2.2 A voz
2.2.1 A voz de Deus do Antigo Testamento
2.2.1.3 A voz da Torah – Js 24
A voz de Deus institui Aliança, ao estabelecer uma relação de mútuo reconhecimento e fidelidade. Por isso, é dela que emana a Torah do Sinai, no meio do fogo, como testamento e herança dessa relação de Aliança; enquanto é também ela que chama cada um à fidelidade, de modo pessoal, como o cicio de uma brisa. Testemunha e sacramento da Aliança que Deus
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faz com cada israelita, as Escrituras tornaram-se um lugar privilegiado para ouvir a voz do Senhor. Em muitos textos, as Escrituras e a voz de Deus se tomam, indistintamente, quase como sinônimos62.
Um episódio que, além de significativo na trajetória do povo, remonta essa confluência semântica entre a voz de Deus e a Torah se encontra em Js 24. Sucessor de Moisés, Josué também desempenhou funções pastoris de liderança, guiando o povo na conquista de Canaã. No cap. 24, ele exerce pela última vez esse ofício e “reúne” (Js 24,1) as tribos de Israel, seus anciãos e chefes, para uma decisão importante: a renovação da Aliança.
Para isso, principia: “Assim diz o SENHOR, Deus de Israel...” (v. 2b); e prossegue com a narrativa da história do povo, conforme contida nas Escrituras. Séculos mais tarde, “o escriba Esdras” será ainda mais literal: abrirá o “livro da Lei de Moisés” e o lerá da manhã ao meio- dia diante do povo (cf. Ne 8,1s.).
“Assim diz o SENHOR...” (Js 24,2). E o que Ele diz? Diz a história da Aliança que firmou com seu povo; diz o modo como Israel compreendeu-se como Povo de Deus; diz dos encontros e desencontros dessa relação de conhecimento e luta pela fidelidade (cf. Js 24,2b- 13) – Deus diz a Torah. A partir do reencontro com essa história que é sua, de cada um, o povo já pode responder à questão de Josué: com todas as consequências e graves responsabilidades que a relação de Aliança implica, o povo deseja servir ao SENHOR ou aos deuses daquelas terras? (cf. Js 24,14-23). A resposta surpreende, porque vai além da pergunta de Josué, retomando aquela categoria do Dt:
Disse o povo a Josué: Ao SENHOR, nosso Deus, serviremos e obedeceremos à sua voz (Js 24,24)
“O SENHOR é nosso Deus, a Ele serviremos”. Não como escravos que sustentam com trabalho e sangue a glória de seus deuses. Pois isso é exatamente a idolatria à qual o povo acaba de renunciar. O povo servirá ao Deus como quem estabeleceu uma relação de Aliança, que implica ouvir a sua voz e reconhecer nela aquele mesmo caminho de liberdade que Josué acaba de recordar com a narrativa das Escrituras. O povo se compromete, antes de tudo, a prestar ouvidos à voz do Senhor, exatamente o primeiro de todos os mandamentos e horizonte da obediência que significa fidelidade (cf. Dt 6,4).
62 Dt 30,10; Jr, 32,23; 44,23; Dn 9,10.
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A Toráh é, portanto, testemunho da voz de Deus, ou seja, registro dos encontros do amor que fundamenta a Aliança. Um livro que não é santo em si – porque nenhum livro ou qualquer outro objeto pode ser santo, frente Àquele que é “o” Santo – mas que ganha sentido quando sua letra é vivificada por essa voz fundante, quando capaz de comunicar os mesmos segredos anunciados pela voz, quando lido e assimilado a partir da experiência de prestar ouvidos à voz. O povo em Siquém soube responder: “serviremos ao SENHOR e obedeceremos à sua voz” (Js 24,24), antes de qualquer outra obediência que seja requerida. A voz de Deus nunca será aprisionada num livro, sob a imobilidade de uma palavra escrita, embora o testemunho de quem já ouviu a voz possa ajudar outros a reconhecê-la. Assim, para que ninguém se engane, por esquecimento ou maldade, e tente petrificar a fluência da voz na fixidez das letras, a própria Escritura guarda a advertência:
Sl 19
1 Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.
2 Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.
3 Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhuma voz;
4 no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo [...].
Os céus, o dia e a noite proclamam a voz de Deus e as palavras enunciadas por essa voz. Deles não se ouve um texto, um discurso, uma lei... Mas é na beleza deles que, para o salmista, a voz de Deus ecoa para os confins do mundo. Não sem razão, essa voz é reconhecida e reverenciada das mais diferentes formas, em lugares e situações estranhos às letras religiosas.
É a mesma liberdade que se encontra na palavra profética. Antes de ser texto, a profecia foi anúncio à viva voz, não raro incômodo e inoportuno a certos modos de ler as Escrituras. Mas, em tempos de estreitamento e sufocamento, o profeta entendeu que a voz de Deus estava para além dos limites estabelecidos e ousou proclamá-lo como voz viva, que diz a cada momento o alento e o anátema necessários63. Na intrepidez da voz profética, fez-se ouvir a voz autoritativa e performativa de Deus. O critério para identificar essa voz, na Lei ou nos Profetas, permaneceu o mesmo: o horizonte da Aliança, o chamado a uma obediência que se enraíza no amor e na confiança, o convite a de novo rever os próprios passos nos caminhos da fidelidade e da verdade. O profeta mesmo parte e fala porque ele mesmo foi alcançado pela
63 São numerosas as passagens em que, sob determinadas condições, os profetas se ergueram contra costumes e prescrições estabelecidos, inclusive nas Escrituras.
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voz e dela recebeu esse encargo. Nas palavras de Isaías: “ouvi a voz do Senhor, que dizia: ‘A quem enviarei, e quem há de ir por nós?’. Disse eu: ‘Eis-me aqui, envia-me’”.
No fim desse itinerário da voz de Deus no Antigo Testamento, a seguinte observação de Keener parece significativa. Considerando inusitada a insistência na categoria “voz” em Jo 10, ele diz que:
... João pode adaptar a frase para recordar a concepção bíblica da “voz de Deus” para o seu povo, que era muitas vezes equivalente à palavra de aliança através da lei e dos profetas. Israel especialmente ouve a voz de Deus no Sinal (Dt 4,33.36; 5,22-26; 18,16), como alguns intérpretes judeus primitivos reconheceram (1QM 10,10-11). Na Escritura, a voz de Deus era sua mensagem a seu povo através da lei e/ou dos profetas; assim, Israel ouviu, isto é, escutou ou obedeceu à voz de Deus (Ex 15,26; 19,5) (KEENER, 2012, v. 1, p. 807).