63 qualidade da matéria-prima. São analisados aspectos fundamentais para se obter um leite com boa qualidade física, química e microbiológica, tais como CCS, CBT, gordura e proteína. Segundo a empresa, por meio de uma parceria com fornecedores, os produtores de leite terão acesso a suporte especializado e condições especiais de insumos, equipamentos e serviços, no pilar da "infraestrutura".
Por fim, uma ação coletiva de destaque que merece ser relatada, voltada à governança da atividade leiteira regional, ocorreu na Comarca de Arroio do Meio46. Essa foi a primeira região no Brasil a instituir o saneamento da tuberculose e da brucelose bovinas por área geográfica municipal. Em 2008, um produtor de leite de Arroio do Meio teve 60% de seu rebanho descartado por tuberculose. Presumivelmente, seus animais teriam sido infectados por bovinos vizinhos. Indignado com a situação, o pecuarista buscou a Promotoria de Justiça, que promoveu uma grande parceria público-privada envolvendo os produtores rurais, o MAPA, a Seapa-RS, o Fundo Estadual de Sanidade Animal (Fundesa) e as prefeituras e os sindicatos de trabalhadores rurais da região. Em 2009, foi lançado o projeto-piloto de certificação das propriedades rurais situadas na Comarca de Arroio do Meio como livres de brucelose e tuberculose bovinas. A referência adotada foi o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose Animal (PNCEBT), coordenado pelo MAPA. Até então, o PNCEBT vinha fazendo a certificação oficial por propriedade, dispondo-se, a partir do projeto-piloto, a experimentar a possibilidade de fazê-lo por região ou município, abrindo a possibilidade de potencializar largamente o número de propriedades rurais com aquela condição especial. Em razão desse status diferenciado, em 2013, oito laticínios que recolhem leite na região assinaram um termo de cooperação, comprometendo-se com o pagamento do valor adicional de R$ 0,015 por litro de leite saneado.47 O pioneirismo da região serviu ainda de inspiração para o Programa Estadual de Controle e Erradicação da Tuberculose e Brucelose Bovídea (Procetube). O Procetube também é uma iniciativa inédita no País, que prevê o saneamento de toda a área geográfica dos municípios gaúchos quanto à tuberculose e à brucelose bovídeas (bovinos e bubalinos), focando, inicialmente, as regiões produtoras de leite. Segundo a Secretaria de Agricultura e Pecuária (RIO GRANDE DO SUL, 2014), apesar de a incidência da tuberculose e da brucelose ser reduzida (abaixo de 1% do rebanho) e de não oferecer risco ao consumidor de lácteos industrializados, o saneamento oficial atende a uma prerrogativa básica à expansão do consumo de lácteos no mercado nacional e à efetiva entrada brasileira no mercado internacional.48
64 introdução de inovações de produtos, processos e formatos organizacionais, gerando maior competitividade para as empresas integradas ao arranjo.
Um aspecto fundamental da dinâmica de operação desses arranjos diz respeito à consolidação de práticas cooperativas entre agentes, as quais resultam em processos conjuntos de capacitação e aprendizado, responsáveis pela intensificação do ritmo de introdução de inovações e pela geração de diversos tipos de ganhos (em termos do aumento da eficiência produtiva e da ampliação de mercados, por exemplo) que reforçam o desempenho competitivo das empresas integradas a tais arranjos.
(BRITTO; STALLIVIERI, 2010, p. 317).
As informações secundárias disponíveis sinalizam que a predominância de competição entre as empresas especializadas na produção de laticínios dificulta a cooperação horizontal na aglomeração. O principal processo de capacitação e aprendizado induzido por essa concentração parece ser o que ocorre a partir da ação das empresas e das cooperativas agroindustriais sobre os produtores rurais, articuladas com as instituições locais de ensino e suporte, produtores rurais. A diferenciação de produto no setor lácteo, por exemplo, está, em grande medida, condicionada pela qualidade da matéria-prima, o que torna necessário o desenvolvimento de ações conjuntas, de interesse comum, entre os produtores rurais e as agroindústrias. O papel desempenhado por essa articulação na melhoria da produtividade e da qualidade do leite ofertado pela região merece ser melhor estudado.
