as liberdades de circulação e de expressão dos coletivos nesse espaço monumental. A luta contra um adversário em comum serve como ponto de convergência entre conjuntos heterogêneos. Não se trata de exaltar ou condenar o comportamento de determinados grupos, mas sim compreender a resistência contra uma lógica excludente existente por trás dessas imposições e restrições comportamentais e arquitetônicas, que objetivam reduzir o ato de torcer a uma expressão individual.
vigilância constante sobre o comportamento dos torcedores. Justifica sua afirmação com um argumento que, de tão simples, chega a ser desconcertante como um drible de Garrincha: o de que não há celebração efusiva num ambiente onde há cadeiras uma vez que, numa festa, a primeira coisa que fazemos é afastar as cadeiras. Da mesma forma, elas não estão presentes nas pistas de dança e nos shows de rock. Para ele, as expressões “conforto do torcedor”,
“lugares marcados” e “visão completa do campo” são termos que apontam um desejo por uma mudança de paradigma na forma de torcer, mas que acabam camuflando, sob o relaxamento natural ao corpo que senta, seus reais impactos na experiência subjetiva.
Nesse novo modelo, baseado na atomização do torcedor, há um constrangimento sobre o ato de torcer como expressão coletiva, forçando o seu desaparecimento em benefício de uma individualização do espectador. Ao falar da disposição dos setores destinados ao público no antigo Maracanã, Flores (1982) utiliza palavras que, três décadas após, sintetizam bem o que se pretende para o novo estádio de futebol: “Arquibancadas e gerais são ocupadas por massas;
cadeiras, tribunas e camarotes por indivíduos” (p. 54, grifos do autor).
O processo de transformação do futebol num produto mais “palatável” destinado a um público de maior poder aquisitivo também ocorreu com outros elementos relacionados à cultura popular. Basta perceber o que aconteceu com os antigos botequins outrora conhecidos como “pés-sujos”, substituídos pelos “pés-limpos”, na sua maioria, franquias de grandes redes de bares, onde, num ambiente clean, é comum a presença de grupos compostos exclusivamente por mulheres (algo inimaginável nos “botecos” e nos antigos estádios).
Podemos também estabelecer um paralelo entre a imposição do modelo das arenas “Padrão FIFA”, que tem nos stewards fiscais responsáveis por manter a ordem no recinto de jogo um de seus personagens, e a introdução da figura do lanterninha como parte do processo de elitização das salas de cinema norte-americanas, posto em prática nos primeiros anos do século passado. Nas palavras de Costa (2005):
Há um grande esforço de domesticação destes espaços selvagens dos cinemas, para afastar os temores da gente refinada: diminuição da escuridão absoluta nas salas de projeção, presença do lanterninha, eventual presença de um comentador em alguns casos, manutenção de ambientes limpos, arejados etc. Assim, junto com a estabilização da indústria do cinema inicia-se a criação de um padrão ambiental para o consumo de filmes, um padrão narrativo e um processo de massificação de um gosto pequeno-burguês. (p. 66-67)
Conforme temos apresentado, a forte disciplinarização via aprisionamento dos corpos num espaço tradicionalmente marcado por expressões festivas e transgressoras, algumas delas ingênuas (palavrões proferidos ao lado do pai sem ser repreendido pelo mesmo), outras nem
tanto (cânticos e ofensas machistas, racistas e homofóbicas, por exemplo), tem como objetivo criar um ambiente propício à apropriação desses espaços tradicionalmente populares por grupos de maior poder aquisitivo (torcedor-consumidor), que desejam desfrutar do espetáculo sem perturbações, algo que afeta tanto as torcidas organizadas quanto as torcidas de alento.
Tomemos como exemplo a Geral do Grêmio. Sua marca registrada era a “avalanche”
executada logo após os gols da equipe no antigo Estádio Olímpico. Durante a execução do movimento, seus componentes desciam correndo os degraus da arquibancada inferior, chamada popularmente de “geral”, por apresentar uma pior visão do campo e por cobrar os ingressos mais baratos (RODRIGUES, 2012), em direção à mureta que separa aquele setor da área gramada, como se fossem ao encontro da equipe, num espetáculo de forte impacto visual.
