Este capítulo é uma tentativa de descrever as observações analíticas e a importância do canal de Coqueiros no ambiente rural tendo em vista a água disponível do lençol freático da região de Pitangueiras.
“Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar para seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão”. (Chefe Seattle, 1854)
2-1- Mapa do Canal de Coqueiros
Figura 05 – Mapa de localização dos pontos de coleta de água do canal de Coqueiros.
Fonte: Laboratório de Georeferenciamento do CEFET Campos.
2-2- A coleta das amostras
A coleta foi realizada seguindo os procedimentos técnicos exigidos. Usaram-se frascos esterilizados, duas amostras diferentes foram coletadas e refrigeradas até a chegarem ao seu
destino: laboratório de microbiologia do CEFET Campos, onde foi feita a inoculação, para posteriores exames bacteriológicos cabíveis e, parte do material coletado foi armazenado para exame físico- químico.
No dia 21 de maio de 2005, a coleta do material foi realizada, em 6 pontos distintos, conforme mostrado no mapa, totalizando 17 amostras diferentes:
1- Avenida Alberto Lamego, próximo a saída do Rio Paraíba do Sul - 02 amostras. Neste local o volume de água é pequeno, observando-se a presença de grande quantidade de lixo, matos e lançamento de esgoto oriundo da população ribeirinha.
2- Avenida Presidente Kennedy, no Bairro do Jóquei Clube, após atravessar grande área urbana. - 02 amostras. Neste local a água encontra-se visualmente poluída, sendo grande a quantidade de esgoto lançado no canal e podendo ser observado sem auxílio de nenhum equipamento, através da percepção visual e odor.
3- Estrada do Açúcar, na localidade de Donana, após atravessar área urbana e pequena área rural. - 03 amostras. Local com um volume de água maior, embora barrenta, apresentando aspecto de ligeira recuperação em relação às amostras até então coletadas.
4- Estrada de Tocos, localidade conhecida como Fazenda do Colégio, área rural - 03 amostras. Neste local, a água começa a clarear, encontrando-se visivelmente melhor que as demais.
5- Rio Pitangueiras, localidade que possui o mesmo nome do rio, área rural - 03 amostras. O sedimento de fundo do rio apresenta grande quantidade de matéria orgânica dissolvida, o que lhe confere uma coloração escura. O volume de água é grande em relação aos demais ponto de amostragem. A água amostrada apresenta-se translúcida e sem cheiro, o que nos leva a crer na recuperação do canal.
6- Água de subsolo (poço freático), colhida na residência do Sr. Didinho, morador da localidade de Pitangueiras - 04 amostras, sendo duas passadas em filtro de areia e duas in natura.
2-3 - Resultados e discussões
2-3-1- Importância do Canal para a comunidade de Pitangueiras
A pesquisa realizada com moradores de Pitangueiras nos deu uma visão geral do uso da água naquela localidade. O formulário de pesquisa foi aplicado a 7 (sete) pessoas: 3 (três ) com mais de 60 anos, 2 (duas) entre 30 e 60 anos e 2 (duas) com menos que 30 anos. A diversidade de idades nos mostra que a localidade ainda pode crescer em número de habitantes, já que tem pessoas em idade fértil. Dos entrevistados 06 são residentes na localidade e 01 é proprietário de pequeno imóvel rural, residindo em localidade próxima.
Dos habitantes do local, apenas 01 não faz uso das águas do canal de Coqueiros, pois seu imóvel encontra-se um pouco afastado do mesmo, utilizando água do poço freático. Os demais, inclusive o que não é morador, utilizam água do referido canal.
Entre os usos dados a água do canal de coqueiros, a dessedentação de animais é a que mais ocorre, em 06 (seis) entrevistados, seguida da limpeza em geral, banhos, irrigação rudimentar de horta e jardim, totalizando 05 (cinco) moradores; irrigação de lavoura e lazer 04 (quatro) entrevistados e, por fim, o preparo de alimentos 03 (três ) famílias. Dos entrevistados ninguém bebe a água do rio e, segundo eles, não pescam porque a quantidade de peixes não é muito grande, e a demanda de pessoas de outras localidades que utilizam-se da pesca ali, naquele local, é considerável.
O único entrevistado que não mora na região construiu um catavento utilizando diretamente a água do canal para irrigar a plantação de bananas, cana, aipim e outras pequenas culturas, economizando energia elétrica.
Todos entrevistados possuem fossa, não lançando esgoto domiciliar no canal. A água de poço, que 06 (seis) dos contatados possuem, é utilizada com mais freqüência para irrigação, sendo que 01 dos entrevistados, por não utilizar água do canal de coqueiros, vale-se da água do poço para sua serventia, exceto para beber.
Segundo moradores mais antigos, em outras épocas era comum na região a construção de cisternas para armazenar água de chuva, que era colhida através de calhas que rodeavam o telhado. Estas calhas necessitam de reparos freqüentes o que não vem sendo feito, devido à queda do poder aquisitivo dos pequenos proprietários da região, aliado ao fato que, na gestão do prefeito de Campos dos Goytacazes, Sr. Arnaldo França Viana (2000-2004), todos os dias um caminhão pipa passava pela localidade, distribuindo água potável, suprindo as necessidades dos moradores.
