Como exemplo de anti-inflamatório não-esteroide clássico, temos o ácido acetilsalicílico, que é uma das drogas mais utilizadas no mundo (30) e sua história vem de séculos, quando se utilizava preparações de plantas contendo salicilato. Em 1874, Maclagan utilizou o princípio amargo do Salgueiro, a salicina, reduzindo com sucesso a febre, a dor e a inflamação da febre reumática (30). O sucesso do ácido salicílico levou a equipe de Frederick Bayer a buscar um derivado de eficácia comparável ou melhor. Um dos pesquisadores da Bayer, Hoffman, baseando-se na literatura científica conseguiu acetilar o grupo hidroxil do anel de benzeno do ácido salicílico e dar origem ao ácido acetilsalicílico (30). O nome comercial Aspirina foi dado pelo farmacologista chefe da Bayer, Heinrich Dreser (30).
Antes de 1971, pouco se sabia sobre o real mecanismo de ação da aspirina, até Vane e colaboradores descobrirem as prostaglandinas (43), cuja produção era inibida pela administração de ácido acetilsalicílico. Estudos seguintes foram feitos por outros pesquisadores, como Smith e Willis em 1971, que analisaram os efeitos da aspirina nas plaquetas (43). Nesse estudo nenhuma mudança consistente foi observada na liberação de nenhuma substância, exceto das prostaglandinas (44).
Também foi observado que o efeito do ácido acetilsalicílico não se restringe a espécies, tecido ou via de administração (30). Estudos subsequentes feitos por Rothe colaboradores, em 1975, elucidaram o mecanismo de ação do ácido acetilsalicílico (30). Esse fármaco acetila seletivamente o grupo hidroxil de um resíduo de serina (Ser 530) na extremidade C terminal da enzima COX, inibindo irreversivelmente a COX (30).
Apesar do efeito anti-inflamatório potente do ácido acetilsalicílico, essa droga pode afetar negativamente o processo de reparo ao afetar a ação das prostaglandinas, que além de fazer parte da reação inflamatória, também contribuem para o processo de reparo (45). A administração de baixas doses de ácido acetilsalicílico (25 mg/kg/dia) tem sido amplamente utilizada em doenças das artérias coronárias como profilaxia contra o infarto do miocárdio (46). O ácido acetilsalicílico nessa dose reduz a produção de tromboxanos (TXA2 e TXB2) produzindo assim ação anti-agregrante e vasodilatadora melhorando o prognóstico com relação à incidência de re-infartos (46). Além disso, a inibição da produção do TXA2 reduz a
transmigração de leucócitos polimorfonucleares para os tecidos inflamados, já que esse mediador facilita a interação dos PMNs com as plaquetas que promove a migração destas células (47). Também existem evidências de que o ácido acetilsalicílico em baixas doses reduz as vias de sinalização pró-inflamatórias, incluindo NF- B, sugerindo que além de papel cardioprotetor, as baixas doses de ácido acetilsalicílico também apresentariam função anti-inflamatória (47). Em estudos realizados em nosso laboratório, também foi observado que baixas doses de ácido acetilsalicílico não alteraram o processo de reparo tecidual cutâneo de lesões excisionais totais em camundongos machos, demonstrando um perfil de contração, reepitelização e desenvolvimento do tecido de granulação bastante semelhante ao grupo controle sem tratamento.
3.1.1 Anti-inflamatório e Dimorfismo sexual
Além de seus efeitos anti-inflamatórios, o ácido acetilsalicílico ao inibir a via da (COX), reduz a síntese de prostaglandinas que consequentemente inibe a atividade da aromatase nas mulheres, levando a diminuição dos níveis de estrógenos no soro (48, 49). Tal capacidade tem sido amplamente utilizada no combate a tumores positivos para receptores de hormônio (48), mostrando, assim, uma associação inversa entre o ácido acetilsalicílico e o câncer de mama (50).
Apesar desse efeito, o ácido acetilsalicílico ao inibir a produção de estrógenos afeta vias cruciais do reparo, já que esses são considerados anti-inflamatórios endógenos (51). Os estrógenos influenciam a cicatrização cutânea pela modulação da resposta inflamatória, da expressão de citocinas e da deposição de matriz, por estimular a angiogênese, assim como, a contração (9). Esses hormônios promovem a redução da resposta inflamatória local pela redução do infiltrado inflamatório (9). Além disso, reduzem a expressão do fator inibidor da migração de macrófagos (MIF), um regulador central da imunidade inata e da inflamação (51, 52), com atividades pró- inflamatórias (51) e do TNF-α nos monócitos, levando à redução da inflamação, ao aumento da deposição de matriz e à aceleração do reparo de lesões (9).
