Até o final dos anos 80, não houve no Brasil a adoção de um projeto neoliberal nos moldes em que ocorreu no Chile. A política econômica adotada pela ditadu- ra brasileira foi bastante diferente daquela aplicada pelos demais regimes auto- ritários do continente nos anos 60 e 70, segundo Foxley (1988, p. 30). Aqui prevaleceram, como instrumento anti-cíclico, os controles de preços, os incen- tivos creditícios e o investimento público, além de abertura para o Exterior feita de forma gradual. Isso garantiu a manutenção da produção nacional de bens duráveis e de não duráveis e do emprego, bem como a taxa de investimento até o final dos anos 60 (Foxley, 1988, p. 33).
Nos anos 70, a economia brasileira apresentou enorme crescimento, gra- ças à política econômica adotada pelo regime militar: desenvolvimento capitalis- ta baseado em forte intervenção estatal, concentração oligopolística da produ- ção e internacionalização da economia. Mas os custos do “milagre econômico”
apareceriam na década seguinte. De fato, a situação mudou muito nos anos 80:
“A crise que se abateria sobre a economia brasileira na década de 1980 seria a mais grave e profunda já vivida no país. A taxa de inversão caiu, de cerca de 25% na primeira metade da década de 1970, para os atuais 16% na de 1980, refletindo a ausência de expectativas positivas pelo empresariado privado e profunda crise financeira do estado, que impede a retomada do investimento público (...) A economia brasileira apresenta, nesta década, um crescimento médio tão sofrível que, em termos de renda por habitante, estamos em 1989 provavel- mente abaixo de 1980. Acumulou-se com isto enorme agravamento dos problemas sociais e uma séria ameaça do aprofundamento do atraso tecnológico de nossa indústria (...) A questão crucial — apesar da tentativa que o conservadorismo faz para deturpá-la — continua a ser a dívida externa, que, juntamente com as demais saídas líquidas do capital estrangeiro, consomem parte apreciável de nosso potencial de crescimento. A estatização formal dessa dívida, a partir de 1978- -79, fez com que sua “irmã-gêmea”, a dívida interna, se transformasse no elemento predominante na determinação do déficit público e no agravamento do processo inflacionário” (Cano, 1989, p. 18-19).
Como conseqüência, os anos 80, no Brasil, ficaram marcados pela crise e pelo esgotamento do modelo de desenvolvimento baseado na forte presença do Estado. Para conter o acelerado processo inflacionário, a política econômica de
estabilização implementada na Nova República adotou várias medidas extraor- dinárias, como o congelamento de preços e salários implantado pelos Planos Cruzado I e II, em 1986, e pelo Plano Bresser, em 1987 (Affonso; Sampaio Júnior; Schwartz, 1988); a abertura externa, a desregulamentação e a privatização promovidas pelos Planos Collor I, em 1990, e Collor II, em 1991; e, finalmente, a reforma monetária do Plano Real em 1994. Constata-se, assim, que, a partir dos anos 80, houve uma mudança na economia brasileira, que se aproximou ao paradigma neoliberal — liberação das forças concorrenciais e equilíbrios fiscal e monetário, programa de privatização de empresas estatais e reformulação dos aparatos administrativo, previdenciário e fiscal.
Os anos 80 também se caracterizaram pelo processo de transição política e pelos conseqüentes esforços de consolidação de uma ordem democrática. A ação conjunta desses fatores engendrou transformações significativas na vida política nacional. Ao longo daquela década, a sociedade brasileira passou por uma grande politização, que se materializou na organização e na mobilização das diferentes forças sociais do País e na luta política que se desenvolveu atra- vés da Campanha das Diretas, em 1984; da eleição indireta de Tancredo Neves;
da instauração da Nova República, em 1985; das eleições para a Constituinte, em 1986; do debate que se travou no Congresso Constituinte até a promulgação da nova Carta, em 1988; da campanha para a Presidência da República, em 1989; do impeachment de Collor, em 1992; da eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994; para citar apenas os fatos políticos mais abrangentes.
