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Da etnografia à auto-etnografia

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 85-88)

Reforçando a natureza indisciplinar e hibrida (MOITA LOPES, 2006) das pesquisas em Linguística Aplicada e em Prática Exploratória (MILLER, 2012), inicio esta seção utilizando as palavras do antropólogo francês Michel Agier, em uma de

suas obras Encontros Etnográficos: interação, contexto, comparação (2015). Ao ler o trecho abaixo, em que Agier define o trabalho do etnólogo, percebo várias articulações possíveis com os trabalhos dos participantes de uma pesquisa em Prática Exploratória. Para o autor

O que o etnólogo transmite caminha lentamente da observação à interpretação, da prática à teoria. Iniciação, lição, aprendizagem, exercícios:

são palavras de um saber que nasce de uma longa relação com as pessoas de seu ‘campo’. [...]. Ele pesquisa relações sociais [...]. Os grandes acontecimentos assim como os pequenos momentos da vida ele acredita ser possível transformá-los em uma riqueza [...]. Ele passa um tempo imenso a observar a vida cotidiana, para lhe reconstituir a forma e o sentido [...]. As dores, as alegrias, as interrogações das pessoas que ele encontra e, sobretudo, suas respostas aos problemas, às vezes, às desgraças, que se apresentam a elas, constituem a base e a ‘matéria’ de sua reflexão. [...]. O que faz dele um antropólogo: sua pesquisa visa construir um saber sobre o humano [...]. (AGIER, 2015, p. 10)

Baseado na citação acima, assim como o antropólogo, o praticante em Prática Exploratória também parte da observação da prática à teoria (HANKS, 2017).

Ademais, as pesquisas nascem das pessoas, da valorização do humano e de suas relações nos mais diversos contextos, educacionais ou não. Considerando que o entendimento é mais importante do que a resolução de problemas (ALLWRIGHT;

HANKS, 2009), observar os detalhes de tudo que acontece se torna primordial não apenas para compreender o que ocorre, mas também para o desenvolvimento mútuo, ampliando as possibilidades de construção de conhecimento, que é uma das riquezas resultante das interações humanas.

Assim como o antropólogo observa a vida cotidiana, professores, alunos e demais participantes observam suas vidas nas salas de aula, visto que estes passam bastante tempo vivenciando as diversas situações juntos (ALLWRIGHT;

BAILEY, 1991), construindo e resignificando sentidos. Uma outra articulação possível entre o trabalho do etnólogo e dos participantes de Prática Exploratória, é que tanto as alegrias como os sofrimentos são a base para suas reflexões.

Conforme Miller et al. (2008, p.155), “é dentro deste contexto, destas tristes realidades, [...] que muitas vezes enfrentamos o desafio de trabalhar com a Prática Exploratória na escola”. De acordo com Moraes Bezerra (2011),

muitos puzzles costumam abordar porquês envolvendo a dificuldade da relação professor-aluno, as dificuldades em trabalhar em determinados

espaços educacionais, a falta de voz dos alunos, a falta de valorização do docente, o sofrimento humano. (MORAES BEZERRA, 2011, p. 84)

Comparando o longo tempo de permanência em campo do antropólogo e em sala de aula de professores e alunos, André (2001) assevera que as pesquisas sobre contexto educacional devem ter caráter etnográfico. Diante disso e do fato de que algumas pesquisas são realizadas sobre a própria formação docente continuada e reflexão pessoal sobre a prática que não se concentra apenas na sala de aula, mas ao planejar, ao selecionar uma técnica, escolher um procedimento, ao refletir sobre minhas atitudes na sala de aula, escolha de material, surge um outro termo da antropologia que é a auto-etnografia.

Ao recorrer à auto-etnografia (VERSIANI, 2008) para descrever melhor minha pesquisa, tive que buscar fontes em outras áreas de pesquisa, devido à escassez de trabalhos em Linguística Aplicada que abordem o assunto. Entretanto, acredito que essa busca evidencia ainda mais o caráter híbrido dos construtos teóricos- metodológicos que servem de base para esta dissertação.

Segundo a terapeuta ocupacional Denshire (2013), a auto-etnografia foi inicialmente utilizada pelo antropólogo Hayano em 1979. Posteriormente, esta perspectiva metodológica se desenvolveu quando compreensões mais profundas das experiências pessoais começaram a se expandir no Departamento de Fenomenologia, Etnometodologia e Sociologia Existencial na pós-graduação da Universidade de Chicago.

De acordo com Motta e Barros (2015), da Faculdade de Ciências Médicas de Campinas, a auto-etnografia relata a experiência pessoal que emerge no contexto das relações, das interações na construção do conhecimento, evidenciando práticas sociais e culturais até então negligenciadas em pesquisas convencionais. Para os autores, a subjetividade do pesquisador é evidenciada, pois sua investigação não é apenas para os outros, mas principalmente para si, “onde todas as partes – emocional, espiritual, intelectual, corporal, e moral – podem ter voz e serem integradas” (2015, p. 1339).

Para a antropóloga Reed-Danahay (1997), a auto-etnografia é uma forma de autonarrativa, em que o pesquisador constrói o sentido, interpreta e é o autor de suas experiências. Assim, alinho-me aos professores de educação física Bossle e Neto (2009) que entendem nessa perspectiva, uma possibilidade de aproximação do

sujeito com a pesquisa ao investigar e relatar “os próprios impulsos, sentimentos e emoções em relação ao objeto de pesquisa e sua própria cultura” (2009, p. 133).

Dessa forma, a presente pesquisa é de cunho auto-etnográfico à medida que utilizo-me dos construtos teórico-metodológico da Prática Exploratória para entender e narrar sobre minha prática docente, sobre as necessidades de meus alunos, nossas identidades, crenças, medos, frustrações, dúvidas, desejos e sobre os entendimentos que constituíam a respeito das aulas de inglês. Ao mesmo tempo em que promovia a reflexão sobre nossas experiências, eu auto-refletia, articulando o que os ex-alunos diziam com meus entendimentos, leituras e discussões no grupo de pesquisa da Prática Exploratória. Essa pesquisa trata sobre nossas práticas, nossas emoções, sentimentos, expectativas ou a falta dela em um contexto onde passamos a maior parte de nossos dias. Essa dissertação é sobre nós.

Por isso, na próxima seção, discorro sobre o contexto de pesquisa e os participantes envolvidos.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 85-88)