Entretanto, em 2012, com a inauguração da nova casa da equipe, a Arena do Grêmio, mesmo que o local da avalanche tenha sido “preservado” com a não instalação de cadeiras atrás de um dos gols, logo numa das primeiras partidas disputadas no local, um acidente durante a realização da avalanche deixou oito feridos, que tiveram os corpos espremidos contra o muro.
Em vez de se discutir a falha no projeto arquitetônico (por que isso jamais ocorrera no Olímpico?), a culpa recaiu sobre o “mau comportamento” do público. Dessa forma, ficou decidido que, como forma de “preservar a segurança do torcedor”, o setor fosse isolado das demais partes e que fossem instaladas barras metálicas de contenção, o que inviabilizou a repetição daquela manifestação coletiva189.
3.7.1 O torcedor avulso
Compreendemos o torcedor avulso tradicional como um indivíduo pertencente a qualquer classe social, que frequenta o estádio de futebol (sozinho ou acompanhado de amigos e/ou familiares) sem possuir vínculo formal com qualquer coletivo torcedor, algo que em nada diminui o seu amor pelo clube. Para ele, o ato de torcer é, acima de tudo, uma expressão individual, o que não impede que, eventualmente, participe do espetáculo sonoro, corpóreo e visual promovido pelos MOTs. A paixão pelo futebol não é apreendida como uma identidade de caráter transitório. Seu amor ao clube é incondicional, avesso a modismos.
Trata-se de uma figura tradicional, sem envolvimento habitual em atos violentos, que, mesmo
189 Fonte: http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2013/05/29/apos-acidente-em-avalanche-geral-da- arena-do-gremio-esta-liberada.htm Acesso em 27 de agosto de 2014.
com o auge das organizadas, sempre se fez presente nos estádios. É o que chamamos de espectador, porém, como forma de diferenciá-lo das demais expressões individuais de torcer, utilizaremos a denominação espectador clássico, no sentido de que ele compreende como espetáculo o jogo em si e todo o ambiente que o envolve. Mesmo adotando uma postura contemplativa, apresenta uma percepção aguçada a respeito do esporte e compreende a festa promovida nas arquibancadas como parte do espetáculo, da mesma forma que um conhecedor de pintura admira um belo quadro. Complementando a nossa caracterização, Aragão (2013) descreve esse interessante e tradicional personagem dos campos de futebol da seguinte forma:
Chegam geralmente sozinhos, sem camisas que caracterizam o time; muitas vezes não usam as cores da agremiação, embora seja possível vê-los também com pessoas mais jovens, provavelmente membros de sua família ou amigos. Costumam sentar- se distante das aglomerações do estádio. Durante o jogo, como os outros presentes, acompanham minuciosamente o andamento da partida, muito interessados com o que se desenvolve no campo. A alegria e a tristeza nos momentos da partida não são acompanhadas de grandes gestos que tornariam essas emoções mais visíveis (p. 24).
Nos últimos anos, seguindo a lógica comercial que rege o futebol, o torcedor tradicional e o espectador clássico, ambos ganharam uma versão “comoditizada”, o torcedor- consumidor. Seu gosto pelo futebol, apesar de incontestável, não pode ser medido de acordo com a presença constante aos jogos, mas sim pela compra e exibição de produtos relacionados ao futebol e ao seu clube do coração. Suas incursões ao estádio ocorrem principalmente em partidas de caráter decisivo ou em grandes eventos esportivos. Caracterizado como sendo de médio ou alto poder aquisitivo, possui uma postura ativa no consumo e passiva (ordeira) na plateia. É objeto de desejo dos administradores das novas arenas e dirigentes dos clubes.
Como forma de ocupar os novos espaços, atrair o torcedor-consumidor e, principalmente, transformar em hábito a sua afluência aos jogos de futebol, os clubes procuram vincular a paixão e a fidelidade torcedoras ao desembolso de uma soma mensal que daria a ele, em contrapartida, uma série de vantagens no acesso aos jogos e na compra de mercadorias nas redes de produtos e serviços associados a esses planos. Surge o sócio- torcedor.