O pagamento diferenciado aos produtores rurais segundo a qualidade e quantidade ofertada está entre as principais práticas desenvolvidas pelas cooperativas locais para induzir a inovação e o aperfeiçoamento técnico-produtivo nas propriedades rurais. A Figura 11 ilustra a política de originação seguida por uma das cooperativas atuantes na industrialização do leite no Vale do Taquari. Segundo reportagem de Colussi (2015), até 20% do preço recebido pelo produtor de leite pode vir de bonificações referentes à qualidade do produto. A descoberta de adulterações do leite e de seus derivados incentivou empresas do setor a ampliarem esse tipo de prática comercial e deixarem de receber leite de produtores sem resfriadores a granel, uma das exigências da IN 62.
Além das divisões de pesquisa e desenvolvimento das cooperativas agroindustriais, há um conjunto de instituições com relevância para o aprendizado tecnológico e o desenvolvimento de inovações na cadeia produtiva de laticínios. Dentre elas, destacam-se a Univates, o Tecnovates, a UERGS, a Emater e o Colégio Teutônia.
Não existem informações secundárias disponíveis a respeito das fontes das informações utilizadas pelas empresas em seus processos de aprendizado. O mesmo se verifica em relação à intensidade dos esforços tecnológicos realizados pelas firmas integradas à aglomeração e à sua performance inovativa. Esse tipo de informação somente poderá ser obtido por meio de estudo de campo. Mesmo as informações sobre as práticas cooperativas também precisarão ser aprofundadas, dado o seu papel para o aprendizado e a inovação. O que se pode afirmar preliminarmente é que as atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação da empresa BRF — e isso deve persistir com o ingresso da Lactalis — são externas à Aglomeração.49 O mesmo possivelmente se verifique em relação à empresa LBR.
49 Segundo a página da empresa na Internet, as equipes de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) estão presentes em todas as etapas da cadeia produtiva da BRF, com unidades localizadas em Carambeí (PR), Curitiba (PR), Jundiaí (SP) e São Paulo (SP), no Brasil.
65 Figura 11
Política comercial diferenciada de uma das cooperativas do Vale do Taquari — 2015
FONTE: Colussi (2015).
Interessante notar que, no trabalho realizado por Schmitt e Alievi (2013), menos de um quinto das empresas pesquisadas atribuiu alta importância à proximidade com universidades e centros de pesquisa para a localização da empresa na região. A maior parte dos respondentes também atribuiu baixa importância para a qualidade da mão de obra e a proximidade com produtores de equipamentos. Esse quadro pode refletir menor dependência da atividade agroindustrial — pelo menos na forma como está organizada — em relação à incorporação de novos conhecimentos e tecnologias na produção. A proximidade dos fornecedores de insumos e matéria-prima, a proximidade com os clientes/consumidores e a infraestrutura
66 física (energia, transporte, comunicações) se destacaram como principais fatores de importância para a localização das empresas na região.
Considerações finais
O presente estudo procedeu à caracterização preliminar da AP Laticínios do Vale do Taquari, sob os pontos de vista econômico, social e produtivo. As informações levantadas serão utilizadas para instrumentalizar o estudo de campo a ser realizado junto aos principais atores locais (empresas, instituições, etc.), com vistas à caracterização e à análise da aglomeração segundo o recorte analítico baseado no conceito de APL.
Em termos específicos, o estudo de campo tem como objetivos: (a) identificar os entraves à competitividade das empresas que compõem a aglomeração; (b) avaliar as vantagens locacionais existentes e o potencial de desenvolvimento engendrado no território, a partir da atividade leiteira e laticinista; (c) analisar os vínculos de articulação, interação, cooperação e aprendizagem entre as empresas e os produtores de leite aglomerados e destes com outros atores locais, tais como Governo, associações empresariais, instituições de crédito, ensino e pesquisa.
