SEÇÃO 2 PNEUMATOLOGIA HERMENÊUTICA EM JÜRGEN MOLTMANN
2.3 A Trindade e o Espírito
2.3.4 A doutrina trinitária do reino e a liberdade
109 pensamento de Agostinho61. Ao mesmo tempo, no pensamento moltmanniano, a individualidade não pode ser deixada de lado, uma vez que ela tem um papel importantíssimo para a definição do ser pessoa e enriquecimento da vida por meio do colocar-se em relação com o outro.
Unificação e renúncia à individualidade em favor de uma unidade mais elevada não são meta da vida, mas sim o começo da rigidez e da morte. A dissolução da pessoa num sentimento comunitário oceânico e cósmico constitui um empobrecimento e não um enriquecimento da vida 62.
Não seria esse um convite para repensarmos nossos métodos de evangelização em que se busca, constantemente, uma uniformização da fé? Estaríamos nós, de alguma forma, pré- moldando a ação do Espírito ao pensar que somente no cristianismo poderíamos experimentar realmente a presença de Deus?
Ao mesmo tempo, não estaria aqui uma boa lente para se pensar o diálogo inter- religioso na atualidade? Afinal, se o Espírito tem como essência a comunhão e é próprio Dele dar a vida, então ali onde a vida é afirmada e onde as relações geradores e mantenedoras da vida em todas as suas formas são fomentadas, não poderíamos dizer que ali age o Espírito de Deus? Não seria isso um critério de discernimento acerca da ação do Espírito nas outras religiões que ainda não foi trabalhado pelos teólogos que entraram por essa via?
110 Nesse sentido, haveria no pensamento de Fiore a primeira forma do reino que é a do Pai, no qual Deus governa pelo seu poder e providência, sendo essa a idade da Lei, a segunda forma do reino que é a do Filho em que haveria a redenção dos pecadores, no qual Deus impera a partir do anúncio do Evangelho e dos sacramentos, sendo que nesse estágio o temor da Lei se converte em confiança em Deus e a forma do reino do Espírito em que os homens são renascidos pela força do Espírito. Aqui, Deus impera pela revelação e conhecimento imediato e há a passagem da categoria de filhos de Deus para amigos de Deus. Ao chegar nesse ponto, esse se torna o “dia da liberdade”, o “eterno sabbat”.
Para Moltmann, Fiore não exclui o Espírito do Reino do Filho, nem o Filho do Reino do Pai e nem o Espírito do Reino do Pai, de maneira que houvesse uma dissolução da Trindade na história, antes, cada pessoa da Trindade está presente em todas as formas de reino64. Assim, segundo Moltmann, não são as datações cronológicas que caracterizam o pensamento de Joaquim de Fiore, antes a ideia de transições qualitativas.
Assim como o reino do Pai e o reino do Filho urgem o reino do Espírito, para nele se completarem, assim também a liberdade do homem na história urge na direção do seu próprio reino, ou seja, a servidão divina deseja ser filiação divina, e a filiação divina deseja ser amizade divina. Trata-se de níveis da liberdade na relação com Deus. Eles representam transições na forma de saltos qualitativos, não um processo contínuo de desenvolvimento65.
A repercussão da teoria de Fiore na tradição teológica da Igreja é conhecida, porém Moltmann chama a atenção para a divisão que existe na doutrina reformada e ortodoxa a respeito da doutrina do ministério régio de Cristo em que se distingue também o reino natural, onde Deus governa com seu poder e pela sua providência, o reino da graça ou reino espiritual de Deus, onde Deus reina pela sua palavra e pelo Evangelho e o reino da glória ou reino dos céus, em que há a visão beatífica de Deus pelos que foram redimidos66.
Embora a semelhança com a doutrina de Fiore seja latente, uma diferença ressaltada por nosso teólogo reside no fato de que Fiore considera o reino do Espírito como último estágio da história, ou seja, como o dia sabático da história do mundo, sem, no entanto o considerar como fim da história.