O ano de 2005 começou com o afastamento do poder público da região. Em decorrência disso, a escola municipal foi fechada e o caminhão pipa, que transportava o “líquido vital”, hoje virou raridade, passando, quando muito, uma vez por semana, distribuindo galões de água em quantidade insuficiente até mesmo para beber, o que força um racionamento deste líquido vital para a sobrevivência humana. Na gestão anterior, o abastecimento era mais amplo, em quantidade suficiente para abastecer cisternas e caixas d’água. Fomos informados que em duas localidades vizinhas, situadas a mais ou menos 4 Km da região focada neste trabalho, existe água encanada e tratada, e, portanto, este serviço poderia ser estendido até Pitangueiras.
Um dos entrevistados, dada a insuficiência de água distribuída pelo caminhão, faz uso da água mineral como complemento, já que a sua água de subsolo é altamente salinizada e seus familiares apresentam quadro comprovado de hipertensão arterial. Até mesmo para cozinhar alimentos, neste caso, não seria indicado o uso da água do subsolo, o que não vem acontecendo, já que cozinhar com água mineral seria economicamente inviável.
2-3-2- Resultados analíticos
A água, de acordo com a finalidade para a qual se destina, necessita ter determinadas características físico-químicas e bacteriológicas específicas. Estas são avaliadas através de análises realizadas por laboratórios especializados que obedeçam a padrões estabelecidos pelos órgãos competentes. A água para consumo humano não deve conter substâncias dissolvidas em níveis tóxicos e nem transportar, em suspensão, microorganismos patogênicos. Para fins de irrigação, a água não pode conter sais em excesso para não prejudicar o solo e as plantas. Na indústria a presença de alguns elementos metálicos na água utilizada exige tratamentos adequados e, quando não realizados, podem ocasionar incrustações e corrosões de equipamentos, comprometendo sua vida útil.
A tabela 03 abaixo nos mostra a concentração de elementos metálicos dissolvidos nas águas fluviais do Rio Paraíba do Sul (SILVA, 2000, apud OVALLE), rio Amazonas, média mundial, média dos rios tropicais e resultado médio das análises realizadas ao longo do canal de Coqueiros.
Tabela 03 – Faixa de concentração de elementos dissolvidos nas águas fluviais no rio Paraíba do Sul (Silva, 2000), rio Amazonas, média mundial, média dos rios tropicais e resultado médio das análises realizadas no canal de Coqueiros.
R. Paraíba do Sul1
Rio Amazonas1
Média Mundial1
Média de Rios Tropicais1
Canal de Coqueiros2
Na + (mg/L) 5,3 1,5 5,3 4,9 30,81
K+ (mg/L) 1,9 0,8 1,5 1,7 14,36
Ca+2(mg/L) 3,4 5,2 13 8,2 27,80
Mg+2(mg/L) 1,2 1,0 3,1 3,5 8,11
Fonte: 1 OVALLE A.R.C., 2002,p.48 modificada `2 CRESPO, C.P.P., estudo
2-3-2-1- Os parâmetros físico–químicos
Nas amostras coletadas, foram realizadas nos laboratórios de química do CEFET- Campos, as análises físico-químicas. Para tanto foram empregados métodos instrumentais que envolveram a utilização de fotometria de chama para determinação dos íons sódio e potássio;
espectroscopia de absorção atômica para magnésio, ferro, cálcio, zinco e manganês e para os parâmetros pH e condutividade, pHmetro e condutivímetro. Os resultados médios dos metais Sódio, Potássio, Ferro, Magnésio, Cálcio, Zinco e Manganês pesquisados, além da determinação do pH e condutividade serão apresentados através dos gráficos que se seguem.
Na figura 6 pode-se constatar a concentração de Cálcio em ppm (mg/L) encontrada nas amostras analisadas. Na amostra 06 e 07, proveniente do lençol freático da região de Pitangueiras, encontramos concentração superior a 100 ppm de Cálcio.
Figura 06 – Concentração de Cálcio nas amostras de água coletadas ao longo do canal de coqueiros e no subsolo da região de Pitangueiras.
Na figura 7 pode-se constatar a concentração de magnésio em ppm (mg/L) encontrada nas amostras analisadas. Na amostra 06 e 07, proveniente do lençol freático da região de Pitangueiras, encontramos concentração superior a 30 ppm de magnésio.
Figura 07 – concentração de magnésio nas amostras de água coletadas ao longo do canal de coqueiros e no subsolo da região de Pitangueiras.
Concentração de Cálcio
0 20 40 60 80 100 120 140
1 2 3 4 5 6 7
Amostra de água
Ca (ppm)
Concentração de Magnésio
0 5 10 15 20 25 30 35 40
1 2 3 4 5 6 7
Amostra de água
Mg (mg/L)
A presença de sais alcalinos de cálcio e magnésio confere à água uma característica denominada dureza. Os sais de cálcio e magnésio, que são os carbonatos e bicarbonatos, têm ocorrência natural em alguns mananciais. A dureza que conferem à água recebe o nome de dureza temporária. Já os sulfatos, nitratos e cloretos daqueles elementos levam à dureza permanente da água.
Níveis elevados desses sais podem alterar o sabor da água, mas o principal prejuízo é econômico e ambiental. Águas duras requerem mais sabão e detergentes para produzir espuma, aumentam o consumo e conseqüentemente a poluição, em decorrência do maior aporte de fosfato nos esgotos.
Na indústria, esses metais agem sobre os trocadores de calor, formando depósitos carbonatados e fosfatados, o que prejudica a troca térmica. Na saúde humana, o cálcio e o magnésio em níveis elevados, podem causar pedra no rins.
Na figura 8 pode-se constatar a concentração de sódio em ppm (mg/L) encontrada nas amostras analisadas.
Figura 08 - Concentração de sódio nas amostras de água coletadas ao longo do canal de coqueiros e no subsolo da região de Pitangueiras.