Nesta análise preliminar, tornou-se evidente a significativa importância da cadeia produtiva de laticínios para a dinâmica econômica da região do Vale do Taquari, bem como sua relevância para o setor no Estado. A Aglomeração pode ser classificada como um núcleo de desenvolvimento setorial-regional, e sua origem vincula-se diretamente ao avanço da produção leiteira na região. Ao longo dos últimos 50 anos, a cultura de produção do leite foi criada e se enraizou entre os pequenos produtores locais, o que atuou como fator de atração da indústria de laticínios para a região.
A concentração da oferta de matéria-prima parece ter sido a principal razão para o estabelecimento da indústria de alimentos no Vale do Taquari, especialmente a de laticínios. Porém essa oferta local não é suficiente para explicar o avanço da atividade industrial de laticínios na região. Isto porque, conforme observado, o processo de industrialização do leite evoluiu num ritmo mais intenso do que a própria capacidade de produção nas propriedades rurais: o Vale do Taquari responde por apenas 8% da produção, mas detém quase um quarto do emprego da indústria de laticínios do Rio Grande do Sul. As vantagens iniciais de produção e a prosperidade econômica ensejada por ela parecem ter contribuído para o enraizamento da atividade industrial, manifesto no aumento do número de empresas e de postos de trabalho vinculados à atividade. Em certa medida, foram criados um mercado para fornecedores especializados e um incentivo ao desenvolvimento de habilidades específicas à atividade local. Para tanto, à abundância de matéria-prima parece ter-se somado a facilidade de distribuição da produção até os mercados consumidores — por via fluvial e rodoviária — como elemento de fortalecimento das vantagens competitivas locais.
A expansão da atividade principal também pode permitir o surgimento de ramos auxiliares, como os de fornecedores de insumos, de bens de capital e de serviços especializados, bem como o incremento do processo de aprendizado, do acúmulo e da difusão de conhecimentos por meio do desenvolvimento de
67 tecnologias e de instituições de apoio. Porém essas características são de difícil identificação à distância, tornando-se necessário auscultar o local. O mesmo se aplica ao detalhamento das relações de cooperação e às atividades desenvolvidas pelas empresas de menor porte. Disso decorre a importância do trabalho de campo.
O atual momento para a cadeia produtiva do leite na região é de instabilidade, decorrente da queda dos preços e da suspeição da qualidade do produto. Embora a Operação Leite Compensado tenha identificado irregularidades em diversas regiões gaúchas, o Vale do Taquari parece ter sido a mais prejudicada. À denúncia de envolvimento de indústrias da região na adulteração do leite somou-se a falência de empresas de médio e de pequeno portes, o que criou um ambiente de instabilidade sem paralelos. As cooperativas locais que atuam na industrialização do leite foram as menos atingidas por esse ambiente, o que pode ser capitalizado em seu favor.
Por fim, vale destacar que, nesta análise preliminar, foi possível identificar indícios da existência de vínculos pessoais, étnicos e culturais advindos da fusão entre a atividade leiteira e a população do território da AP Laticínios do Vale do Taquari. Isso é especialmente importante, haja vista que a confiança entre os atores, surgida pela interação contínua no âmbito do Arranjo, é frequentemente mencionada na literatura sobre APLs como sendo uma das condições elementares para viabilizar a ação coletiva consciente. Em meio ao atual quadro de instabilidade e de abalo da confiança entre os atores da cadeia do leite, parece ser decisivo que as instituições recompensem adequadamente os comportamentos positivos e punam os dissonantes, recuperando as bases em que se assenta a cooperação. Nesse sentido, é importante que os fatos trazidos à tona a partir da Operação Leite Compensado contribuam para depurar o mercado e recuperar a confiança entre os atores locais. O Codevat, a Univates e as cooperativas também podem assumir um papel de protagonistas para a criação de consensos quanto aos caminhos a serem traçados para o desenvolvimento da Aglomeração, o que em certa medida já ocorre.
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