica, em 2014 foi publicada, pelo órgão licenciador estadual, a Portaria FEPAM nº 118/2014 com base em estudos dos técnicos de diversos setores da comunidade contando com a contratação de serviços de consultoria técnica para a sua elaboração. Originalmente, o projeto foi concebido para ser concluído no ano de 2005, sendo parcialmente realizado e retomado em 2012. A Portaria citada normatiza os ritos padrões do licenciamento eólico no Estado (RAS – Relatório Ambiental Simplificado ou EIA/RIMA – Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental) e estabelece diretrizes a serem seguidas com vistas a proteção ambiental, específicas para cada região eólica.

Para o estudo foram definidos os seguintes temas a serem analisados: vegetação, ictiofauna (peixes anuais), herpetofauna, avifauna, mastofauna (mamíferos fossoriais e quirópteros), paisagem, meio físico (potencial de geração de processo erosivo e potencial de contaminação da água subterrânea) e áreas de interesse para a conservação.

Os dados utilizados para embasar os estudos consideraram bases com relevância para o item tratado, especialmente informações georreferenciadas. Quando as informações georreferenciadas não se encontravam disponíveis, construíram-se mapas específicos pela equipe técnica envolvida no estudo. Os temas avaliados e estudados foram quantificados em função de sua importância e suscetibilidade aos impactos associados à construção e operação dos empreendimentos eólicos. Para cada classe analisada foram elaboradas recomendações técnicas de acordo com o grau de vulnerabilidade do ambiente levando em consideração o impacto gerado pela atividade.

Em relação à paisagem enquanto categoria de análise do zoneamento eólico, os resultados foram espacializados e classificados em cinco níveis de valores: das Paisagens muito transformadas socialmente (valor 1), até as Paisagens pouco transformadas socialmente (valor 5). Elementos ou conjuntos da paisagem que foram identificados no estudo como patrimônios culturais, tanto individuais, quanto coletivos, foram considerados como de valor 4 ou 5. A partir desta valoração foi elaborado um mapa com o objetivo de embasar a análise da viabilidade da instalação de aerogeradores de acordo com as características da paisagem dos locais pretendidos para os empreendimentos eólicos (Figura 8).

Figura 8 - Mapa classificado pela importância dos elementos da paisagem

Fonte: FEPAM, 2014

Para a avifauna, o diagnóstico foi realizado em duas etapas, a primeira analisou a distribuição das espécies ameaçadas de extinção segundo listas oficiais e potencialmente afetáveis pela implantação de parques eólicos, já a segunda etapa considerou as áreas úmidas com relevância para a concentração de aves. Na primeira etapa houve a classificação e espacialização de 20 espécies de aves pelo grau de ameaça que resultou no mapa final construído a partir do cruzamento de mapas intermediários. No mapa final atribuiu-se uma nota de 1 a 5 que diz respeito à média das notas do conjunto de espécies ocorrentes naquele local (Figura 9).

Figura 9 - Mapa classificado da avifauna - cruzamento de 20 espécies

Fonte: FEPAM, 2014

A segunda etapa do estudo sobre avifauna, que realizou a análise das áreas úmidas relevantes para a concentração das aves, teve como base as aves pertencentes à família Anatidae em virtude da importância do Litoral Médio Leste, do Litoral Médio Oeste e do Litoral Sul, regiões ricas em áreas úmidas, para o interesse dos empreendedores na instalação de parques eólicos.

A análise da família Anatidae foi dividida em dois grupos (cisnes e marrecas) em virtude dos diferentes impactos causados aos grupos pela implantação de empreendimentos eólicos. O objetivo dessa etapa foi, além de avaliar os impactos diretos sobre essas aves, promover a preservação das áreas úmidas utilizadas pelos anatídeos, para evitar os prejuízos a essas populações e aos demais grupos de fauna que utilizam tais habitats. O estado de conservação dessas áreas úmidas foi levado em consideração no estudo para definir os locais de maior e menor favorabilidade à atividade eólica. Desta etapa, resultou o mapa a seguir (Figura 10):

Figura 10 - Mapa classificado da avifauna - áreas úmidas relevantes para a avifauna

Fonte: FEPAM, 2014

O produto final desse estudo é representado por um mapa da área de estudo hierarquizado em diferentes classes de favorabilidade frente aos empreendimentos de energia eólica e sistemas associados (linhas de transmissão, etc.), em que cada classe apresenta um conjunto de diretrizes ambientais para orientar o processo de licenciamento ambiental (Figura 11). Os dados utilizados para construção do produto final foram, além dos apresentados (paisagem e avifauna), os demais citados anteriormente (vegetação, meio físico, entre outros).

Figura 11 - Mapa Síntese Final: grau de sensibilidade ambiental e áreas impróprias4

Fonte: FEPAM, 2014

O “Atlas Eólico: Rio Grande do Sul” de 2002, foi utilizado para delimitar as áreas a serem consideradas na elaboração das diretrizes apresentadas acima por terem potencial de garantir a geração de energia elétrica a partir do vento em virtude de suas condições topográficas e de movimentação atmosférica em escala compatível com a necessidade de investimentos para esse tipo de empreendimento.

O Estado foi dividido, para fins de estudo e classificação, em 10 regiões eólicas a partir da Portaria FEPAM nº 118/2014 de acordo com a base cartográfica disponível, tendo como referência os municípios que estavam incluídos nas áreas de maior potencial para geração de energia eólica. Chegou- se a seguinte divisão: Campanha, Costa Oeste da Laguna, Costa Norte da Laguna, Costa Leste da Laguna, Coxilha de Santana, Escudo, Litoral Norte, Litoral Sul, Planalto das Missões e Serra Gaúcha (Figura 12).

4 Áreas impróprias – embora não haja esta informação na legenda do mapa, as áreas impróprias são as áreas cinzas do mapa.

Figura 12 - Distribuição das regiões eólicas definidas na delimitação da área de estudo.

Fonte: FEPAM, 2014

Para Antunes, o zoneamento eólico é importante ferramenta, pois facilita o trâmite administrativo para desenvolvimento de parques eólicos, uma vez que a habilitação de projetos passa a ser informada por meio de uma pré-qualificação de áreas geográficas de maior favorabilidade ambiental para a atividade (ANTUNES et al., 2017).