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A afetação da liberdade

No documento 1 DOI: http://dx.doi.org/10.17793/rdd.v4i6 (páginas 95-98)

V. Bibliografia

3. A afetação da liberdade

reforço do viés de confirmação. Este fenômeno faz com que as pessoas tendam a consumir apenas informações que estejam de acordo com sua visão do mundo. A questão central é que não se vê (ou a Internet passa a não apresentar, em função do perfil) outras opiniões que não estejam de acordo com determinada visão. Reforça-se visões parciais dos fenômenos147 apresentando um potencial perigo de manipulação.

É evidente que, de forma geral, as pessoas buscam voluntariamente os conteúdos que desejam e também seguem os perfis e pessoas que querem nas redes sociais. Neste ponto há autonomia sobre o que pesquisam. O que se que colocar aqui, e para isso utiliza- se o mundo de Huxley como paralelo, é que, pouco a pouco, há a perda de autonomia em relação aos resultados apresentados. Sem que o usuário perceba, uma série de informações que ele ignora são levadas em conta para a apresentação dos resultados, diminuindo-se sua liberdade de escolha148. Igualmente, os próprios algoritmos de classificação dessas empresas não são tecnologicamente neutros. Isto abre a possibilidade – mesmo que remota e negada pelas empresas – de que certos resultados possam ser arbitrariamente manipulados a fim de protegerem ou promoverem algum interesse específico. A verdade é que essas empresas não são tecnologicamente neutras; elas perseguem interesses comerciais e políticos que podem não estar necessariamente alinhados com o bem comum.

Outra aproximação que pode ser feita entre a obra aqui analisada e as redes sociais é o tipo de controle que é realizado sobre o discurso nestes espaços. Tanto a Constituição Federal149 quanto o Marco Civil da Internet150 garantem a liberdade de expressão na Internet, o que inclui, por evidência, as redes sociais. O problema do controle do discurso nas redes sociais também pode ser analisado sob o prisma da “bolha filtro” além de representar um caso de violação à liberdade de expressão151. Os parâmetros de controle, no caso do Facebook, consideram e se baseiam em um código moral próprio152 que é aplicado em todo o mundo. Pode presumir-se que há um potencial condicionamento moral – voluntário ou não, do ponto de vista da empresa – de todos os usuários, quando se                                                                                                                          

147 Basta pesquisar no Google pelo termo “política brasileira”, com dois usuários diferentes, para ver as diferenças nos resultados.

148 Idem. Ibidem, p. 32.

149 Art. 5º, inc. IV e art. 220.

150 Lei 12.965/2014 arts. 2º; art. 3º, inc. I e art. 8º.

151 Sobre isso ver o nosso GOULART, Guilherme Damasio. O impacto das novas tecnologias nos direitos humanos e fundamentais: o acesso à internet e a liberdade de expressão. Revista Direitos Emergentes na Sociedade Global - UFSM, Santa Maria, v. 1, n. 1, p. 146-168, jan.-jun./2012. Disponível em: <http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/REDESG/article/view/5955>. Acesso em: 24 Abr.

2014.

152 Tal código consubstancia-se nas políticas de uso do site.

submetem a essas regras. Há, aí, o perigo de que o controle e o condicionamento das pessoas seja promovido não pelo estado – como em Huxley – mas sim por empresas privadas. Tem-se, com isso, outro tipo de controle social diferente do controle efetuado pelo Direito. O controle promovido pelos meios de comunicação em massa, e principalmente pela Internet, tem sua eficácia no "condicionamento tecnológico" por meio da persuasão153. Seria este um novo tipo de despotismo “empresarial” onde as pessoas nem ao menos percebem que ele existe154?

Um terrível caso recente, que mostra o poder de influência das redes sociais, envolveu a morte brutal por linchamento de uma mulher que teria sido confundida com uma assassina de crianças. O estopim foi uma denúncia feita no Facebook, denúncia esta que, após o fato, se comprovou ser absolutamente infundada. O caso foi tão emblemático que ganhou repercussão internacional155. Tal situação mostra também a imperiosa necessidade de garantir que as pessoas recebam uma educação formal tecnológica acerca de como devem avaliar e criticar o que encontram na Internet156.