64 Ibid., p. 208 Aqui, claramente, a ideia de Moltmann é contrária a ideia de Ratzinger desenvolvida em RATZINGER, Joseph. El Dios de Jesucristo: meditaciones sobre Dios uno y trino, 106 p. Para Ratzinger, Fiore pensava a relação do Espírito fora da relação com Jesus Cristo, o que claramente gera um problema trinitário.
65MOLTMANN, O Espírito da Vida: uma pneumatologia integral, p. 210.
66 Ibid., p. 211-213
111 Nesse sentido, o que há em Fiore são quatro reinos: o do Pai, do Filho, do Espírito e o reino da glória que substituirá toda a história. Dessa forma, a história do reino é trinitária e sua consumação escatológica, no reino que será o do Deus uno e trino.
Em contraposição, na doutrina do ministério régio de Cristo o que se percebe são somente dois reinos históricos e um escatológico, o que, segundo Moltmann, exclui o reino do Espírito, ou se junta esse ao Reino do Filho na formação do Reino da graça.
Moltmann considera, assim, a doutrina de Fiore mais rica que a doutrina dos dois reinos desenvolvida pela ortodoxia e pela teologia reformada. Com isso em mente e a fim de superar o grande fosso que vem desde a época do iluminismo entre necessidade e liberdade67, fruto talvez de uma apropriação da doutrina dos dois reinos por parte da teologia medieval que trabalhava a questão de natureza e graça, Moltmann assume os pensamentos de Fiore para o desenvolvimento de sua doutrina trinitária do reino. Deixa claro que não adota a divisão cronológica do pensamento de Fiore, mas entende “a história desse reino trinitariamente, no sentido de que os reinos do Pai, do Filho e do Espírito referem-se às fases e transições constantemente presentes na história como um todo68”.
Para nosso teólogo, entender a criação de forma trinitária abre o caminho para se pensar a liberdade. No reino do Pai, em sua paciência como relação ao mundo se encontra o espaço aberto e o tempo para a liberdade de suas criaturas. Da mesma forma, no reino do Filho há a libertação da escravidão do pecado e conduz à liberdade dos filhos de Deus. Nesse sentido, o reinado do Filho se manifesta no fato de que ele nos liberta para a liberdade69.
Esse reino do Filho antecipa o reino do Espírito. O reino do Espírito é experimentado por aqueles que foram libertados pela ação do Filho, o que mostra a densa ligação que há entre o reino do Filho com o do Espírito e o do Filho com o Pai e, transitivamente, o reino do Espírito com o do Pai.
Para Moltmann, é na experiência do Espírito que sentimos a liberdade para a qual o Filho nos libertou (cf. Gl 5). Com isso, o homem passa a ser amigo de Deus. No Espírito, experimentamos, desde já, as energias da nova criação de todas as coisas; há uma antecipação
67 A discussão acerca da necessidade e liberdade é extremamente antiga na teologia cristã. Desde Agostinho já percebemos traços dessa discussão. Mais tarde, a discussão de Lutero e Erasmo a respeito do livre arbítrio também versa sobre esse problema. Na Idade Moderna, Kant, Hegel, Schelling, dentre outros, trabalharam essa temática, no intuito de dar uma resposta à questão da liberdade humana. Esse problema teológico e filosófico ainda permeia o pensamento contemporâneo com o avanço da neurociência.
68Ibid., p. 213.
69 Ver também MOLTMANN, O caminho de Jesus Cristo, p. 154-157.
112 do reino da glória. Porém, esse reino do Espírito ainda não é o reino da glória, somente antecipação.
O reino do Espírito não pode ser simplesmente identificado com o reino do Filho, pois o Filho se faz homem, enquanto o Espírito nele inabita. No Espírito, não há encarnação e condição de servo. O reino do Espírito também não pode ser identificado com o reino escatológico da glória, pois o Espírito, baseado na comunidade de Cristo, já é experimentado corporalmente aqui na história. O reino do Espírito é histórico. Ele pressupõe o reino do Pai e o reino do Filho, e juntamente com o reino do Pai e com o reino do Filho aponta a seu modo para o reino escatológico da glória70.
