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Aprovação da lei de cotas

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 79-84)

é de extrema para compreender o cenário que se desdobra não só no processo de implementação dessa legislação, mas também no próprio processo de tramitação. Em especial, o momento pós REUNI, onde grande parte das universidades federais já possuíam algum tipo de ação afirmativa. Essa questão será trabalhada na próxima seção.

pardos” e, também, do critério de renda que só foi adicionado nos últimos instantes da tramitação.

Essas mudanças refletem, em alguma medida, na principal discussão que permeava as ações afirmativas no momento da tramitação: a questão da reserva de vaga para pretos e pardos.

Esse debate já estava na esfera pública desde 2001, quando a UERJ adotou a reserva de vagas para estudantes pretos e pardos e adquiriu novos contornos com o caso dos “gêmeos da UNB”

no qual irmãos gêmeos idênticos, ao passarem pela verificação racial, apenas um foi aprovado.

“A repercussão pública da implantação do sistema de cotas na UnB foi ainda maior que a ocorrida na UERJ. Ta nto nos meios de comunica çã o socia l qua nto no meio a ca dêmico, a s crítica s reca íra m principa lmente sobre a utiliza çã o de fotogra fia s e a consequente instituiçã o de comissã o pa ra a va liá -la s – ironica mente definida como

“tribunal racial” da UnB.” (GALVÃO, 2009, p.83).

O grande desdobramento deste caso foi a apresentação de uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) perante o Supremo Tribunal Federal contestando a reserva de vagas para pretos e pardos na UNB. Ajuizado pelo partido Democratas (DEM) em 2009, o processo só foi julgado em 2012, pouco antes da lei n°12.711/12 ser aprovada. Assim, durante a tramitação dessa legislação, as discussões sobre ações afirmativas raciais se tornaram o centro do debate nacional (FERES JUNIOR; DAFLON, 2015).

Nesse contexto, quando os Projetos de Lei n°73/99 e n°3627/0450 chegam no Senado Federal, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) determina a realização de audiências políticas para debater a temática das “cotas raciais”51. Paralelamente a esse processo, como demonstra Feres Junior e Daflon (2015), o debate difundia-se amplamente nas mídias jornalísticas nacionais. Desse modo, entre 2001 e 2012, o jornal “O Globo” publicou 132 editoriais e notas de opinião que continham, dentre eles, “123 abertamente contrários, 5 ambivalentes e 4 que citavam de passagem as políticas sem proferir opinião explícita” (FERES JÚNIIR; DAFLON, 2015, p. 247).

Além disso, no campo intelectual, a temática das ações afirmativas também ganha espaço. Podemos exemplificar com os dois manifestos apresentados ao Congresso Nacional.

O primeiro no dia 30 de junho de 2006 com 114 assinaturas contrárias as cotas. E outro na data de 5 de julho de 2006 com 582 assinaturas a favor da criação dessa política (CAMPOS, 2008;

GOSS, 2009). Tanto na mídia, quanto na esfera intelectual, os argumentos conta as cotas raciais

50 No Sena do Federa l esses projetos, conjunta mente com a proposta híbrida do deputa do Ca rlos Aba ca lil, se torna ra m o Projeto de Lei n° 180/08.

51 Utilizo, a qui, o termo “cota s ra cia is” tendo em vista que esse era o principa l nome utiliza do na esfera pública pa ra denomina r a s a ções a firma tiva s pa ra pretos e pa rdos.

se debruçavam na ideia de que no Brasil é difícil se identificar racialmente os indivíduos e, por isso, esse mecanismo criaria um conflito racial. Também havia uma percepção de que as ações afirmativas, como um todo, diminuiriam a qualidade do ensino nas instituições de ensino superior federais” (CAMPOS; FERES JUNIOR, 2013).

As discussões começam a mudar de foco a partir do resultado do julgamento da ADPF 186 no qual o ministro relator Ricardo Lewandowski julga improcedente o descumprimento de preceito fundamental e o colegiado do STF segue o voto do relator52. Com isso, as ações afirmativas voltadas par destinadas a pretos e pardos se torna constitucional.

Isso posto, considera ndo, em especia l, que a s política s de a çã o a firma tiva a dotadas pela Universida de de Bra sília (i) têm como objetivo esta belecer um a mbiente a ca dêmico plura l e diversifica do, supera ndo distorções socia is historica mente consolida da s, (ii) revela m proporciona lida de e a ra zoa bilida de no concernente a os meios emprega dos e a os fins perseguidos, (iii) sã o tra nsitória s e prevêem a revisã o periódica de seus resulta dos, e (iv) emprega m métodos seletivos efica zes e compa tíveis com o princípio da dignida de huma na, ju lgo improcedente esta ADPF.

(SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, 2012).