Nos homens, o ácido acetilsalicílico inibe a síntese do hormônio luteinizante (LH) que requer a via da LO ativa (53). De acordo com relatos, a produção de
testosterona está diretamente envolvida com a produção dos metabólitos das vias da COX e LO ou mesmo com ácido araquidônico (53). Assim, se o ácido acetilsalicílico bloqueia as vias da COX e LO, a produção de testosterona também é prejudicada. Estudos mostram que a testosterona e seu potente metabólito, a 5α- diidrotestosterona inibem o reparo tecidual por aumentar o número de células inflamatórias na lesão, além das citocinas pró-inflamatórias (10). O receptor de andrógenos está presente nas células inflamatórias, nos fibroblastos e nos queratinócitos, o que sugere a participação desses hormônios no processo inflamatório, na função fibroblástica e na reepitelização (54). Além disso, os macrófagos ativados pela testosterona aumentam a expressão do MIF (54). Os andrógenos também estão associados à cicatrização de lesões crônicas (9). Em estudos com homens idosos que apresentavam úlceras, os níveis de diidrotestosterona circulante estavam aumentados em relação àqueles sem lesão crônica (9). Estudos mostraram que a castração de camundongos reverte grande parte da ação pró-inflamatória da testosterona, reduzindo o infiltrado inflamatório, as citocinas pró-inflamatórias e aumentando a contração de lesões e a deposição de colágeno (54).
Como o dimorfismo sexual é capaz de alterar a resposta do processo de reparo tecidual (9), provavelmente, esta diferença também pode estar inserida na ação determinados medicamentos. Tal afirmação é confirmada por estudos que mostram a diferença na gravidade de uma mesma doença em homens e mulheres (11). Como exemplo, podemos citar a artrite reumatoide, em que a incidência de dor é maior nas mulheres do que nos homens (11). Outro exemplo, seria com relação a alguns medicamentos, como o ibuprofeno, um anti-inflamatório não-esteroide não seletivo na artrite, que nas mulheres não apresenta efeito anti-inflamatório em relação à dor, enquanto que nos homens esse efeito é observado (11).
Provavelmente, tal fato se deve a diferença da expressão das isoforma da COX em homens e mulheres. De acordo com estudos, os estrógenos podem regular a expressão de ambas as isoformas da COX em alguns níveis, enquanto que a testosterona pode tanto aumentar a expressão do COX-2 quanto inibir a produção de prostaglandinas (11).
4. Ácido cafeico fenetil ester (CAPE)
O flavonóide ácido cafeico fenetil ester (CAPE) é um dos componentes ativos do própolis utilizado há muitos anos na medicina alternativa (12). O extrato bruto do própolis apresenta uma composição muito complexa, resultante das diferentes origens geográficas e botânicas (55). O própolis é conhecido por seus efeitos clínicos, incluindo atividades anti-inflamatória, antiviral e carcinostática. Esse amplo espectro de funções é atribuído principalmente ao grande número de flavonoides que participam da sua composição, dentre eles, o CAPE (55).
O CAPE apresenta potente ação antioxidante, anti-inflamatória, antitumoral e imunomoduladora (12). Tais efeitos derivam de sua capacidade em inibir certas enzimas, como a LO e a COX (13). O CAPE também é um potente inibidor da ativação do NF B (14), reduzindo expressão do óxido nítrico sintase induzível (iNOS). Na concentração de 10µM, o CAPE bloqueia completamente a produção de ROS nos eritrócitos de ratos (12).
Em estudos envolvendo o reparo tecidual de lesões incisionais totais, o tratamento com CAPE acelerou a cicatrização, com maior deposição de colágeno e atividade fibroblástica, além de ter promovido maior reepitelização (13). Também, foi observado menores níveis de malondialdeído (MDA) (indicador de peroxidação lipídica) e superóxido dismutase (SOD) (13).
Estudos feitos no plasma de ratos queimados tratados com CAPE demonstraram que os biomarcadores de dano oxidativo e de ação antioxidante não sofreram alterações em relação ao grupo controle não queimado e não tratado (24).
Já no grupo queimado sem tratamento, os níveis plasmáticos de MDA, xantina- oxidase e NO estavam aumentados, enquanto que os níveis de SOD estavam diminuídos em relação ao controle, provavelmente, devido ao maior consumo desse antioxidante após a queimadura (24). Esses resultados mostraram a capacidade antioxidante do CAPE, provavelmente, pelo sequestro das ROS e pela inibição da atividade da NOS e da XO (24). Baseando-se nos achados promissores do estudo, o CAPE passou a ser sugerido no tratamento de pacientes com queimaduras graves (24).
5. OBJETIVOS
Avaliar se a aspirina (um inibidor não seletivo da COX) afeta de forma distinta a cicatrização cutânea em camundongos machos e fêmeas.
Investigar o papel do CAPE na cicatrização de queimaduras em ratas, avaliando suas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes.
Esta seção apresenta os artigos traduzidos, submetidos à publicação.
6. RESULTADOS
6.1 Camundongos fêmeas, mas não machos, apresentam cicatrização cutânea