De acordo com os dados obtidos e apresentados na Figura 14, do total geral de sujeitos, a maioria (61,1%) considera que os adolescentes se interessam pelo tema sexualidade. Entre os professores, existe maior concordância de que esse interesse é excessivo (40,0%) em relação aos técnicos (9,1%). Ao mesmo tempo, nenhum destes considera que esse interesse é pequeno ou não existe, mas entre os professores essa possibilidade foi representada, embora de maneira inexpressiva (4%).
Figura 14 – Percepção dos professores sobre o interesse dos alunos e alunas sobre o tema sexualidade
Os sujeitos também expressaram suas opiniões em relação às fontes de conhecimento sobre o assunto entre os alunos (“Em sua opinião, onde seus alunos buscam informações sobre sexualidade?”) e as respostas foram variadas. Todavia, entre os entrevistados, predomina o consenso de que as maiores fontes de informação são os pares e a internet, sendo conjuntamente citadas a televisão e revistas:
“Com os colegas” (PROFESSOR 01).
“Na internet, principalmente entre eles (conversas)” (PROFESSOR 02).
“Com outros colegas no uso do computador” (PROFESSOR 05).
“Com os próprios colegas, internet, televisão” (PROFESSOR 06).
“Internet e revistas voltadas para o público feminino” (PROFESSOR 22).
“Na mídia, nas redes sociais e entre os amigos de mesma faixa etária” (TÉCNICO 04).
“Internet e roda de "amigos"” (TÉCNICO 08).
“Com os colegas, na internet, etc.” (TÉCNICO 11).
Segundo os sujeitos da pesquisa, os pais raramente são consultados pelos adolescentes quando o assunto é sexualidade. Jardim e Brêtas (2006) consideram que esse panorama geralmente é contestado pelos professores:
“Alguns com os pais, mas a maioria na internet ou trocando informações entre eles” (PROFESSOR 09).
“Uns com os outros em primeiro momento, em tv, internet, e por último, com pais e responsáveis escolares (O.E., etc)” (TÉCNICO 01).
Quando perguntados sobre as problemáticas enfrentadas pelos alunos no que diz respeito à sexualidade (“De acordo com sua percepção, quais são as problemáticas e desafios enfrentados por seus alunos, relativos à sexualidade?”), os relatos se mostraram marcados por uma representação da adolescência enquanto fase do desenvolvimento universal, caracterizada por conflitos e problemas de ordem sexual (ABRAMOVAY et al., 2004; ROSISTOLATO, 2003; ALTMANN, 2007).
A iniciação precoce, a gravidez na adolescência e as “descobertas” são as questões mais recorrentes:
“Início da puberdade; transformações no corpo; desejo pelo outro;
namoro; beijos; abraçar” (PROFESSOR 01).
“Início precoce de uma vida sexual ativa; gravidez na adolescência;
opções sexuais cada vez mais precoces, parece que experimentam de tudo” (PROFESSOR 18).
“Sexualidade aflorada muito cedo sem maturidade, gravidez na adolescência, desinteresse estudantil, opção sexual, preconceitos, pais mal informados” (PROFESSOR 20).
“A gravidez precoce é muito recorrente e a perda da virgindade é muito banalizada em meninas com idade de imaturidade total. A falta de conhecimento sobre o corpo humano e aparelho reprodutor também geram um estado de desinformação de inabilidade para lhe
dar com as questões do corpo. Por fim, a reprodução social vivida por essas famílias, sugere um estado de acomodação e permissividade perante os "casamentos" precoces” (PROFESSOR 22).
“Os mesmos passam por uma fase de descobertas, mudanças, que acarretam em muitas dúvidas e conflitos” (TÉCNICO 04).
“Sexo na adolescência, gravidez na adolescência, mudanças corporais, etc.” (TÉCNICO 11).
A falta de informação e a existência de conhecimentos equivocados é igualmente considerada como uma grande problemática pelos professores, ao lado dos problemas sociais e da participação (ou a pequena participação) da família.
Como destaca César (2009a), a informação tem recebido status de melhor alternativa para a prevenção, e a escola, o lugar ideal, ao mesmo tempo em que a família é acusada de não cumprir suas funções nessa tarefa (JARDIM; BRÊTAS, 2006). Entretanto, para Furlani (2011), a informação não resulta necessariamente em estratégia efetiva de prevenção, o que precisa ser questionado pelos entrevistados:
“A falta de informação sobre o assunto” (PROFESSOR 03).
“Falta de conhecimento sobre o assunto e expectativa de vida, eles se contentam com muito pouco” (PROFESSOR 04).
“Falta de esclarecimento por parte da família que deveria ser a primeira a orientar bem. Muitas vezes vêem coisas que não deveriam ver, ouvem coisas que não deveriam ouvir, não há respeito pela criança ou adolescente” (PROFESSOR 05).
“Falta de diálogo e informações erradas são grandes desafios”
(PROFESSOR 07).
“Desconhecimento e curiosidade. Às vezes perplexidade”
(PROFESSOR 08).
“Penso que falta informação e conscientização da família para orientar os filhos” (PROFESSOR 11).
“A ignorância sobre a sexualidade e este tema” (PROFESSOR 15).
“Falta de conhecimento sobre o assunto em plena puberdade”
(PROFESSOR 25).
“Conhecer e compreender seu próprio corpo; a banalização da sexualidade; gravidez na adolescência; falta de diálogo com os pais”
(TÉCNICO 10).
Essas dúvidas e falta de informação são acompanhadas de falta de espaço para o diálogo e a discussão, fato já identificado em pesquisas anteriores (RIBEIRO, 2004; FIGUEIRÓ, 2009; 2010):
“Banalização do sexo; pouco orientação; ausência de situações para expor suas angústias” (PROFESSOR 16).
“Dúvidas, muitas dúvidas. Tanto no ponto de vista social como sexual. É o momento em que os jovens passam por transformações e normalmente existe a falta de diálogo com os pais ou outros que poderiam ajudá-los e quando encontram uma professora como eu eles adoram, porém tenho que ter cautela e segurança no que falo.
Mas adoro!” (PROFESSOR 17).
“Falta de diálogo; medo e curiosidade; falta de informações corretas, etc.” (TÉCNICO 02).
“Eles querem falar sobre sexualidade e tirarem suas dúvidas também” (PROFESSOR 15).
Ao mesmo tempo, os entrevistados apontam para o desenvolvimento de ações conjuntas, entre outras possibilidades:
“Desinformação; Falta de incentivo por parte da escola, dos docentes e dos profissionais que fazem parte do processo de ensino-aprendizagem, tendo, portanto, que haver a participação de profissionais também de apoio, administrativo, juntamente com o corpo docente” (PROFESSOR 02).
“Como já foi dito, a gravidez adolescente é algo que parece comum nesta comunidade. Acredito que é possível mostrar outros caminhos, outras possibilidades, ou seja, é necessário incentivar a continuação dos estudos para que obtenham uma profissão e possam aprender a pensar e a sentir” (TÉCNICO 09).
Ao contrário do que pensam Silva e Soares (2013), as condições sociais e culturais dos alunos, sobretudo dos jovens presentes nesses espaços, nem sempre são ignoradas ou desconhecidas pela escola, o que refuta em parte, a hipóteses inicial de que as estratégias desenvolvidas nas escolas são descontextualizadas.
Relatos que indicam preocupação com a realidade social do público-alvo das ações frente a sexualidade nas escolas foram encontrados em diferentes questões abertas.