Por fim, o reino da glória é o reino da consumação do Pai, a implementação da libertação do Filho e a plena inabitação do Espírito. Dessa forma, Moltmann liga a história do Reino com a história da promessa. A criação com suas belezas se torna promessa da glória, o reino do Filho se torna a promessa histórica da glória, onde há experiências e esperanças de amor, e o reino do Espírito se torna o despertar para o reino da glória, mesmo que frente às contradições da morte. Assim, tudo tende ao reino da glória de Deus, na nova criação de todas as coisas.
O reino do Pai, do Filho e do Espírito, como mostramos, abre o espaço para a liberdade, de maneira que no pensamento moltmanniano, falar em doutrina teológica do reino é falar em doutrina teológica da liberdade71. Para pensar a liberdade, Moltmann propõe três dimensões acerca desse conceito, a saber, liberdade como domínio, como comunhão e como futuro72.
A liberdade tratada como domínio, provavelmente, seja a mais comum. Nesse caso, temos a ideia de que livre é aquele que não é dominado por ninguém, é aquele que vence e subjuga, sejam aos outros, seja à sua própria vontade, sejam às determinações internas e externas a si. Embora a ideia do subjugar remeta a um período das diversas guerras relatadas da antiguidade, se entrarmos no período do advento do liberalismo burguês, perceberemos que a imagem da liberdade como domínio ainda se faz presente, agora sob a condição da igualdade dos direitos para todos.
Uma vez que todos os seres humanos são livres e, como livres todos e todas devem ter os mesmo direitos, o limite da minha liberdade agora se encontra na liberdade do outro e, dessa forma, cada um reivindica sua própria liberdade respeitando a liberdade do outro, ou
70Ibid. p.215.
71Ibid., p. 220.
72Ibid., p. 216-223.
113 seja, em última análise, essa ideia de liberdade também traz, em si, também, a ideia do domínio.
A segunda determinação possível é a liberdade como comunidade. Nesse sentido, minha liberdade consiste em reconhecer e ser reconhecido pelos outros, e se manifesta quando compartilho minha vida com minha comunidade e essa comunidade compartilha sua vida comigo, em abertura de uns para com os outros. Assim, percebemos uma nova forma de se ver a relação entre sujeitos livres. O outro passa a ser complemento de minha liberdade e não mais concorrente dela ou, seguindo na linha de Hegel, a liberdade subjetiva se encontra em reconhecer o universalmente necessário, de maneira que o máximo de minha liberdade está no reconhecimento daquilo que devo fazer para a universalidade73.
A terceira determinação proposta por Moltmann é a da liberdade como futuro. Nesse sentido, a liberdade tem a ver com a relação entre sujeito e projeto, sendo assim uma iniciativa criadora. A liberdade como futuro está voltada para o Reino de Deus que há de vir e, dessa forma, motivada pela esperança, exerce sua função criativa de transformação do mundo.
Se olharmos com cuidado perceberemos que na ideia moltmanniana há uma espécie de tendência da liberdade, de maneira que “a liberdade como dominação só será superada em favor da liberdade como comunhão quando a liberdade enquanto futuro comum se apresentar em primeiro plano74”.
Da mesma maneira, há uma transformação qualitativa da liberdade ao longo do Reino de Deus uno e trino. Enquanto no reino do Pai, há a liberdade do servo de Deus que, mesmo dependente do seu Pai, é livre frente a todos os outros poderes desse mundo, no Reino do Filho, a liberdade passa a ser a dos filhos de Deus, que se desenvolve a partir do Filho e nunca fora dele, mesmo que mantendo a liberdade para o serviço do reino do Pai.
No reino do Filho, claramente, há uma mudança qualitativa, uma vez que os filhos pertencem à família, ao contrário dos servos, e são herdeiros do Pai. Enquanto no reino do Pai, os servos eram iguais devido à sua condição, no reino do Filho, a união se dá pela fraternidade da comunidade dos filhos de Deus.