Outro exemplo menos emblemático é o relacionado ao controle da nudez no Facebook157. A política de uso desta rede social proíbe que os usuários publiquem conteúdos daquela natureza. Todavia, já houve situações onde fotos de mães amamentando seus filhos158 ou ainda fotos artísticas159, envolvendo algum tipo de nudez, foram retiradas                                                                                                                          

153 Sobre isso ver VERONESE, Josiane Rose Petry. Os meios de comunicação de massa: uma nova forma de controle social. Revista de Informação Legislativa, n. 110, p. 445-456 out.-nov./1991, p. 446. Já à época, a autora questionava se os meios de comunicação em massa teriam o condão de “alterar atitudes”, p.

452. Com a evolução da tecnologia parece não haver mais dúvidas quanto a isso.

154 Grandes empresas de Internet são mais poderosas do que muitos governos. Algumas investem pesadamente em lobby para que seus interesses sejam garantidos em novas legislações e políticas estatais.

Além do mais, tais empresas exercem um poder imenso na vida das pessoas que utilizam a Internet. Se a Internet passa a ter mais influência na vida de todos, é natural que também cresça o poder destas empresas.

Importa notar também que um regime despótico que se estabelecesse em uma democracia atual não seria igual aos regimes despóticos mais antigos. Sobre isso ver TOCQUEVILLE, Alexis de. Ibidem, p. 388:

Parece que, se o despotismo viesse se estabelecer entre as nações democráticas de nossos dias, teria outras características: seria mais extenso e mais doce, e degradaria os homens sem os atormentar.” (grifo nosso).

155 Did voodoo rumours on Facebook lead to a murder? BBC News Trending. Disponível em:

<http://www.bbc.com/news/blogs-trending-27311519> . Acesso em: 8 Abr. 2014.

156 Tal situação demonstra um gigantesco problema social e educacional que deve ser compreendido em conjunto com o alerta de Bobbio: “uma sociedade que nasce da não-violência será por sua vez não violenta, enquanto que uma sociedade que nasce da violência não poderá dispensar a violência”. BOBBIO, Norberto.

A era dos Direitos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 143.

157 Sobre isso ver a “Declaração de direitos e responsabilidades” do Facebook. Disponível em:

<https://www.facebook.com/legal/terms>. Acesso em: 10 Abr. 2014. Acerca da nudez, o texto estabelece que: “Você não publicará conteúdo que: contenha discurso de ódio, seja ameaçador ou pornográfico; incite violência; ou contenha nudez ou violência gráfica ou desnecessária.

158 G1. Facebook desativa conta de mulher que postou foto sua amamentando. Disponível em:

<http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2011/02/facebook-desativa-conta-de-mulher-que-postou-foto- amamentando.html>. Acesso em: 8 Abr. 2014.

da rede por violação aos termos de uso. Há um paralelo interessante no livro de Huxley sobre este caso que ocorre quando a personagem Lenina chega à “reserva dos selvagens” e se espanta ao ver uma mãe amamentando seu filho160, situação que não acontecia mais na sociedade da qual viera, já que todos eram gerados artificialmente.

Este caso ilustra uma situação envolvendo a violação da liberdade de expressão, no sentido de que a rede social não pode limitar, de forma indiscriminada e injustificada, o discurso de seus usuários. Um controle técnico que limite o discurso não pode ser tão amplo assim.161 Se as redes sociais passam a ser uma arena de debate e de manifestação pública de discursos, deve haver um limite para as restrições impostas por ela, sob pena de se afetar a liberdade de expressão dos usuários. Note-se que não se trata de uma proibição antecipada da publicação de um conteúdo ilícito, como a pornografia infantil, mas sim da proibição de material envolvendo nudez que, frente a legislação pátria, não é ilegal.

Condiciona-se todo um comportamento baseado em uma moral imposta por uma única empresa162.

Com isso, à semelhança do livro, há a imposição de uma “moral universal”163 pelo Facebook, quanto este limita o discurso com base em um critério que viola a liberdade de expressão.

No documento 1 DOI: http://dx.doi.org/10.17793/rdd.v4i6 (páginas 95-98)