A aprovação da lei n°12.711/12 ocorre quatro meses após este julgamento mantendo a reserva de vagas para estudantes pretos, pardos e indígenas como uma subcota. Por outro lado, incorpora-se uma nova reserva de vagas para estudantes com renda abaixo de um salário- mínimo e meio per capta. Assim, no momento de sua aprovação, essa legislação possuía dois critérios socioeconômicos e um racial. A adição de mais um critério socioeconômico foi lida pelos movimentos negros como uma tentativa de dificultar mais o acesso das pessoas pretas e pardas tendo em vista que as vagas serão seccionadas mais uma vez. (MIRANDA, 2020).

Nesse sentido, naquele momento, um curso no estado do Rio de Janeiro - onde há 51,8%

de pretos, pardos e indígenas segundo o IBGE - com 100 vagas, estas ficavam distribuídas da seguinte forma: 1) Treze vagas para estudantes oriundos de escola pública com renda familiar até 1,5 salário-mínimo autodeclarados pretos pardos e indígenas; 2) Treze vagas destinadas à pessoas oriundas de escola pública que independente da renda, se declarem pretas, pardas e indígenas; 3) Doze vagas para estudantes de escola pública que possuam renda familiar até 1,5 salário-mínimo e 4) doze vagas para alunos de escola pública independentemente de sua renda ou cor. Essa estrutura pode ser observada no fluxograma da lei criado pelo Congresso Nacional.

52O processo deta lha do pode ser a compa nha ndo em:

https://porta l.stf.jus.br/processos/deta lhe.a sp?incidente=2691269

Figura 2 – Fluxograma de distribuição de vagas no estado do Rio de Janeiro após a promulgação de lei n°12.711/12

Fonte: Congresso Na ciona l, 2012.

Disponível em: https://www2.ca ma ra .leg.br/a gencia /imagens/imgNoticia Uploa d1350340065068.jpg.

Acesso em: 15 dez. 2021.

Podemos observar no fluxograma acima como estavam seccionadas as vagas. Essa divisão permaneceu até 2016. Por outro lado, além da lei n°12.711/12, havia as legislações de operacionalização dessas vagas. Primeiramente, a operacionalização da lei ocorreu pelo Decreto nº. 7.824 pela Portaria Normativa do MEC nº. 18. Esta última tinha como foco definir certos termos apresentados na lei n°12.711/12 e apresentar os documentos mínimos para a comprovação de renda.

Art. 2o Pa ra os efeitos do disposto na Lei no 12.711, de 2012, no Decreto nº 7.824, de 2012, e nesta Porta ria , considera -se:

I - concurso seletivo, o procedimento por meio do qua l se seleciona m os estuda ntes pa ra ingresso no ensino médio ou superior, excluída s a s tra nsferência s e os processos seletivos destina dos a porta dores de diploma de curso superior;

II - escola pública , a instituiçã o de ensino cria da ou incorpora da , ma ntida e a dministra da pelo Poder Público, nos termos do inciso I, do a rt. 19, da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996;

III - fa mília , a unida de nuclea r composta por uma ou ma is pessoa s, eventua lmente a mplia da por outra s pessoa s que contribua m pa ra o rendimento ou tenha m suas despesa s a tendida s por a quela unida de fa milia r, toda s mora dora s em um mesmo domicílio;

IV - mora dor, a pessoa que tem o domicílio como loca l ha bitua l de residência e nele reside na da ta de inscriçã o do estuda nte no concurso seletivo da instituiçã o federa l de ensino;

V - renda fa milia r bruta mensa l, a soma dos rendimentos brutos a uferidos por todas a s pessoa s da fa mília , ca lcula da na forma do disposto nesta Porta ria .

VI - renda fa milia r bruta mensa l per ca pita , a ra zão entre a renda familia r bruta mensal e o tota l de pessoa s da fa mília , ca lcula da na forma do a rt. 7o desta Porta ria . (BRASIL, 2012b, p. 16).

Por outro lado, o Decreto nº. 7.824 enfatiza no processo de avaliação da implementação da lei. Criando, assim, um comitê de acompanhamento composto por dois representantes do Ministério da Educação, dois representantes da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e um representante da Fundação Nacional do Índio (BRASIL, 2012c). Outro ponto importante era a forma de adesão da lei no qual as instituições de ensino superior federais poderiam escolher, durante os primeiros quatro anos da lei, um percentual entre 12,5 e 50. Esse formato de adesão auxiliava na implementação da legislação.

Podemos observar que a tramitação e a aprovação da lei de n° 12.711/12 ocorreram de forma conflituosa. Havia uma discussão centrada na adoção ou não de critérios raciais. Como resultado desse processo, podemos assinalar que esses critérios foram adotados com ressalvas, ou seja, havia toda uma estrutura que desenhava a legislação conferindo um maior peso aos aspectos socioeconômicos. Além disso, como observado na seção anterior, havia todo um contexto de centralização das políticas para o ensino superior que influenciaram diretamente na promulgação da lei de cotas. Ilustramos esse cenário na Figura 3.

Figura 3 – Linha do tempo das políticas criadas para o ensino superior federal entre 2008 e 2012

Fonte: A a utora , 2022.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 79-84)