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Algumas questões de pesquisa

No documento Sarah Nery Siqueira Chaves #Ocupa (páginas 68-72)

Ao final desses quatro anos de doutorado e com o tema de minha pesquisa coincidindo com os intensos acontecimentos políticos globais dessa época, me vi perdida muitas vezes. A pesquisa começou com um grupinho de 15 jovens que aderiram ao movimento global occupy numa praia urbana de um bairro de classe média alta em uma cidade de 500 mil habitantes. E, após um processo aparentemente morno em 2012, ainda que com inúmeros pequenos ocupas ao longo do ano, a tática #Ocupa passa a ser adotada no Brasil inteiro em 2013, sem falar no resto do planeta. Nesse momento, pensei que minha pesquisa se ampliava demasiado e eu não poderia ir tão longe. Era impossível dar conta de tantos acontecimentos, ainda que eles apresentassem algumas características comuns e ainda que eu identificasse em todos eles o aspecto central da investigação que me propus a fazer no campo da Educação: o poder transformador e, logo, educativo da experiência. Por isso, ao final de toda essa caminhada, foi necessário voltar para o ponto de partida e reencontrar os sujeitos do Ocupa Niterói para praticar umas das nossas maiores “lições” do Ocupa: estar juntos, dialogar e aprender com o outro. E assim, no quarto capítulo, a pesquisa retorna para as experiências dos ocupantes e percebe que o Ocupa Niterói foi uma experiência formadora de uma nova cidadania e segue compondo os modos de estar no mundo dos sujeitos envolvidos desde então.

Ao encontrar-me com esta pesquisa, ainda em 2011, uma das primeiras questões que emergiram foi: como pesquisar estando completamente imersa no campo? É possível pesquisar o Ocupa sendo uma ocupante? Em muitos dos acontecimentos descritos aqui, sei que me despi do papel de pesquisadora inúmeras vezes, já que a pesquisa nasceu quando eu já estava envolvida com os acontecimentos enquanto sujeito histórico e sujeito da experiência, sem contar que os acontecimentos em si foram muitas vezes arrebatadores. Felizmente, os estudos sobre método nas ciências humanas me fizeram compreender que era possível e até necessário pesquisar e produzir conhecimento de maneira semelhante ao método dialógico que praticávamos na própria ocupação, desde que eu soubesse pesquisar com os sujeitos – e não só sobre eles ou até apesar deles. Assim, a imersão no campo e o envolvimento com os jovens ocupantes, obrigou-me a encarnar uma nova maneira de fazer ciência, que não só

assume como escolhe intervir em seu meio para a transformação de si, do outro e do mundo.

O segundo capítulo abordará essas questões teórico-metodológicas.

Apesar de encarar a proximidade como método, os acontecimentos também exigiram a necessidade de tomar distância para contextualizá-los em seu processo histórico. Foi então que comecei a seguir as pistas que os próprios acontecimentos me sinalizavam e fui ampliando o contexto mais imediato do objeto, que envolvia a Primavera Árabe, os Indignados europeus e o Occupy Wall Street, para então rememorar alguns acontecimentos que me ajudaram a compreender os levantes contemporâneos, como o emblemático ano de 1968, o simbólico levante zapatista e os carnavalescos movimentos dos anos 90, além da revolta popular de 2001, na Argentina. No entanto, a rede de relações que contextualiza os ocupas na história pode ser tão extensa quanto uma narrativa que começa em Canudos e chega até as favelas cariocas (que inclusive ganharam este nome de Canudos). Enfim, não sendo possível dar conta de todas essas relações, algumas delas aparecerão no terceiro capítulo enquanto reminiscências de um passado que relampeja, nas palavras de Benjamin, autor que acompanha todo o texto com suas reflexões, principalmente, em “Sobre o conceito de História” (1940), “Experiência e Pobreza” (1933) e “Experiência” (1913), mas em muitos outros artigos que me ajudaram a refletir sobre os acontecimentos presentes.

Este estudo pode ser pensado, assim, numa esfera macro e micro. Há, sem dúvida, uma rede global de relações entre os ocupas, ocuppies, indignados, ativistas e todas as ocupações do espaço público promovidas pelas grandes e pequenas multidões que se levantam em todo o mundo desde a Primavera Árabe. Por outro lado, há o riquíssimo cotidiano e as especificidades de cada um desses acontecimentos, cada ocupação, cada ato, cada levante, a experiência corporal do estar-lá compartilhando um espaço-tempo com outros sujeitos, o que faz de cada Ocupa um acontecimento completamente singular para cada sujeito participante. As duas esferas, micro e macro, são interrelacionais e complementares, tecendo uma complexa trama entre cada sujeito, cada ocupa, cada contexto nacional e global - cada parte relacionando-se com o todo. O conceito benjaminiano de mônada me ajuda a compreender essa relação entre partes-todo: “Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada” (BENJAMIN, 1994, p. 231) A mônada deste estudo é o Ocupa Niterói, que apresenta uma “configuração saturada de tensões” que pode nos ajudar a compreender diversos outros fenômenos relacionados a este no mundo.