No reino do Espírito, tanto a liberdade para o serviço quanto a liberdade dos filhos de Deus são mantidas, porém acontece outra transformação qualitativa. Agora os servos e os filhos passam a ser amigos de Deus, sendo a inabitação do Espírito o que permite com que
73 Cf. notas de aulas do curso de Filosofia ministradas por Joãosinho Beckenkamp.
74MOLTMANN, O caminho de Jesus Cristo, p. 220.
114 isso aconteça. Essa liberdade se torna possível no momento em que os homens se reconhecem em Deus e Deus neles, sendo essa a que Moltmann considera como a luz do espírito.
Para Moltmann, o que Deus deseja é a ousadia e a confiança dos que lhe são amigos e não somente a submissão dos servos e o reconhecimento dos filhos. Através do Espírito, a humanidade é feita amiga de Deus, de maneira que a oração passa a ser não mais mero pedido insistente, mas conversa partilhada.
Assim, as etapas da liberdade se mostram como reflexo da história do Reino de Deus e se mostram em crescimento e desenvolvimento qualitativo que aspira para a liberdade do reino da glória onde veremos a Deus face a face e participaremos ilimitadamente na vida eterna, na glória de Deus.
Perguntamo-nos se teria esse pensamento alguma implicação na práxis cristã que constantemente clama que Deus é o Senhor sobre toda a terra? Será que o discurso cristão acerca da liberdade tem se alinhado com aquilo que as Escrituras nos mostram acerca das experiências de libertação do povo de Deus? Se observarmos ao longo das narrativas de libertação do texto bíblico, seja a do êxodo com relação ao rei tirano, seja a da ressurreição de Cristo com relação à tirania da morte, em ambas podemos perceber um caráter muito interessante com relação ao senhorio de Deus. Tanto o Deus que liberta Israel no Egito quanto o Deus que ressuscita, na força do Espírito, a Jesus dentre os mortos, a compreensão de Deus como Senhor se dá por seu caráter libertador e não por seu caráter de dominador nas linhas dos déspotas dos tempos em que os textos foram escritos. Daí se segue que o senhorio de Deus deve ser visto como um senhorio que conduz à liberdade e abre espaço para que a humanidade possa se realizar e não um senhorio que subjuga ao vencido.
Infelizmente, no meio cristão atual é possível perceber que grande parte das denominações tem tratado o senhorio de Deus como o senhorio dos déspotas do Antigo e do Novo Testamento. Nas pregações se manifesta o discurso do “nosso deus” contra o “deus deles”, onde, geralmente, o “deles” quer dizer os “marginalizados”, os “vagabundos”, os
“promíscuos”, os “não santos”, os “subversivos”, os de “outras religiões” etc. Esse discurso está totalmente de acordo com o princípio do Divide et impera do Império Romano, em que primeiro se isola, divide e separa para depois dominar e subjugar aqueles que foram vencidos.
Nesse meio a salvação tem mais a ver com a mudança de religião do que a vida tocada pela liberdade do Espírito.
Diante disso, recuperar a liberdade em perspectiva cristã e protestante significa regressar ao Deus narrado nas Escrituras, percebendo-o como o Deus que liberta e abre
115 espaço para a liberdade humana, o que implica protestar contra todas as formas de opressão que há em nossa sociedade civil e religiosa e lutar, com vistas no Reino de Deus que há de vir, contra os falsos discursos de liberdade que escravizam e tornam as pessoas dependentes de líderes e que nada tem a ver com o Deus libertador que promove a comunhão.
A questão da liberdade no pensamento de Moltmann, uma vez que é totalmente ligada à questão do Espírito, também não nos dá um leque para pensarmos o diálogo inter-religioso na atualidade? Se o Espírito age da forma que quer, como vento que sopra onde deseja, não estaria nisso um aporte para se pensar a liberdade do Espírito em sua ação em religiões que não professam a mesma fé no Cristianismo?