Outra prática prevista no programa parece também ser atingida pela tensão entre o excesso de trabalho exigido pelo serviço e a percepção de sua necessidade.
Trata-se das reuniões regulares das equipes, das reuniões gerais de todos os membros da UBS, e das que envolvem os grupos educativos onde são planejadas as ações de prevenção em conjunto com as equipes e com os usuários dos grupos.
Sem esquecer que os grupos educativos oferecem um espaço para negociação das diferentes concepções do processo saúde-doença. Também essa ações interativas parece serem afetadas pela demanda. Sobre isso, manifesta-se Sylvia, residente de medicina:
“Participo sempre que eu consigo. Geralmente eu chego atrasada por causa da demanda.”
Gisele, preceptora de enfermagem, refere-se constantemente ao longo da entrevista na “demanda aumentada” como um fator que tem interferido na qualidade do atendimento e ocupando o tempo de atividades de caráter mais preventivo, quando diz:
”... tem sido muito difícil que essas reuniões aconteçam por conta dessa dificuldade que a gente está tendo, por conta da demanda”.
E Luiza, residente médica, tem sentido esta mesma dificuldade:
“Mas a demanda é tão grande que às vezes a gente não acaba a demanda cedo, acaba tarde, aí a gente pega a reunião no meio do caminho”.
A interdisciplinaridade, que já representaria um avanço dentro do trabalho multiprofissional, pode estar sendo perdida na medida em que a organização do trabalho dentro da equipe está se dando nos limites de cada categoria profissional que compõem as equipes:
“Cada um dentro da sua especificidade, mas não perdendo o seu trabalho em equipe. Cada um com a sua parte”.
(Cristina, assistente social, residente)
O enfermeiro residente Augusto, por exemplo, acha que dentro de cada equipe organiza-se o trabalho “dentro da atividade de cada profissional... “
Francisco, médico, ex-residente do programa acha que o ideal do trabalho em equipe ainda não foi atingido “... o paciente acaba sendo atendido duas vezes para o mesmo problema. Não houve ganho na transdisciplinaridade... “
Apesar tendência das equipes em manter as fronteiras da diversidade apreendida na formação profissional, os atores aqui focalizados aparentemente não vêem este aspecto da formação acadêmica como um obstáculo ao trabalho em equipe. Parece, então, haver uma consciente esforço de superação das fronteiras da especificidade pelo menos por meio de uma preocupação com o relacionamento
ético e cooperativo no exercício cotidiano das práticas. Algumas falas apontam nesse sentido:“
A minha equipe funciona muito bem... a gente trabalha o dia inteiro assim, em equipe mesmo”.
(Sylvia, médica residente)
“Outra atividade também que a gente busca incentivar muito é a elaboração de grupos educativos formando uma equipe... fazendo com que eles interajam”.
(Gisele, preceptora de enfermagem)
“Aqui o tempo todo do atendimento a gente acaba trabalhando em equipe, porque a maioriados problemas a gente não resolve sozinho”.
(Cristina, residente, serviço social)
“... a minha equipe, a gente tem uma articulação muito boa, eu a Beatriz e a Sylvia... “
(Laís, enfermeira e residente)
Os depoimentos de residentes e preceptores revelam um aspecto importante que talvez explique o bom entrosamento entre os profissionais da UBS : parece haver uma consolidada consciência de que é preciso vencer os obstáculos da própria formação acadêmica, através de atitudes práticas de relacionamento em equipe. Nessa medida, percebe-se que os valores éticos estão sendo respeitados, como se depreende da afirmação do médico preceptor Luiz Carlos:
“... sobre os conflitos que surgem, a gente procura resolver isso conversando”.
Cristina, assistente social e residente, também descarta em sua fala qualquer dificuldade de caráter ético no interior das equipes da unidade:
“... a gente não teve esse tipo de problema não,
essa é uma coisa que a gente tem conseguido equilibrar bem”.
Gisele, preceptora de enfermagem, corrobora o entendimento dos demais, quando coloca o seu sentimento a respeito dessa questão:
“Com relação à gente aqui, eu considero que o nosso tratamento, (...) o mais respeitoso possível. (...) eu sinto muito respeito por parte de todos os profissionais”.
A ética como mediadora das duas dimensões, técnica e política, como preconiza L’ Abbate (1997, citada por Mascarenhas e Almeida, 2002):
Assim, ao profissional dessa área (saúde) não basta
‘saber fazer’, é preciso articular responsabilidade, liberdade e compromisso e ter a percepção do ‘dever’ para acionar mecanismos de transformação nos serviços de saúde. (P. 97)
Em conversa com a médica Mônica, ex-residente, ela fez questão de destacar que não foi apenas para o usuário que o PSF trouxe humanização, mas também para os residentes, na comparação com outras residências médicas que conhece.
Desse conjunto de falas podemos identificar mais uma vez a complexidade e a vitalidade, em termos de reflexão crítico-teórica, do tema que estamos investigando. A percepção dos atores expressa em seus relatos e em suas reflexões põem em circulação signos positivos e negativos em relação à integralidade. A despeito das práticas positivas e dos esforços dos participantes, não há como não perceber o fato de que, a julgar pelas equipes estudadas, não há um projeto claro de educação dos residentes (e dos preceptores) para o trabalho em equipe (nesse caso). Essa dificuldade provavelmente replica e repercute a mesma dificuldade essa já herdada das respectivas formações no nível de graduação, apesar de não se esgotar nesse nível da formação universitária as transformações necessárias à uma verdadeira prática da integralidade.
A esse respeito Ceccim (2004) já constatava que
“... um dos problemas acumulados no campo da educação dos profissionais de saúde é que ela não tem previsto e
ensinado a trabalhar, a aprender e a aprender a trabalhar em equipe matricial”.
Tais reflexões nos encaminham para a etapa seguinte, na qual passamos à analise dos dados levantados, com vistas à compreensão da percepção dos atores no que diz respeito à experiência ensinar-aprender.