Esses episódios compuseram o início do processo de institucionalização de novas regras do jogo político que, praticamente restrito ao Executivo durante os governos militares, transbordou para toda a sociedade com a redemo- cratização. O Congresso, os partidos, os meios de comunicação de massa e as instituições da sociedade civil passaram a participar ativamente da vida polí- tica nacional.
A ampliação da arena política decorrente desse processo impôs a todas as forças sociais a necessidade de se organizarem para defender seus interes- ses frente à sociedade política revigorada. As lutas dos trabalhadores em anos anteriores já haviam evidenciado a importância crescente do movimento sindical e de suas organizações de cúpula, em especial a Central Única dos Trabalhado- res (CUT) e o Partido dos Trabalhadores (PT). A esfera partidária também cres- ceu em importância com a recuperação do Congresso Nacional como arena de luta e negociação política no País.
Todos esses acontecimentos políticos tiveram como pano de fundo um processo de transformações estruturais na sociedade brasileira e o esboço de uma nova forma de relacionamento entre Estado e sociedade, pautada pela mudança nas formas de organização dos principais atores sociais e seus esti-
los de representação de interesses. Um conjunto de mudanças e continuidades marcou essa etapa de incorporação do Brasil à Nova República, na qual se processa a transição de um regime autoritário para uma situação de desenlace incerto (Santos, 1985; Diniz; Boschi; Lessa, 1989; Camargo; Diniz, 1989). A seguir, trataremos dessas mudanças e continuidades, para, depois, nos deter- mos na organização e na ação política da burguesia brasileira no período da Nova República e, por último, faremos uma reflexão sobre os traços que carac- terizam a ideologia e a prática política da burguesia e dos empresários no Bra- sil.
No pano de fundo da cena brasileira das últimas décadas, encontram-se profundas transformações estruturais, que ocorreram nos períodos de desenvol- vimento capitalista acelerado que culminaram com o “milagre econômico” de 1968 a 1974. Essas transformações constituem o que Wanderley G. dos San- tos denominou de a “pós-revolução brasileira” (Santos, 1985; 1987), composta por um conjunto de mudanças muito significativas. Houve forte desenvolvimento econômico, com altas taxas de crescimento do PIB até 1974 e substancial modificação do aparato produtivo e da produção industrial, que superou a do Setor Primário nos anos 60. A partir de um processo de urbanização acelerada, houve uma reestruturação ocupacional, com diminuição de pessoal ocupado no setor rural e aumento do mesmo no industrial e no setor serviços, o que contri- buiu para uma grande redistribuição geográfica da PEA. Além disso, houve um aumento da PEA, com a incorporação de jovens e de idosos na força de traba- lho e, especialmente, das mulheres. O processo de industrialização intensificou a produção de bens intermediários e de bens duráveis. Desenvolveu-se uma dinâmica de capitalização para a qual convergiram três processos simultâneos:
a expansão das relações assalariadas, o processo de produção de bens de capital e a tecnificação do trabalho agrícola. Ocorreu, também, uma tendência à reprivatização da economia segundo a qual a intervenção do Estado na econo- mia se concentrou em setores fundamentais para a expansão econômica (pe- trolífero, insumos, transportes, energia e comunicações) e beneficiou, funda- mentalmente, o setor privado, onde ocorreu um processo de consolidação e proliferação de empresas entre 1964 e 1974.
Para W. G. Santos (1985), esse processo de mudanças estruturais em pauta colocou a possibilidade de um avanço para uma ordem “pluralista” na sociedade brasileira. Mas esse avanço dependeria do desenvolvimento do pro- cesso histórico em curso e da evolução induzida na ordem social, onde estava em construção a constituição de uma sociedade mais aberta, porém plena de desigualdades. A possibilidade de que, a partir dessas mudanças de estrutura, se abriria espaço para uma autêntica hegemonia burguesa no Brasil, instauran- do-se uma ordem pluralista de mercado, foi objeto de análises e polêmicas que
serão mencionadas mais adiante. Em todo caso, para que essa possibilidade seja explorada, deve-se levar em consideração a estrutura social que emergiu da pós-revolução mencionada e da natureza das instituições políticas no Brasil.