Assim, do campo da pesquisa emergiram as categorias a partir das quais eu pude ler o acontecimento em diálogo com os estudos no campo da educação. A primeira categoria a

emergir foi juventudes, escrita aqui no plural em sintonia com os estudos das culturas juvenis que rejeitam uma concepção única e homogeneizadora dos jovens, tema que é discutido no segundo e no quarto capítulos. Essa categoria surgiu quando eu passei a me envolver no Ocupa Niterói e críticas externas diziam que os ocupantes eram “jovens demais”. Senti esse corte alteritário quando eu mesma me perguntava se seria então “jovem demais” ou “adulta demais” para estar ali, aos 29 anos, já sendo mãe, professora etc., ao lado daqueles sujeitos que, em sua maioria, eram estudantes de 16 a 20 anos. Questionei-me então, junto dos autores que estudam as juventudes: o que é ser jovem na contemporaneidade? Por que as práticas juvenis são desqualificadas no discurso adulto? Quais são os modos juvenis de dizer-se na relação cidades-ciberespaço? O que dizem os jovens com suas práticas cidadãs emergentes neste início de século XXI?

A cidade e o espaço público também emergiram como categorias comuns nos diferentes levantes pelo mundo que parecem todos reclamar pelo “direito à cidade”, como diz Harvey (2013, p. 38-43), citando Lefebvre (2001). Pelo direito de intervir nas decisões políticas sobre o local onde vivem e de reconstruir espaços de convivência, de coletividade e de criação do que talvez Negri e Hardt (2005) chamam de “comum”, pois estaria além do público e do privado. Os Ocupas instituem então esse espaço comum que, além de ressignificar o território, transforma as relações das pessoas com a cidade ao promovem essa experiência fundamental: o encontro com o outro. Assim surge a categoria central para compreender o aspecto educativo que envolve todos os acontecimentos: a alteridade. O que motivou aquelas pessoas, em sua maioria jovens, mas também pessoas de todas as idades, a saírem de seus espaços privados e compartilharem o espaço público com sujeitos desconhecidos? Que fatores seriam responsáveis por essa disposição para a alteridade nos territórios Ocupas? O que acontece nesse encontro com o outro que faz as pessoas saírem transformadas da experiência?

Por fim, não há dúvidas de que a presença e mediação das redes sociais da internet e dos dispositivos móveis de comunicação, mas principalmente de uma cultura de rede promovida pela internet inauguram novas relações entre os sujeitos e as cidades e nos ajudam a refletir sobre as implicações desses usos para as práticas educativas e cidadãs. Além dessas tecnologias estarem intimamente relacionadas aos movimentos Ocupas, é fundamental colocar em perspectiva que a própria noção de rede é responsável pelas transformações que vêm acontecendo nas sociedades, que procuram inverter em diversos níveis uma lógica centralizadora e hierarquizada para dinâmicas mais colaborativas, abertas e horizontais. A internet vem sendo um laboratório de novas práticas que estão transbordando do ciberespaço e

afetando as instituições sociais, fazendo do Ocupa também um laboratório dessas novas redes de sociabilidade na cidade. Como escreveu Henrique Antoun (2010, p. 215), “ainda que não se possa prever o que resultará desta mudança radical, já se pode afirmar que as redes modificaram para melhor o perfil das sociedades”. Como se dá a relação dos ocupas entre as cidades e o ciberespaço? Como a cada vez mais presente cultura da rede afeta as novas produções de subjetividades, práticas políticas e cidadania?

Em síntese, essa pesquisa procura entender: como se caracterizam os processos educacionais nos espaços de cidadania instaurados pelos novos movimentos da sociedade civil, em especial, nos Ocupas? Como os jovens se constituem cidadãos na contemporaneidade? O que esses jovens pensam (ou repensam) sobre as ideias de cidadania, democracia e público? O que os jovens ocupantes narram de si e de suas aprendizagens no Ocupa? O que acontece quando algo nos acontece?

2 PESQUISANDO COM O OCUPA: A PESQUISA COMO TRANSFORMAÇÃO DE SI, DO OUTRO E DO MUNDO

Podemos ir mais longe e perguntar se a relação entre o narrador e sua matéria – a vida humana – não seria ela própria uma relação artesanal.

Não seria sua tarefa trabalhar a matéria-prima da experiência – a sua e a dos outros – transformando-a num produto sólido, útil e único?

Walter Benjamin

No documento Sarah Nery Siqueira Chaves #Ocupa (páginas 68-72)