Essas transformações modernizadoras tiveram, segundo Santos (1987), efeitos positivos sobre a sociedade emergente.
“Do âmago da sociedade patriarcal, das relações de parentela, compadrio e de clientelismo principia a surgir uma outra sociedade, aberta, porosa, fluida, na qual as oportunidades de cada um estão sujeitas principalmente aos azares da dinâmica do mercado, para bem ou para mal, e não mais a atributos adscritos (...) característica das sociedades tradicionais.” (Santos, 1987, p. 142).
Entretanto tais transformações não ocorreram no vazio, mas, sim, num campo minado por desigualdades sociais e hierarquias políticas fortemente arraigadas e por discriminações de sexo e cor. O crescimento econômico e a moderniza- ção do País aumentaram as desigualdades sociais e econômicas e beneficia- ram, fundamentalmente, os que desfrutam de maior parcela de poder. A investi- gação empírica corrobora essa afirmação, indicando o Brasil como um país de extrema concentração de renda na cúpula e “miserável” na base, uma vez que o problema da renda “(...) não consiste tão-somente em desconcentrar o topo da pirâmide, mas fundamentalmente em resgatar a base indigente e miserável da população trabalhadora brasileira” (Santos, 1987, p. 181).
Ainda assim, no campo da organização de atores sociais, insinuam-se matizes que Santos (1985) interpreta como indicadores de flexibilidade e plura- lismo maiores em respeito à tradicional estrutura corporativa. O caso do setor empresarial será visto com maior detalhe mais adiante, mas cabe mencionarmos aqui a ocorrência de mudanças importantes nos padrões de organização dos setores médios urbanos (funcionários públicos, professores, profissionais liberais, etc.), que multiplicaram suas entidades representativas, bem como suas ações reivindicatórias. Mas, sobretudo, Santos destaca as mudanças ocorridas na relação capital-trabalho: surgimento do novo sindicalismo, que introduziu uma forte brecha na subordinação corporativa herdada do varguismo; a prática de negociações setoriais diretas entre patrões e trabalhadores nos setores industriais de ponta, que questionam seriamente a preeminência do Ministério do Trabalho;
e, finalmente, a criação de centrais sindicais, que rompeu a proibição de organi- zação horizontal operária e introduziu o pluralismo ali onde imperava a obriga- toriedade do monopólio de representação. Contudo essas transformações não foram suficientes para acabar com a permanência de fortes tendências corpo- rativas no movimento sindical.
Tantas mudanças no nível da sociedade e de suas organizações não pare- cem ter se traduzido, entretanto, em mudanças significativas no campo da in- serção política dos atores. Se as instituições políticas devem ser avaliadas pela sua eficácia em agregar e traduzir demandas da sociedade, no Brasil, apesar das mudanças arroladas, a dissociação entre as instituições e a sociedade segue sendo a regra. Isso se deve à fragilidade do sistema de partidos, que permitiu a emergência de um estilo tecnocrático de governo e a permanência das práticas de inserção direta de interesses no Estado, própria da etapa corporativista que se iniciou com o varguismo (Santos,1985; Camargo; Diniz, 1989).
Nos meios acadêmicos do País, existe um relativo consenso em torno da idéia de que existe uma tendência do empresariado a desfrutar “apoliticamente”
do acesso ao aparato de Estado através de anéis burocrático-autoritários — laços clientelísticos criados entre empresários de um determinado setor e os burocratas responsáveis pelas agências estatais afetas a esse setor (Cardoso, 1975) — em vez de organizar-se politicamente para buscar, pela via partidária e com apoio popular, o controle explícito das políticas de Estado. Mas acredita- mos que, para entender a atuação da burguesia brasileira nesse processo, é necessário seguir mais de perto o processo de organização, mobilização e sen- tido da participação política do empresariado brasileiro, núcleo essencial da burguesia, projetando-o sobre a cena complexa que acabamos de descrever.